2026.09.06 – “The innocent can never last. Wake me up when September ends”

- Parece que foi ontem, parece que foi séculos atrás: o 11 de setembro completa 25 anos. O impacto na política ainda é visível, e na vida das pessoas também. A New York relembrou os textos de seus colaboradores na semana seguinte. Sempre bom saber que não estamos sozinhos em nossas angústias. Talvez essa seja uma das maiores razões da literatura existir.
- A cada número de anos cabalístico (5,9,10,11, 15, 20, 21) fica no ar uma expectativa de um repeteco histórico, mas não como farsa. Frente ao fascismo reinante nos EUA, a sensação é de que o medo está se transformando num desejo. Já ouvi mais de uma vez nos últimos tempos frases como “tomara que dessa vez matem o Trump; eles erraram o prédio, deveriam ter acertado a Trump Tower; quando os EUA vão enfim pagar pelo mal que cometem com o Oriente Médio?”.
- Dizem que o 9/11 é o maior sinal que a história não acabou. Discordo. Pra mim, o 9/11 é o primeiro sinal do apodrecimento post mortem dela. O que de fato aconteceu na história que não um avançado estado de rigor mortis do capitalismo tardio (ou zumbi).
- Enquanto isso, como os cristãos primitivos de Valis trancados na invisível Prisão de Ferro Negro, continuamos à espera de que esse setembro acabe. Será que esse ano ele acaba? Não tenho muitas esperanças, mas me acordem se ele acabar.
2026.09.05 – “Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje?”

- Dá uma certa saudade de quando a Internet era criativa. Ela ainda é, só que, hoje, essa não é essa a característica dela que fica mais em destaque. Afinal, ser criativo requer pensamento, autocrítica, dá trabalho e não gera (muito) dinheiro. Para ser criativo é necessária uma mistura de obstinação e desleixo, enquanto para ser um babaca é também necessária uma combinação (oposta) desses mesmos desleixo e obstinação, mas com muito menos esforço. Sacou? É tipo a meritocracia. O problema não é meritocracia, são os méritos. O mesmo vale para as paixões e para os desapegos. É importante é saber no que se agarrar e o que abandonar. Então por que não abandonar a ideia de que a internet está morta e lembrar que, pelo menos em alguns lugares, ela está viva?
- O problema foi o utilitarismo que abraçou a Web. Antes ela era um playground, depois virou um trabalho, e agora é uma prisão. Talvez a saída não seja fugir da prisão, afinal parece que a prisão cresceu e tomou o mundo. A saída provavelmente é tomar a prisão. E como fazemos isso? Sendo bobos e ruins, de propósito. Exemplo? Que tal dar prêmios para as piores primeiras frases de romances inexistentes?
- Enfim, o problema nunca foi a Internet, mas juntar a avidez zumbi do modelo industrial fordista com uma máquina de contínua autorreplicação. Num mundo modelado pelo conceito de que o sucesso é o que dá mais visualização, somos tomados por um câncer informacional que só repete o mundano e abafa qualquer voz discordante. Porém, não se engane, elas existem. É só abrir os ouvidos para os tons dissonantes e ignorar o ruído branco das máquinas registradoras movimentando o pagamento digital das nossas almas em holocausto a Mammon.
- O engraçado é que todo meio de comunicação (sim, é só isso que a internet é), nasce (ou é descoberto) como uma ferramenta democrática de muitos pra muitos. Pode, óbvio, ter seus custos de entrada e veiculação, mas eles são sempre decrescentes. Estranhamente, o quanto mais um meio de comunicação se capilariza e reduz seus custos, mais ele enterra os independentes no ruído da massificação da mídia. A Torre de Babel não caiu, apenas a instalação de um sistema de som ambiente tornou viver dentro dela insuportável.
- Porém, o que é chato mesmo é que o online virou o padrão de tudo. Se não está online, não existe. Será que quando você para de ler minhas palavras eu paro de existir pra você e você para de existir para mim? Brrr…
- Há 110 anos, o Donga falava pelo telefone. Há 30 anos, o Gil entrava na internet. Há 5 minutos você começou a ler esse texto. Nada existe a não ser as relações que estabelecemos na vida.
26.08.30 – “Now your eyes are red from crying, almost blue”

- É difícil a gente entender os tempos que vivemos enquanto os vivemos, mas algo que tem se destacado pra mim como marca da nossa época é como os diagnósticos tomaram lugar dos sentimentos. Antes a gente ficava triste, feliz, nervoso, na fossa, em crises existenciais, com neuras, raivoso ou apaixonado, mas essas emoções todas, com seus sofrimentos e glórias, eram sempre provenientes das relações que estabelecíamos com as pessoas e com o mundo. Hoje o movimento parece ser simplesmente interno, uma precondição a ser ativada para gerar uma resposta emocional padronizada e repetitiva, uma proverbial bala na agulha à espera de um gatilho genérico pra estourar. O mundo, nessa visão, não existe como interlocutor, só como catalisador de um destino psíquico inevitável. Deixamos de ser humanos, agentes de nosso destino, para nos tornarmos algoritmos de carne a espera dos comandos que darão início à nossa programação. Triste isso, não? Ou seria melhor dizer digitalmente deprimente?
- Óbvio que no Brasil, essa tendência vai assumir os contornos locais de desespero escondido em bazófia. Exatamente como o Nelson Rodrigues tratou a psicanálise. Acusava o analista de comadre bem paga, mas por baixo da zoação com os complexos edipianos e outras manifestações inconscientes, que a pornochanchada escrachou de vez, Nelson foi o maior divulgador da importância da mitologia familiar na constituição da nossa psiquê. Hoje, o linguajar vazio da pseudo psiquiatria de Instagram não dá corda pra grandes obras. No máximo sai um esquete de A Praça é Nossa com meia dúzia de bordões pouco imaginativos repetidos à exaustão. Deprimiu ou Burnout, meu companheiro de diagnóstico?
- Caramba, acabei de ter um déjà vu que estava escrevendo que estava tendo um déjà vu . Perdão, mas já não escrevi isso antes? Ou foi um outro déjà vu? Nah, deve ter sido algum problema psiquiátrico (ainda) não diagnosticado.
- Mas, no fim das contas, psicanálise ou psiquiatria, Nelson Rodrigues ou Instagram, o que importa é a gente manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.
- Negativity is the enemy of creativity. If you are filled with bitter, selfish anger, this occupies the mind and leaves little room for creative ideas. – David Lynch
26.08.29 – “Oh, be a simple kind of man. Oh, be something you love and understand”

- 29 de agosto. Amélie Poulain day. Enfim ou ainda?
- Tenho sentimentos conflitantes sobre Amélie Poulain. Quando saiu, achei bobo. Ponho a culpa no 11 de setembro (apesar de estrear em abril de 2001 na França, aqui só pintou em fevereiro do ano seguinte). Na minha opinião, a época pedia discussões mais urgentes e sérias. Não ajudou também o filme ter virado o manifesto de toda uma geração biruleibe que dominou as artes até a metade da década seguinte. Até hoje me lembro que Amélie foi o nome escolhido por uma Mallu Magalhães ainda teen se fingir de barista num reality show sem graça desses de tv a cabo.
- Hoje, 25 anos depois do seu lançamento, já estarmos fartos e enjoados das discussões sérias, urgentes e vazias que, descobrimos, só servem para gerar mais conflito, capitalizar extremistas e arrumar pretexto pra acabar com o planeta.
- O que eu não entendi na época foi que o filme na verdade propunha uma forma alternativa e deliciosa de conviver com o fim da história: nos tornarmos terroristas existenciais. Atacando os pequenos problemas com criatividade, fazendo justiça cotidiana absurdista e promovendo a iluminação mezzo espiritual, mezzo material dos (extra)ordinários seres humanos.
- A escolha da sociedade pra lidar com o fim da história foi diferente: apoiar crises artificiais promovidas pelos egos das almas mais sebosas e gananciosas do planeta com base em motivos falsos e vis. E, assim, a humanidade se dividiu para batalhar entre si por coisas mesquinhas, perigosas e sem sentido, enquanto poderia, se tivesse aprendido com Amélie, estar resolvendo ludicamente as crises existenciais próprias e alheias.
- Hoje, não resisti e reassisti Amélie. Durante todo o filme, lamentei estar tão errado na época. Agora já é tarde demais. Quando há tanto ameaçando a nossa existência, é quase impossível ser existencialista, quiçá um terrorista existencial.
- Mas ainda há esperança. Talvez possamos aproveitar o cansaço de todas as polarizações e seduzir as pessoas, como Amélie fez, com a beleza do cotidiano, com a importância das coisas que gostamos e não gostamos e com o prazer de fazer o bem e iluminar quem nos rodeia.
- O primeiro passo? Mudar de ideia. E não precisa ir muito longe. Comece pequeno, por exemplo, curtindo de coração aberto um filme que achava bobo e até mesmo, valha-me Deus, as músicas da Mallu Magalhães.
2026.08.16 – “Apague a luz pra eu te ver melhor”

- A diferença entre uma seita e seus amigos é que a seita será sincera contigo pelos motivos errados, enquanto seus amigos vão mentir pra você pelos motivos certos. Apesar dos apesares, há horas em que seitas podem fazer mais por você do que seus amigos (que, se forem realmente amigos, na hora certa, vão te resgatar da seita).
- Me surpreendo como o Chorão virou a voz de uma geração. Assim como o Renato Russo que ajudou uma geração que “fala demais por não ter nada a dizer” a sumarizar suas angústias, o doutor Alexandre Magno Abrão ajudou de millenials em diante a expressar os incômodos que eles não conseguem vocalizar ou entender. Curioso que ambos foram vítimas dos algozes das suas respectivas gerações: a AIDS e os distúrbios psicossociais. Como todos os que falam o que sabemos ser verdade, foram considerados loucos, mas suas palavras e sabedoria permanecem. Já isso não é surpresa alguma. Afinal, “Só os Loucos Sabem“…
- Não há sensação mais estranha do que acordar de madrugada numa casa onde a luz acabou. Ao contrário da sensação de quebra de ordem que o susto da queda de luz gera, quando acordamos durante um blackout, é como se fóssemos nós os deviantes numa ordem diferente mas natural. Assim, despidos da intenção e motivação para tentar resolver o irresolvível, apenas seguimos a vida como se a luz fosse uma ilusão e ela nunca fosse voltar. Vamos ao banheiro no escuro; buscamos comer o que pode estragar no congelador; acendemos o fogão que, graças a Deus, ainda gera luz e calor; usamos as nesgas de luz e energia para ler ou tentar contato com o mundo exterior; enfim, tentamos seguir a vida dentro de uma fingida (a)normalidade. E, do nada a luz, volta. É uma sensação estranha de viver algo que parece que não aconteceu de verdade. Tipo quando a luz acaba no cinema.
- Tudo volta, mas volta diferente. Não sei se tem relação com a queda de luz, mas tudo pediu pra eu me relogar. Na base das infraestruturas (físicas e lógicas) está a energia.
- Adendo: fui ao cinema assistir a Camp Miasma (o que merece um texto à parte) e o cinema estava sem luz. Resolvi esperar até o horário da minha sessão e a luz voltou. Porém, como esperado, no meio do filme, a luz do cinema acabou de novo, o que é também uma sensação esquisita, pois. no cinema, JÁ estamos no escuro. Exatamente como na queda de luz quando dormimos. Porém logo a luz voltou, como de madrugada. Me pergunto o que esses eventos repetidos significam. A luz acaba quando ninguém vê e tudo volta ao normal sem ninguém perceber. Talvez eu esteja precisando apagar a luz para ver algo melhor.
- Mas isso o João Penca já sabia:
- Sempre fico encantado com a beleza e a maestria da narrativa simples, mas nunca simplória, de Charles Schulz. 4 movimentos com blocos visuais muito claros sobre desejo, luta, resolução e decepção. Pra ir do cotidiano ao existencial só precisamos de quatro quadros (e de um Beagle preto e branco).
- Um fim de semana razoavelmente produtivo: fiz a decupagem do curso de quadrinhos e a primeira edição do AH!QUATRO para o curso de fanzine. Que outros dias sejam tão calmos e criativo assim.
- Em vez de vida longa e prosperidade ou paz e amor, deveríamos desejar calma e criatividade aos outros. Então, paz e imaginação pra vocês.

2026.08.09 – “This is the day, your life will surely change. This is the day, when things fall into place”

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- Sumido por motivos de exaustão mental, incerteza (positiva) sobre o futuro e overdose de remédios emocionais, tais como RPG, Magic The Gathering, Quadrinhos e A Gata Comeu. The Works.
- Curioso como sempre me agarro nessa novela em momentos de transição. O que me atrai? A liberação das fantasias ou a confirmação de que o mundo é um (mau) teatro? Por outro lado, sempre me parece um ritual de fim de fase, mesmo sem saber qual nova fase virá. Nas outras vezes, eu assisti pois estava sendo exibida. Agora, com o streaming tomei a iniciativa de eu mesmo assistir. O que isso diz sobre a minha tentativa de controlar o futuro? Que fase eu quero que acabe logo e qual sonho quero que comece?
- Por falar em rituais, hoje, como em todos os dias dos pais, segui o mesmo protocolo: acordar antes de todo mundo (como sempre), lavar louça e arrumar a casa, esperando o que sabe-se lá o que virá. É acts of service que chama, não?
- Nas redes e nas conversas de botequim, só se fala do novo mundo pós IA. Que tudo, do trabalho à política, passando pelas amizades e relacionamentos, irá mudar por conta das respostas rápidas e (in)certas dos Chats da vida. O que ninguém parece perceber é que informação sem experiência ou experimento é uma tentativa vazia de mostrar sabedoria, pois conhecimento sem engajamento emocional e existencial é apenas uma ferramenta para fraude (estando a informação correta ou não). Afinal, o que se faz simplesmente pelo ganho pessoal e não pela verdade nasce de egoísmo mimético e má intenção (nem sempre no sentido moral, mas com certeza no ético). E a IA é a coroação desse casamento fatal da ignorância com a ganância que assassinará o saber.
- Por essas e outras, dá até vontade de escrever uma continuação protópica de A Máquina do Tempo em que o viajante encontra uma outra tribo que, longe da briga entre Morlocks e Elois, aprendeu a viver com sabedoria, ou seja, sem ilusões utópicas ou fantasias distópicas, assim, sabe?, como dá. Provavelmente na minha versão, essa tribo viveria em Paquetá.
- Em paralelo, parece que há algo no ar sobre o fim das redes sociais e da sociedade do espetáculo. Tá, exagero, mas o pessoal já parece estar cansado de trabalhar de graça para os barões da internet. Enfim, a história humana se movimenta de abolição em abolição de múltiplas escravaturas. A Heineken já se movimenta há tempos sob essa lógica, com motivos espúrios, lógico.
- Quando a gente vê o aparato que as plataformas de internet nos entregam, é surpreendente como o uso é vazio. Quando não tínhamos nada, dispendíamos muito esforço e artesanato para construir fisicamente as imagens que nos passavam pela cabeça. Hoje, que tudo é dado, a impressão é que nada temos a dizer. É como se publicar, divulgar, produzir tenham se imposto na frente do que deveria ser sua origem: imaginar, sentir, querer. Como gatos, os artistas do avant-garde de hoje, em vez de inovar tecnicamente, passaram a brincar com as caixas de papelão onde os presentes caros e inúteis que receberam das Big Techs foram embalados. Talvez isso explique o retorno dos fanzines e outras mídias low-fi. What would Maya Deren do?
- O que o mercado do entretenimento não parece perceber é que, como belamente demonstrado na cena do Azul Cerúleo de O Diabo Veste Prada, o público de massa precisa do avant-garde (no caso da alta costura) para poder construir o seu junk food estético. Porém, com olho no lucro fácil e na infinita reprodutibilidade que a IA promete, o que se deseja é apenas reproduzir o fácil, genérico, de (aparente) grande alcance e que retorne rápido seu investimento. Nossas almas não podem viver com essa pseudo-arte caloria zero. É a alma dos artistas que nos alimenta. Infelizmente até as almas deles estão sendo fabricadas em série, vide o circuito de autores celebridades que atende às culpas e desejos dos mais diversos públicos de todos os espectros e fetiches.
- Mas pra que eu devo me preocupar ou me exaltar com esse futuro? Melhor viver o presente. Se for um pouquinho melhor que ontem já tá bom. Não tá?
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2026.07.25 – “Hot topic is the way that we rhyme”

- Sempre é salutar (re)visitar as suas referências. Hoje tive o prazer de reencontrar uma das minhas maiores inspirações no cinema: Sullivan’s Travels, uma deliciosa história non sense, com forte veia metalinguística, fazendo uma crítica social da indústria de entretenimento na grande depressão com um delicado viés humanista/existencial. Ah, e tem uma doce e exuberante Veronica Lake, afinal “There’s always a girl in the picture. Haven’t you ever been to the movies?”.
- Na sala de cinema, além de mim, só 3 pessoas. Não sei como a obra lhes afetou. Eu, me sentindo sozinho e livre, ri frouxo e me permiti ficar emocionado com o final que alguns, hoje, podem até considerar brega. Mas e daí? Quem disse que é ruim ser brega? Eu, pelo jeito, sem a menor vergonha, sou.
- Confesso: é difícil assistir a uma obra com 85 anos, especialmente cinematográfica, sem sentir a diferença técnica e narrativa. Mas essa diferença não deve ser tratada como critério como uma forma de hierarquizar obras de arte das mais às menos evoluídas. Isso também não significa que precisamos tentar o impossível: entender ou nos posicionar no contexto da sua criação. Tudo o que é preciso é abraçar o que mundo lhe entrega sem julgamentos. Tá não é fácil, mas é possível. Taí uma regra que também serve pra outras vivências e leituras.
- Hoje, também, depois de uma longa e inexplicável resistência, assisti a Parasita. Pode parecer que não tem nada a ver com Sullivan’s mas é mais obra sobre o contraste entre pobres e ricos. Não à toa, Sullivan’s Travels em português ganhou o título Contrastes Humanos. Esse poderia ser o título de todas as obras, não? É dos nossos contrastes que surgem os conflitos que movem as narrativas.
- É importante saber de onde vêm as nossas referências. Afinal, é impossível criar do nada. A tal da genialidade, se é que existe, como bem dizem, tem muito a ver com reciclar seu próprio bom (ou mau) gosto. Então, não se sinta oprimido pelas sua inspirações. Quem te inspira não te limita. Só pegar Roberto Carlos, Leo Jaime e Raul Seixas para ver aonde usar Elvis como inspiração pode te levar.
- Então, fica a dica vinda de Academia de Gênios:

- Pronto! Foi só ressuscitar mais uma referência pra eu ficar com vontade de ver.
- Já fez uma lista das suas inspirações? Le TIgre fez.
2026.07.23 – “And the girls all dance, while I’m feeling like a refugee”

- Férias são o momento ideal para adquirir ou retomar velhos hábitos. Hoje pela manhã voltei ao Yoga. Fazia muito tempo que não praticava e a sensação foi a mesma de outras épocas: um cansaço e um descanso profundos; e um esforço ao mesmo tempo mínimo e desumano. Enquanto os demais alunos faziam com desenvoltura suas posturas, eu suava em bicas, colocando para fora, na forma de lágrimas corporais, anos de abusos físico, moral e intelectual que cometi comigo mesmo. Pelo menos, pra mim, todo Yoga é Hot Yoga.
- Até o suor do Yoga é diferente dos demais. Parece ao mesmo tempo pesado e leve; plasmático e gasoso, como se eu estivesse colocando novamente em funcionamento uma tubulação de gás aposentada, enferrujada e inundada de resíduos tóxicos anciãos. Foi duro, mas sobrevivi.
- Na saída, passando na frente de um fruteiro me encantei, como há muito não fazia, com um enorme pedaço de melancia, que, por impulso, comprei e, parcialmente, devorei em casa. Reação da reativação de um corpo em repouso por tempo demais?
- Mexer o corpo é aquecer os desejos. Como nos sentimos fisicamente diz muito sobre o que nos incomoda e o que amamos. O melhor caminho para saber o que mexe no emocional e cerebral passa pelo físico. O desejo não precisa de palavras, mas é dependente de sangue.
- Mais uma sessão de tarot complementar nas férias sob o pretexto de testar uma nova plataforma. Muitas reflexões sobre a vida e oportunidades de uso da plataforma. O desejo só surge como enigma.

- Começando a reassistir a A Gata Comeu. Queria entender essa minha fascinação por ilhas. Talvez meu sonho não seja ir para uma, mas sair da que estou. Por isso, ir para outra me parece simplesmente natural. Afinal, continentes não passam de ilhas grandes e o universo, um arquipélago.
- É surpreendente como os hábitos mudaram por conta da tecnologia. A necessidade de ligar pra se comunicar forçava relações mais diretas e havia uma tolerância maior em não se ouvir falar dos outros. Era totalmente factível alguém próximo sumir por dias (ou semanas) e ninguém se preocupar de fato. Éramos menos suscetíveis à ausência alheia e mais propensos a aproveitar suas presenças. A ubiquidade proporcionada pela tecnologia matou muitas estratégias narrativas.
- Mas, cá entre nós, até mesmo para época, a tranquilidade do pessoal frente a um barco sumido há quatro dias é displicência demais. Ou não é?
- Parece que o veranico acabou e o tempo está virando. Deu pra aproveitar um pouco: fui ao cinema, comi bem, testei novas coisas e deixei de me preocupar com as antigas. Agora é se/me preparar para a volta. O que essas férias mudaram em mim? Vamos ver o que permanece na semana que vem.
- “And maybe tonight
I can make you mine
And if it’s alright
We could dance in the white light” - Agora, com licença que eu vou ali jogar um RPG.
2027.07.22 – “And I’m giving you a longing look, everyday I write the book”

UmaDuas compridas semanas cumpridas. Não importa o resultado se chegamos no final. Isso já é resultado o suficiente. A ansiedade do início das fériasestá me fazendome fez adiar todos os meus planejamentos e acelerar todas as tarefas de trabalho. O meu fica pra depois, o dos outros é pra ontem. Como sempre. Vamos ver se consigo chegar numa iluminação que faça essa balança se equilibrar melhor.- Como as edições mostram, não consegui. Não consegui nem terminar e postar esse texto iniciado 10 dias atrás. Pelo menos retomei. Pelo menos?
- Sim, pelo menos, Pelo menos as férias começaram, como o tradicional especial do
CervantesParada de Copa indica.

- Mesmo assim nada se move. Tento abandonar, com muito esforço e pouco sucesso, pequenos comportamentos que hoje não fazem mais sentido. Ao mesmo tempo me surpreende e não me espanta que seja tão difícil. Me tornei um poço de excessos. Quando as coisas fizerem sentido não perderei o meu?
- Por falar em comportamentos que deveria abandonar,
comeceiestou fazendo o curso da Marie DeClercq e tenho rateado nos desafios. Alguns não me interessam, outros são pessoais demais e não me parecem escrita; estão mais pra confissão. Tem gente que acha que confissão é uma espécie de escrita. Tá, até pode ser, mas a parte do verdadeiro artesanato é criar o distanciamento que gera identificação. Não é só desabafo. Ou será que é? Você me diz. - Uma discussão interessante sobre a importância do ecossistema do livro na construção do conhecimento. Um dos poucos pontos positivos da IA é nos fazer perceber (ou lembrar) que ler não se justifica apenas pela informação que se adquire na leitura mas pelo processo de reflexão durante a leitura. O mais importante não é o que nos dizem, mas o que descobrimos sobre nós mesmos (e o mundo) no contato com o texto. O mesmo se aplica ao processo de escrever. Não escrevemos para mostrar o que sabemos, mas para descobrir o que sabemos (e quem somos). O texto final, incensado produto da indústria editorial, é apenas um apanhado de restos mortais da experiência de escrever que será ressuscitado pelo leitor.
- Fui obrigado por compromissos paternais a assistir no cinema a uma comédia brasileira atual. Uma parte muito significativa dessa safra pós retomada dá saudades da época em que diziam que filme brasileiro só tinha palavrão e putaria. Hoje, além da falta de estrutura, proposital ou não, derivada da inescapável cultura de sketches bobos que vem do rádio, passa pela TV e chega até à internet, ainda precisamos aguentar a didimocozice do sentimentalismo barato de um Renato Aragão tentando imitar Chaplin num filme sobre doentes terminais. Pode pensar em qualquer comédia: a sensação é sempre a mesma. Depois de um bando de cenas quase engraçadas, os personagens desfiam rosários de lugares comuns para reforçar a importância de deus, pátria, família e todos os outros conceitos reacionários que cabem em uma hora e meia de cinema(?). Sabe o que realmente seria radical: trazer a nudez e os palavrões de volta pras telas. Ah, esqueci! A geração atual acha cenas de sexo desnecessárias… Valha-me, Deus. A humanidade realmente tá merecendo o que recebe.
- Ou talvez nos falte saber quem somos. Isso nem as comédias, nem a IA vão conseguir responder por nós.

2026.07.05 – “Memory, all alone in the moonlight. I can dream of the old days. Life was beautiful then”
- Hoje no Bluesky o povo tá surtando com os “jovens” que dizem estar na Internet há 10 (isso mesmo, dez) anos como defesa de suas ideias. Não acho que eles, os tais jovens, estejam certos em usar esse tipo de argumentação, mas também não podemos desconsiderar os comentários de alguém pela quantidade de tempo que usam a rede ou fazem qualquer coisa. Antiguidade pode ser posto, mas não significa sabedoria, tanto quanto juventude não significa inovação, como as discussões sobre o etarismo com a Madonna depois da parceria com a Sabrina Carpenter mostram bem. Essa progressiva extensão da vida humana vai fazer com que o etarismo (para ambos os lados) se torne uma das agendas mais importantes de DE&I nos próximos anos.
- Por falar em Internet, lembro como, depois de uns 6 meses de CentroIn, finalmente consegui acesso à Internet. Fiz as configurações numa ligação por telefone (fixo!) e me pediram um nome de usuário com pelo menos cinco letras. Eu entendi que tinha que ter exatamente cinco letras. Sem saber o que escolher olhei pra estante e bati com o livro do Edgar Allan Poe. Na hora disse: Corvo! Por um tempo, até abrir minha conta no UOL, meu e-mail era corvo@centroin.com.br . Estranhamente vez ou outra recebia um e-mail de alguém perguntando se meu e-mail era por conta do filme O Corvo com o Brandon Lee. Não era, mas eu não respondia, nem explicava.
- Ah, por curiosidade, isso tem 33/34 anos. Uma vida inteira no início do século XX. Uma meia vida (mal vivida) no século XXI.
- A impressão é que sempre estamos no ápice. Ainda falta muito. Nos anos 80 e 90, as expectativas psicodélicas de fusão com a rede eram comuns, hoje são raras e tem o viés religioso que essa epifania provavelmente vai gerar. Enfim, sempre pode piorar (ou melhorar). Vai saber.
- Enquanto todo mundo foi assistir ao Brasil, eu preferi ficar um pouco com mim mesmo. E com uns livros. Sempre vale a pena. (Estou lendo demais em inglês. O que me falta que as editoras brasileiras não entregam?)

- Uma pequena atualização: é espantoso como o Brasil tá zicado. É só se animar com qualquer troço que tudo dá errado. Graças a Deus, estava assistindo a Bossa Nova durante a pelada. O filme, saca? Não? Olha aqui embaixo. Há 26 anos a vida parecia melhor.
- Melhor deixar vocês quietos. Lembro como é ruim quando o Brasil perde. Já torci pra futebol, mas, obrigado, senhor, já passou. Há tempos, já passou. Enfim, melhoras e melhor sorte pra todos nós daqui a 4 anos e, bom não esquecer, daqui a 3 meses. Mais importante, não?