{"id":7622,"date":"2023-03-29T06:57:23","date_gmt":"2023-03-29T09:57:23","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=7622"},"modified":"2023-03-29T06:57:23","modified_gmt":"2023-03-29T09:57:23","slug":"a-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-natureza\/","title":{"rendered":"A natureza"},"content":{"rendered":"<p>Preso a um emaranhado de fios de a\u00e7o, como uma mosca aguardando se tornar o jantar de uma aranha, ele caminhava com medo e cuidado sobre troncos dispostos como degraus 20 metros acima do solo. Suas m\u00e3os calejadas tremiam, agarradas a uma linha de vida que, desconfiava, n\u00e3o aguentaria seu peso; as pernas pulsavam, inchadas e exauridas pelo esfor\u00e7o totalmente desnecess\u00e1rio; o suor brotava da sua testa e descia salgado pelos seus olhos provando que era poss\u00edvel sentir gosto pelas c\u00f3rneas. No ch\u00e3o, seguros, seus colegas de trabalho, hipocritamente, gritavam frases de incentivo:<\/p>\n<p>&#8211; Vai, M\u00e1rio! Voc\u00ea consegue.<br \/>\n&#8211; Vai, M\u00e1rio, mostra o teu valor! Estamos torcendo por voc\u00ea.<br \/>\n&#8211; M\u00e1rio, M\u00e1rio, M\u00e1rio!<\/p>\n<p>Na sua cabe\u00e7a s\u00f3 conseguia rimar seu nome com &#8220;ot\u00e1rio&#8221;, como faziam os meninos na sexta s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Olhou para a frente e o instrutor do hotel fazenda, a 5 metros de dist\u00e2ncia, fazia o sinal de &#8220;vir&#8221; com as m\u00e3os. At\u00e9 ele deveria estar cansado. Pelas suas contas, M\u00e1rio j\u00e1 devia estar a pelo menos umas duas horas tentando atravessar o trajeto de arvorismo transposto pelos seus colegas em menos de 10 minutos.<\/p>\n<p>&#8211; Vem, M\u00e1rio, s\u00f3 mais dois passos e acabou. E acabou!<\/p>\n<p>M\u00e1rio moveu as pernas com esfor\u00e7o e elas, moles de cansa\u00e7o, inesperadamente responderam. Deu o primeiro passo. Os colegas batiam palmas, o instrutor se esticou para agarrar sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Vem! Mais um passo e terminou. Vem!<\/p>\n<p>M\u00e1rio virou o quadril para jogar a perna pra frente, mas ela n\u00e3o teve for\u00e7as de se firmar no \u00faltimo degrau e seu p\u00e9 pisou no vazio. Seu corpo virou em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o, mas o instrutor conseguiu agarrar seu bra\u00e7o e o puxou para a \u00faltima plataforma.<\/p>\n<p>&#8211; Ufa. Foi duro mas conseguimos- o instrutor suspirou.<\/p>\n<p>Sob os gritos de anima\u00e7\u00e3o dos colegas, ele desceu pela escada presa na \u00e1rvore e, assim que atingiu terra firme, se atirou ao solo de olhos fechados. Com o corpo destru\u00eddo pelo esfor\u00e7o, tocando a grama \u00famida, sentiu uma estranha uni\u00e3o com a natureza. Algo que nunca havia sentido. Era como se ele e a \u00e1rvore tivessem se tornado um s\u00f3. N\u00e3o, melhor, era como se ele tivesse acabado de ter sido parido pela floresta. E ing\u00eanuo e satisfeito como um beb\u00ea, ele sorriu acalentado por uma paz que h\u00e1 muito n\u00e3o experienciava. Protegido e aben\u00e7oado, sentiu um sono quase primitivo tomar o seu corpo; e a ele M\u00e1rio se entregou, abafando lentamente as vozes do povo do trabalho e os sons \u00e0 sua volta, em rumo \u00e0 inconsci\u00eancia ou, quem sabe, a uma consci\u00eancia global.<\/p>\n<p>Escureceu.<\/p>\n<p>Quando abriu os olhos era noite. Estava na mesma floresta do hotel fazenda, por\u00e9m parecia que tinha viajado 1000 anos no passado. Ele se levantou n\u00fa e totalmente recuperado. Instintivamente, poderoso e primitivo, come\u00e7ou a correr pela floresta escura, em busca de si mesmo, e encontrou.<\/p>\n<p>Numa clareira, parado majestosamente sobre uma pedra, um enorme alce negro com olhos de fogo dava as boas vindas \u00e0 Mario. Boas vindas \u00e0 floresta, boas vindas a pessoa que ele sempre deveria ter sido.<\/p>\n<p>O alce desceu da pedra e se encaminhou de M\u00e1rio soprando fuma\u00e7a da sua boca escura e misteriosa. Aproximou-se do seu ouvido e lhe revelou um segredo:<\/p>\n<p>&#8211; Parab\u00e9ns, M\u00e1rio, depois dessa voc\u00ea at\u00e9 escapou de ser demitido no fim do ano- disse o Alce na voz do seu gerente.<\/p>\n<p>De volta ao mundo real, abra\u00e7ado ao chefe e cercado pelos colegas, M\u00e1rio caiu na real que os meninos da sexta s\u00e9rie sempre tiveram raz\u00e3o sobre ele. Ot\u00e1rio: essa sempre foi a sua natureza.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-7620 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023-300x50.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Preso a um emaranhado de fios de a\u00e7o, como uma mosca aguardando se tornar o jantar de uma aranha, ele caminhava com medo e cuidado sobre troncos dispostos como degraus 20 metros acima do solo. 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