{"id":5670,"date":"2021-12-21T12:05:50","date_gmt":"2021-12-21T15:05:50","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5670"},"modified":"2021-12-21T12:05:50","modified_gmt":"2021-12-21T15:05:50","slug":"as-praias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/as-praias\/","title":{"rendered":"\u00c0s praias"},"content":{"rendered":"<p>Na minha inf\u00e2ncia, qualquer \u00e1gua era mar. At\u00e9 a da praia do Flamengo. N\u00e3o tinha esse tro\u00e7o de praia impr\u00f3pria, s\u00f3 praia arriscada. Acho que j\u00e1 vi at\u00e9 gente tomando banho na praia de Botafogo, mas pode ser viagem. Mem\u00f3rias fabricadas. Mas da praia do Flamengo, eu lembro. Na praia do Flamengo, eu ia.<\/p>\n<p>Pequeno, mas cheio de emp\u00e1fia e aud\u00e1cia, eu me aventurava como um explorador em busca das sereias que quase seduziram Ulisses, em busca das terras e tesouros que o mar tinha a me oferecer. A farra era tanta que eu nadava e brincava at\u00e9 ficar engelhado.<\/p>\n<p>Quando voltava pra casa, minha m\u00e3e me preparava um banho de banheira com permanganato de pot\u00e1ssio, pra me curar de qualquer doen\u00e7a que tivesse pego naquela \u00e1gua imunda. Devia funcionar. Talvez gra\u00e7as aquela \u00e1gua azul, eu nunca tive nada. Que eu me lembre.<\/p>\n<p>Fui crescendo e passamos a ir ao Leme. Esbarr\u00e1vamos com muitos turistas e em dois ver\u00f5es pr\u00e9-adolescentes tive paixonites com paulistas que n\u00e3o deram em nada. Engra\u00e7ado que, depois disso, abandonei o mar. E o sol. Mas n\u00e3o deixei de ir \u00e0 praia.<\/p>\n<p>Comecei a frequentar a praia de noite. Caminhava pela areia com gente esquisita pra fazer coisas n\u00e3o recomend\u00e1veis das quais n\u00e3o me orgulho. Algumas vezes cheguei at\u00e9 a ver o sol nascer, mas, como um vampiro, sabia que aquela era a hora de voltar pro meu esconderijo. Foram longos anos onde me privei do sol e da companhia de gente normal. Andava de cal\u00e7a jeans, camiseta preta e de t\u00eanis, pelas areias de Ipanema e Copacabana em busca de um lugar que n\u00e3o existia enquanto eu s\u00f3 precisava deixar o dia passar. E, depois de muito tempo, passou. R\u00e1pida e surpreendentemente como as luzes do hotel Marina acendendo.<\/p>\n<p>No fim da faculdade, para acompanhar de dia gente que me acompanhava de noite, passei a ir \u00e0s praias oce\u00e2nicas e me entreguei mais uma vez ao mar. A princ\u00edpio era apenas um pr\u00e9- noite, ou pren\u00fancio de um pernoite, mas me fez botar a cara no sol e me reencontrar.<\/p>\n<p>Depois de tanto tempo no escuro, \u00f3bvio, desacostumei. Desprotegido e fraco, passei a queimar r\u00e1pido e descascar profusamente. Era como se estivesse tirando da minha pele os anos de abuso que passei longe do dia e do mar. Era um banho solar, como o de permanganato de pot\u00e1ssio que me dava a minha m\u00e3e, para me curar de uma \u00e1gua podre espiritual na qual eu nunca devia ter entrado.<\/p>\n<p>Demorou, mas perseverei e curei. Apesar de finalmente ter feito as pazes com a praia, nunca mais a rela\u00e7\u00e3o foi a mesma. De um audaz explorador, passei a me sentir um convidado indesejado. N\u00e3o tinha mais o \u00edmpeto de me queimar, nem a liberdade de nadar; e quando ia banhar, lembrava da minha tia, que entrava no mar comigo quando eu era pequeno, e citava Fagner para me ajudar pra perder o meu medo das ondas:<\/p>\n<p><em>&#8220;Quem acredita em sereia sabe o segredo do mar.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Quando eu era crian\u00e7a eu sabia o segredo do mar. Quando eu era crian\u00e7a eu acreditava em sereias. Mas eu esqueci o segredo e perdi a f\u00e9. Mas sempre \u00e9 tempo de lembrar, mas sempre \u00e9 tempo de voltar a ter f\u00e9.<\/p>\n<p>Por isso, mesmo descrente e ignorante, quando eu volto \u00e0 praia e entro no mar, humildemente, pe\u00e7o licen\u00e7a e digo baixinho:<\/p>\n<p><em>Alod\u00ea yemanj\u00e1 \u00ea dai-me licen\u00e7a<\/em><\/p>\n<p>E por um momento eu me sinto como uma crian\u00e7a esperando encontrar novamente as sereias que nunca me deixar\u00e3o afogar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha inf\u00e2ncia, qualquer \u00e1gua era mar. At\u00e9 a da praia do Flamengo. N\u00e3o tinha esse tro\u00e7o de praia impr\u00f3pria, s\u00f3 praia arriscada. Acho que j\u00e1 vi at\u00e9 gente tomando banho na praia de Botafogo, mas pode ser viagem. Mem\u00f3rias fabricadas. Mas da praia do Flamengo, eu lembro. Na praia do Flamengo, eu ia. 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