{"id":792,"date":"2012-12-12T18:13:24","date_gmt":"2012-12-12T21:13:24","guid":{"rendered":"http:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=792"},"modified":"2013-12-10T15:43:47","modified_gmt":"2013-12-10T17:43:47","slug":"aplauso-aplauso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/aplauso-aplauso\/","title":{"rendered":"Aplauso! Aplauso!"},"content":{"rendered":"<p>Estranho que hoje, exatamente hoje, ou melhor, ontem, exatamente ontem, tenha morrido\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2012\/12\/13\/arts\/music\/ravi-shankar-indian-sitarist-dies-at-92.html?nl=todaysheadlines&amp;emc=edit_th_20121212&amp;_r=0\">Ravi Shankar<\/a>.\u00a0Rolou uma sincronicidade s\u00e9ria. Ontem mesmo, enquanto eu assistia ao show de Edson Cordeiro e Toninho Horta interpretando as can\u00e7\u00f5es de Herivelto Martins, eu s\u00f3 conseguia lembrar dele. Quer dizer, dele e do meu amigo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pedrobittencourt.info\/\">Pedro Bittencourt<\/a>.\u00a0Quem \u00e9 Pedro Bittencourt?<!--more--><\/p>\n<p>Pedro Bittencourt \u00e9 um grande saxofonista que estudou comigo no primeiro e segundo grau. O cara \u00e9 t\u00e3o aplicado que desde dos 10 anos j\u00e1 estudava sax. \u00c9 \u00f3bvio que a nossa turma de moleques n\u00e3o perdoava essa dedica\u00e7\u00e3o e esse virou o mote para o seus apelidos. Todos ruins, diga-se de passagem. O menos pior, vejam s\u00f3, era <strong>sexo<\/strong>fonista. Pfiu.<\/p>\n<p>A gente cresceu, o Pedro continuou dedicado ao instrumento e, acredito, no primeiro ano de faculdade, ele nos convidou para uma audi\u00e7\u00e3o que faria no Parque Lage. Coisa chique. Desconstru\u00e7\u00e3o de Bach ou algo similar. Do alto da nossa ignor\u00e2ncia musical fomos dar apoio ao amigo. Ele entrou em sil\u00eancio e come\u00e7ou a tocar algo que nunca t\u00ednhamos ouvido na vida. Nem o g\u00eanero musical da pe\u00e7a consegu\u00edamos decifrar. Aturdidos, uma das nossas maiores preocupa\u00e7\u00f5es era: e a\u00ed? Vamos aplaudir?<\/p>\n<p>Esperamos ansiosamente, compasso a compasso, por aquele momento m\u00e1gico onde haveria uma pausa e poder\u00edamos mostrar nosso apre\u00e7o por algo que n\u00e3o compreend\u00edamos direito. Depois de v\u00e1rios alarmes falsos, onde nossas m\u00e3os quase batendo eram interrompidas por apartes fren\u00e9ticos ou agudos surpreendentes, finalmente o momento chegou. Sil\u00eancio. Contamos at\u00e9 tr\u00eas. Um. Era esse o momento? Dois. Ser\u00e1 que vai acontecer algo? TR\u00caS. \u00c9 agora! Todo o grupo, n\u00f3s e os demais convidados ao evento, irrompeu aliviado em palmas. Alguns, mais afoitos, inclusive se levantaram e soltaram discretos U-HUs!<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o agradeceu. Lenta e inabalavelmente foi at\u00e9 o microfone para nos dar uma li\u00e7\u00e3o que guardo at\u00e9 hoje:<\/p>\n<p>&#8211; Pessoal, acho que voc\u00eas n\u00e3o entenderam bem. Nessa desconstru\u00e7\u00e3o, estou tocando algumas obras de Bach ao contr\u00e1rio. Por isso, compreendo que estejam confusos sobre quando aplaudir. Mas, por favor, n\u00e3o batam palmas nos momentos errados ou v\u00e3o estragar a aprecia\u00e7\u00e3o. Pra facilitar, quando for a hora de bater palmas, eu aviso.\u00a0Que tal? Em todo caso, agrade\u00e7o o apoio.<\/p>\n<p>Ele voltou a tocar sem mais alarde. De quando em quando, como combinado, nos avisava que era hora de aplaudir e, assim, n\u00f3s o faz\u00edamos. Simples e pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Lembrei dessa hist\u00f3ria, pois, ontem, quase n\u00e3o consegui assistir ao show por conta das compulsivas palmas do p\u00fablico. No show do Paulinho Horta, era s\u00f3 o tom da m\u00fasica baixar, o baterista dar uma mudada no ritmo, que o p\u00fablico aplaudia. Mas n\u00e3o era um aplauso simples, assim, comedido. Era coisa s\u00e9ria, com gritos de &#8220;G\u00eanio&#8221;, &#8220;Lindo&#8221;, e, inclusive, um &#8220;\u00d4, tr\u00eam b\u00e3o, s\u00f4&#8221; num dos momentos de del\u00edrio da plat\u00e9ia.<\/p>\n<p>Quando o Edson Cordeiro entrou, o lance desceu a ladeira. A Diva estimulou o p\u00fablico e em alguns momentos chegou a interromper o show para papear a dist\u00e2ncia com as velhinhas que gritavam: &#8220;Volta pro Brasil, Mestre!&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 devem ter percebido que n\u00e3o sou um grande f\u00e3 de palmas. N\u00e3o credito isso a um trauma causado pela apresenta\u00e7\u00e3o do Pedro. Sempre fui assim. Ali\u00e1s, nunca entendi pra que servem as palmas. S\u00e3o um agradecimento ao artista? Um incentivo? Um sinal de que estamos vivos? Tenho que definir antecipadamente o que merece ou n\u00e3o o aplauso em p\u00e9? Enfim, o aplauso \u00e9 compuls\u00f3rio? N\u00e3o tenho a menor id\u00e9ia, mas sei que fico extremamente encabulado quando chega a &#8220;hora&#8221;. O caso \u00e9 t\u00e3o s\u00e9rio que fa\u00e7o o m\u00e1ximo para escapar at\u00e9 de um simples &#8220;parab\u00e9ns pra voc\u00ea&#8221;. Por isso me atenho a palmas controladas ao fim dos espet\u00e1culos e s\u00f3 no caso de realmente ter gostado do que vi. Acho mais seguro, sincero e respeitoso.<\/p>\n<p>Por outro lado, tenho notado que, com o passar dos anos, a humanidade caminhou na dire\u00e7\u00e3o inversa: est\u00e1 aplaudindo cada vez mais e nos piores momentos. Nos teatros, durante mon\u00f3logos; nos shows, durante solos; e at\u00e9 durante a exibi\u00e7\u00e3o de filmes nos cinemas onde os respons\u00e1veis pelas obras n\u00e3o podem ouvir. Esse excesso de bate\u00e7\u00e3o de palmas equivocada s\u00f3 me leva a pensar que seu \u00fanico prop\u00f3sito \u00e9 atender ao p\u00fablico. Dane-se o artista. O p\u00fablico quer dizer que gosta disso, daquilo; que entende o que artista quer dizer ou simplesmente bradar aos quatro ventos: &#8220;Ei, estou aqui!&#8221;. Resumindo, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o deve ter ato mais ego\u00edsta que a palma fora de hora. Coisa comum hoje em dia. Assim como diversos outros ego\u00edsmos.<\/p>\n<p>E o que diabos isso tem a ver com Ravi Shankar? Palmas fora de hora me lembram desse momento vivido por ele no concerto para Bangladesh.<\/p>\n<div class=\"lyte-wrapper fourthree\" title=\"I Ravi Shankar\" style=\"width:640px;max-width:100%;margin:5px auto;\"><div class=\"lyMe\" id=\"WYL_CB7xfKOkOJo\" itemprop=\"video\" itemscope itemtype=\"https:\/\/schema.org\/VideoObject\"><div><meta itemprop=\"thumbnailUrl\" content=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/CB7xfKOkOJo\/hqdefault.jpg\" \/><meta itemprop=\"embedURL\" content=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CB7xfKOkOJo\" \/><meta itemprop=\"duration\" content=\"T276S\" \/><meta itemprop=\"uploadDate\" content=\"2007-02-08T16:00:07.000Z\" \/><\/div><div id=\"lyte_CB7xfKOkOJo\" data-src=\"\/\/i.ytimg.com\/vi\/CB7xfKOkOJo\/hqdefault.jpg\" class=\"pL\"><div class=\"tC\"><div class=\"tT\" itemprop=\"name\">I Ravi Shankar<\/div><\/div><div class=\"play\"><\/div><div class=\"ctrl\"><div class=\"Lctrl\"><\/div><div class=\"Rctrl\"><\/div><\/div><\/div><noscript><a href=\"https:\/\/youtu.be\/CB7xfKOkOJo\" rel=\"nofollow\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/CB7xfKOkOJo\/0.jpg\" alt=\"I Ravi Shankar\" width=\"640\" height=\"460\" \/><br \/>Assista a este v\u00eddeo no YouTube<\/a><\/noscript><meta itemprop=\"description\" content=\"Conserto de Bangladesh\"><\/div><\/div><div class=\"lL\" style=\"max-width:100%;width:640px;margin:5px auto;\"><\/div><\/p>\n<blockquote><p>If you appreciate the tuning so much, I hope\u00a0you will enjoy the playing more <em><strong>&#8211; Ravi Shankar<\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Num mundo onde o povo aplaude at\u00e9 afina\u00e7\u00e3o de instrumento, n\u00e3o era hora de ficarmos na nossa e tentarmos ouvir melhor uns aos outros? Acho que apreciar\u00edamos muito mais o que vida tenta nos mostrar.<\/p>\n<p>Ah, e sem palmas. Por favor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estranho que hoje, exatamente hoje, ou melhor, ontem, exatamente ontem, tenha morrido\u00a0Ravi Shankar.\u00a0Rolou uma sincronicidade s\u00e9ria. Ontem mesmo, enquanto eu assistia ao show de Edson Cordeiro e Toninho Horta interpretando as can\u00e7\u00f5es de Herivelto Martins, eu s\u00f3 conseguia lembrar dele. Quer dizer, dele e do meu amigo\u00a0Pedro Bittencourt.\u00a0Quem \u00e9 Pedro Bittencourt?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-792","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=792"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1005,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792\/revisions\/1005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}