{"id":9759,"date":"2025-04-06T06:43:08","date_gmt":"2025-04-06T09:43:08","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=9759"},"modified":"2025-04-06T07:12:36","modified_gmt":"2025-04-06T10:12:36","slug":"oei24-a-bizarra-intencionalidade-casamenteira-das-inefaveis-categorias-dos-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/oei24-a-bizarra-intencionalidade-casamenteira-das-inefaveis-categorias-dos-livros\/","title":{"rendered":"[oei#24] A bizarra intencionalidade casamenteira das inef\u00e1veis categorias dos livros"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8774\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL.png 1100w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-300x60.png 300w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-1024x205.png 1024w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-EDITOR-INVISIVEL-768x154.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1100px) 100vw, 1100px\" \/><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea entrava na finada livraria Gracilianos do Ramo, situada entre a Djalma Urich e a Almirante Gon\u00e7alves, na Nossa Senhora de Copacabana, a primeira prateleira que lhe chamava a aten\u00e7\u00e3o era a de Bizarros. N\u00e3o era exatamente uma categoria oficial de livros, pois nenhuma editora classificaria, em s\u00e3 consci\u00eancia e de forma n\u00e3o ir\u00f4nica, suas obras dessa forma, mas era, sim, uma esp\u00e9cie de declara\u00e7\u00e3o de identidade da loja e uma armadilha de relacionamentos.<\/p>\n<p>Nela voc\u00ea encontrava Caminho das Borboletas, com as mem\u00f3rias de Adriane Galisteu sobre Airton Senna; Ai, que Loucura, autobiografia da diva mor de Copacabana, Narcisa Tamborindeguy; e at\u00e9 o <em>faux pas<\/em> de Fernando Sabino, Z\u00e9lia, uma paix\u00e3o. O pr\u00f3prio Fernando, cliente da loja, n\u00e3o questionava a inclus\u00e3o da biografia rom\u00e2ntica da ministra do confisco na estante de Bizarros, s\u00f3 pedia mais destaques para suas demais obras.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que essa prateleira notorizou a loja e atraiu uma certa qualidade de clientes para ela: os que gostavam tanto de livros que at\u00e9 os bizarros lhes encantavam. Assim, era f\u00e1cil encontrar pessoas reunidas em volta da prateleira rindo ou discutindo a pertin\u00eancia da inclus\u00e3o das obras na categoria. Aquele metadado concreto, representado por uma discreta prateleira de menos de meio metro, atingiu seu objetivo: proporcionou o encontro m\u00e1gico entre as obras e seus leitores, e formou uma comunidade.<\/p>\n<p>Na livraria Baratos da Ribeiro o mesmo aconteceu com a ultrajante prateleira de er\u00f3ticos, ornada por um nude fake de Sandy &amp; Junior que motivou diversas amea\u00e7as de processo por f\u00e3s da dupla infantil. Hoje, os momentos do Zeitgeist Catalogr\u00e1fico continuam a ser sentidos nas prateleiras de livros de clubes de assinatura, comprados, recebidos, e nunca abertos, que voc\u00ea encontra na <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sebobetadeaquarius\/\">Beta de Aquarius<\/a>, e da, ainda conceitual, de Autores Cancelados na livraria <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/jacarelivros\/\">Jacar\u00e9<\/a>.<\/p>\n<p>A maneira de classificar os livros, o que hoje chamamos de metadados, \u00e9 coisa antiga. Apol\u00f4nio de Rodes j\u00e1 devia sofrer com o conflito eterno de encontrar a prateleira certa na Biblioteca de Alexandria para seus livros e seus leitores. Desde aquela \u00e9poca, o objetivo da classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 possibilitar o resgate e a descoberta da obra certa para o leitor certo, e isso n\u00e3o depende somente de uma caracter\u00edstica do livro, mas, principalmente, do que vai atrair o olhar e o desejo do leitor para ele.<\/p>\n<p>Assim, livros sambam de uma categoria para outra dependendo dos contextos culturais e pol\u00edticos; outros nunca parecem estar no lugar certo, como as obras de Nabokov que \u00e0s vezes figuram em Literatura Russa, de L\u00edngua Inglesa, ou, at\u00e9 mesmo, pasme, na de Er\u00f3ticos; e novas categorias surgem como a de Autofic\u00e7\u00e3o, que, dizem os mais maldosos, n\u00e3o passa de autobiografia bagaceira de celebridades para intelectuais.<\/p>\n<p>Hoje, gra\u00e7as \u00e0s tecnologias de informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 cada vez mais f\u00e1cil resgatar dados sobre os livros e sobre a forma como os leitores se relacionam com eles. Com todas essas evid\u00eancias, os metadados acabam transcendendo as pr\u00f3prias obras e come\u00e7am a ser qualificativos dos relacionamentos que esses encontros liter\u00e1rios sugerem. Afinal, o que torna um livro reconhec\u00edvel a um p\u00fablico \u00e9 a sua condi\u00e7\u00e3o de espelho, o que o leitor encontra de si mesmo na obra que criar\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o cognitiva e emocional entre os dois. Pois, se pensarmos bem, todos os livros do mundo, dependendo do p\u00fablico, poderiam estar na prateleira de Bizarros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando voc\u00ea entrava na finada livraria Gracilianos do Ramo, situada entre a Djalma Urich e a Almirante Gon\u00e7alves, na Nossa Senhora de Copacabana, a primeira prateleira que lhe chamava a aten\u00e7\u00e3o era a de Bizarros. N\u00e3o era exatamente uma categoria oficial de livros, pois nenhuma editora classificaria, em s\u00e3 consci\u00eancia e de forma n\u00e3o ir\u00f4nica, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-9759","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-editor-invisivel"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9759","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9759"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9759\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9765,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9759\/revisions\/9765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}