{"id":8951,"date":"2024-10-13T14:44:09","date_gmt":"2024-10-13T17:44:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=8951"},"modified":"2024-10-27T08:08:52","modified_gmt":"2024-10-27T11:08:52","slug":"oei10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/oei10\/","title":{"rendered":"[oei#10] Um elogio \u00e0 rabugice dos livreiros ficcionais e reais"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-8774\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png 1100w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-300x60.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-1024x205.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-768x154.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1100px) 100vw, 1100px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 de prop\u00f3sito, mas, em todas as obras cujo cen\u00e1rio principal \u00e9 uma livraria ou um com\u00e9rcio de produtos culturais, as protagonistas invariavelmente s\u00e3o pessoas intrat\u00e1veis e \u201cfracassadas\u201d. N\u00e3o estou exagerando. Desde os moderninhos de Alta Fidelidade e Black Books, passando pelos inofensivos livreiros de Notting Hill e Mensagem para voc\u00ea, at\u00e9 o sopor\u00edfero A. J. Fikry do livro e do filme de mesmo nome, todos s\u00e3o pessoas com vidas interiores razoavelmente ricas e de grande erudi\u00e7\u00e3o, mas que est\u00e3o passando por processos complexos de fal\u00eancia econ\u00f4mica e psicol\u00f3gica, enquanto se exasperam com a popula\u00e7\u00e3o ignara e o estado atual da cultura. Olhando dessa maneira, parece at\u00e9 n\u00e3o haver hist\u00f3rias de sucesso envolvendo livrarias, seus funcion\u00e1rios, e propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>T\u00e1 bom, at\u00e9 na vida real essas hist\u00f3rias s\u00e3o raras, mas n\u00e3o \u00e9 um pouco cruel s\u00f3 guardar esse tipo de propaganda do sucesso para cadeias de fast food, corretoras de a\u00e7\u00f5es, e vendas por telemarketing? Parece at\u00e9 que o fracasso, com brio e \u00e9tica- sim, eu percebi esse detalhe paternalista que eles utilizam- \u00e9 o \u00fanico destino reservado aos livreiros ficcionais.<\/p>\n<div id=\"attachment_8956\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8956\" class=\"wp-image-8956 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/94cc9e07-c29d-4bd8-9f04-c4dc3dce37d5_text.gif\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"170\" \/><p id=\"caption-attachment-8956\" class=\"wp-caption-text\">Sim, o problema n\u00e3o \u00e9 sermos nichados, os clientes \u00e9 que s\u00e3o ruins<\/p><\/div>\n<p>Como j\u00e1 fui, quer dizer, sou livreiro- afinal livreiro, como fumante, a gente nunca deixa de ser, s\u00f3 fica na reserva- eu me pergunto o quanto a representa\u00e7\u00e3o dessa classe profissional \u00e9 acurada, ou se essa \u00e9 s\u00f3 uma maneira velada da m\u00eddia expressar um julgamento de valor sobre o mercado cultural de varejo, ou, quem sabe, talvez, os dois. Pensando bem, infelizmente vou ser obrigado a dar o bra\u00e7o a torcer, os autores n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o errados de nos retratar dessa maneira. Esse \u00e9 um daqueles casos em que a fic\u00e7\u00e3o quase acerta na mosca.<\/p>\n<p>Eu, e os muitos livreiros que conheci somos bem parecidos com isso o que a fic\u00e7\u00e3o mostra: um povo sem grana e, t\u00e1, um pouco pedante. Pra n\u00e3o ficar ruim pra gente, vamos reformular: pessoas que n\u00e3o se alinham com os crit\u00e9rios de sucesso da sociedade capitalista, e t\u00eam opini\u00f5es radicais sobre assuntos herm\u00e9ticos, embasadas em fontes inacess\u00edveis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral. Somos, em resumo, depressivos e irritadi\u00e7os; o que, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX ,os tratados psiqui\u00e1tricos chamavam de neurast\u00eanicos, ou que, no linguajar corrente, a gente poderia chamar de chatos.<\/p>\n<div id=\"attachment_8955\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8955\" class=\"wp-image-8955 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/2671bd7d-b02d-4b3e-81cb-5075dcce39b2_text.gif\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"212\" \/><p id=\"caption-attachment-8955\" class=\"wp-caption-text\">Sim, somos esnobes<\/p><\/div>\n<p>Mas, deixe-me fazer aqui uma defesa da nossa classe: como poder\u00edamos ser diferentes?<\/p>\n<p>Somos, em geral, gente cheia de conhecimentos pouco \u00fateis para a vida comum, e que, por isso mesmo, entendemos a farsa que vivemos em sociedade. Por pura prote\u00e7\u00e3o, nos escondemos do mundo em templos devotados n\u00e3o ao com\u00e9rcio, mas, sim, \u00e0 reflex\u00e3o e ao pensamento. \u00c9 nesses espa\u00e7os seguros, como salas do tesouro, que esperamos aqueles que vivem na roda viva do mundo real para lhes iluminar um pouco com a nossa sabedoria n\u00e3o acad\u00eamica e n\u00e3o convencional, ou, quando eles n\u00e3o tem senso est\u00e9tico ou intelig\u00eancia, discretamente mostrar-lhes o caminho da rua.<\/p>\n<div id=\"attachment_8954\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8954\" class=\"wp-image-8954 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/922e9b76-9b7c-4d40-b173-067521245af5_text.gif\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"212\" \/><p id=\"caption-attachment-8954\" class=\"wp-caption-text\">Sim, temos opini\u00f5es sobre seus gostos<\/p><\/div>\n<p>Assim, na fic\u00e7\u00e3o e no mundo real, nos cabe o papel de ser os guardi\u00f5es rabugentos do para\u00edso que ir\u00e3o questionar seus gostos e expor suas ignor\u00e2ncias. Dentro do campo editorial, os livreiros s\u00e3o, por assim dizer, os \u00fanicos dotados do poder e da maldi\u00e7\u00e3o de s\u00f3 dizer a verdade.<\/p>\n<p>Talvez, por isso, quando as mega stores come\u00e7aram a dominar o espa\u00e7o das livrarias, se fez a escolha de precarizar esse trabalho. Ao inv\u00e9s de termos gente inteligente para conversar sobre o que realmente voc\u00ea deveria estar lendo, decidiram colocar uma for\u00e7a de trabalho robotizada, focada apenas em identificar se e onde o livro se encontrava na loja, e, em caso contr\u00e1rio, fazer a sua encomenda. Agora que o com\u00e9rcio \u00e9 basicamente eletr\u00f4nico, o livreiro virou uma figura quase mitol\u00f3gica, extinta, substitu\u00edda de forma acintosa por sites de recomenda\u00e7\u00e3o e booktubers que fazem publi de qualquer coisa, sem ao menos saber os t\u00edtulos das obras que representam.<\/p>\n<div id=\"attachment_8953\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8953\" class=\"wp-image-8953 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/7e792218-65b4-48a6-9a19-6e5cb5f821e5_text.gif\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"230\" \/><p id=\"caption-attachment-8953\" class=\"wp-caption-text\">Sim, a sorte \u00e9 que somos pac\u00edficos<\/p><\/div>\n<p>Mas nem tudo est\u00e1 perdido, h\u00e1 uma resist\u00eancia. Especialmente nos sebos, ainda encontramos livreiros de verdade por a\u00ed, emitindo suas opini\u00f5es, fazendo tro\u00e7a dos nossos gostos, e nos ensinando a sermos melhores leitores. Por isso, n\u00f3s, os livreiros, reais ou ficcionais, atuantes ou da reserva, nos reservamos o direito de sermos chatos, detalhistas, arrogantes, e rabugentos. Fazemos isso n\u00e3o por n\u00f3s, mas porque os leitores precisam. Fazemos isso para que voc\u00eas tenham ainda mais prazer e deslumbramento em ler.<\/p>\n<p>Mesmo com todos os nossos conhecidos e famosos defeitos, s\u00f3 me resta desejar longa vida a n\u00f3s, livreiros insuport\u00e1veis e a nossas livrarias maravilhosas. E se voc\u00ea n\u00e3o gostar da gente, sem stress; h\u00e1 muita gente online e offline pronta a lhe atender nesse mundo mercen\u00e1rio, ins\u00edpido, e obtuso em que voc\u00ea decidiu morar.<\/p>\n<div id=\"attachment_8952\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8952\" class=\"wp-image-8952 size-full\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/tumblr_nbgjsc0p6N1rdqbfro1_500-2.gif\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"240\" \/><p id=\"caption-attachment-8952\" class=\"wp-caption-text\">Sim, um dia a Internet vai rejeitar voc\u00ea tamb\u00e9m<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se \u00e9 de prop\u00f3sito, mas, em todas as obras cujo cen\u00e1rio principal \u00e9 uma livraria ou um com\u00e9rcio de produtos culturais, as protagonistas invariavelmente s\u00e3o pessoas intrat\u00e1veis e \u201cfracassadas\u201d. N\u00e3o estou exagerando. 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