{"id":5802,"date":"2022-01-11T06:26:11","date_gmt":"2022-01-11T09:26:11","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5802"},"modified":"2022-01-11T13:06:52","modified_gmt":"2022-01-11T16:06:52","slug":"dona-vanna-e-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/dona-vanna-e-eu\/","title":{"rendered":"Dona Vanna e eu"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5803\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/FIv-G8yXwAIeyN4.jpeg\" alt=\"\" width=\"459\" height=\"511\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/FIv-G8yXwAIeyN4.jpeg 459w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/FIv-G8yXwAIeyN4-269x300.jpeg 269w\" sizes=\"(max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><\/p>\n<p>Comecei a frequentar a Leonardo da Vinci cedo. Tinha de uns 7 para 8 anos quando minha m\u00e3e, na sa\u00edda das suas aulas do IFCS, me levava na livraria para deixar boa parte do seu dinheiro em troca de livros que ela n\u00e3o encontraria em qualquer outro lugar.<\/p>\n<p>A loja era imponente. Um corredor largo e comprido, cheio de estantes com livros de diferentes tamanhos e cores, em todas as l\u00ednguas do mundo. Ao contr\u00e1rio das livrarias que conhecia, n\u00e3o havia um balc\u00e3o. Dona Vanna e seus funcion\u00e1rios se sentavam em cadeiras de espaldar alto, atr\u00e1s de uma longa mesa. N\u00e3o havia sinal de caixas registradoras ou qualquer outra coisa que lembrasse a troca de mercadoria por dinheiro. L\u00e1 voc\u00ea n\u00e3o deixava nem levava bens materiais. L\u00e1, voc\u00ea deixava a sua vida e alimentava a sua alma.<\/p>\n<p>Os colegas de faculdade da minha m\u00e3e costumavam repetir, quase como uma par\u00e1bola, a hist\u00f3ria de um aluno de filosofia que tinha furtado os 24 volumes das obras completas de Freud, um volume por semana, nas barbas da dona Vanna. Por azar, foi pego furtando o sum\u00e1rio da Imago, que era vendido separadamente. Banido para sempre da loja, dizem, perdeu a vontade de viver, abandonou a filosofia e foi cursar economia que estava mais pr\u00f3ximo dos seus instintos vis.<\/p>\n<p>Os anos passaram, cresci e passei a frequentar a loja sozinho. Em busca de quadrinhos e RPGs.<\/p>\n<p>Com 11 anos fiz minha primeira reserva: o primeiro volume de L\u2019Art de la BD de Duc. O pre\u00e7o era um acinte. Especialmente por causa do c\u00e2mbio paralelo que dona Vanna criou com o tal d\u00f3lar Da Vinci. Pedi para segurarem o livro por 15 dias, prazo m\u00e1ximo de reserva, para conseguir juntar 2 mesadas e pagar pela obra que, acreditava, iria me tornar um roteirista de quadrinhos. Com muita dificuldade e sendo obrigado a vender alguns quadrinhos nos sebos da Tiradentes para completar o valor, consegui honrar meu compromisso.<\/p>\n<p>A segunda reserva foi mais complicada. Pedi para separarem para mim a caixa do Star Frontiers, um rpgzinho espacial da TSR, mas n\u00e3o sabia se ia conseguir pagar. Estava tentando fazer uma esp\u00e9cie de a\u00e7\u00e3o entre amigos para dividir o custo, mas n\u00e3o estava dando certo. A minha ansiedade era tal que ia na Da Vinci todos os dias s\u00f3 pra ver o RPG reservado. Dona Vanna, s\u00e1dica leitora de mentes, me pressionava:<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o comprar no prazo, vou vender pra outro.<\/p>\n<p>Vendeu.<\/p>\n<p>Quando consegui o dinheiro, tinha passado uns dois dias do limite da reserva e ela, como prometido, vendera o jogo para outra pessoa. Fui obrigado a comprar a caixa azul do expert do D&amp;D BECMI, o que, no fim das contas, foi uma melhor op\u00e7\u00e3o e, agora, pensando bem, mudou a minha vida.<\/p>\n<p>Do alto da sua pretensa maldade, dona Vanna nos fazia o bem.<\/p>\n<p>Um dia, no caminho pro col\u00e9gio, entrei na loja no hor\u00e1rio que estava abrindo. N\u00e3o sei por que s\u00f3 o faxineiro estava l\u00e1 e me deixou largado enquanto esperava os vendedores chegarem. N\u00e3o percebi na hora, mas fiquei sozinho e de mochila na loja. Poderia ter levado, sem ningu\u00e9m saber, todos os RPGs e quadrinhos que desejava, mas isso, confesso, nem me passou pela cabe\u00e7a. Fiquei, como um bom servo de dona Vanna, apenas apreciando o que n\u00e3o conseguiria comprar e buscando na minha mente maneiras de honrar as reservas que tinha feito. No col\u00e9gio, quando contei essa hist\u00f3ria, fui chamado de ot\u00e1rio pelos meus colegas, mas, gra\u00e7as \u00e0 dona Vanna, descobri que era apenas honesto.<\/p>\n<p>Me tornei um jovem adulto e a minha rela\u00e7\u00e3o com ela, ou com a loja, melhorou.<\/p>\n<p>Aprendi a garimpar e a pedir livros que n\u00e3o tinham na loja, o que me dava mais tempo para guardar o dinheiro necess\u00e1rio para quitar minhas d\u00edvidas. Passei dos RPGs pro Tarot, do Tarot pros pocket books, dos pockets pros livros de filosofia, psicologia e ci\u00eancias sociais, e, enfim, me tornei um cliente de todas as se\u00e7\u00f5es da loja.<\/p>\n<p>Dona Vanna, tenho certeza, me ensinou a ser um melhor leitor.<\/p>\n<p>Acabei me tornando eu mesmo um livreiro, e, apesar de ser um colega de profiss\u00e3o, continuei a respeitar e a temer dona Vanna. O medo talvez fosse exagerado, mas o respeito sempre foi devido.<\/p>\n<p>Nessas voltas que a vida d\u00e1, acabei, ap\u00f3s s\u00f3cio de duas livrarias, indo trabalhar num pr\u00e9dio pr\u00f3ximo \u00e0 Da Vinci. Um colega do trabalho, apreciador de Cultura Cervejeira, sua Hist\u00f3ria, suas Circunst\u00e2ncias,\u00a0 estava procurando livros realmente especiais sobre o tema e o levei na dona Vanna.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de mim, que cresci sob o regime de terror de dona Vanna, ele se sentou \u00e0 sua frente com naturalidade, bateu altos papos com ela em franc\u00eas sem o menor pudor e saiu de l\u00e1 com uma lista de livros e revistas encomendados.<\/p>\n<p>Um dia seu telefone tocou no trabalho e eu atendi. Tremi, era a voz da dona Vanna:<\/p>\n<p>&#8211; Por favor, avise ao seu Lu\u00eds Guilherme que estou em Paris e achei quase tudo que ele me pediu.<\/p>\n<p>Foi isso mesmo que voc\u00ea leu: dona Vanna estava em Paris procurando os livros que ele encomendou. Naquele momento eu descobri quem eu queria ser quando crescesse.<\/p>\n<p>Meio sem aviso, ap\u00f3s uma grande expans\u00e3o, a Da Vinci definhou, Dona Vanna sumiu da nossa vista, e colocaram no lugar da loja um pastiche de com\u00e9rcio que n\u00e3o merece o nome do templo criado por ela.<\/p>\n<p>Ontem fiquei sabendo do seu falecimento e, sinto, uma parte de mim tamb\u00e9m se foi. Ela n\u00e3o sabia meu nome, nossos contatos foram poucos e comerciais, mas \u00e9 realmente espantoso como a sua figura ic\u00f4nica foi t\u00e3o importante na minha forma\u00e7\u00e3o como leitor. Nesses tempos em que a cultura est\u00e1 sendo destru\u00edda no pa\u00eds, a sua falta ser\u00e1 ainda mais sentida. Que todos n\u00f3s tocados pelo seu rigoroso amor pelos livros consigamos seguir o seu exemplo de honestidade intelectual e paix\u00e3o pela cultura.<\/p>\n<p><em>Arrivederci, maestra!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecei a frequentar a Leonardo da Vinci cedo. 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