{"id":9864,"date":"2025-04-30T18:02:00","date_gmt":"2025-04-30T21:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/?p=9864"},"modified":"2025-05-10T17:02:12","modified_gmt":"2025-05-10T20:02:12","slug":"passagem-so-de-ida-para-pasargada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/passagem-so-de-ida-para-pasargada\/","title":{"rendered":"Passagem s\u00f3 de ida para Pas\u00e1rgada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Um dia vou fechar essas portas pra sempre. Pra nunca mais voltar. Mas n\u00e3o farei alarde. Sairei daqui como se nunca fosse partir, como se nunca tivesse vindo pra c\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando esse dia chegar, pela \u00faltima vez, acordarei de madrugada, cansado, mas sem conseguir voltar a dormir. Me esgueirarei, na ponta dos p\u00e9s, do quarto para a sala, carregando um cobertor quente demais para o calor de todos os dias, e os livros que quero ler mas n\u00e3o tenho paz de esp\u00edrito pra terminar. Gritarei em sil\u00eancio, pedindo socorro, pedindo ajuda, pedindo, pelo amor de Deus, que mais um dia, como tantos outros, n\u00e3o amanhe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando o sol nascer, s\u00f3 pra me contrariar, comerei granola com banana e leite, em p\u00e9 na cozinha, como se fosse um dia normal de pris\u00e3o. Preocupado com a sa\u00fade f\u00edsica que nunca possu\u00ed, colocarei uma bermuda e uma camiseta, e descerei as escadas me equilibrando nos seus degraus estreitos e nos meus quadris tortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na portaria, darei bom dia \u00e0 senhora insone que aguarda, sentada no banco do jardim, rolando a tela do celular, por uma surpresa que nunca vir\u00e1. E, assim, ante a minha presen\u00e7a, a porta de ferro do pr\u00e9dio, como m\u00e1gica, se abrir\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Atravessarei a pra\u00e7a desviando da massa de sem tetos, esperando em fila, no coreto, pelo p\u00e3o distribu\u00eddo pelos movimentos sociais, e me esconderei da tropa de idosos se despedindo, na frente do chafariz, das suas articula\u00e7\u00f5es com complexos movimentos de y\u00f4ga. Na frente do supermercado driblarei os jatos de \u00e1gua das mangueiras e os desastrados entregadores jogando suas caixas de mantimentos sobre mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Enfim, na academia, discutirei novelas velhas e problemas novos com as companhias no Pilates que insistem em insistir que tudo j\u00e1 foi melhor, mesmo afirmando que o passado foi pior. Finda a minha for\u00e7a vital, voltarei para a casa lamentando que n\u00e3o tenha ainda adquirido a forma f\u00edsica necess\u00e1ria para fugir correndo do trabalho que finjo (e finge me) amar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em casa, me arrumarei para representar (mal) o papel que esperam que eu represente no trabalho. No trabalho, sonharei com o dia em que n\u00e3o precisarei mais dele para representar o papel que esperam de mim em casa. Em casa, de volta, vencerei o cansa\u00e7o para me cansar de ter esperan\u00e7as. E assim perco, num suspiro ofegante, metade de um dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vencido, na frente do meu laptop, jogarei minhas esperan\u00e7as em cursos (\u00fateis e in\u00fateis), livros (lidos ou escritos), contatos (vivos e esquecidos), projetos (paralelos ou diagonais); em basicamente qualquer coisa (real ou imagin\u00e1ria) que prometa me tirar daqui. Perdido, na frente do meu laptop, meu rosto desesperado ir\u00e1 refletir toda a f\u00faria que nesse dia, espero, finalmente, ir\u00e1 me tirar daqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Aos poucos, todos em casa, todos no pr\u00e9dio, todos na rua, todos na cidade ir\u00e3o dormir, e, enfim, eu poderei acordar. Sem provis\u00f5es ou bagagem, correrei pelo Aterro vazio at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o das Barcas em busca de meu novo lar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sem passagem ou uma embarca\u00e7\u00e3o que me leve para Pas\u00e1rgada, com Paquet\u00e1 vou me contentar. Todos a bordo, a barca estar\u00e1 s\u00f3 me esperando para partir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9862\" src=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mundial_de_escritura_2025.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mundial_de_escritura_2025.jpg 600w, https:\/\/lisandrogaertner.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mundial_de_escritura_2025-300x50.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia vou fechar essas portas pra sempre. Pra nunca mais voltar. Mas n\u00e3o farei alarde. Sairei daqui como se nunca fosse partir, como se nunca tivesse vindo pra c\u00e1. Quando esse dia chegar, pela \u00faltima vez, acordarei de madrugada, cansado, mas sem conseguir voltar a dormir. 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