{"id":7420,"date":"2023-02-18T10:18:26","date_gmt":"2023-02-18T13:18:26","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=7420"},"modified":"2023-02-18T10:18:26","modified_gmt":"2023-02-18T13:18:26","slug":"as-merdas-do-arnaldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/as-merdas-do-arnaldo\/","title":{"rendered":"As merdas do Arnaldo"},"content":{"rendered":"<p>Arnaldo, apesar de despachado com os amigos, socialmente era um homem de pudores. Por exemplo, ele nunca comprava papel higi\u00eanico no pico de movimento do supermercado.<\/p>\n<p>&#8211; Porra, Arnaldo, vai comprar papel. T\u00e1 pra acabar- Flavinha dizia.<br \/>\n&#8211; Relaxa. Pra hoje tem. Vou amanh\u00e3.<br \/>\n&#8211; Que diabo de frescura \u00e9 essa, homem?<br \/>\n&#8211; Porra, Fl\u00e1via. S\u00f3 n\u00e3o quero que o pessoal lembre que eu cago.<br \/>\n&#8211; Arnaldo, c\u00e1 entre n\u00f3s, todo mundo caga.<br \/>\n&#8211; Eu sei. Eu sei. S\u00f3 n\u00e3o quero que pensem em mim cagando.<\/p>\n<p>Arnaldo tinha uma certa raz\u00e3o. N\u00e3o era nada interessante pensar num homem peludo, de quase 2 metros e por volta de 150 quilos cagando.<\/p>\n<p>Por outro lado, cagar era uma das atividades que aparentemente lhe davam mais prazer. Em casa, onde podia ser ele mesmo, longe dos olhares e da reprova\u00e7\u00e3o da sociedade, ele se entregava a esse amor por inteiro. Logo depois de terminar uma longa e variada refei\u00e7\u00e3o, ele acendia um cigarro, batia na barriga e dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Agora vou ao trono para coroar essa refei\u00e7\u00e3o digna de um rei.<\/p>\n<p>No trabalho, ele tamb\u00e9m sentia o prazer de evacuar, mas tentava ser mais discreto. Ia no banheiro perto da Copa, que tinha menos movimento, e, ao terminar seus afazeres, batia na barriga e murmurava:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 todo dia que a gente d\u00e1 uma cagada dessas. N\u00e3o \u00e9 todo dia.<\/p>\n<p>Mas era todo dia. E quase toda hora.<\/p>\n<p>Enquanto Fl\u00e1via sofria de uma bruta pris\u00e3o de ventre que a deixava literal e figurativamente enfezada, Arnaldo, como um rel\u00f3gio, visitava o banheiro para, segundo ele, \u201cFechar o ciclo da vida\u201d.<\/p>\n<p>Um dia, a Fl\u00e1via percebeu que havia algo estranho e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea foi ao banheiro hoje, Arnaldo?<\/p>\n<p>Arnaldo fez um esfor\u00e7o, mas n\u00e3o lembrava se tinha ido ao banheiro ou n\u00e3o. Quase sem acreditar foi checar o livro que lia quando estava cagando e, sim, ele n\u00e3o tinha mudado de p\u00e1gina desde o dia anterior.<\/p>\n<p>&#8211; Estranho- murmurou.<\/p>\n<p>O dia seguinte a mesma coisa. Nada de vontade de ir ao banheiro. Fl\u00e1via at\u00e9 perguntou se ele estava sentindo alguma dor, mas ele n\u00e3o sentia nada.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 como se estivesse indo normalmente. Normalmente.<\/p>\n<p>Ele at\u00e9 fez um esfor\u00e7o, mas nada sa\u00eda. No quinto dia sem cagar, ele foi ao m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Calma, amigo. Tem gente que vai pouco mesmo.<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o sou esse tipo de gente. Eu vou sempre.<br \/>\n&#8211; Mudou algo na sua alimenta\u00e7\u00e3o?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Mudan\u00e7a em atividade f\u00edsica?<br \/>\n&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom. Vou pedir uns exames, mas tenho certeza que n\u00e3o \u00e9 nada de mais.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico estava errado.<\/p>\n<p>No exame de sangue deu uma diferen\u00e7a na quantidade de gl\u00f3bulos vermelhos e no tamanho das hem\u00e1cias e leuc\u00f3citos, o que podia ser um indicativo de c\u00e9lulas at\u00edpicas e imaturas circulando no sangue. Ou seja, c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Arnaldo, continuou sem cagar, e fez os exames complementares que vieram a confirmar que estava com a doen\u00e7a maldita.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o entre todos n\u00f3s foi grande, mas Arnaldo parecia inabal\u00e1vel. Um dia, num momento de vulnerabilidade, ele nos confidenciou a \u00fanica coisa que lhe incomodava:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? Nem tenho medo de morrer, mas, pode crer, sinto uma bruta saudade de cagar.<\/p>\n<p>Eventualmente, com o in\u00edcio do tratamento, ele voltou a evacuar, mas, segundo ele, n\u00e3o era a mesma coisa:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? O prazer foi embora. Quando o intestino quer matar o hospedeiro, cagar vira s\u00f3 uma fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro tratamento terminou, mas n\u00e3o foi bem sucedido. Enfim os m\u00e9dicos resolveram agir de forma mais agressiva e decidiram tirar logo a parte mais impactada do seu intestino. Arnaldo recebeu a not\u00edcia estoicamente, mas Fl\u00e1via, na v\u00e9speras da cirurgia, vez ou outra o via acariciando a barriga e murmurando:<\/p>\n<p>&#8211; Saudades dos nossos rol\u00eas, amigo. Saudades.<\/p>\n<p>Ele foi operado. O c\u00e2ncer parecia controlado, mas a rotina da bolsa de colostomia foi demais pra ele e Arnaldo entrou numa puta depress\u00e3o. Apesar de aparentemente curado, ele foi definhando lentamente e de repente seu cora\u00e7\u00e3o simplesmente parou. Quase como se a vontade de viver tivesse lhe abandonado.<\/p>\n<p>No vel\u00f3rio, todos confortamos Fl\u00e1via, mas ela estava estranhamente de bom humor compartilhando v\u00e1rias hist\u00f3rias de idas cl\u00e1ssicas de Arnaldo ao banheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Viver com Arnaldo era \u00f3timo, mas todas as suas hist\u00f3rias eram de merda. Literalmente- ela encerrava mais um causo e ria.<\/p>\n<p>Enquanto todos process\u00e1vamos o luto de Arnaldo, o pudor que ele tinha foi totalmente pro espa\u00e7o. Sua vida privada, na privada, tinha se tornado p\u00fablica e tudo em que consegu\u00edamos pensar era nele, no Arnaldo, cagando.<\/p>\n<p>\u00c9 a vida tem dessas coisas. \u00c0s vezes as coisas que mais te d\u00e3o prazer s\u00e3o aquelas que acabam te<br \/>\nlevando pra cova. Fazer o que? Nem todas as hist\u00f3rias que vivemos tem finais edificantes ou, mesmo, cheiram bem. Saudades das merdas do Arnaldo. Saudades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arnaldo, apesar de despachado com os amigos, socialmente era um homem de pudores. Por exemplo, ele nunca comprava papel higi\u00eanico no pico de movimento do supermercado. &#8211; Porra, Arnaldo, vai comprar papel. T\u00e1 pra acabar- Flavinha dizia. &#8211; Relaxa. Pra hoje tem. Vou amanh\u00e3. &#8211; Que diabo de frescura \u00e9 essa, homem? &#8211; Porra, Fl\u00e1via. 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