{"id":5699,"date":"2021-12-27T08:49:52","date_gmt":"2021-12-27T11:49:52","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5699"},"modified":"2023-10-12T13:33:54","modified_gmt":"2023-10-12T16:33:54","slug":"um-verdadeiro-heroi-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/um-verdadeiro-heroi-brasileiro\/","title":{"rendered":"Um verdadeiro her\u00f3i brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>No in\u00edcio dos anos 40, meu pai tinha seus 20 e poucos anos e era um sujeito meio prom\u00edscuo. Tinha, entre v\u00e1rios h\u00e1bitos abjetos, o de frequentar uns lugares chamados \u201cdancings\u201d, onde homens solteiros pagavam para dan\u00e7ar com mulheres desconhecidas. Funcionava mais ou menos assim: o cara chegava no sal\u00e3o e escolhia uma mulher numa fila; dan\u00e7ava com ela e marcava num cart\u00e3ozinho quantas m\u00fasicas dan\u00e7aram; e, no final, acertava o custo das dan\u00e7as na sa\u00edda. \u00d3bvio que isso envolvia mais que dan\u00e7a, mas, na \u00e9poca, o pessoal fingia que era um tro\u00e7o normal. Fingia.<\/p>\n<p>Calhou que meu pai come\u00e7ou a \u201cdan\u00e7ar\u201d bastante com uma mesma mulher num desses \u201cdancings\u201d e eles come\u00e7aram a ter um relacionamento fora das pistas. O lance ficou t\u00e3o s\u00e9rio que chegou a se tornar meio obsessivo, com ela perseguindo ele e tudo.<\/p>\n<p>Meio sem saber como se livrar dela, meu pai aproveitou o bonde da segunda guerra, se alistou como volunt\u00e1rio e escapou para a It\u00e1lia. Mas nem isso deu um jeito nela, que escrevia diariamente para ele e esperava respostas com a mesma frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Sentindo-se acuado at\u00e9 nas trincheiras, ele resolveu que ia dar um jeito na situa\u00e7\u00e3o de uma vez por todas e combinou com um amigo aqui do Brasil de forjar a sua pr\u00f3pria morte. Isso mesmo, forjar a pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p>O lance rolou mais ou menos assim. Ele mandou um telegrama oficial, sabe-se l\u00e1 como, informando pro tal amigo sobre a sua morte em combate. O amigo, que tamb\u00e9m frequentava o \u201cdancing\u201d, levou o telegrama pra dan\u00e7arina e compartilhou as m\u00e1s not\u00edcias com ela. O meu pai esperava que isso fosse fazer ela se esquecer dele, e, quando voltasse, depois da guerra, estaria totalmente livre. Quase deu certo. Quase.<\/p>\n<p>O que ele n\u00e3o esperava \u00e9 que a tal mulher realmente gostasse dele. Se sentindo a vi\u00fava de um her\u00f3i de guerra, a mulher n\u00e3o fez por menos e pagou uma missa de s\u00e9timo dia para homenage\u00e1-lo. At\u00e9 o amigo envolvido na mutreta foi convidado pro evento e relatou depois pro meu pai que a Igreja de Santa Luzia, aquela igreja grande, ali no comecinho da Avenida Ant\u00f4nio Carlos, ficou coalhada de mo\u00e7as do \u201cdancing\u201d, todas de s\u00f3brios vestidos pretos numa manh\u00e3 de s\u00e1bado. Al\u00e9m delas, ainda pintou uma boa quantidade de funcion\u00e1rios e clientes do \u201cdancing\u201d. Todos consternados e de luto pela perda do amigo her\u00f3i de guerra.<\/p>\n<p>Quando ficou sabendo da missa em sua homenagem, meu pai rolou de rir e, apesar do inusitado da situa\u00e7\u00e3o, imaginou que pelo menos tinha se livrado da mulher. Imaginou errado.<\/p>\n<p>Os anos passaram, a guerra acabou, meu pai voltou pro Brasil e nem lembrava mais da hist\u00f3ria da mulher. At\u00e9 que um dia\u2026<\/p>\n<p>Ele estava num restaurante com uma outra dona quando viu entrar pela porta a mulher do \u201cdancing\u201d com seu atual consorte. Ele gelou. O tempo tinha passado, mas ele ainda poderia ser reconhecido por ela. Que tipo de rea\u00e7\u00e3o maluca ela teria? Ele segurou a m\u00e3o da sua acompanhante e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, agora provavelmente vai acontecer um dos tro\u00e7os mais malucos da sua vida. Ent\u00e3o, fica na sua e s\u00f3 concorda com tudo o que eu disser.<\/p>\n<p>Deixa dada, n\u00e3o deu outra, a mulher do \u201cdancing\u201d bateu os olhos no meu pai e veio que nem uma bala em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bonito&#8230; O senhor inventa que morreu e agora lhe encontro a\u00ed, vivinho da silva. Eu chorei horrores por voc\u00ea. Horrores. Cheguei a ficar de luto por voc\u00ea por tr\u00eas anos. Tr\u00eas anos. Canalha! Canalha!<br \/>\n&#8211; Desculpe, a senhora deve estar me confundindo com outra pessoa- ele respondeu placidamente.<br \/>\n&#8211; Deixa de hist\u00f3ria, seu Leonam. Eu sei muito bem que \u00e9 o senhor mesmo.<br \/>\n&#8211; Leonam? Leonam era o nome do meu irm\u00e3o que morreu na guerra.<br \/>\n&#8211; Ahn?<br \/>\n&#8211; \u00c9, meu irm\u00e3o g\u00eameo, Leonam. Talvez por isso a confus\u00e3o. Ele morreu em combate na It\u00e1lia. Um verdadeiro her\u00f3i brasileiro. A senhora o conhecia?<\/p>\n<p>A dan\u00e7arina desabou. Tascou a chorar e pedir desculpas. Meu pai at\u00e9 chorou emocionado com a rea\u00e7\u00e3o dela. Acabou convidando ela e seu acompanhante para jantarem com eles e conversarem sobre as proezas do irm\u00e3o morto na guerra. No fim da refei\u00e7\u00e3o se despediram com abra\u00e7os apertados, t\u00edpicos de pessoas que compartilharam uma grande trag\u00e9dia na vida.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda do restaurante, a acompanhante do meu pai, enfim, p\u00f4de confront\u00e1-lo:<\/p>\n<p>&#8211; Como voc\u00ea nunca me contou que tinha um irm\u00e3o morto na guerra, Manoel?<br \/>\n&#8211; Desculpa, querida, esse \u00e9 um assunto muito dif\u00edcil pra mim- ele desconversou, feliz de, ap\u00f3s a persegui\u00e7\u00e3o da dan\u00e7arina, ter adquirido o h\u00e1bito cretino de mentir o pr\u00f3prio nome pra toda biscate com a qual se envolvia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio dos anos 40, meu pai tinha seus 20 e poucos anos e era um sujeito meio prom\u00edscuo. Tinha, entre v\u00e1rios h\u00e1bitos abjetos, o de frequentar uns lugares chamados \u201cdancings\u201d, onde homens solteiros pagavam para dan\u00e7ar com mulheres desconhecidas. 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