{"id":662,"date":"2011-08-29T20:51:16","date_gmt":"2011-08-29T23:51:16","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/?p=662"},"modified":"2014-09-26T10:17:12","modified_gmt":"2014-09-26T13:17:12","slug":"meia-noite-em-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/meia-noite-em-paris\/","title":{"rendered":"Meia Noite em Paris"},"content":{"rendered":"<p>Depois de abandonar a sua fantasia nost\u00e1lgica e abrir m\u00e3o do seu presente e do seu prov\u00e1vel futuro, Gil Pender, alter ego de Woody Allen em Meia Noite em Paris, caminha sozinho pela noite da capital francesa. Enquanto discute consigo mesmo a respeito do que fez com sua vida, esbarra com a vendedora de discos antigos que conheceu no mercado de pulgas. Ap\u00f3s uma pequena troca de gentilezas, a atra\u00e7\u00e3o entre os dois se mostra clara. Bate meia noite, a hora m\u00e1gica em que ele voltava no tempo. Dessa vez ele n\u00e3o \u00e9 tragado para a sua fantasia nost\u00e1lgica. Ele est\u00e1 vivendo uma vers\u00e3o dela no seu pr\u00f3prio presente. Sem aviso, come\u00e7a a chover e, para confirmar como certa a sua escolha, a vendedora concorda com ele: \u00e9 \u00f3timo andar sob a chuva. The End. Ser\u00e1?<!--more--><\/p>\n<dl id=\"attachment_664\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 491px;\" caption=\"Final Feliz?\"><a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_01.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-664  \" title=\"mnip_01\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_01.jpg\" alt=\"\" width=\"481\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_01.jpg 481w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_01-300x240.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 481px) 100vw, 481px\" \/><\/a><\/dl>\n<p>Claro que n\u00e3o. O corte final nos filmes de Woody Allen apenas fecha pequenos ciclos neur\u00f3ticos. Como sempre, \u00a0adorei o filme e tudo, mas, dessa vez, quando sa\u00ed do cinema fiquei com uma certa preocupa\u00e7\u00e3o. Algo que n\u00e3o me acontecia h\u00e1 um bom tempo. \u00a0Por qu\u00ea? Vamos ver se eu consigo explicar.<\/p>\n<p>Nessa sua \u00faltima obra, Woody Allen levanta, mais uma vez, aquele velho conflito entre a vida real e o &#8220;mundo ideal&#8221;. Ele mesmo j\u00e1 fez isso em um bando de filmes. Em a Rosa P\u00farpura do Cairo, em Bananas, em O Dorminhoco, e, em menor grau, em A Era do Radio, que era um filme mais memorialista. Frente a esse conflito comum, os filmes tendem a apresentar apenas 3 solu\u00e7\u00f5es para a trama:<\/p>\n<p>1. A recusa do retorno, como em Algum Lugar do Passado, em que o &#8220;viajante&#8221; apaixonado pela fantasia resolve n\u00e3o retornar ou morre de saudades ap\u00f3s ser expulso do seu mundo ideal, como no caso do exemplo.<\/p>\n<p>2. A adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade, em que o sujeito percebe como era tola (era mesmo?) a sua fixa\u00e7\u00e3o com o mundo ideal, que em alguns filmes \u00e9 exatamente de onde ele saiu, e retorna para adequar a sua vida \u00e0 &#8220;verdadeira&#8221; realidade que ele evitava ver. Coisa besta, n\u00e9? O pior \u00e9 que essa \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o mais comum e s\u00f3 gera filmes moralistas, como o odioso O Homem de Fam\u00edlia com o Nicolas Cage, o terror dos insones nas madrugadas.<\/p>\n<p>3. E, finalmente, a volta ao presente com os instrumentos da mudan\u00e7a. Nesse caso, o her\u00f3i aprende algo novo no mundo ideal e o utiliza para alterar o seu presente e o seu futuro. Woddy Allen escolheu a terceira op\u00e7\u00e3o, assim como toda a s\u00e9rie De Volta para o Futuro. Esse \u00e9, em geral, o melhor desfecho, pois trata com respeito tanto o presente como o mundo ideal, apostando numa vis\u00e3o menos est\u00e1tica da vida e olha a fantasia como instrumento de liberta\u00e7\u00e3o da mediocridade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da escolha pelo vi\u00e9s da mudan\u00e7a, t\u00e3o rara no cinema americano, o que achei de mais interessante no filme foi que a maioria dos personagens, seja de que \u00e9poca fossem, estava insatisfeita com o seu presente. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o era a fam\u00edlia e os amigos da noiva. Eles estavam satisfeitos com o que viviam. Apesar de muito reclamarem, eram homens e mulheres do seu tempo, viviam o presente e buscavam a confirma\u00e7\u00e3o do status que j\u00e1 possu\u00edam. N\u00e3o havia d\u00favidas em suas vidas. Todos os erros que encontravam no mundo eram externos a eles e seriam facilmente corrigidos se os &#8220;outros&#8221; agissem como eles. Lembrem da cena em que o &#8220;especialista em tudo&#8221; discute com a guia sobre a vida amorosa de Rodin. O real n\u00e3o importa. Ele estava certo pois essa \u00e9 a sua realidade: estar sempre certo.<\/p>\n<p>Do outro lado dessa balan\u00e7a, temos o pobre do personagem de Owen Wilson. Mais &#8220;errado&#8221; que ele, imposs\u00edvel. Bem &#8220;sucedido&#8221;, (sob os crit\u00e9rios de quem mesmo?), e permanentemente insatisfeito. Paralizado por esse conflito e pressionado a ser um homem do seu tempo, ao mesmo tempo que odeia o presente que lhe \u00e9 apresentado. Sem saber o que fazer, ele \u00e9 obrigado a buscar no passado a for\u00e7a que lhe falta para agir. Um verdadeiro her\u00f3i cl\u00e1ssico feito nos moldes do Monomito do Campbell.<\/p>\n<div id=\"attachment_665\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_02.jpg\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-665\" class=\"size-full wp-image-665\" title=\"mnip_02\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_02.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_02.jpg 450w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/mnip_02-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-665\" class=\"wp-caption-text\">Somos obtusos, sem emo\u00e7\u00f5es, mas felizes<\/p><\/div>\n<p>A estrutura pode parecer simples, e \u00e9, mas o filme \u00e9 maravilhoso. Como uma verdadeira com\u00e9dia de situa\u00e7\u00e3o, cujo come\u00e7o e o fim s\u00e3o sempre previs\u00edveis, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do seu recheio que o torna memor\u00e1vel. A representa\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is dos anos 20 \u00e9 imaginativa, reverente e irreverente. Coisa de mestre. Mas, confesso que, quando sa\u00ed do cinema fiquei bastante preocupado como as pessoas entenderiam a resolu\u00e7\u00e3o do filme e a fixa\u00e7\u00e3o do protagonista pelo passado. Da\u00ed a preocupa\u00e7\u00e3o da qual falei antes.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a veriam pelo lado positivo? Como instrumento de (r)evolu\u00e7\u00e3o pessoal? Ou achariam que se ele vivesse no presente desde sempre tudo seria melhor? Afinal, evitar problemas antes que eles aconte\u00e7am \u00e9 sempre a melhor op\u00e7\u00e3o, certo? &#8220;Coitadinho do mo\u00e7o, n\u00e9?&#8221; as velhinhas comentam ao seu lado no cinema. &#8220;Perdeu uma noiva t\u00e3o bonita. Ele \u00e9 t\u00e3o bobo&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 complicada, afinal, os gurus das auto-ajudas da vida est\u00e3o sempre martelando nas revistas de neg\u00f3cios e nos programas femininos da tarde que viver no presente \u00e9 o meio certo de viver. Ser\u00e1 que essa ideologia do aqui e agora contaminou a interpreta\u00e7\u00e3o da maioria dos espectadores? Ou pior, traduziu o filme para um modelo tradicionalista de aceita\u00e7\u00e3o do presente?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, mas vou te dizer, at\u00e9 concordo que \u00e9 importante viver no presente. Se olhamos para o passado como fuga ao inv\u00e9s de inspira\u00e7\u00e3o, corremos o risco de sermos t\u00e3o retr\u00f3grados quanto os entusiastas de &#8220;o mundo de hoje \u00e9 t\u00e3o lindo&#8230;&#8221;. Mas, \u00e9 preciso lembrar, viver no presente \u00e9 diferente de gostar do presente. Gostar do presente \u00e9 lutar pela manuten\u00e7\u00e3o do que existe e n\u00e3o pela mudan\u00e7a. Por mais que a nostalgia envolva o risco de nos tornar pregui\u00e7osos reclam\u00f5es, \u00e9 s\u00f3 a insatisfa\u00e7\u00e3o com o que h\u00e1 hoje que nos impulsiona a mudar o mundo.<\/p>\n<p>Contudo, para mudar o mundo \u00e9 preciso pensar em como deve ser futuro. Revolta com o mundo sem rumo para a mudan\u00e7a n\u00e3o nos tornar\u00e1 revolucion\u00e1rios, somente terroristas, como o personagem de O Agente Secreto que explode as coisas pois \u00e9 contra &#8220;o que a\u00ed est\u00e1&#8221;. Nesse momento de escolher o que queremos para o futuro em contraposi\u00e7\u00e3o ao odioso presente, nada mais natural que nos voltemos ao passado como fonte de inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O engra\u00e7ado \u00e9 que quando buscamos essa inspira\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a e glorificamos o passado, glorificamos em geral os indiv\u00edduos marginalizados das \u00e9pocas de &#8220;ouro&#8221;. Sejam os americanos em Paris dos anos 20, os Beats nos anos 50, os Hippies nos anos 60 ou os Nerds dos anos 80. N\u00e3o concorda? ent\u00e3o, me diz, conhece algu\u00e9m que tem nostalgia dos Yuppies? Escrevo mais uma frase pra dar tempo para voc\u00ea pensar. Ningu\u00e9m veio a mente? Nem a mim.<\/p>\n<div id=\"attachment_663\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/American-Psycho-cast.jpg\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-663\" class=\"size-full wp-image-663\" title=\"American Psycho cast\" src=\"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/American-Psycho-cast.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/American-Psycho-cast.jpg 400w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/American-Psycho-cast-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-663\" class=\"wp-caption-text\">Yuppie, nem pra vil\u00e3o serve direito<\/p><\/div>\n<p>O fato \u00e9 que n\u00e3o temos nostalgia do poder. O poder n\u00e3o tem \u00e9poca e n\u00e3o sugere como mudar o mundo, s\u00f3 como mant\u00ea-lo como est\u00e1. Portanto, toda nostalgia est\u00e1 ligada aos losers do passado. \u00c9 claro que esses losers at\u00e9 podem se tornar os poderosos em algum ponto de sua hist\u00f3ria, mas quando isso acontece eles se tornam v\u00edtimas do seu pr\u00f3prio poder, alvos da nossa vergonha ou indiv\u00edduos dignos de pena. N\u00e3o h\u00e1 revolucion\u00e1rio cuja reputa\u00e7\u00e3o sobreviva ao poder. Certo, Dilma?<\/p>\n<p>Bom, se sonhamos com os fracassados e os encaramos como os her\u00f3is cujo modelo devemos seguir quando pensamos em mudar o mundo, n\u00e3o podemos estar sonhando com a vit\u00f3ria de nossas revolu\u00e7\u00f5es, mas apenas com a inten\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-las. S\u00e9rio! V\u00ea s\u00f3: o povo ainda curte o Trotsky, mas n\u00e3o liga para Stalin e companhia que mataram tantos para manter o tal &#8220;sonho&#8221; vivo. Voc\u00ea sabe, n\u00e3o h\u00e1 nada mais bonito que lutar por um sonho que n\u00e3o iremos atingir.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 nesse ponto que o filme ganha a sua for\u00e7a e consegue nos emocionar. Como bom existencialista sob intermin\u00e1vel terapia, Woody Allen simplesmente aceitou que o esfor\u00e7o pela mudan\u00e7a e o esmero quase artesanal com a identidade que cr\u00edamos para n\u00f3s mesmos s\u00e3o mais importantes do que quaisquer ambi\u00e7\u00f5es ou destinos magn\u00edficos onde &#8220;queremos&#8221; chegar. O rem\u00e9dio para o absurdo da vida e para a falta de sentido, doen\u00e7as cr\u00f4nicas da exist\u00eancia, \u00e9 simplesmente a imagina\u00e7\u00e3o. E para a alimentar temos \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o toda uma gama de grandes obras e personalidades. Assim usamos o passado para nos inspirar e tomarmos as r\u00e9deas de nossas vidas, buscando sermos o mais felizes que pudermos ser. As nossas vidas se tornam, ent\u00e3o, simples trajetos. Sem sentido, linhas de chegada ou mesmo p\u00f3diums. Apenas um caminho, sem prop\u00f3sito, sem certezas, mas muito divertido.<\/p>\n<p>Pensando bem, n\u00e3o deveria me preocupar tanto. Frente a tantos filmes cheios de explos\u00f5es, mortes e frases feitas, que s\u00f3 servem como m\u00e1quinas de fazer dinheiro, Meia Noite em Paris, seja ele mal entendido pelo p\u00fablico ou n\u00e3o, \u00e9 um sopro de vida num cinema cada vez menos imaginativo. Esperemos que n\u00e3o seja o \u00faltimo suspiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de abandonar a sua fantasia nost\u00e1lgica e abrir m\u00e3o do seu presente e do seu prov\u00e1vel futuro, Gil Pender, alter ego de Woody Allen em Meia Noite em Paris, caminha sozinho pela noite da capital francesa. 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