{"id":8644,"date":"2024-04-13T06:01:14","date_gmt":"2024-04-13T09:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=8644"},"modified":"2024-04-13T06:01:14","modified_gmt":"2024-04-13T09:01:14","slug":"a-sobrevida-do-autor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/a-sobrevida-do-autor\/","title":{"rendered":"A (sobre)vida do autor"},"content":{"rendered":"<p>M\u00eas passado, como n\u00e3o fazia h\u00e1 tempos, assisti ao Oscar e, ap\u00f3s o evento, ca\u00ed num sono reparador e sonhei com a ideia que vou descrever abaixo. Levou um pouco de tempo pra eu conseguir concatenar as ideias, por isso, pe\u00e7o desculpas antecipadas pelas cru\u00e9is maquina\u00e7\u00f5es do meu inconsciente e agrade\u00e7o antecipadamente a voc\u00eas por me concederem a sua aten\u00e7\u00e3o nesse processo de reflex\u00e3o a c\u00e9u aberto. Afinal, \u00e9 pra isso que serve esse formato de blog, n\u00e3o? Ent\u00e3o vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outras formas de arte, no cinema, ou no audiovisual, em geral, h\u00e1 um conflito mais claro entre o que chamamos de obras &#8220;comerciais&#8221; e de autor. Ou, pior, a balan\u00e7a sempre tende a pender para o comercial. Na TV, por exemplo, as tais obras de autor s\u00e3o super raras e normalmente s\u00f3 existem por uma resposta inesperada do p\u00fablico ou por alguma brecha gerada por crises financeiras onde experimentalismos mais radicais acabam sendo tolerados, at\u00e9 que eles se tornem, tamb\u00e9m, produtos e franquias.<\/p>\n<p>O Oscar durante muitos anos sempre andou, ou anda, no fio dessa navalha: se apresenta como a &#8220;festa da ind\u00fastria&#8221;, enquanto costuma premiar os autores que trazem seus trabalhos mais idiossincr\u00e1ticos pras telas. O caso de Spielberg \u00e9 um dos mais representativos. Depois de anos de blockbusters e loas da cr\u00edtica, ganhou seu primeiro Oscar com um filme fora do seu estilo tradicional, ap\u00f3s alguns exerc\u00edcios estil\u00edsticos que foram recebidos com diferentes graus de aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esse conflito n\u00e3o acontece com tanta frequ\u00eancia ou com a mesma for\u00e7a em outras artes. Na Literatura, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 comum vermos um trabalho que esteja t\u00e3o desvinculado da autoria e da posi\u00e7\u00e3o individual do autor sobre a vida. H\u00e1, sim, obras de g\u00eanero, mas, por mais que, nesses caos, os autores possam fazer uso de f\u00f3rmulas para atender a grupos espec\u00edficos de consumidores, eles raramente se desvinculam totalmente dos seus interesses basais e das suas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. Explico.<\/p>\n<p>Por exemplo, enquanto \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel que no cinema um diretor, roteirista ou atriz antite\u00edsta, e n\u00e3o simplesmente ate\u00edsta, participem da produ\u00e7\u00e3o de uma obra de exalta\u00e7\u00e3o religiosa, \u00e9 muito mais dif\u00edcil isso ocorrer na literatura, mesmo quando o autor est\u00e1 trabalhando como ghost ou assumindo uma obra comissionada. Ou seja, o papel do autor e a sua representa\u00e7\u00e3o na obra s\u00e3o mais fortes.<\/p>\n<p>Se formos pensar em como essa divis\u00e3o se d\u00e1 nas demais artes, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, nesse ponto, as artes gr\u00e1ficas, de perfil mais artesanal, como os quadrinhos, a escultura e a pintura, se aproximam mais do cinema do que da literatura, enquanto o teatro, um esfor\u00e7o comunit\u00e1rio, consegue se colocar num meio de caminho. A m\u00fasica, j\u00e1, nem se fala. Est\u00e1 de m\u00e3os dadas com o cinema nesse ponto.<\/p>\n<p>Mas o que seria determinante no processo de produ\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o, ou &#8220;consumo&#8221; das obras que influenciaria a sua rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima ou afastada da autoria?<\/p>\n<p>A princ\u00edpio obras prioritariamente coletivas, como se diz, criadas por comit\u00eas, tem um car\u00e1ter mais comercial pois tamb\u00e9m requisitam n\u00e3o s\u00f3 mais recursos para existirem como tamb\u00e9m tem fluxos de produ\u00e7\u00e3o mais complexos com diversas camadas de processos decis\u00f3rios coletivos ou descentralizados. Nesses casos, os ditos interesses comerciais poderiam se manifestar e se justificar com mais facilidade, diminuindo o papel e a express\u00e3o do autor nas sua manifesta\u00e7\u00f5es. Em obras individuais, esse tipo de inten\u00e7\u00e3o mercantilista \u00e9 mais dif\u00edcil de ser apoiada e os que se colocam dessa forma acabam sendo taxados de Sell Outs.<\/p>\n<p>Outro fator determinante seria em que passo do fluxo criativo ela se encontra. As obras mais pr\u00f3ximas da ideia original tenderiam a ser mais autorais, pois menos analisadas e mais instintivas, enquanto aquelas que requerem m\u00faltiplas revis\u00f5es ou s\u00e3o simplesmente adapta\u00e7\u00f5es ou derivativas tem um distanciamento maior do desejo inicial de cria\u00e7\u00e3o sendo mais suscet\u00edveis a inclina\u00e7\u00f5es comerciais.<\/p>\n<p>Um terceiro crit\u00e9rio desse vi\u00e9s mais ou menos comercial \u00e9 o investimento necess\u00e1rio e o retorno esperado, tanto financeiro como de esfor\u00e7o. Obras que envolvem baixo retorno e investimento tendem a ser mais pessoais, pois tanto os riscos como as expectativas s\u00e3o menores. Quando as expectativas e os recursos necess\u00e1rios v\u00e3o aumentando as obras v\u00e3o adquirindo n\u00e3o s\u00f3 salvaguardas e preocupa\u00e7\u00f5es financeiras como tamb\u00e9m de imagem, o que n\u00e3o deixa de ser um ativo. Al\u00e9m disso, as obras em artes pl\u00e1sticas, pelo seu car\u00e1ter de unicidade e por estarem no mercado de luxo, podem tender a gerar padr\u00f5es mais repetitivos ligados ao autor como grife mais do que como express\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, h\u00e1 atualmente um ponto que suplanta todos esses outros: a press\u00e3o interna para ser vend\u00e1vel.<\/p>\n<p>Meio que numa vibe de A Sociedade do Cansa\u00e7o, e inspirado por leituras como Story do McKee, A Jornada do Escritor do Vogler, dentre outras obras, artistas, em especial a galera da Literatura, que, por tudo que disse acima, deveria a que menos estaria preocupada com isso, est\u00e1 obcecada em fazer a coisa certa, i.e., ter sucesso comercial.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho e extremamente contraproducente \u00e0s artes que aquelas manifesta\u00e7\u00f5es com maior liberdade estejam sendo, por que n\u00e3o usar o termo?, censuradas na sua concep\u00e7\u00e3o por desejos de sucesso comercial.<\/p>\n<p>Por isso, quando vi, no Oscar, sinais de uma abertura a obras menos comerciais, confesso que fiquei mais feliz. Espero sinceramente que os meus amigos da literatura comecem a ser influenciados a abandonar a ideia de que bonito \u00e9 fazer dinheiro. A vida \u00e9 muita curta pra voc\u00ea abandonar a arte que fala ao seu cora\u00e7\u00e3o pra fazer sucesso (ilus\u00f3rio) em redes sociais controladas por rob\u00f4s.<span class=\"ql-custom-break\"><span contenteditable=\"false\"><br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n<p>Enfim, Roland Barthes pode ter proclamado a morte do autor, mas n\u00e3o vamos provocar nossa total aniquila\u00e7\u00e3o, com motivos puramente mercen\u00e1rios, pelas nossas pr\u00f3prias m\u00e3os. Os leitores merecem se relacionar com, n\u00f3s, os autores mesmo que estejamos &#8220;falecidos&#8221;. \ud83d\ude09<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00eas passado, como n\u00e3o fazia h\u00e1 tempos, assisti ao Oscar e, ap\u00f3s o evento, ca\u00ed num sono reparador e sonhei com a ideia que vou descrever abaixo. 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