{"id":6108,"date":"2022-03-17T18:45:24","date_gmt":"2022-03-17T21:45:24","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=6108"},"modified":"2023-10-12T13:33:53","modified_gmt":"2023-10-12T16:33:53","slug":"o-bolao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-bolao\/","title":{"rendered":"O Bol\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Como tudo que d\u00e1 errado, ou certo, essa hist\u00f3ria tamb\u00e9m come\u00e7ou de forma inocente. Nas quintas, uns tr\u00eas caras da controladoria, no caminho pra tomar um chope no bar do Ga\u00facho depois do expediente, come\u00e7aram a fazer uma fezinha da Megasena.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio ningu\u00e9m sabia o que estava rolando, ou, se sabia, preferia ignorar. Era aquele tipo de coisa que passava abaixo do radar da r\u00e1dio corredor. O gerente deles, um estat\u00edstico frustrado, quando ficou sabendo, inclusive, quis dar li\u00e7\u00e3o de moral dizendo que loteria era imposto dos pobres e que a chance de ganhar era rid\u00edcula. N\u00e3o deu outra. Logo ap\u00f3s o pito do chefe, eles ganharam uma quadra. <\/p>\n<p>T\u00e1, o dinheiro foi pouco, mas deu pra um deles botar aparelho nos dentes e pra outro fazer um transplante capilar. A tentativa de embelezamento, mesmo mal-sucedida, chamou a aten\u00e7\u00e3o do resto da firma que come\u00e7ou a se interessar pela atividade p\u00f3s expediente dos sortudos.<\/p>\n<p>O primeiro que quis fazer parte do rateio foi o Z\u00e9 M\u00e1rcio, funcion\u00e1rio antigo e caprichoso que cuidava da Copa. Como quem n\u00e3o quer nada, ele come\u00e7ou a assuntar:<\/p>\n<p>&#8211; Quadra, n\u00e9?<br \/>\n&#8211; \u00c9.<br \/>\n&#8211; Legal. Foi jogo simples?<br \/>\n&#8211; Simples. 6 dezenas. Na bucha.<br \/>\n&#8211; Sorte, hein? Sabia que jogando mais dezenas tem mais chances?<br \/>\n&#8211; \u00c9?<br \/>\n&#8211; \u00c9. De quanto \u00e9 a cota?<br \/>\n&#8211; Cota?<br \/>\n&#8211; \u00c9, quanto cada um coloca em cada aposta?<br \/>\n&#8211; Tem isso n\u00e3o. A gente aposta o que tiver de trocado.<br \/>\n&#8211; Pois devia ter. Se incomodam se eu organizar o Bol\u00e3o?<br \/>\n&#8211; O Bol\u00e3o?<br \/>\n&#8211; \u00c9. O Bol\u00e3o. Deixa comigo. Eu mantenho voc\u00eas informados.<\/p>\n<p>Sem ningu\u00e9m para impedi-lo, Z\u00e9 M\u00e1rcio cumpriu sua promessa. Criou um grupo de whatsapp pros apostadores; escolheu a imagem de um trevo de quatro folhas em cima de uma pilha de dinheiro como avatar para dar sorte; estabeleceu um valor m\u00ednimo de cota, e um dia e hor\u00e1rio pra encerrar os dep\u00f3sitos; compartilhou o seu pix para recolher as apostas; e decidiu, sozinho, que a partir de ent\u00e3o apostariam nos dois sorteios semanais, tanto no de quarta quanto no de s\u00e1bado. <\/p>\n<p>Com essa &#8220;profissionaliza\u00e7\u00e3o&#8221;, o Z\u00e9 M\u00e1rcio acabou afastando os sortudos originais, que s\u00f3 queriam ter algo que os unisse pra conversar a respeito no chope de quinta, mas conseguiu at\u00e9 trazer mais alguns novos apostadores, na maioria os habitu\u00e9s da Copa que matavam as oito horas regulamentares de servi\u00e7o se enchendo de caf\u00e9. Mesmo com o aumento de participantes, o bolo, ainda pequeno, n\u00e3o tinha virado o Bol\u00e3o que ele esperava criar.<\/p>\n<p>Tudo mudou com a entrada da Cl\u00e1udia. <\/p>\n<p>Cl\u00e1udia era a nova coordenadora de comunica\u00e7\u00e3o digital. Nova de empresa e idade, costumava usar uns camis\u00f5es xadrez compridos com umas bermudas cargo que lhe davam um ar ainda mais jovial.  Al\u00e9m disso, adorava e sabia contar hist\u00f3rias. Quando ficou sabendo do Bol\u00e3o j\u00e1 se adiantou pra apostar e, \u00f3bvio, tinha at\u00e9 um causo pra justificar a sua pressa.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00eas lembram daquele restaurante onde todo mundo ganhou na Mega, menos um cara?<br \/>\n&#8211; Lembramos.<br \/>\n&#8211; Pois, \u00e9, esse cara foi ex-sogro da minha prima de considera\u00e7\u00e3o. Quando ele ficou sabendo que a galera tinha levado a bolada e ele n\u00e3o tinha sido inclu\u00eddo, at\u00e9 infartou.<br \/>\n&#8211; S\u00e9rio? E morreu?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, pior: melhorou e teve que voltar a trabalhar todo dia num lugar que o lembrava que ele podia nunca mais ter que trabalhar.<\/p>\n<p>O povo chegou at\u00e9 a rebolar sentindo o frio percorrer as suas espinhas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de terror de Cl\u00e1udia pelo jeito deu resultado e logo o Bol\u00e3o lotou. Era s\u00f3 a Mega acumular ou prometer um pr\u00eamio acima de 10 milh\u00f5es que o povo todo corria pra participar. Ningu\u00e9m queria ficar sozinho no trabalho enquanto o resto dos colegas estariam curtindo aposentadorias precoces na praia. Ningu\u00e9m queria ter o funesto destino do ex-sogro da prima de Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p>Na verdade, o que realmente motivava a maioria n\u00e3o era a vontade de ficar rica, mas o medo de ser abandonada eternamente num trabalho do qual precisavam, mas que preferiam n\u00e3o fazer. Essa sensa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o expl\u00edcita que no grupo do Whats a discuss\u00e3o pr\u00e9 sorteio n\u00e3o era sobre a compra de propriedades, carros ou viagens. Eles s\u00f3 conversavam sobre n\u00e3o ter que precisar ir pro servi\u00e7o depois de ganharem a bolada.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano, n\u00e3o sei se voc\u00eas lembram, rolou aquela estiagem de pr\u00eamios da Mega quando ela ficou acumulando v\u00e1rias vezes at\u00e9 ao ponto de chegar no valor recorde do pr\u00eamio. Lembram? Pois, \u00e9. Nesse per\u00edodo, eles come\u00e7aram apostando timidamente, por\u00e9m, a cada novo sorteio sem ganhador, a excita\u00e7\u00e3o aumentava. Pra piorar, no terceiro ou quarto sorteio da s\u00e9rie, eles levaram uma boa quadra que deu pra todo mundo recuperar o que j\u00e1 tinha apostado e ainda sobrou um troco pra custear novas apostas.<\/p>\n<p>Quando chegou no d\u00e9cimo sorteio acumulado, o Z\u00e9 M\u00e1rcio sentindo que todos estavam come\u00e7ando a ficar nervosos demais convocou uma reuni\u00e3o para tra\u00e7arem uma estrat\u00e9gia para escolher os jogos que com certeza seriam sorteados. O gerente da Controladoria achou uma besteira, mas, como parte do Bol\u00e3o, acabou participando pra poder prestar a sua consultoria estat\u00edstica. <\/p>\n<p>No encontro que quase envolveu toda a empresa, discutiram se deviam repetir os n\u00fameros, excluir os \u00faltimos que j\u00e1 tinham sa\u00eddo, deixar eles serem escolhidos na surpresinha, ou pedir pra que os filhos dos funcion\u00e1rios marcassem os n\u00fameros pra dar mais sorte. Teve at\u00e9 um cara que ofereceu uma galinha do s\u00edtio da av\u00f3 pra bicar uma t\u00e1bua com os n\u00fameros da Mega e escolher pelo grupo. Quando questionado como isso iria ajudar, ele explicou:<\/p>\n<p>&#8211; De todas as galinhas da minha av\u00f3, essa sempre escapou da panela. Sorte ela tem. Sorte ela tem.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o n\u00e3o foi pra lugar nenhum e come\u00e7ou a gerar rusgas entre os funcion\u00e1rios que j\u00e1 estavam ansiosos esperando que os seus sonhos de nunca mais trabalhar se concretizassem logo. Quando o vozerio se tornou incompreens\u00edvel e a confus\u00e3o n\u00e3o conseguia mais ser desatada, Cl\u00e1udia bateu na mesa e pediu a palavra:<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed, gente, e os sortudos originais? Eles est\u00e3o apostando?<\/p>\n<p>Z\u00e9 M\u00e1rcio foi at\u00e9 conferir a sua planilha, mas tinha certeza que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O problema talvez esteja a\u00ed. Cad\u00ea a galera que come\u00e7ou o movimento? T\u00e1 faltando eles pra juntar as nossas sortes e fechar esse pr\u00eamio- Cl\u00e1udia decretou.<\/p>\n<p>Criaram um petit comit\u00ea pra convencer os sortudos originais a apostar com o restante da empresa. Dois n\u00e3o queriam alegando que o que importava era s\u00f3 o chope de quinta, e o terceiro, como tinha virado evang\u00e9lico, n\u00e3o queria mais saber de bebida, nem de jogo. Apesar das negativas iniciais, Z\u00e9 M\u00e1rcio estava determinado e disse que n\u00e3o arredaria p\u00e9 da controladoria at\u00e9 convenc\u00ea-los a participar desse Bol\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Esse vai ser o \u00faltimo, eu prometo. Vamos ganhar dessa vez e nunca mais iremos precisar trabalhar ou apostar em loteria.<\/p>\n<p>A verve, ou quem sabe, a aporrinha\u00e7\u00e3o funcionou e todos apostaram. Inclusive o convertido que pediu 10% do pr\u00eamio do Z\u00e9 M\u00e1rcio pra uma obra de caridade da qual ningu\u00e9m tinha ouvido falar.<\/p>\n<p>Bom, boletos finais gerados, apostas compartilhadas, a sorte estava lan\u00e7ada. At\u00e9 os n\u00fameros da galinha entraram num dos cart\u00f5es. Afinal, dessa vez valia tudo. Era vai ou racha. Ou eles venciam como grupo, ou morriam como empresa.<\/p>\n<p>Deu o dia derradeiro e todos, de suas casas estavam acompanhando o sorteio, esperando que seus sonhos se tornassem realidade. Z\u00e9 M\u00e1rcio, Cl\u00e1udia, os sortudos do chope, o sortudo convertido, e at\u00e9 o cara da galinha que, pra dar mais sorte, foi pro s\u00edtio da av\u00f3, assistir ao sorteio junto com a galinha. Todos vidrados na TV, acompanhando n\u00famero a n\u00famero a virada do destino.<\/p>\n<p>O fim da hist\u00f3ria voc\u00eas lembram. Deu em todos os jornais. N\u00e3o sei se foi sorte, ou se foi azar, ou, quem sabe, um misto dos dois. Mas, enfim, deu no que deu, e todos tiveram o que mereceram. Como normalmente acabam todas as hist\u00f3rias onde a gente confia na aleatoriedade do destino. E, c\u00e1 entre n\u00f3s, tem outra coisa na qual podemos confiar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como tudo que d\u00e1 errado, ou certo, essa hist\u00f3ria tamb\u00e9m come\u00e7ou de forma inocente. Nas quintas, uns tr\u00eas caras da controladoria, no caminho pra tomar um chope no bar do Ga\u00facho depois do expediente, come\u00e7aram a fazer uma fezinha da Megasena. A princ\u00edpio ningu\u00e9m sabia o que estava rolando, ou, se sabia, preferia ignorar. 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