{"id":9067,"date":"2024-11-05T20:31:32","date_gmt":"2024-11-05T23:31:32","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=9067"},"modified":"2024-11-05T20:31:32","modified_gmt":"2024-11-05T23:31:32","slug":"consecutio-mortis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/consecutio-mortis\/","title":{"rendered":"Consecutio Mortis"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o tinha d\u00favidas. Toda morte era um suic\u00eddio. Talvez n\u00e3o planejado, mas definitivamente intencional. Afinal, toda morte- sua data, sua forma, sua ocasi\u00e3o- era consequ\u00eancia direta das a\u00e7\u00f5es das suas pr\u00f3prias v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Fumou, c\u00e2ncer de pulm\u00e3o; bebeu, cirrose; escolheu uma vida de stress, infarto; evitou tudo, morreu de medo de viver. E mesmo quando, dentro da sua l\u00f3gica, a causa mortis n\u00e3o seguia o caminho \u00f3bvio que o suicida escolheu, isso n\u00e3o deixava de ser um suic\u00eddio, ou, pelo menos, uma tentativa. Mal sucedida, mas uma tentativa.<\/p>\n<p>Mesmo os acidentes mais aleat\u00f3rios n\u00e3o escapavam dessa sua conjectura. Por que resolveu passar naquela rua perigosa naquela hora? Por que atravessou fora do sinal? Por que resolveu morar no Rio de Janeiro? Por que decidiu torcer para aquele time de futebol? Por que n\u00e3o mandou seu chefe enfiar o emprego naquele lugar?\u00a0 Por que n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o e desviou do carro desgovernado vindo na sua dire\u00e7\u00e3o? Por que nunca fez nada para se proteger do azar? Porqu\u00ea? Porqu\u00ea? Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Por ser um fiel crente de uma l\u00f3gica t\u00e3o fatalista, \u00e9 de se imaginar que ele fosse um medroso, vivendo escondido, martirizado pela culpa gerada pelas a\u00e7\u00f5es que promoviam o fim da sua pr\u00f3pria vida, mas n\u00e3o. Ele era um cara consciente das escolhas que fazia e das consequ\u00eancias que teriam na sua vida, era apenas um sujeito livre que vivia em paz.<\/p>\n<p>Por isso, sempre que a d\u00favida do que fazer surgia, avaliava qual\u00a0 o custo e a consequ\u00eancia que a a\u00e7\u00e3o ou decis\u00e3o que tomaria teria no seu tempo ou na sua qualidade de vida. Mesmo que algo aparentasse ser in\u00f3cuo ou saud\u00e1vel, ele sabia, em parte poderia estaria tomando a sua oportunidade de ter uma vida mais rica, mais divertida, enfim, melhor. Enquanto algumas decis\u00f5es consumiam tempo, ele sabia, outras restringiam experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Assim viveu. Contrabalan\u00e7ando os abusos com os cuidados, sempre equilibrando dura\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o, da maneira mais harmoniosa que podia imaginar. Por\u00e9m, como todo os humanos, suicidas, conscientes ou inconscientes, ele, um dia, morreu. Mas soube estender a sua vida nas hist\u00f3rias que deixou, na sua filosofia bizarra, e na l\u00e1pide que planejara. Na fria placa de m\u00e1rmore, n\u00e3o quis que fosse gravado nem seu nome, nem as datas que marcaram a sua passagem sobre a terra. Sobre ela, pediu que fosse escrito apenas:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>TUDO \u00c9 SOMA ZERO<\/strong><br \/>\n<strong>MAS H\u00c1 ZEROS E ZEROS<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Sim, era um suicida, como todos n\u00f3s, mas sabia viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o tinha d\u00favidas. Toda morte era um suic\u00eddio. Talvez n\u00e3o planejado, mas definitivamente intencional. 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