{"id":8828,"date":"2024-08-17T13:24:45","date_gmt":"2024-08-17T16:24:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=8828"},"modified":"2024-08-17T13:24:45","modified_gmt":"2024-08-17T16:24:45","slug":"oei04-a-esquizofrenia-narrativa-das-identidades-editoriais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/oei04-a-esquizofrenia-narrativa-das-identidades-editoriais\/","title":{"rendered":"[oei#04] A esquizofrenia narrativa das identidades editoriais"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8774 aligncenter\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png 1100w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-300x60.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-1024x205.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-768x154.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1100px) 100vw, 1100px\" \/><\/p>\n<p>Mal cheguei na biblioteca, a primeira coisa que me disseram foi:<\/p>\n<p>\u2014 RIP Companhia das Letras. Nunca mais compro nada dessa editora.<\/p>\n<p>Como estou exercendo o salutar h\u00e1bito de ler menos not\u00edcias, n\u00e3o sabia do que estavam falando. Me explicaram:<\/p>\n<p>\u2014 O Delfim Netto morreu hoje e, al\u00e9m de anunciarem que v\u00e3o publicar a biografia dele, ainda fizeram &#8220;homenagem&#8221;, lamentando a sua morte. Valha-me, Deus, gente! Nos dias de hoje, passar pano pra cupincha da ditadura \u00e9 o fim da picada.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que fui verificar.<\/p>\n<p><center><\/center><\/p>\n<blockquote class=\"instagram-media\" style=\"background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);\" data-instgrm-captioned=\"\" data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C-knIsuuZWe\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\">\n<div style=\"padding: 16px;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: row; align-items: center;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;\"><\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 60px;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"padding: 19% 0;\"><\/div>\n<div style=\"display: block; height: 50px; margin: 0 auto 12px; width: 50px;\"><\/div>\n<div style=\"padding-top: 8px;\">\n<div style=\"color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;\">View this post on Instagram<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"padding: 12.5% 0;\"><\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: row; margin-bottom: 14px; align-items: center;\">\n<div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(0px) translateY(7px);\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; height: 12.5px; transform: rotate(-45deg) translateX(3px) translateY(1px); width: 12.5px; flex-grow: 0; margin-right: 14px; margin-left: 2px;\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; height: 12.5px; width: 12.5px; transform: translateX(9px) translateY(-18px);\"><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"margin-left: 8px;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 20px; width: 20px;\"><\/div>\n<div style=\"width: 0; height: 0; border-top: 2px solid transparent; border-left: 6px solid #f4f4f4; border-bottom: 2px solid transparent; transform: translateX(16px) translateY(-4px) rotate(30deg);\"><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"margin-left: auto;\">\n<div style=\"width: 0px; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-right: 8px solid transparent; transform: translateY(16px);\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; flex-grow: 0; height: 12px; width: 16px; transform: translateY(-4px);\"><\/div>\n<div style=\"width: 0; height: 0; border-top: 8px solid #F4F4F4; border-left: 8px solid transparent; transform: translateY(-4px) translateX(8px);\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center; margin-bottom: 24px;\">\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 224px;\"><\/div>\n<div style=\"background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; width: 144px;\"><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;\"><a style=\"color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C-knIsuuZWe\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A post shared by Companhia das Letras (@companhiadasletras)<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n<p>De fato, isso tinha acontecido, mas me parece que, depois do backlash imediato, na postagem trocaram o &#8220;lamentamos&#8221; original por &#8220;nos solidarizamos com seus amigos e familiares&#8221; ou algo assim.<\/p>\n<p>Entendo a raiva dos leitores, mas o que mais me pegou foi que essa rea\u00e7\u00e3o quebra a fantasia que n\u00e3o \u00e9 a editora que vende o livro, mas, sim , o autor.<\/p>\n<p>A editora, mais do que uma presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o para a publica\u00e7\u00e3o de obras, carrega consigo uma identidade que \u00e9 mais do que um simples posicionamento de mercado. H\u00e1 uma expectativa de que os livros daquela editora tenham uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o entre si que evidencie os posicionamentos pol\u00edticos, filos\u00f3ficos e est\u00e9ticos dos que ali trabalham e dos que leem suas publica\u00e7\u00f5es. Se lemos livros de uma editora, de certa forma, comungamos com ideias similares e temos, por que n\u00e3o?, uma identifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pessoal com aquela marca. Somos, enfim, uma comunidade.<\/p>\n<p>Portanto, altera\u00e7\u00f5es em decis\u00f5es e linhas editoriais, mais do que simplesmente influenciarem resultados financeiros, estar\u00e3o mexendo em relacionamentos. Lembro de ter vivido uma sensa\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o similar a essa, que est\u00e3o me relatando, com a L&amp;PM.<\/p>\n<p>Na segunda metade dos anos 1980, gra\u00e7as \u00e0 sua cole\u00e7\u00e3o Alma Beat da L&amp;PM, o Angry Young Man dentro de mim encontrou um escape est\u00e9tico para as suas frustra\u00e7\u00f5es. Kerouac, Corso, Ginsberg, Ferlinghetti, toda a trupe beat, onde ainda inclu\u00edram de convidado o Bukowski, apesar de editada em outros lugares, se encontrava ali em peso, unida e tratada com o merecido respeito, com a tradu\u00e7\u00e3o, por exemplo, do hoje best seller, Eduardo Bueno. Somando isso \u00e0s mem\u00f3rias que tinha dos livros de humor e pe\u00e7as de teatro de Woody Allen, J\u00f4 Soares, e Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, lan\u00e7ados no in\u00edcio da d\u00e9cada, a L&amp;PM se tornou uma esp\u00e9cie de porto seguro pra mim.<\/p>\n<p>Era um autor novo que me parecia interessante? Se saiu pela L&amp;PM, vamos dar uma chance. Era um autor consagrado do qual tinha ran\u00e7o? A L&amp;PM publicou um livro dele, vamos dar uma segunda chance.<\/p>\n<p>A editora, mais do que a respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o, se tornou um selo de qualidade na curadoria e tamb\u00e9m um lar. Confesso que quando n\u00e3o encontrava as edi\u00e7\u00f5es da L&amp;PM, na \u00e9poca n\u00e3o t\u00e3o f\u00e1ceis de achar no Rio, me rendia \u00e0 Brasiliense, ou at\u00e9 ao C\u00edrculo do Livro, mas sempre com um aperto no cora\u00e7\u00e3o e com a esperan\u00e7a de que, em breve, encontraria a edi\u00e7\u00e3o devida para a minha biblioteca.<\/p>\n<p>Teve uma vez, por exemplo, em que estava voltando do col\u00e9gio, num s\u00e1bado de tarde, e esbarrei com o volume I do Cr\u00f4nicas de um Amor Louco, jogado numa lona de pl\u00e1stico que se fingia de banca de camel\u00f4. S\u00f3 com o dinheiro da passagem, depois de ouvir do dubl\u00ea de livreiro que o livro era raro- sim, era-, e que estava at\u00e9 barato- sim, estava-, implorei a ele para esperar que eu fosse correndo pra casa buscar o dinheiro para comprar o livro. Assim prometi, e assim fiz. Ponham na conta da minha adolesc\u00eancia, mas n\u00e3o sei se faria o mesmo pelo livro de outra editora. Apesar de toda a fidelidade, essa hist\u00f3ria de amor teve seu fim.<\/p>\n<div id=\"attachment_8830\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8830\" class=\"wp-image-8830 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/FireShot-Capture-081-Cronica-de-um-Amor-Louco-Parte-1-erecoes-Ejaculacoes-Exibicionismo_-www.estantevirtual.com_.br_.png\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/FireShot-Capture-081-Cronica-de-um-Amor-Louco-Parte-1-erecoes-Ejaculacoes-Exibicionismo_-www.estantevirtual.com_.br_.png 225w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/FireShot-Capture-081-Cronica-de-um-Amor-Louco-Parte-1-erecoes-Ejaculacoes-Exibicionismo_-www.estantevirtual.com_.br_-201x300.png 201w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><p id=\"caption-attachment-8830\" class=\"wp-caption-text\">O objeto de desejo da minha adolesc\u00eancia<\/p><\/div>\n<p>Em meados dos anos 1990, por conta de crises financeiras, a L&amp;PM, <a href=\"https:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805133&amp;SecaoID=845253&amp;SubSecaoID=384748#:~:text=Em%20meio%20%C3%A0s%20dificuldades%20financeiras%20da%20d%C3%A9cada%20de%201990%2C%20a%20L%26PM%20Editores%20decidiu%20romper%20com%20o%20passado%20e%20passou%20a%20construir%20sua%20nova%20hist%C3%B3ria%20com%20os%20olhos%20voltados%20para%20o%20futuro.%20Em%201997%2C%20surgia%20a%20Cole%C3%A7%C3%A3o%20L%26PM%20Pocket.\">como contam no seu pr\u00f3prio site<\/a>,\u00a0 criou a L&amp;PM Pocket. Assim tudo o que era raro e exclusivo, na minha opini\u00e3o, come\u00e7ou a se tornar de consumo de massa. Senti, sem a menor just\u00edficativa, \u00f3bvio, que tinha sido tra\u00eddo e que a L&amp;PM, de alguma maneira, tinha desrespeitado um acordo que me permitia ser um leitor dela, sem precisar compartilhar esse prazer com mais ningu\u00e9m. Afinal, ela era minha, pois parte da minha hist\u00f3ria estava ligada \u00e0 ela.<\/p>\n<p>Isso gerou em mim o que eu costumo chamar de disson\u00e2ncia narrativa. \u00c9 um fen\u00f4meno que ocorre quando recebemos sinais trocados de narrativa vindos do mesmo lugar. Antes eu me identificava como leitor da cole\u00e7\u00e3o Alma Beat, fazendo, na minha cabe\u00e7a, parte de um grupo seleto, depois esses mesmos livros, que participaram da minha forma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 eram pensados e impressos como literatura corriqueira e popularizados ao seu limite.<\/p>\n<p>Esse tipo de altera\u00e7\u00e3o na narrativa mexia n\u00e3o s\u00f3 na minha opini\u00e3o sobre a L&amp;PM, mas tamb\u00e9m na minha vis\u00e3o sobre a minha pr\u00f3pria identidade enquanto leitor. Sob o risco de come\u00e7ar a me identificar com algo que gerava contradi\u00e7\u00f5es, as minha op\u00e7\u00f5es seriam apenas ignorar o ocorrido, e me abra\u00e7ar \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, quase como a um culto, ou rejeitar essa rela\u00e7\u00e3o e lidar com esse corte na minha pr\u00f3pria identidade. Escolhi a segunda op\u00e7\u00e3o, e, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 o que eu sinto estar ocorrendo no caso da Companhia das Letras e o Delfim.<\/p>\n<p>Primeiro, n\u00e3o me espanta a publica\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias do Delfim pela Companhia. Eles sempre, como apontaram em alguns coment\u00e1rios na pr\u00f3pria postagem, tiveram um leque ideol\u00f3gico amplo em seu portf\u00f3lio. Por\u00e9m, isso sempre foi feito com o devido cuidado, respeitando o que a marca representava, e a orienta\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios fundadores e leitores.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o podemos esquecer, a Companhia n\u00e3o \u00e9 mais uma editora independente. Al\u00e9m das diversas aquisi\u00e7\u00f5es que fez no seu processo de crescimento, hoje, parte dela pertence um grande conglomerado internacional, a Penguin Random House. Nesses processos de expans\u00e3o, \u00e9 comum que as identidades se diluam e se tornem mais orienta\u00e7\u00f5es de marca voltadas aos seus, sempre em crescimento, nichos de mercado. Isso faz com que o cuidado com os relacionamentos dos antigos apoiadores e clientes se torne ainda mais delicado e cr\u00edtico. A\u00e7\u00f5es que pisam fora da linha editorial, seja na escolha ou na divulga\u00e7\u00e3o de novos t\u00edtulos, por mais que n\u00e3o tenham impacto na enorme massa que visam atender, podem gerar essa esquizofrenia narrativa que afastar\u00e1 aqueles que, anteriormente, depositavam parte de suas identidades na rela\u00e7\u00e3o com a editora. E n\u00e3o custa muito: um simples \u201clamentamos\u201d no lugar de um &#8220;nos solidarizamos com amigos e familiares&#8221; pode ser o in\u00edcio do fim de uma longa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A morte do Delfim Neto de forma alguma matou junto com ele a Companhia das Letras, mas, com certeza, gerou um abalo significativo na ideia que ela representava para um grande grupo de leitores. Vamos ver como isso se desenrola mais para frente. Se minha hist\u00f3ria com a L&amp;PM servir de refer\u00eancia, posso dizer que ainda tenho meus encontros ocasionais com ela, espor\u00e1dicos, em leituras na praia, em aeroportos, ou em viagens, por pura conveni\u00eancia; mas o amor, esse, na boa, acabou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mal cheguei na biblioteca, a primeira coisa que me disseram foi: \u2014 RIP Companhia das Letras. Nunca mais compro nada dessa editora. 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