{"id":8451,"date":"2023-10-11T05:12:05","date_gmt":"2023-10-11T08:12:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=8451"},"modified":"2023-10-11T05:13:44","modified_gmt":"2023-10-11T08:13:44","slug":"projeto-de-ladrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/projeto-de-ladrao\/","title":{"rendered":"Projeto de Ladr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Era s\u00f3 chegar meu anivers\u00e1rio, o Natal, o dia das crian\u00e7as, que meu pai deixava escondida no cantinho da boca, pronta pra ser usada, a velha frase:<\/p>\n<p>-Voc\u00ea quer que eu roube?<\/p>\n<p>N\u00e3o importava o que fosse, ou a raz\u00e3o para quer\u00ea-lo, meu pai sempre respondia aos meus desejos, grandes ou pequenos, com o mesmo questionamento:<\/p>\n<p>-Voc\u00ea quer que eu roube?<\/p>\n<p>N\u00e3o, eu n\u00e3o queria que ele roubasse. Se n\u00e3o pud\u00e9ssemos comprar, eu at\u00e9 entenderia. Ou acho que entenderia, se me dessem a chance de entend\u00ea-lo. S\u00f3 n\u00e3o queria sentir que meu desejo fosse transformar meu pai num ladr\u00e3o, e eu no filho de um ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando via meus amigos com os brinquedos que eu desejava, eu me perguntava: ser\u00e1 que seus pais roubaram para conseguir aquilo? Ser\u00e1 que viv\u00edamos cercados por um c\u00edrculo secreto de bandidos, roubando uns dos outros para oferecer aos filhos, futuros ladr\u00f5es, o produto de suas vilanias? Se todos eram desonestos, por que cabia a mim, e, \u00f3bvio, a meu pai o papel dos \u00faltimos honestos do mundo? N\u00e3o parecia justo; n\u00e3o parecia honesto; n\u00e3o parecia, quer dizer, n\u00e3o era honesto ser o \u00fanico honesto num mundo de ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>Para piorar essa impress\u00e3o, meu pai ainda refor\u00e7ava que todos esses bens materiais, conseguidos de forma ilegal, n\u00e3o tinham o destino certo:<\/p>\n<p>-V\u00ea s\u00f3 os pais dos teus amigos. Todos com carro do ano, mas, quando voc\u00ea vai comer na casa deles, o que te oferecem? Cream Cracker e \u00e1gua. V\u00ea s\u00f3 se pode: Cream Cracker e \u00e1gua.<\/p>\n<p>Um dia, na casa de um desses amigos ricos, n\u00e3o deu outra: me serviram Cream Cracker e \u00e1gua. E eu nunca mais esqueci das palavras do meu pai e do que elas significavam para a nossa miss\u00e3o de vida: ganhar dinheiro honestamente para dar o melhor tratamento aos outros.<\/p>\n<p>Assim, em casa, n\u00e3o t\u00ednhamos na garagem um carro do ano, quer dizer, sequer t\u00ednhamos garagem ou carro, de que ano fosse, mas, quando receb\u00edamos as pessoas, a mesa era farta e ao mesmo tempo humilde.<\/p>\n<p>-Isso? Que nada, n\u00e3o deu trabalho nenhum. \u00c9 um prazer receb\u00ea-los.<\/p>\n<p>N\u00e3o era. Dava um trabalh\u00e3o, mas a gente ficava feliz por n\u00e3o ser ladr\u00e3o. Por\u00e9m, ser um excelente anfitri\u00e3o n\u00e3o dava conta de todos os meus desejos e, para atend\u00ea-los, eu precisei aprender a roubar. De forma honesta.<\/p>\n<p>Quando eu queria algo que os outros tinham, eu tratava de obt\u00ea-lo, legalmente, por algum tipo de subterf\u00fagio. Meus amigos tinham jogos de Atari que eu queria? Eu trocava com eles por bonecos de Star Wars que eu n\u00e3o queria mais. Eu queria revistas em quadrinhos importadas? Eu as pagava com o dinheiro que conseguia por discos usados que eu encontrava no lixo do pr\u00e9dio e vendia nos sebos do centro. Eu queria mais revistas em quadrinhos? Eu as comprava na banca e as revendia em cima de um len\u00e7ol que eu botava na entrada da portaria. O escambo e o com\u00e9rcio viraram a minha forma de crime. Aprendi a roubar para ser parte da sociedade de consumo.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, todas as atividades comerciais ou financeiras passaram a ter um pouquinho de gosto de roubo para mim. Ao mesmo tempo que n\u00e3o eram totalmente erradas, n\u00e3o eram totalmente certas, pois envolviam realizar um desejo meu. E desejar, meu pai n\u00e3o me deixava esquecer, n\u00e3o era nada mais do que um gatilho para incitar ao roubo.<\/p>\n<p>Agora, enquanto escrevo essas palavras, cometo mais um crime: roubo a sua aten\u00e7\u00e3o, ansiando por um contato mediado por palavras numa tela ou numa folha de papel. O meu crime \u00e9 escrever, a minha motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 te tocar. Um ladr\u00e3o de palavras.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea quer que eu roube?- meu pai continua gritando na minha mente.<\/p>\n<p>Tarde demais, pai. Eu j\u00e1 roubei no seu lugar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-7620 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023-300x50.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era s\u00f3 chegar meu anivers\u00e1rio, o Natal, o dia das crian\u00e7as, que meu pai deixava escondida no cantinho da boca, pronta pra ser usada, a velha frase: -Voc\u00ea quer que eu roube? 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