{"id":6187,"date":"2022-03-29T09:41:41","date_gmt":"2022-03-29T12:41:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=6187"},"modified":"2022-05-10T18:22:27","modified_gmt":"2022-05-10T21:22:27","slug":"esperanca-de-mudanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/esperanca-de-mudanca\/","title":{"rendered":"Esperan\u00e7a de mudan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Saindo do Santa B\u00e1rbara, o taxi tomou um caminho diferente do que a gente esperava.<\/p>\n<p>&#8211; Ei, mo\u00e7o- minha m\u00e3e alertou-, voc\u00ea t\u00e1 indo pro lado errado. A gente vai pro Leme.<br \/>\n&#8211; Vai, n\u00e3o- meu pai interrompeu. &#8211; Pode seguir, mo\u00e7o. Ele sabe pra onde a gente t\u00e1 indo.<\/p>\n<p>At\u00e9 o taxista sabia mais da vida da gente do que a gente.<\/p>\n<p>O carro seguiu pelo seu caminho misterioso, passou na frente do est\u00e1dio do Fluminense, pegou o viaduto Jardel Filho, e, depois de seguir pela Marques de Abrantes, nos deixou numa esquina, na frente de um posto de gasolina.<\/p>\n<p>&#8211; Gostaram? Ent\u00e3o, \u00e9 aqui que a gente vai morar agora- meu pai tentou amenizar o choque, apontando para um pr\u00e9dio quadrado, de pastilhas, sem gra\u00e7a e sem vista pra nada.<\/p>\n<p>Por fora, parecia uma pris\u00e3o. Embaixo dele uma padaria, uma papelaria e um botequim; na sua frente, al\u00e9m do posto, uma banca de jornal. Pr\u00e1tico e triste.<\/p>\n<p>Pra quem morava de frente pro mar, cercado por restaurantes e hot\u00e9is ex\u00f3ticos, era uma mudan\u00e7a. Com certeza pra pior. Um fim de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, vamos conhecer o apartamento novo?- meu pai convidou, fingindo anima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Condenados, pegamos as malas que nos acompanharam desde as f\u00e9rias na casa do meu av\u00f4 em Campina Grande, pra onde fomos quando ainda mor\u00e1vamos num lugar que am\u00e1vamos, e seguimos meu pai pelo pr\u00e9dio no qual n\u00e3o escolhemos, mas no qual ser\u00edamos obrigados a, morar. Pelo menos por enquanto.<\/p>\n<p>Subimos 3 andares num elevador velho, lento e apertado. Equilibrando chaves e malas, meu pai, com dificuldade, abriu a porta do apartamento 302. Toda a nossa mudan\u00e7a estava l\u00e1, ainda encaixotada. Em breve descobrir\u00edamos a quantidade de coisas que perdemos ou foram destru\u00eddas pelo descaso de quem nos mudou. Tanto os carregadores quanto o meu pai.<\/p>\n<p>O apartamento, cr\u00fa, precisava de pintura e cortinas. E em todos os pontos de luz as l\u00e2mpadas balan\u00e7avam ao sabor do vento, penduradas por fios pretos e sem lustres. N\u00e3o era um lar. Era uma ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e me puxou num canto, conspirando:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vamos ficar aqui seis meses. Pode confiar.<\/p>\n<p>Confiei e ela estava certa. E errada. N\u00e3o ficamos 6 meses. Ficamos 16 anos. E sempre nos sentimos como no primeiro dia: tra\u00eddos.<\/p>\n<p>Quando conseguimos escapar, primeiro minha m\u00e3e, sozinha, depois eu, fugido &#8211; meu pai nunca morou l\u00e1 de verdade-, n\u00e3o olhamos pra tr\u00e1s, nem tivemos saudades. At\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Hoje passei na frente do pr\u00e9dio. Ele continua quadrado, com pastilhas, sem vista e sem gra\u00e7a. O botequim e a padaria viraram lojas de colch\u00f5es. A papelaria ainda existe, mas mudou de nome. O posto de gasolina, como quase tudo, deu lugar a uma farm\u00e1cia. A banca ainda est\u00e1 l\u00e1, mas foi movida para o outro canto da rua. Senti saudade. N\u00e3o do apartamento, mas de quem \u00e9ramos, de quem n\u00e3o seremos mais.<\/p>\n<p>Mesmo nos momentos ruins, como no dia daquela mudan\u00e7a, havia a esperan\u00e7a de uma nova mudan\u00e7a para um lugar melhor, para um tempo melhor. Pra onde foi toda essa esperan\u00e7a? Deu vontade de parar um taxi e perguntar ao taxista. Talvez, como da outra vez, ou pela primeira vez, ele saiba o lugar certo pra onde deve me levar.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Texto sobre mem\u00f3ria e identidade escrito na Oficina de Escrita de <\/em><a href=\"https:\/\/www.paulamaria.net\/\"><em>Paula Maria.<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saindo do Santa B\u00e1rbara, o taxi tomou um caminho diferente do que a gente esperava. &#8211; Ei, mo\u00e7o- minha m\u00e3e alertou-, voc\u00ea t\u00e1 indo pro lado errado. 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