{"id":7949,"date":"2023-05-21T12:52:24","date_gmt":"2023-05-21T15:52:24","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=7949"},"modified":"2023-05-22T09:43:06","modified_gmt":"2023-05-22T12:43:06","slug":"estudo-dirigido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/estudo-dirigido\/","title":{"rendered":"Estudo Dirigido"},"content":{"rendered":"<p>Toda semana de provas, papai ia me buscar no col\u00e9gio e ficava comigo at\u00e9 elas terminarem. N\u00e3o sei exatamente qual era o acerto dele com mam\u00e3e, mas essa era a \u00fanica \u00e9poca em que tinha certeza que iria v\u00ea-lo. F\u00e9rias, anivers\u00e1rios, datas comemorativas; nada importava pra ele. Apenas a \u00e9poca das provas.<\/p>\n<p>&#8211; Trouxe todos os livros?<br \/>\n&#8211; Trouxe.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Carregando uma pequena biblioteca, ele me levava pro seu quarto e sala no Bairro de F\u00e1tima, e come\u00e7\u00e1vamos a estudar. Ele podia viver num lugar melhor, mas, segundo mam\u00e3e, morria de medo de n\u00e3o conseguir pagar o meu col\u00e9gio, e preferia economizar. Por isso tamb\u00e9m tinha um emprego pouco desafiante, mas seguro, que odiava, para ter certeza que poderia arcar com os meus estudos, e, no caso de uma eventualidade, ou seja, morrer, ter um seguro de vida que me bancasse at\u00e9 eu me formar. Estava t\u00e3o preparado para essa eventualidade que a sua geladeira tinha os telefones de todos que precisavam ser acionados no caso de um sinistro: desde o seguro at\u00e9 o aux\u00edlio funeral.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e dizia que uma das raz\u00f5es de ter se separado dele foi justamente essa: quando eu nasci, ele abdicou dos seus sonhos e morreu pro mundo. N\u00e3o sei se tinha sonhos ou se chegou a t\u00ea-los um dia, mas uma coisa ele queria: que eu fosse bem nas provas. Queria mesmo.<\/p>\n<p>Quando as notas chegavam, parece que adivinhava, e me ligava:<\/p>\n<p>&#8211; Como foi?<br \/>\n&#8211; Fui bem.<br \/>\n&#8211; Bem como?<br \/>\n&#8211; Tudo acima de 90, menos Hist\u00f3ria.<br \/>\n&#8211; Traz as provas pra gente revisar.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>No final do ano, quando eu passava, ele pedia pra ficar com todos os meus livros,.<\/p>\n<p>&#8211; Vai que cai a mesma coisa no ano que vem.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Eu cresci, mas a nossa rotina n\u00e3o mudou. Toda \u00e9poca de provas eu me enfurnava na casa dele at\u00e9 que eu passasse bem de ano. Um dia arrumei um namorado. Eu queria apresentar ele pro papai, mas n\u00e3o sabia como. Um dia, depois do jantar, comentei:<\/p>\n<p>&#8211; Um amigo da escola queria vir estudar comigo.<br \/>\n&#8211; Pra qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Ele n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o bem e eu queria ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ele ficou calado, como estivesse tomando uma decis\u00e3o de vida ou de morte:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 bom, mas ele estiver te atrasando, ele vai embora.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>No dia combinado, meu namoradinho apareceu e papai estudou junto com a gente. Uma hora, o menino foi no banheiro, e meu pai comentou:<\/p>\n<p>&#8211; Esse menino \u00e9 muito burro. Vai prejudicar os seus estudos.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Eu inventei uma desculpa e mandei ele embora. Nunca mais levei ningu\u00e9m pro papai conhecer.<\/p>\n<p>No ano do vestibular, eu mudei pra casa dele. Estudamos todos os dias. Quando saiu o resultado, ele me ligou:<\/p>\n<p>&#8211; Passou?<br \/>\n&#8211; Em tudo.<br \/>\n&#8211; \u00d3timo. Meu trabalho est\u00e1 feito.<br \/>\n&#8211; Pai, uma coisa.<br \/>\n&#8211; Acho que a faculdade vai ser bem dif\u00edcil. Ser\u00e1 que voc\u00ea pode me ajudar?<\/p>\n<p>Ele ficou mudo no telefone, como se estivesse tomando a decis\u00e3o mais dif\u00edcil da sua vida:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 bom. Mas me passa a bibliografia das mat\u00e9rias com anteced\u00eancia pra eu me preparar.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom. Obrigada.<br \/>\n&#8211; De nada.<\/p>\n<p>Mesmo sem precisar, todo m\u00eas eu ia pra casa dele revisar a mat\u00e9ria e fazer o trabalhos da faculdade. Sob esse falso pretexto, papai estudou tanto pra me ajudar que se estivesse matriculado poderia ter se formado comigo. Quando terminei a gradua\u00e7\u00e3o, liguei para convid\u00e1-lo para a formatura.<\/p>\n<p>&#8211; Pra qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Eu quero que voc\u00ea v\u00e1. Pra te agradecer.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o precisa.<br \/>\n&#8211; Mas eu quero, voc\u00ea pode me fazer esse favor?<\/p>\n<p>Mais uma vez emudeceu ao telefone, como se estivesse tomando um decis\u00e3o imposs\u00edvel:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 bom. Mas n\u00e3o vou ficar muito.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom. Obrigada.<\/p>\n<p>Ele foi e, como prometido, ficou pouco. Assistiu \u00e0 cerim\u00f4nia e na festa tomou apenas um chope, o que espantou Mam\u00e3e:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, s\u00f3. Desde que voc\u00ea entrou na escola ele tinha parado de beber.<\/p>\n<p>Quando terminou o chope, se levantou pra ir embora. Eu fui atr\u00e1s dele pra abrac\u00e1-lo. Ele estranhou:<\/p>\n<p>&#8211; Pra que isso?<br \/>\n&#8211; Nada. S\u00f3 pra agradecer. Obrigada.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o precisa.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>E o abracei novamente sabendo que nunca mais o veria.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas semanas a vizinha dele me ligou: ele morreu. Como estava preparado para todo tipo de trag\u00e9dia, foi enterrado sem vel\u00f3rio ou alarde. O aluguel do apartamento ia vencer e, como meu n\u00famero surpreendentemente tamb\u00e9m estava na lista de eventualidades grudada na geladeira, ela queria saber se havia algum objeto que eu queria guardar. Todo o resto seria doado ou jogado no lixo. Meio sem saber porque, eu fui l\u00e1.<\/p>\n<p>A vizinha abriu a porta e me acompanhou na visita. O apartamento continuava espartano, do mesmo jeito que na \u00e9poca em que estudava para me tornar algu\u00e9m. Apenas uma coisa curiosa: ele ainda guardava todos os meus livros e provas que us\u00e1vamos na revis\u00e3o. Abri alguns e tive vontade de chorar relembrando regras gramaticais, per\u00edodos hist\u00f3ricos, e equa\u00e7\u00f5es de segundo grau. Mas n\u00e3o chorei.<\/p>\n<p>Botei os livros de volta no lugar e chamei a vizinha:<\/p>\n<p>&#8211; Pode doar tudo.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o vai querer guardar algo do seu pai?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o precisa.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 bom.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda semana de provas, papai ia me buscar no col\u00e9gio e ficava comigo at\u00e9 elas terminarem. N\u00e3o sei exatamente qual era o acerto dele com mam\u00e3e, mas essa era a \u00fanica \u00e9poca em que tinha certeza que iria v\u00ea-lo. F\u00e9rias, anivers\u00e1rios, datas comemorativas; nada importava pra ele. 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