{"id":6718,"date":"2022-09-18T08:57:35","date_gmt":"2022-09-18T11:57:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=6718"},"modified":"2023-10-12T13:30:08","modified_gmt":"2023-10-12T16:30:08","slug":"a-vassoura-atras-da-porta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-vassoura-atras-da-porta\/","title":{"rendered":"A vassoura atr\u00e1s da porta"},"content":{"rendered":"<p>Receber \u00e9 uma arte. Expulsar tamb\u00e9m. E nisso meu pai era um mestre; na segunda arte, quero dizer.<\/p>\n<p>Quando as visitas passavam do tempo que ele considerava regulamentar, ele se recolhia no quarto sem falar com ningu\u00e9m. Algumas vezes, no caminho para a cama, depois de levar copos e pratos ruidosamente para a pia, ele varria a sala, esbarrando de prop\u00f3sito nos p\u00e9s dos convidados, e depositava a vassoura atr\u00e1s da porta, como mandava a supersti\u00e7\u00e3o. Mas, para ele, isso nada tinha de m\u00edstico, era apenas um sinal para que os convivas se ligassem, se levantassem e nos deixassem em paz.<\/p>\n<p>Se mesmo assim eles n\u00e3o se tocassem, ele ia dormir. Ao inv\u00e9s de colocar o seu pijama, ele, nesses dias de festa, preferia dormir de cueca. Tentava tirar um pequeno cochilo e se as vozes dos convidados ou o som da m\u00fasica continuassem a incomod\u00e1-lo, ele ia tomar um copo de leite quente para tentar atrair o sono. No caminho da cozinha, passava de cueca pela sala como se estivesse sozinho em casa:<\/p>\n<p>&#8211; Opa, n\u00e3o imaginava que voc\u00eas AINDA estivessem por a\u00ed- dizia, fingindo surpresa, e seguia para cozinha para esquentar o leite que o faria dormir.<\/p>\n<p>Quando chegava nesse ponto, ningu\u00e9m insistia em continuar na festa e todos partiam. Como disse, meu pai era um mestre.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, quando caio na asneira de convidar algu\u00e9m para a minha casa, vejo como herdei a inten\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a t\u00e9cnica do meu pai.<\/p>\n<p>Enquanto as pessoas tendem a se alimentar do contato humano, eu tendo a me exaurir. Depois das 10 da noite ou depois de 2 horas de intera\u00e7\u00e3o, o que vier primeiro, sinto vontade de me recolher. C\u00e1 entre n\u00f3s, j\u00e1 foi o suficiente. Depois desse tempo, em geral, as conversas se tornam mais altas, mais repetitivas e mais esquec\u00edveis. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 nada que vamos falar hoje que n\u00e3o possa ser silenciado ou deixado para amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Nessa hora, se estou na rua ou numa casa alheia, eu simplesmente parto, sem avisar a ningu\u00e9m. Algumas vezes, mesmo com pessoas \u00e0 minha frente, eu simplesmente viro as costas e vou embora, sem dar nem tchau, o que, eu sei, \u00e9 feio a be\u00e7a.<\/p>\n<p>Se o encontro \u00e9 na minha casa, eu, ao contr\u00e1rio do meu pai, n\u00e3o tento expulsar ningu\u00e9m. Eu simplesmente come\u00e7o a agir como se estivesse sozinho. Coloco a TV numa s\u00e9rie que estou assistindo; vou pro escrit\u00f3rio trabalhar; abro um livro e fico lendo na sala; ou vou pro quarto, me deitar para assistir um VHS ou um DVD. Em geral, uns 10 minutos depois de entrar nesse modo, eu durmo e deixo a casa na m\u00e3o dos convidados. Como tenho sono pesado, ao contr\u00e1rio do meu pai, n\u00e3o preciso de leite quente nem de passar de cueca na sala para ignorar as pessoas que insistem em socializar comigo.<\/p>\n<p>Hoje em dia, em algum momento- n\u00e3o sei exatamente quando, afinal j\u00e1 estou dormindo-, o pessoal se liga e vai embora por conta pr\u00f3pria. Quando eu era mais novo ainda tinha a surpresa de encontrar gente conversando na sala ou na cozinha quando eu acordava perto do amanhecer ou de esbarrar com alguns corpos esparramados pelo ch\u00e3o e pelos sof\u00e1s com o sol j\u00e1 alto. Sei que pode parecer um abuso que se aproveitem da minha casa dessa forma, mas n\u00e3o tenho ningu\u00e9m a culpar a n\u00e3o ser eu mesmo que, sabendo como sou, ainda me submeti a essa ideia idiota de que teria a habilidade e a arte de receber.<\/p>\n<p>O fato, eu descobri, \u00e9 que n\u00e3o existem visitas chatas, mas anfitri\u00f5es relutantes. Ent\u00e3o a culpa \u00e9 toda nossa por insistir em fazer algo que n\u00e3o quer\u00edamos fazer desde o primeiro momento. Por isso, como os proverbiais filhos de Vin\u00edcius, agora eu sei, visitas, melhor n\u00e3o t\u00ea-las, mas, se n\u00e3o t\u00ea-las, a quem vamos expulsar para exercitar nossos vis instintos anti sociais?<\/p>\n<div id=\"acfifjfajpekbmhmjppnmmjgmhjkildl\" class=\"acfifjfajpekbmhmjppnmmjgmhjkildl\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Receber \u00e9 uma arte. Expulsar tamb\u00e9m. E nisso meu pai era um mestre; na segunda arte, quero dizer. Quando as visitas passavam do tempo que ele considerava regulamentar, ele se recolhia no quarto sem falar com ningu\u00e9m. 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