{"id":7619,"date":"2023-03-28T07:10:51","date_gmt":"2023-03-28T10:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=7619"},"modified":"2023-03-28T07:10:51","modified_gmt":"2023-03-28T10:10:51","slug":"o-que-voce-vai-comer-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/o-que-voce-vai-comer-amor\/","title":{"rendered":"O que voc\u00ea vai comer, amor?"},"content":{"rendered":"<p>A diferen\u00e7a de 4 horas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, facilitava seus encontros. Enquanto ele ia almo\u00e7ar, ela estava tomando caf\u00e9. Para parecer que era um encontro de verdade, sempre comiam fora. Um comendo na copa da empresa e a outra de pijama na cozinha n\u00e3o seria nada rom\u00e2ntico. Assim, acordavam cedo, se embelezavam e, arrumados, como manda o figurino, iam comer juntos.<\/p>\n<p>O lugar preferido dele em Berlim era uma lanchonete perto do servi\u00e7o onde serviam caf\u00e9 da manh\u00e3 o dia inteiro. J\u00e1 ela, no Rio, comia na padaria da esquina de casa. Ambos pediam ovos, p\u00e3es e frios, e conversavam como se estivessem juntos. E estavam.<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea vai comer, amor?<br \/>\n&#8211; O de sempre e voc\u00ea?<br \/>\n&#8211; Idem.<br \/>\n&#8211; Tudo bem por a\u00ed?<br \/>\n&#8211; Tudo.<br \/>\n&#8211; Muito servi\u00e7o?<br \/>\n&#8211; Sempre.<br \/>\n&#8211; Novidades?<br \/>\n&#8211; Nah! E voc\u00ea?<br \/>\n&#8211; Tamb\u00e9m nada.<br \/>\n&#8211; Bom comer contigo.<br \/>\n&#8211; Bom, n\u00e3o. Maravilhoso.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, vamos comer.<br \/>\n&#8211; Vamos.<\/p>\n<p>E, assim, oprimidos por rotinas que n\u00e3o faziam sentido serem compartilhadas a um oceano de dist\u00e2ncia, eles ficavam ao mesmo tempo distantes e pr\u00f3ximos, como um velho casal de namorados que se reencontrou depois de enviuvar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos rituais program\u00e1ticos e das perguntas e respostas feitas, costumavam conversar sobre quando conseguiriam se ver novamente. A expectativa era sempre em breve, mas ao mesmo tempo insuportavelmente distante. Prometiam ir pra l\u00e1, e pra c\u00e1, quando o Euro isso, quando o Real aquilo, quando a vida, ah, quando a vida lhes desse um sossego. Tra\u00e7avam rotas imagin\u00e1rias, encontros em terceiros lugares, pensavam em morar juntos, em ter uma vida em comum e real, que n\u00e3o fosse mediada por telas, aplicativos ou milhares de quil\u00f4metros de fibras \u00f3ticas.<\/p>\n<p>Um dia, o hor\u00e1rio de um deles mudou, ou foram os dois?, eles mesmos n\u00e3o se lembram. Prometeram transformar o caf\u00e9 em jantar e lanche, mas as demandas dos servi\u00e7os come\u00e7aram a se intrometer e mais vezes cancelaram os encontros do que os levavam a cabo.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia deixar de ser, o afastamento abriu a porta para novos pretendentes, que se aproveitavam do seu tempo livre e da sua tristeza. Inclusive, a sua hist\u00f3ria de amor \u00e0 dist\u00e2ncia se tornou um grande fator de atra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 quanto tempo namoram?<br \/>\n&#8211; H\u00e1 dois anos.<br \/>\n&#8211; E est\u00e3o separados h\u00e1\u2026<br \/>\n&#8211; Separados, n\u00e3o. Distantes.<br \/>\n&#8211; Distantes h\u00e1\u2026<br \/>\n&#8211; Um ano.<br \/>\n&#8211; Metade do relacionamento.<br \/>\n&#8211; \u00c9, n\u00e3o tinha me ligado. Agora que voc\u00ea falou\u2026<br \/>\n&#8211; E, \u00e9 dif\u00edcil?<br \/>\n&#8211; Pior que \u00e9. A saudade\u2026 sabe?<br \/>\n&#8211; Sei. Sei. Fica assim, n\u00e3o. Vem c\u00e1 pra eu te dar um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>E de abra\u00e7o em abra\u00e7o, de acolhimento em acolhimento, acharam novos parceiros. N\u00e3o lembram exatamente quem decidiu terminar, ou quem contou da trai\u00e7\u00e3o, mas lembram como o outro reagiu:<\/p>\n<p>&#8211; Eu entendo. N\u00e3o ia demorar pra acontecer. Relacionamento \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e9 uma merda- mentiram um para o outro.<\/p>\n<p>Hoje, levam suas vidas, dessa vez separados, pela mem\u00f3ria e por um oceano de dist\u00e2ncia, mas, quando um se senta pra almo\u00e7ar e a outra prepara o seu caf\u00e9, eles pegam nos celulares por instinto como se co\u00e7assem um membro fantasma, um bra\u00e7o, uma perna perdida, da qual sempre sentir\u00e3o falta. Comem em sil\u00eancio, e, quando terminam suas refei\u00e7\u00f5es, suspiram t\u00e3o alto que quase podem se ouvir por cima do Oceano Atl\u00e2ntico dizendo, com a m\u00e3o sobre o est\u00f4mago e sobre o cora\u00e7\u00e3o, &#8220;que saudade de comer com voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.mundialdeescritura.com\/MundialHome.aspx\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-7620 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023-300x50.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A diferen\u00e7a de 4 horas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, facilitava seus encontros. 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