{"id":8457,"date":"2023-10-11T05:20:00","date_gmt":"2023-10-11T08:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=8457"},"modified":"2023-10-11T05:20:00","modified_gmt":"2023-10-11T08:20:00","slug":"bate-e-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/bate-e-volta\/","title":{"rendered":"Bate e Volta"},"content":{"rendered":"<p>O ninho n\u00e3o fica vazio de uma hora pra outra. O abandono acontece, como uma fal\u00eancia, paulatinamente e de repente. Ele, acostumado a ser abandonado, j\u00e1 antevia o de repente no paulatinamente que vive todos os dias.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 um desses dias, mas \u00e9 noite.<\/p>\n<p>D\u00e1 dez horas e o celular vibra. Mensagem dela:<\/p>\n<p>PODE VIR ME BUSCAR.<\/p>\n<p>Ele vai. Sem pressa. Tem tempo de se banhar, se arrumar e, inclusive, ir a p\u00e9. Se chegar r\u00e1pido, sabe, ela vai reclamar. E se chegar tarde tamb\u00e9m. Fazer o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Pega a Esteves Junior e encara a rua escura, protegida da luz dos postes pelas grossas copas das \u00e1rvores baixas. Passa em frente aos barbeiros, onde a essa hora ainda tem gente cortando o cabelo; para na Marlene, toma uma \u00e1gua t\u00f4nica e conversa com quem estava l\u00e1 sobre assuntos que n\u00e3o tomar\u00e3o o menor espa\u00e7o na sua mem\u00f3ria; d\u00e1 um oi pra Nan\u00e1 e promete passar, no dia seguinte, pra comprar aquele novo queijo que chegou hoje. Na Upa Pet, com uma fila de pets doentes, tadinhos!, na porta, dobra a direita e pega a Paissandu.<\/p>\n<p>Sob as sombras das palmeiras imperiais, adornando o caminho do pal\u00e1cio Laranjeiras at\u00e9 o mar, esbarra na princesa Isabel a caminho da praia do Flamengo indo desafiar a moral do segundo imp\u00e9rio para dar um mergulho e tentar, sem sucesso, acabar com a escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Licen\u00e7a, princesa.<\/p>\n<p>Toda, plebeu.<\/p>\n<p>\u00c9 uma gra\u00e7a essa menina. O orgulho do pai.<\/p>\n<p>Na esquina da Ypiranga, espera ver o Paulinho sentado em seu banco, na portaria do pr\u00e9dio do Ouro distribuindo seus doces para as crian\u00e7as. Mas ele n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, mas ao mesmo tempo est\u00e1. Na mem\u00f3ria, sente o gosto da maizena e do dia, em que o viu sem as chagas que carrega no rosto, depois de ser liberado do hospital sob massivas doses de analg\u00e9sicos.<\/p>\n<p>Antes de chegar ao Col\u00e9gio Excel\u00eancia, ele atravessa a rua para ser n\u00e3o ser atacado pelos piolhos, criados no sangue fresco do maternal, que ostensivamente se escondem nos rejuntes dos tijolos do muro que lhes serve de tocaia para surpreender os pedestres que querem atacar.<\/p>\n<p>Chega na Pinheiro Machado e espera o eterno sinal da Coelho Neto fechar. Olha para suas m\u00e3os e sente elas se enrugarem e deca\u00edrem como se o rel\u00f3gio estivesse contra si. Na esquina paralisada pelo vermelho do sinal, meninos de rua cospem fogo e fazem malabares preparando a prociss\u00e3o de um rei proscrito que o povo n\u00e3o abra\u00e7ou, mas votou.<\/p>\n<p>Finalmente o sinal fecha e ele atravessa. Na fronteira entre o Est\u00e1dio do Fluminense e o Pal\u00e1cio das Laranjeiras os ratos que nos governam saem de suas tocas com escoltas policiais, parando o tr\u00e2nsito e esmagando a nossa liberdade, enquanto os ratos do clube amistosamente se banqueteiam com o lixo refinado dos s\u00f3cios do p\u00f3 de arroz.<\/p>\n<p>Atravessa o contra fluxo vindo da Tijuca e sente atrav\u00e9s do T\u00fanel Santa B\u00e1rbara o eco dos gritos dos sambistas fantasmas da Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed em busca de paz de esp\u00edrito, consolo e conselho que nunca ter\u00e3o.<\/p>\n<p>Entra finalmente na \u00c1lvaro Chaves e, para chegar na porta do Clube onde a buscar\u00e1, precisa desviar de hordas atemporais de debutantes endividadoras de pais que flanam faceiras em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 inescap\u00e1vel maturidade que tentam evitar com sete saias de fil\u00f3. Infelizmente, antes que elas consigam dobrar a Soares Cabral, viram as mentirosas baratas que, segundo as cantigas que cantavam na inf\u00e2ncia, usavam apenas uma saia de fil\u00f3.<\/p>\n<p>E, enfim, a v\u00ea. Nem crian\u00e7a, nem adolescente, nem adulta, batendo o p\u00e9 na porta do clube enquanto olha pro celular. Ainda sem saias de fil\u00f3, ou an\u00e1guas, mas uma promessa n\u00e3o concretizada de abandono do ninho.<\/p>\n<p>Oi, filha.<\/p>\n<p>Oi, pai. Voc\u00ea demorou.<\/p>\n<p>Pois, \u00e9. Voc\u00ea n\u00e3o imagina quanto.<\/p>\n<p>E fazem mais uma vez o caminho de volta em dire\u00e7\u00e3o ao ninho. N\u00e3o ser\u00e1 dessa vez que ele ficar\u00e1 abandonado de vez. N\u00e3o dessa vez. Em vez.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-7620 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023.jpg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/mundial_de_escritura_2023-300x50.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ninho n\u00e3o fica vazio de uma hora pra outra. O abandono acontece, como uma fal\u00eancia, paulatinamente e de repente. Ele, acostumado a ser abandonado, j\u00e1 antevia o de repente no paulatinamente que vive todos os dias. Hoje \u00e9 um desses dias, mas \u00e9 noite. D\u00e1 dez horas e o celular vibra. 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