{"id":675,"date":"2011-09-04T16:01:59","date_gmt":"2011-09-04T19:01:59","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/?p=675"},"modified":"2014-09-26T10:17:25","modified_gmt":"2014-09-26T13:17:25","slug":"a-eterna-crise-de-ouro-do-rpg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-eterna-crise-de-ouro-do-rpg\/","title":{"rendered":"A eterna crise de ouro do RPG"},"content":{"rendered":"<p>Cara, tem coisas que \u00e9 at\u00e9 melhor n\u00e3o ficar sabendo. Mas como fiquei sabendo, n\u00e3o estou conseguindo ficar calado. O pior \u00e9 que isso me pegou logo depois da minha volta da GENCON, onde entrei em paz com o meu lado gamer e mudei muito o que eu pensava sobre o hobby.<\/p>\n<p>Do que estou falando? Bom, h\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s, <a href=\"http:\/\/www.rederpg.com.br\/wp\/2011\/08\/o-novo-paradigma-do-rpg-brasileiro\/\" target=\"_blank\">a Rede RPG publicou um texto comentando sobre uma mudan\u00e7a de paradigma no RPG nacional<\/a>. Estranhamente o artigo se focou na compara\u00e7\u00e3o entre os tempos de hoje e uma suposta &#8220;Era de Ouro&#8221; do RPG Nacional. Pelo que entendi do artigo essa tal \u00e9poca dourada comercial ocorreu nos meados dos anos 90, quando eu era particularmente atuante no meio. Engra\u00e7ado que eu n\u00e3o me lembro de \u00e9poca de ouro nenhuma. Foi uma \u00e9poca legal e tudo, mas n\u00e3o tinha nada de \u00e9poca de ouro. O que havia realmente era mais trabalho, mais gente disposta a trabalhar, um certo deslumbramento e muitos erros sendo cometidos.<!--more--><\/p>\n<p>Me lembro que para fazer as RPG RIO, com os poucos recursos disponibilizados pelo Osny e pela Esther, eu e outros costum\u00e1vamos ficar dias inteiros na Gibiteria demonstrando jogos e correndo atr\u00e1s de mestres e jogadores. Nas v\u00e9speras do evento, reun\u00edamos uma galera legal, que \u00e9 amiga at\u00e9 hoje, para &#8220;transferir&#8221; mesas entre os andares da UERJ e preparar salas e salas de jogo. Na 3a. RPG RIO, a pobre da Nicole inclusive serviu de modelo para a marca de giz no ch\u00e3o da sala de terror e perdemos a cabe\u00e7a de um manequim usada para a decora\u00e7\u00e3o que nos foi emprestada por um dos jogadores. Apesar de todo esse trabalho, ningu\u00e9m reclamava do esfor\u00e7o. Afinal os resultados compensavam e olha que eles n\u00e3o eram financeiros.<\/p>\n<p>A RPG RIO chegou a reunir muita gente mesmo, quase 20 mil jogadores, segundo contas exageradas do Steve Jackson em 1993, mas n\u00e3o viv\u00edamos uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Fomos ao primeiro Encontro Internacional para botar \u00e1gua nos planos da RPGA Brasil com nosso pr\u00f3prio dinheiro e ficamos hospedados num albergue na PQP. Coisa de esp\u00edrito de porco e muito divertido, mas n\u00e3o era uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Tivemos eventos de jogos estranhos e campeonatos de RPG. Em todos os lugares pipocavam eventos e iniciativas. Haviam jogos amadores muito interessantes (algu\u00e9m lembra do Abismo baseado no sistema FASERIP?). Mas n\u00e3o era uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Tivemos lives geniais, incluindo um memor\u00e1vel de DC, onde joguei com o duas caras. Foi incr\u00edvel. Uma \u00e9poca sensacional. Mas n\u00e3o era uma &#8220;Era de Ouro&#8221;. Pelo menos, n\u00e3o como o artigo quer passar: uma &#8220;Era de Ouro&#8221; comercial.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que o artigo tenta aparentar n\u00e3o tinha um bando de gente &#8220;vivendo&#8221; de RPG. A maioria dos envolvidos era estudante, alguns tiraram algum dinheiro com algumas coisas, mas n\u00e3o lembro de ningu\u00e9m botando o boi na sombra. Tivemos algumas grandes editoras no mercado nesse per\u00edodo, mas todas acharam que o mercado de RPG seria algo que nem o mercado de livros n\u00e3o did\u00e1ticos se tornou no Brasil: uma mina de ouro. Lembro como fiquei espantado ao ouvir o editor da Ediouro falando que ia ficar rico com o RPG e como o pessoal da Grow nos recebeu e deu a clara impress\u00e3o que o D&amp;D iria se vender sozinho como um Banco Imobili\u00e1rio da vida. Havia mais investimentos, \u00e9 verdade, mas tamb\u00e9m havia muitos iludidos.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o que o artigo me passou tem muito a ver com a concep\u00e7\u00e3o de &#8220;arte e artistas&#8221; no Brasil. Normalmente, algo s\u00f3 se justifica por aqui no Brasil apenas quando se torna atividade de tempo integral. Voc\u00ea pode ser um puta pintor, mas se voc\u00ea se sustenta de outra forma, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um artista. Artista \u00e9 o Romero Brito que vende papel de parede pra Madonna ou a Carla Perez que faz ax\u00e9 infantil evang\u00e9lico e aparece no TV Fama. A mesma l\u00f3gica rola no RPG. Se aquilo n\u00e3o \u00e9 sua atividade de tempo integral, sua obra ser\u00e1 considerada menor. Ou, o RPG s\u00f3 \u00e9 importante quando aparece no Fant\u00e1stico. Uma puta babaquice, n\u00e9?<\/p>\n<p>N\u00e3o existe era de ouro oficial do RPG, nem vai existir. Nem aqui, nem nos EUA, nem em qualquer lugar. No auge da TSR, o Ed Greenwood continuava trabalhando como bibliotec\u00e1rio. O santo Frank Mentzer trabalhou em padaria e tudo para sobreviver quando seu empreendimento p\u00f3s TSR faliu. Quem l\u00ea o reporte anual da Steve Jackson Games v\u00ea como \u00e9 necess\u00e1rio ter austeridade financeira para fazer o neg\u00f3cio sobreviver. Sempre fomos mercado de nicho. Tivemos um desenho animado baseado no AD&amp;D, dois filmes (ruins) com o nome do Dungeons &amp; Dragons, e uma cena no ET. Pronto. Voc\u00ea quer jogar ou quer que o RPG seja considerado um tro\u00e7o cool? Se escolheu a segunda op\u00e7\u00e3o, te aviso, escolhe outro hobby que voc\u00ea t\u00e1 no lugar errado.<\/p>\n<p>O que me d\u00e1 mais \u00f3dio nisso tudo \u00e9 que esse tipo de postura de &#8220;sabe tudo&#8221; s\u00f3 alimenta um bando de briga de egos rid\u00edculas que de nada nos serve. Quer ajudar o RPG? Mobiliza o pessoal e age sem orgulho pessoal ou ambi\u00e7\u00e3o. Ou s\u00f3 um pouquinho. Como a gente fazia nessa tal &#8220;\u00c9poca de Ouro&#8221;. Faz por que \u00e9 de cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por remorso. \u00c9 preciso fazer e fazer certo, pelas raz\u00f5es corretas, n\u00e3o por que vou ficar rico, bonito ou famoso. Afinal, n\u00e3o vamos ficar mesmo e se ficarmos n\u00e3o vai ser o RPG que nos dar\u00e1 isso.<\/p>\n<p>Esse foi o grande aprendizado que tive esse ano na GENCON. Enquanto t\u00ednhamos os enormes stands da Wizards, Mayfair, Fantasy Flight e afins, t\u00ednhamos pequenos stands onde as pessoas vendiam seus jogos e id\u00e9ias sem o menor pudor ou vergonha. Pelo contr\u00e1rio, tinham o maior orgulho. Num deles, ap\u00f3s me demonstrar um jogo, por sinal, bem fraquinho, um garoto me diz com convic\u00e7\u00e3o e franqueza:<\/p>\n<p>&#8211; Esse jogo foi desenvolvido pelo meu primo que t\u00e1 al\u00ed atr\u00e1s, e estamos eu, ele, meu av\u00f4 e minha av\u00f3 o demonstrando. Esperamos que tenha gostado e sinta-se a vontade de nos dizer o que achou e como podemos melhorar. Estamos sempre aprendendo e queremos disponibilizar sempre os melhores jogos para nossos clientes.<\/p>\n<p>Fiquei sensibilizado, mas n\u00e3o a ponto de comprar o jogo. Voc\u00ea acha que para esse garoto importava se essa \u00e9 uma &#8220;\u00e9poca de ouro&#8221; sancionada oficialmente\u00a0ou n\u00e3o? Claro que n\u00e3o. Para quem faz as coisas com carinho e respeito aos seus, sempre \u00e9 uma \u00e9poca de ouro. Espero que mais pessoas no Brasil estejam vivendo a SUA Era de Ouro pessoal do RPG. Eu sei que estou, desde 1986. E voc\u00eas?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cara, tem coisas que \u00e9 at\u00e9 melhor n\u00e3o ficar sabendo. Mas como fiquei sabendo, n\u00e3o estou conseguindo ficar calado. O pior \u00e9 que isso me pegou logo depois da minha volta da GENCON, onde entrei em paz com o meu lado gamer e mudei muito o que eu pensava sobre o hobby. 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