{"id":5956,"date":"2022-02-15T19:17:41","date_gmt":"2022-02-15T22:17:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=5956"},"modified":"2022-05-10T18:25:43","modified_gmt":"2022-05-10T21:25:43","slug":"cade-ogum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/cade-ogum\/","title":{"rendered":"Cad\u00ea Ogum?"},"content":{"rendered":"<p>Ano passado, no dia de S\u00e3o Jorge, seguindo uma indica\u00e7\u00e3o da minha mulher, eu pedi uma feijoada num restaurante da regi\u00e3o portu\u00e1ria. A pandemia tinha acabado de completar um ano e a impress\u00e3o, na \u00e9poca, era que nunca ia terminar. O cen\u00e1rio do pa\u00eds e do Rio, c\u00eas lembram?, era pura desola\u00e7\u00e3o e a gente tava meio que naquela pilha de manter funcionando, mesmo que \u00e0 dist\u00e2ncia, qualquer lugar que a gente curtisse.<\/p>\n<p>Por conta disso, acabou que a gente pedia comida fora toda hora e se justificava dizendo que, mais do que a satisfa\u00e7\u00e3o de uma gula implac\u00e1vel, era tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o social. Mentira, era pura gordice.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, naquela sexta-feira, dia de S\u00e3o Jorge, ainda preso no home office e com motivos falsamente altru\u00edstas, pedi uma feijoada completa na Casa Porto.<\/p>\n<p>Mandei o pedido por Whatsapp \u00e0s 8 da manh\u00e3, j\u00e1 para garantir o meu prato, e logo recebi a confirma\u00e7\u00e3o acompanhada de uma pergunta estranha: &#8220;Vai querer a pulseira ou o cord\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi e questionei do que se tratava. Esclareceram: &#8220;Hoje, por conta do dia de S\u00e3o Jorge, com a feijoada voc\u00ea ganha uma pulseira ou um cord\u00e3o. Qual vai querer?&#8221;.<\/p>\n<p>Quem me conhece sabe que sou a pessoa menos religiosa que existe, mas, por outro lado, sou ligad\u00e3o em misticismos e coincid\u00eancias. Assim, abri meu cora\u00e7\u00e3o pra curiosidade. N\u00e3o sou l\u00e1 de usar s\u00edmbolos religiosos, mas como n\u00e3o abrir uma exce\u00e7\u00e3o para um presente vindo junto com uma feijoada? Quanto \u00e0s op\u00e7\u00f5es, como n\u00e3o curto o visual bicheiro, fiz minha escolha: &#8220;Vou de pulseira&#8221;.<\/p>\n<p>Meio-dia a feijoada chegou, delicios\u00edssima por sinal, acompanhada de um saquinho de papel vermelho e branco onde estava a tal pulseira. Confesso que esperava algo diferente. N\u00e3o sei exatamente o qu\u00ea, mas diferente. A pulseira era basicamente um fio de nylon prendendo uma s\u00e9rie de contas pontiagudas e azuis, com uma imagem de metal pendurada perto do n\u00f3 que a mantinha inteira.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5960\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_20220215_190752_2.jpg\" alt=\"\" width=\"1197\" height=\"1143\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_20220215_190752_2.jpg 1197w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_20220215_190752_2-300x286.jpg 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_20220215_190752_2-1024x978.jpg 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/IMG_20220215_190752_2-768x733.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1197px) 100vw, 1197px\" \/><\/p>\n<p>Botei a pulseira, e, \u00e0 princ\u00edpio, ela me incomodou. \u00d3bvio, era para um pulso bem menor que o meu. Na hora lembrei das cordas de ora\u00e7\u00e3o e achei legal ter um lembrete constante para me manter no presente. Mas, n\u00e3o posso mentir, a press\u00e3o no pulso me fez tir\u00e1-la v\u00e1rias vezes durante o dia.<\/p>\n<p>De noite, minha mulher chegou em casa e estranhou a pulseira. Eu tamb\u00e9m estranharia. Expliquei a hist\u00f3ria toda e ela pediu para ver ela de perto. Analisou-a conta a conta e quando chegou na imagem de metal se surpreendeu: &#8220;Olha s\u00f3, botaram Ogum no lugar de S\u00e3o Jorge&#8221;.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha olhado para a pulseira com toda essa aten\u00e7\u00e3o, mas ela tinha raz\u00e3o. Ao inv\u00e9s da imagem de um homem de lan\u00e7a e a cavalo, era a de um homem a p\u00e9 partindo para o ataque com uma espada. Na verdade, n\u00e3o fazia muita diferen\u00e7a j\u00e1 que o Santo e o Orix\u00e1 s\u00e3o comemorados no mesmo dia e, segundo alguns sincretistas, representam o mesmo princ\u00edpio divino. A pulseira continuava l\u00e1 pressionando meu pulso para me lembrar da luta.<\/p>\n<p>O tempo passou, a pulseira foi alargando, mas Ogum come\u00e7ou a se comportar de uma maneira esquisita. A imagem de metal ficava presa ao fio de nylon por uma argolinha que, vez ou outra, se abria. Assim, se a espada de Ogum prendesse na minha roupa ou num travesseiro, ele e a argolinha acabavam se separando do fio de nylon.<\/p>\n<p>De vez em quando eu conseguia pegar Ogum no ato, tentando fugir do meu pulso. Outras vezes, eu acordava e ele estava escondido entre as cobertas ou se esgueirando pelo ch\u00e3o. Sem saber como lidar com aquilo, todas as tentativas de fechar mais a argola ou bloquear o v\u00e3o do elo se provavam in\u00fateis, passei a considerar essas fugas como um sinal.<\/p>\n<p>Ogum sumiu, estou dando mole em algo. Bebi demais na noite anterior, falei o que n\u00e3o devia, deixei algum compromisso de lado. Ogum sumia para me lembrar que se eu abandonasse o meu caminho, n\u00e3o poderia mais contar com ele do meu lado. Uma boa explica\u00e7\u00e3o m\u00edstica para quem n\u00e3o se considera religioso.<\/p>\n<p>Hoje pela manh\u00e3, no caminho do trabalho, n\u00e3o senti a pulseira me apertando e notei que ela n\u00e3o estava no meu pulso. Ogum j\u00e1 tinha tentado escapar muitas vezes, mas nunca a pulseira inteira tinha sumido. Pensei onde ela poderia ter ca\u00eddo e, mais importante, se conseguiria recuper\u00e1-la. Pensei em voltar para casa e procur\u00e1-la, mas n\u00e3o teria tempo.<\/p>\n<p>Me questionei o que isso significaria. Qual era o recado de Ogum ao fugir arrastando a pulseira inteira por a\u00ed? Ent\u00e3o me lembrei que estava devendo escrever esse texto sobre o nosso encontro e assim o fiz, cheio de f\u00e9 de que a pulseira estaria me esperando quando retornasse ao lar.<\/p>\n<p><strong>UPDATE:<\/strong> <em>Cheguei em casa e a pulseira estava me aguardando, bem vis\u00edvel, para eu sempre lembrar de n\u00e3o a esquecer mais.<\/em><\/p>\n<p><iframe title=\"IANS\u00c3  CADE     OGUM    CLARA NUNES\" width=\"625\" height=\"352\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tJIaYj8TFm4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano passado, no dia de S\u00e3o Jorge, seguindo uma indica\u00e7\u00e3o da minha mulher, eu pedi uma feijoada num restaurante da regi\u00e3o portu\u00e1ria. 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