{"id":6925,"date":"2022-11-09T13:43:00","date_gmt":"2022-11-09T16:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=6925"},"modified":"2022-11-09T13:43:00","modified_gmt":"2022-11-09T16:43:00","slug":"nosso-nome-e-gal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/nosso-nome-e-gal\/","title":{"rendered":"Nosso nome \u00e9 Gal"},"content":{"rendered":"<p>O dia mais lento e mais agitado do sebo era s\u00e1bado de manh\u00e3. Livreiros, ressaqueados dos abusos da sexta-feira, se escondiam, atr\u00e1s do balc\u00e3o, enquanto clientes solares e animados buscavam palavras, imagens e sons para lhes fazer companhia no fim de semana. Enfim, era exatamente o tipo de gente que quer\u00edamos receber todos os dias na loja, mas n\u00e3o naquele dia.<\/p>\n<p>Numa dessas manh\u00e3s, por volta das onze horas, um jovem casal entrou na loja. Ele: magro, de bermuda social, camisa curta de bot\u00e3o, cavanhaque, e \u00f3culos de arma\u00e7\u00e3o transparente. Ela: vestido de chita, cabelo preto e ondulado, preso por um len\u00e7o, indo at\u00e9 a cintura, bolsa de l\u00e3, sand\u00e1lia franciscana, e bochechas proeminentes e rosadas. Enquanto ela abria caminho dan\u00e7ando pela loja, ele vinha, discreto atr\u00e1s, pegando o que ela derrubava pelo trajeto.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, amor, CDs- ela cantarolou.<\/p>\n<p>Ele se colocou ao seu lado e come\u00e7aram a ver os CDs um por um. Ela n\u00e3o conseguia se controlar e comentava sobre todos, sim, verdade, todos os CDs \u00e0 venda. De 3 em 3 coment\u00e1rios, ela pedia para colocar um pra tocar:<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que a gente pode ouvir um pouquinho desse do Paulinho da Viola?<br \/>\n&#8211; E esse da Marisa Monte? A gente pode ouvir a m\u00fasica 3?<br \/>\n&#8211; Olha, Xuxa! Ah, esse eu preciso ouvir.<\/p>\n<p>Depois do 3\u00b0 ou 4\u00b0 CD, me coloquei ao lado do som para atender aos seus intermin\u00e1veis des\u00edgnios. Por volta do meio dia e depois de passarmos por 23% do cancioneiro popular brasileiro, ela pareceu achar o que queria:<\/p>\n<p>&#8211; Amor, voc\u00ea n\u00e3o vai acreditar\u2026Gal! GAL!<\/p>\n<p>Ela nem precisou falar nada, me entregou um CD, daqueles baratos de colet\u00e2neas de maiores sucessos, e eu, no autom\u00e1tico, coloquei ele pra tocar. <\/p>\n<p>&#8211; Ai, pode tocar Chuva de Prata de novo?<br \/>\n&#8211; Vai, amor, dan\u00e7a Festa do Interior comigo.<br \/>\n&#8211; Olha, ela gravou Vapor Barato tamb\u00e9m, tipo O Rappa!<br \/>\n&#8211; Baby, baby, eu sei que \u00e9 aaaasssssiiiiimmmm\u2026<\/p>\n<p>Quando terminamos a terceira audi\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o resisti e perguntei:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, vai levar o CD?<br \/>\n&#8211; Claro,- ela n\u00e3o titubeou- quanto \u00e9?<br \/>\n&#8211; 7 reais.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 isso?! Amor, paga ao mo\u00e7o.<\/p>\n<p>O menino magro colocou as m\u00e3os nos bolsos, abriu a carteira e nada. Nem um tost\u00e3o furado. Antes que ele falasse alguma coisa, ela se adiantou:<\/p>\n<p>&#8211; Deixa que eu pago, amor.<\/p>\n<p>Ela pegou a bolsa de l\u00e3 e virou seu conte\u00fado sobre o balc\u00e3o. Entre roupas e maquiagens; livros e pap\u00e9is de seda; pacotes de biscoito e garrafas d&#8217;\u00e1gua vazias; ela mergulhava em busca dos 7 reais que lhes dariam o direito a levar Gal para casa. Quando j\u00e1 estava quase desistindo, ela achou um ticket refei\u00e7\u00e3o de papel.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, que sorte! E \u00e9 um ticket de 7 reais. Voc\u00eas aceitam ticket refei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o, a gente n\u00e3o aceitava, mas n\u00e3o me senti no direito de acabar com a felicidade deles.<\/p>\n<p>&#8211; Eu dou um jeito- respondi.<\/p>\n<p>Guardei o ticket comigo, peguei 7 reais da minha carteira e coloquei na registradora. Tirei o CD do som, coloquei na caixa e entreguei para eles:<\/p>\n<p>&#8211; Divirtam-se.<\/p>\n<p>Ela, como entrou, saiu dan\u00e7ando, enquanto ele seguiu atr\u00e1s calado, n\u00e3o sem antes se virar pra mim e fazer uma rever\u00eancia com as m\u00e3os em prece. Juro, quase ouvi ele falando Namast\u00ea na minha mente.<\/p>\n<p>Logo depois que eles se foram, terminou o meu turno e eu sa\u00ed pra almo\u00e7ar. Parei num botequim perto da loja e achei no card\u00e1pio um prato que custava justamente 7 reais.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas aceitam ticket?- perguntei.<br \/>\n&#8211; Claro- o gar\u00e7om estranhou.<\/p>\n<p>Pedi o prato e enquanto tomava uma cerveja, esperando ele chegar, fiquei me perguntando quanto tempo mais aguentaria aquela rotina do sebo. O trabalho era divertido, mas as horas eram longas e o sal\u00e1rio, curto. Por mais que pensasse em sair de l\u00e1, o que diabos eu poderia fazer para ganhar a vida? Como cantava Gal, eu precisava passar por um longo caminho at\u00e9 poder ir pra outro lugar:<\/p>\n<blockquote><p><em>Voc\u00ea precisa aprender ingl\u00eas<br \/>\nPrecisa aprender o que eu sei<br \/>\nE o que eu n\u00e3o sei mais<br \/>\nE o que eu n\u00e3o sei mais<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o podia negar, mesmo com a falta de grana,  o atendimento aos clientes, como a esse casal, sempre me lembrava que as coisas, por mais dif\u00edceis que fossem, iam bem, muito bem, por sinal. Na minha cabe\u00e7a, Gal fazia coro:<\/p>\n<blockquote><p><em>N\u00e3o sei, comigo vai tudo azul<br \/>\nContigo vai tudo em paz<br \/>\nVivemos na melhor cidade<br \/>\nDa Am\u00e9rica do Sul<br \/>\nDa Am\u00e9rica do Sul<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Sim, a Gal tinha raz\u00e3o, tava tudo azul e viv\u00edamos na melhor cidade da Am\u00e9rica do Sul.  \u00c9, baby, \u00e9, baby, eu sei que era assim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia mais lento e mais agitado do sebo era s\u00e1bado de manh\u00e3. Livreiros, ressaqueados dos abusos da sexta-feira, se escondiam, atr\u00e1s do balc\u00e3o, enquanto clientes solares e animados buscavam palavras, imagens e sons para lhes fazer companhia no fim de semana. 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