Notas

Graça Infinita contra os perigos da conformidade

É uma pena que Infinite Jest tenha virado esse red flag de masculinidade tóxica esquerdomacho style. David Foster Wallace tinha excelentes sacadas. Na verdade, acabou conhecido pela mais besta delas: a dos peixes não saberem que estão na água.

Ele também escreveu uns contos incríveis. Um dos meus preferidos está em “Oblivion: Stories”  e conta a história de uma mulher que ficou com uma expressão constante de terror devido a um erro numa cirurgia plástica e tanto a sua família como o resto do mundo precisam conviver com essa antecipação de tragédia como se fosse normal.

Outra excelente fonte pra conhecer o autor é o filme baseado na adaptação do livro de David Lipsky sobre o fim da turnê de Infinite Jest. Como seus textos, ele é recheado de grandes momentos, como o abaixo, em que David Foster Wallace prevê o nosso futuro próximo.

Ele não viveu para ver esse futuro previsível, mas deixou uma obra que combate até fisicamente isso. Há poucas justificativas para um livro ter mais de mil páginas. Lutar contra as forças da comodidade que nos engolirão completamente em pouco tempo é uma das melhores. Será que temos chance de ganhar essa guerra? A própria história de Wallace não nos dá muitas esperanças, mas é um bom sinal que nos 30 anos de Infinite Jest ainda estejamos podendo discuti-lo por aí. Alguns de nós, pelo menos.

A inescapável psicose induzida pela Internet

Warren Ellis escreve na Internet sobre as pessoas que escrevem na Internet sobre como a Internet está as deixando loucas e, por isso, saíram (?), ou querem sair, da Internet. Enquanto isso eu lhes escrevo da Internet para dizer que concordo com quem concorda e com quem discorda, e, como Tancredo Neves, especialmente com aqueles que nem discordam, nem concordam muito pelo contrário.

Como motivação, para saíram da Internet, de onde falo com vocês compartilho a palavra sagrada de Howard Beale sobre outra rede que nos deixou loucos: a televisa.

 

A prontidão do escritor

O problema de escrever é que o texto só tem dois estágios: pronto e não-pronto. A gente batalha nele (ou com ele) quando está não-pronto até cansar, e, enfim, dizemos pra nós mesmos: “Não aguento mais. Pronto!” Aí publicamos, e mentimos pra todo mundo que está pronto, apesar de nunca estar. Porém, quem lê acha que está pronto e às vezes fantasia que vai conseguir escrever algo assim “tão pronto”, como o que acabou prontamente de ler. Aí, meio sem querer querendo, começa a escrever e descobre, de pronto, que o que escreve nunca vai ficar pronto, mas aí já é tarde demais. Assim, a história termina ou, quem sabe, começa. E pronto. Pronto! Pronto?

Sobre não fazer nada nas férias e o poder das duplas negativas

The Fly Guy, lembram dele?, sabe mesmo como aproveitar as férias

As férias se aproximam do fim e, com elas, caem por terra todas fantasias do que achava que ia, mas sabia que não ia, fazer. Porém, posso afirmar com segurança, fiz avanços significativos no campo de nada fazer:

  • Terminei de ler How to Do Nothing, que na verdade deveria se chamar How to Do Something Else, o que não se trata de uma crítica negativa, mas de uma recomendação;
  • Entrei em The AI Survival Club da Catharina Doria, onde lemos em janeiro Mulheres Invisíveis, e participamos de um encontro online muito rico e cheio de gente esperta;
  • Visitei os restaurantes do coração, comi o Sanduíche Especial do Parada de Copa, o Chicharrón de Lulas do Ceviche, os frios do Talho Capixaba e os pasteis do bar Urca;
  • Fui bastante ao cinema e, por conta disso, pensei em escrever várias críticas:
    • uma sobre como A Useful Ghost, Foi Apenas um Acidente, O Agente Secreto, e Valor Sentimental reforçam a importância do cinema como ferramenta mnemônica contra o trauma e sua repetição;
    • outra sobre Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas te Chutaria e a ressignificação da maternidade;
    • e finalmente uma relacionando Hamnet e o livro Imortalidades do Eduardo Gianetti sobre o luto pelos entes queridos e  o luto antecipado das nossas próprias mortes como a ferramenta maior da construção da nossa cultura.
  • Enquanto fazia meus rascunhos e anotações, pensei: “quem vai querer ler a respeito?”, e, ciente da resposta, desisti e guardei essas observações só pra mim;
  • Mas mesmo assim escrevi umas notas, umas crônicas para o República e fiz até uma homenagem especial à morte do Maneco;
  • Por falar em Leblon(?), participei da atualização do meu curso de Meditação Transcendental e voltei a meditar com regularidade, exatamente como David Lynch sugeriu;
  • Visitei muitas livrarias, tanto uma nova (a bela Ceci na Urca), como as velhas companheiras de guerra (Baratos (não mais da Ribeiro), Mar de Histórias, Brasil 2001, e Travessa (a de Ipanema)), e comprei alguns livros, com parcimônia;
  • Tentei exercer a mesma parcimônia nos projetos que se apresentaram pra mim, ou que surgiram na minha cabeça. Até resisti com afinco, mas fui subjugado pela minha inescapável vontade de inventar sarna pra me coçar, e, óbvio, acabei meio que me envolvendo em dois ou três novos e embrionários projetos de publicação e com uma oficina de fanzines;
  • No mais: joguei RPG (mas não o sistema que eu queria); fiz Pilates (com a professora que saiu da academia que eu frequento ou frequentava); tentei jogar basquete (e me contundi); mas ainda consegui caminhar bastante (e criei bolhas nos pés).

Pode até parecer que fiz muita coisa, mas, na verdade, seguindo o exemplo do How to Do Nothing, não fiz nada (que fosse produtivo aos outros). Ou, por outro lado, pode até parecer que nada foi feito, mas esse período serviu, pelo menos, como um excelente exercício para um ano regido pelo Enforcado, em que preciso dar uma pausa (forçada ou voluntária) e rever minhas perspectivas.

Vou considerar, então, que foi um sucesso total; afinal não foi pra isso que as férias, ou melhor, a vida foi feita?

Marty McFly, mártir da Geração X

Como tantos de nós, nascidos entre 1965 e 1980, Marty, criado por conta própria, foi obrigado a viajar pelo tempo, do passado ao presente e de volta para o futuro, para resolver os problemas da sua família boomer disfuncional.

McFly family at the dinner table in Back to the Future

Quando ele achou que estava tudo resolvido, surpresa!, mais um chamado, agora para resolver os problemas de seus filhos millenials.

Back to the future part II meal

Se isso não o torna a epítome da Geração X, não sei o que melhor pode nos representar. Quando será que ele terá um tempo para poder realizar os sonhos que deixou para trás em nome dos seus antepassados e da sua descendência?

r/shittymoviedetails - a person sitting in a chair playing a guitar

 

Tecno feudalismo, i.e., o socialismo oligárquico americano do pós capitalismo

Muito curioso que, com o dinheiro obtido da venda dos recursos naturais roubados da Venezuela, Trump force o país invadido a comprar apenas produtos americanos. É um processo curioso em que se “liberta” um país de uma ditadura “socialista” para lhe impor um “livre mercado” onde você só pode vender para um cliente e comprar de apenas um produtor.

O quanto isso, me pergunto, se confunde com um socialismo sem ideais socialistas? Parece que os EUA simplesmente abraçaram as estratégias da União Soviética com os países sob a sua esfera de influência pós II Guerra Mundial, misturada com uma autocracia que beneficia os negócios dos amigos pessoais do rei, quer dizer, da família real, quer dizer, da figura patética, quer dizer, do presidente americano.

Na boa, não entendo mais como nada funciona no mundo. Enfim, a única coisa que me passa pela cabeça é gritar junto com o Sílvio Brito: Pare o mundo que eu quero descer.

Tá tudo errado, tá tudo erradoDesorientado segue o mundoEnquanto eu morro estando aqui parado
Tá tudo errado, tá tudo erradoSó quero ter você do ladoPra mandar o resto pros diabos.
Mas há de melhorar?

The (Kitchen Sink) Stuff, quer dizer, Pluribus

Confesso, não assisti à primeira temporada até o final, mas já no sexto episódio estou cansando. O excesso de exposição e o “mistério”, que parece uma colcha de retalhos de outros filmes (e.g.The Stuff, Soylent Green, The Quiet Earth, West World, M.I.B., etc) numa sucessiva cadeia de “oh, quem diria?”, não conseguem me prender a atenção por parecerem justamente feitos só pra isso.

Oh, Carol, Charlton Heston já tinha cantado essa pedra…

A personagem principal, da qual muita gente está reclamando, não é, na minha opinião, tão odiosa assim para ser o motivo pelo qual a série não tem graça. Ela, como o livro “sério” da Carol, é só “nice”, quer dizer, “meh!”. Se a Carol fosse mesmo uma Karen, como tem sido acusada por aí, eu acho que seria muito mais interessante. E as comparações que tenho lido com Invasores de Corpos (ou Vampiros Almas)? É sério isso?  É quase como comparar 1984 com Admirável Mundo Novo. Pluribus está muito mais próximo de O Fim da Infância do Arthur C. Clarke do que  do(s) filme(s) inspirados pelo livro do Jack Finney.

Objetivamente, meu principal incômodo é que a série perde oportunidades ótimas e atualíssimas para discutir nossas resistências para aceitar (ou lutar por) um mundo melhor e o nosso hábito em instrumentalizar o hedonismo em prol da inconsciência narcisista.  Talvez se a Carol, ao contrário do que rola, lutasse para ser integrada e não conseguisse, a metáfora seria mais forte.

Além disso, não fossem os aliens (são aliens?) vilões antropófagos bem educados, a história com certeza seria bem mais intrigante e  empolgante. Mas, pelo jeito, como os aliens (vem cá, são aliens mesmo? eu disse que não vi até o fim) , o Vince Gilligan não só quer agradar todo mundo como adora ficar explicando as coisas o tempo inteiro.

Sorry, Vince, nessa você me perdeu…

A ressurgência do sucesso mineiro

Quando eu ainda estava envolvido no mercado de RPG, sempre me espantava com as inclinações regionais dos criadores e empresas.  No Rio sempre me parecia que o pessoal buscava investir em alguma criação que chamasse atenção pelo seu capital cultural e possibilitasse retorno financeiro por editais ou na forma de status. Já em São Paulo, o que parecia pesar mais era o capital econômico e a orientação do público. Pra onde o vento soprasse mais forte, com muita eficiência e velocidade, o pessoal conseguia produzir material que atendesse às expectativas ou desejos mais pontuais, e, às vezes, efêmeros, da massa de consumidores. Mas em Minas o lance era diferente. Em Minas toda vez que eu conversava com os criadores sobre suas expectativas de retorno sobre o investimento (financeiro, de tempo e emocional) envolvido nas suas criações, a resposta que normalmente recebia era: “ah, véio, fizemos isso pois é muito doido”.

Quando vejo pra onde o mercado editorial (do qual o RPG também faz parte) se move com a IA, me pergunto se não estamos chegando num ponto de inflexão em que a maximização dos resultados se torne impossível pela pasteurização dos outputs das máquinas baseados em dados gerados pelos próprios algoritmos que os criam.

Será realmente lindo quando pudermos abraçar essa “doideira” mineira como a verdadeira forma de sucesso. Um sucesso que todos podem fazer, pois, mesmo que sejamos todos doidos, seremos sempre doidos às nossas próprias maneiras.

Mergulha!

O que o Rock nos deu e o Punk Rock popularizou, em contraposição aos megashows em arenas onde a divisão entre artistas e plateia é clara e intransponível, foi o stage diving. Um momento de pura vulnerabilidade em que a estrela se coloca na mão do seu público. Será ela amparada? Ou acabará estatelada no chão?

Ao contrário do que possa parecer isso nada tem a ver com vaidade, mas, sim, com a confiança de fazer parte de uma tribo que vai estar ali pra te socorrer. Não admira que o próprio público também se sinta à vontade de subir ao palco para se atirar sobre seus iguais. Afinal, plateia, músicos, palco, audiência, somos todos iguais; o que nos difere é apenas o papel que desempenhamos no momento.

 

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“Keep your hands up and keep your phones down! If you don’t catch me, I will fucking die!”

Superman tinha razão: solidariedade e confiança são o verdadeiro punk rock!

À espera de um milagre

As maiores tragédias dos nossos tempos não são as guerras, não são as ditaduras, não é a violência enraizada nas nossas relações formais e informais: é a falta de sensação de pertencimento. Essa impossibilidade de olhar para o outro e saber como ser generoso e receber a sua generosidade é o que causa todos esses males. Em vez de terminar com as guerras com mais violência ou reagir com igual vilania às atrocidades que nos submetem, deveríamos reforçar as nossas relações mais próximas, criando uma rede de apoio que sufoque todo esse ódio, e o medo que o alimenta, para, enfim, tornar a humanidade, de fato, uma comunidade. Quando esse dia chegar, como Kevin Kelly bem nos lembra, estaremos prontos a aceitar os milagres que todos merecemos receber.

Mas, confesso, é muito difícil manter essa fé quando as bombas da ignorância e da ganância explodem ao nosso redor. A cada estrondo, a cada mentira, a cada último suspiro dado por um inocente pego no fogo cruzado desses narcisistas amedrontados, a pergunta ecoa nas nossas mentes: quando (e se) nos emendaremos?  Será que um dia teremos a coragem de abandonar o medo e caminhar a estrada não trilhada?

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

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