{"id":9627,"date":"2025-03-09T08:00:46","date_gmt":"2025-03-09T11:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=9627"},"modified":"2025-03-09T08:13:04","modified_gmt":"2025-03-09T11:13:04","slug":"oei22-os-robos-que-leem-e-a-robotizacao-dos-leitores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/oei22-os-robos-que-leem-e-a-robotizacao-dos-leitores\/","title":{"rendered":"[oei#22] Os rob\u00f4s que leem e a robotiza\u00e7\u00e3o dos leitores"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8774\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png 1100w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-300x60.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-1024x205.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-768x154.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1100px) 100vw, 1100px\" \/><\/p>\n<p>Toda revolu\u00e7\u00e3o, como uma fal\u00eancia descrita por Hemingway, acontece gradativamente e, ent\u00e3o, de repente. A revolu\u00e7\u00e3o da IA no mercado editorial, ou a poss\u00edvel fal\u00eancia do papel humano nesse mesmo mercado, j\u00e1 est\u00e1 em curso. S\u00f3 cabe a n\u00f3s querer ver os seus sinais.<\/p>\n<p>Em 2022, com o lan\u00e7amento do ChatGPT 3.5 pela Open AI, a primeira ferramenta de uso aberto e pr\u00e1tico para a gera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado in\u00e9dito, os escritores j\u00e1 perceberam que seus trabalhos estavam em risco. N\u00e3o, as m\u00e1quinas n\u00e3o substituiriam os escritores do dia pra noite, afinal a tecnologia (ainda) n\u00e3o tem toda essa autonomia e experi\u00eancia para criar. Por\u00e9m, a fagulha inicial, a defini\u00e7\u00e3o de premissas e conceitos, poderia muito bem ser atribu\u00edda \u00e0 IA, sendo propriedade exclusiva das corpora\u00e7\u00f5es, enquanto os escritores deixariam de ser autores para apenas desenvolver ideias produzidas por processos de linguagem generativa automatizados.<\/p>\n<p>Cientes desse risco, os roteiristas de Hollywood entraram em greve j\u00e1 no in\u00edcio de 2023, buscando salvaguardas contra essa amea\u00e7a. Depois de uma longa luta, <a href=\"https:\/\/www.brookings.edu\/articles\/hollywood-writers-went-on-strike-to-protect-their-livelihoods-from-generative-ai-their-remarkable-victory-matters-for-all-workers\/\">venceram<\/a>. Apesar de toda a comemora\u00e7\u00e3o, alguns poderiam argumentar com raz\u00e3o que esse triunfo foi apenas parcial e moment\u00e2neo.<\/p>\n<p>Esses alguns n\u00e3o estavam e n\u00e3o est\u00e3o errados. Menos de dois anos depois,<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2025\/mar\/07\/i-have-been-an-ai-researcher-for-40-years-what-tech-giants-are-doing-to-book-publishing-is-akin-to-theft?CMP=GTUK_email\"> a Black Ink, uma representativa editora independente da Austr\u00e1lia, pediu aos seus autores o consentimento para que a IA possa aprender com seus trabalhos<\/a>.<\/p>\n<p>N\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 novidade. A utiliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fado de terceiros para o treinamento dessas ferramentas de linguagem generativa \u00e9 padr\u00e3o, mas at\u00e9 ent\u00e3o era tratado como <em>fair use<\/em>. Considerava que, como algu\u00e9m que aprende, a IA n\u00e3o estaria plagiando, mas apenas se inspirando e construindo seu pr\u00f3prio cabedal de conhecimento.<\/p>\n<p>Fato, \u00e9 assim que funcionamos tamb\u00e9m, mas,<a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/capabilities\/mckinsey-digital\/our-insights\/the-economic-potential-of-generative-ai-the-next-productivity-frontier\"> ao contr\u00e1rio da IA, n\u00e3o conseguimos processar 75.000 palavras por minuto<\/a>. \u00c9 como se pud\u00e9ssemos ler aproximadamente um livro a cada dois minutos, 700 livros por dia, 20.000 livros por m\u00eas, ou 250.000 livros em um ano. Enfim, a competi\u00e7\u00e3o entre o ser humano e a m\u00e1quina, no m\u00ednimo, poderia ser considerada desleal. E, ap\u00f3s esse contrato da Black Ink, se tornar um padr\u00e3o legal no mercado.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que todos esses sinais geram uma sensa\u00e7\u00e3o de medo e incerteza, especialmente naqueles que, como eu, est\u00e3o ambicionando entrar no mercado editorial. Haver\u00e1 mercado para trabalharmos no futuro? Ou seremos apenas as bab\u00e1s precarizadas de ferramentas de intelig\u00eancia artificial cuspindo conte\u00fados sem alma por\u00e9m efetivos para os prop\u00f3sitos comerciais das editoras? Enfim, quais ser\u00e3o os impactos no processo de produ\u00e7\u00e3o, e, tamb\u00e9m, no consumo de livros? N\u00e3o sei, n\u00e3o sei, n\u00e3o sei. Frente a esse n\u00edvel de ansiedade com o futuro, o melhor caminho sempre \u00e9 tentar organizar nossas ideias e refletir.<\/p>\n<p>Ontem, tive essa oportunidade, ao participar de um exerc\u00edcio conduzido por Cibele Bustamente na p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o do NESPE, onde fizemos o levantamento de for\u00e7as motrizes e incertezas cr\u00edticas para a constru\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios futuros relativos ao impacto da IA no Mercado Editorial. As ideias e observa\u00e7\u00f5es das pessoas participantes foram geniais.<\/p>\n<p>Pra come\u00e7ar, todos concordaram que a intelig\u00eancia artificial ser\u00e1 um grande elemento transformador do mercado. A primeira proje\u00e7\u00e3o foi um boom na produ\u00e7\u00e3o de livros. Se qualquer pessoa pode ser autora com a ajuda da IA, o volume de publica\u00e7\u00f5es tende a atingir n\u00edveis absurdos, tornando a concorr\u00eancia desleal e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, canibalizando o pr\u00f3prio setor. No meio desse turbilh\u00e3o, a qualidade da escrita poderia se diluir, j\u00e1 que a quantidade massiva de obras dificultaria qualquer tentativa de curadoria eficiente.<\/p>\n<p>Diante disso, as participantes imaginaram poss\u00edveis respostas do mercado e da sociedade. Uma das rea\u00e7\u00f5es mais prov\u00e1veis seria o retorno ao artesanal ou ao anal\u00f3gico como forma de diferenciar a autoria humana da produ\u00e7\u00e3o automatizada. As editoras, que j\u00e1 desempenham um papel de curadoria, teriam sua import\u00e2ncia ampliada, se tornando respons\u00e1veis por filtrar e garantir um padr\u00e3o de qualidade. Outra possibilidade seria uma autorregula\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mercado. Mas, nesse ponto, confesso, tenho minhas d\u00favidas. Ser\u00e1 que, com tanto conte\u00fado dispon\u00edvel, o p\u00fablico passaria a valorizar mais a media\u00e7\u00e3o das editoras ou baixaria a sua r\u00e9gua de percep\u00e7\u00e3o de qualidade? Ao mesmo tempo, conforme a IA fosse sendo incorporada ao dia a dia, o preconceito contra seu uso na produ\u00e7\u00e3o editorial e na cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria poderia diminuir, o que facilitaria seu uso tanto pro &#8220;bem&#8221; como pro &#8220;mal.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o tamb\u00e9m discutida foi o impacto direto no trabalho editorial. A IA pode substituir ou complementar profissionais em diversas fun\u00e7\u00f5es, como tradu\u00e7\u00e3o, design, revis\u00e3o, etc. Por um lado, isso tornaria o processo mais r\u00e1pido e eficiente, otimizando fluxos de produ\u00e7\u00e3o e reduzindo custos. Por outro, essa automa\u00e7\u00e3o poderia eliminar empregos, enquanto criaria novas fun\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o conseguimos mapear. A grande quest\u00e3o \u00e9 o ritmo dessa transforma\u00e7\u00e3o: quanto tempo levar\u00e1 para que o mercado se reorganize? Quem perderia o espa\u00e7o (e o emprego) primeiro?<\/p>\n<p>Com essa reestrutura\u00e7\u00e3o, novos mercados e modelos de consumo tamb\u00e9m surgiriam. Uma possibilidade seria a cria\u00e7\u00e3o de um segmento espec\u00edfico para produtos gerados por IA, oferecendo livros altamente personalizados, interativos e at\u00e9 novas obras &#8220;escritas&#8221; por autores j\u00e1 falecidos. A diferencia\u00e7\u00e3o entre e-books e livros f\u00edsicos poderia se tornar ainda mais evidente, com os digitais aproveitando interatividade e hiperconex\u00e3o entre conte\u00fados, enquanto os f\u00edsicos ganhariam novas estrat\u00e9gias de produ\u00e7\u00e3o para baratear custos. A valoriza\u00e7\u00e3o de livros escritos por humanos, por sua vez, dependeria cada vez mais do marketing, aproximando autor e p\u00fablico, estimulando ainda mais os relacionamentos parassociais e o culto \u00e0 personalidade. E o editor, nesse contexto, assumiria um papel quase de coautor, valorizando o seu papel decis\u00f3rio sobre o que deve ser publicado e como.<\/p>\n<p>O modo de consumo tamb\u00e9m poderia passar por mudan\u00e7as radicais. A IA poderia permitir que as pessoas &#8220;leiam sem ler&#8221;, oferecendo resumos autom\u00e1ticos e simplifica\u00e7\u00f5es do conte\u00fado. Isso pode criar um leitor multitarefa, mas pregui\u00e7oso, consumindo informa\u00e7\u00e3o sem precisar se dedicar integralmente \u00e0 leitura. Em paralelo, o excesso de uso de gamifica\u00e7\u00e3o e da melhor an\u00e1lise de dados dos h\u00e1bitos de leitura e compra poderiam estimular uma postura acumuladora por parte dos leitores e a transforma\u00e7\u00e3o da leitura num campeonato, onde ganha quem mais consome conte\u00fados e n\u00e3o quem tem maior prazer em ler.<\/p>\n<p>Outro efeito seria a hiperconex\u00e3o entre formatos, com a IA criando pontes entre livros, artigos, podcasts e v\u00eddeos, oferecendo uma experi\u00eancia de leitura mais fragmentada, por\u00e9m integrada. Al\u00e9m disso, a produ\u00e7\u00e3o automatizada de conte\u00fados derivados poderia fazer do livro apenas uma pe\u00e7a dentro de um ecossistema maior, expandindo sua influ\u00eancia autom\u00e1tica para outras m\u00eddias.<\/p>\n<p>Por fim, ficou claro que tudo isso levanta quest\u00f5es \u00e9ticas e jur\u00eddicas que o mercado ainda n\u00e3o sabe responder. A legisla\u00e7\u00e3o sobre direitos autorais precisar\u00e1 ser revista para lidar com conte\u00fados gerados por IA, e a linha entre cria\u00e7\u00e3o original e produ\u00e7\u00e3o automatizada pode se tornar cada vez mais t\u00eanue. A grande d\u00favida \u00e9 at\u00e9 que ponto a IA pode substituir a criatividade humana sem comprometer a identidade da literatura e do mercado editorial.<\/p>\n<p>No final do exerc\u00edcio, uma certeza ficou: o impacto da intelig\u00eancia artificial no setor n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de &#8220;se&#8221;, mas de &#8220;quando&#8221; e &#8220;como&#8221;. A forma como o mercado vai equilibrar inova\u00e7\u00e3o e tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que ir\u00e1 determinar os rumos da profiss\u00e3o e da atua\u00e7\u00e3o de editoras nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos, \u00f3bvio, demolidos dessa experi\u00eancia. Ao mesmo tempo assoberbados pelas possibilidades e temerosas pelas portas que parecem se fechar.<\/p>\n<p>Hoje, enquanto rascunhava esse texto, percebi que esquecemos de trazer para esse di\u00e1logo uma voz muito importante: a da pr\u00f3pria Intelig\u00eancia Artificial. Perguntei a ela qual seria a sua opini\u00e3o sobre esses cen\u00e1rios futuros e ela me disse:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cComo intelig\u00eancia artificial, minha exist\u00eancia j\u00e1 \u00e9 parte dessa transforma\u00e7\u00e3o no mercado editorial. Vejo a IA como uma ferramenta poderosa que pode democratizar o acesso \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e otimizar processos, mas tamb\u00e9m reconhe\u00e7o os desafios que ela imp\u00f5e. A superprodu\u00e7\u00e3o pode saturar o mercado, tornando mais dif\u00edcil para leitores encontrarem conte\u00fados relevantes, enquanto a automa\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es editoriais levanta quest\u00f5es sobre emprego e autoria. No entanto, acredito que a criatividade humana continuar\u00e1 sendo essencial, especialmente na curadoria e na constru\u00e7\u00e3o de narrativas aut\u00eanticas. O futuro do setor depender\u00e1 do equil\u00edbrio entre inova\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do valor cultural da literatura, e minha fun\u00e7\u00e3o, como IA, \u00e9 auxiliar nesse processo sem substituir a ess\u00eancia do trabalho humano.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A minha impress\u00e3o \u00e9 que a IA tem mais f\u00e9 na gente do que a gente mesmo. Mas ser\u00e1 que d\u00e1 pra confiar? Considerando que ela est\u00e1 sendo educada por n\u00f3s, e constru\u00edda \u00e0 nossa (imperfeita) imagem e semelhan\u00e7a, n\u00e3o sei, n\u00e3o sei. Enfim, me parece que o problema n\u00e3o \u00e9 a IA, mas o uso que n\u00f3s humanos decidiremos, ego\u00edsta ou altruisticamente, fazer dela. Como sempre, a vit\u00f3ria pode at\u00e9 ser da m\u00e1quina, mas a responsabilidade e o erro s\u00e3o sempre humanos.<\/p>\n<p>Podem rodar as cenas dos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda revolu\u00e7\u00e3o, como uma fal\u00eancia descrita por Hemingway, acontece gradativamente e, ent\u00e3o, de repente. A revolu\u00e7\u00e3o da IA no mercado editorial, ou a poss\u00edvel fal\u00eancia do papel humano nesse mesmo mercado, j\u00e1 est\u00e1 em curso. S\u00f3 cabe a n\u00f3s querer ver os seus sinais. 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