
Prospectiva 2026
Toda virada de ano (e, dependendo da minha ansiedade, de semestre) eu chamo a minha taróloga pra bater um papo sobre minhas expectativas e temores a respeito do futuro. A parte mais difícil do processo não é encarar o que (de ruim) pode acontecer, mas saber o que perguntar. Normalmente essa dificuldade vem de uma falta de honestidade comigo mesmo. Como assumir o que eu quero, não só para os outros, mas para mim mesmo?
Sim, sou desses; tenho vergonha das minhas parcas ambições. Mas esse ano fui até melhor nesse quesito e cutuquei o problema na raiz: como entrar em contato direto com os meus desejos em vez de ficar me satisfazendo com a ajuda que presto na resolução dos problemas alheios?
A resposta não foi, como esperado, algo que eu esperasse. Invés de dispender mais esforço ou me debruçar racionalmente sobre o problema, minhas formas usuais de encarar quase tudo, o recado foi: deixa rolar. Sério? Pra um sujeito como eu, acostumado a evitar a possível fadiga futura trabalhando antecipadamente, é um exercício cruel.
Confesso que relutei em aceitar. Como simplesmente mudar a chave e viver de forma livre, como o Louco do Tarot, dando voltas por aí, sem me preocupar com os precipícios que nos cercam? Óbvio que precisei de ajuda pra encontrar um caminho intermediário. Lembrei logo e resolvi reler o The Happiness Project da Gretchen Rubin, em que ela, uma control freak, como eu, entrou numa jornada de 12 meses para ser conscientemente mais feliz. Tá, eu sei que estou burlando o tal do “deixar rolar”, mas foi o que deu para eu permitir, ordeiramente, as coisas me surpreenderem mais na vida, sem que as minhas fantasias de ruína tomem conta da minha mente.

Leitura iniciada na praia. Mais relaxada que isso impossível!
No primeiro mês, o foco é ter mais energia, tornando o caminhar uma prática, enquanto se livra dos pesos extras que carrega, pra prestar mais atenção ao que está na sua cara e você se venda pra não ver. Hoje, já senti que o lance está funcionando. De manhã, na volta de umas compras aleatórias, atravessando uma rua pela qual passo sempre em modo automático, esbarrei com um veículo impossível de ignorar no qual deveria estar fazendo essa viagem de liberdade por 2026.

Isso não é um automóvel, é um sinal divino.
Agora vem a pergunta: ele simplesmente cruzou o meu caminho ou sempre esteve lá e só consegui vê-lo agora? Tá, eu sei, é exagero, mas não custa nada dar uma moral pras surpresas que bestificam a nossa razão. É, pelo jeito, o inesperado chegou com tudo. Seja bem vindo!
A prova cabal que desmonta a própria investigação

Acho mega curioso que boa parte dos comentários sobre o uso de IA, Algoritmos e afins para criar conteúdo de entretenimento (não vou entrar na seara da “Arte” por motivos de cansaço conceitual), começa falando que essas estratégias vão contra o propósito humano da criatividade humana, da geração de conexão pela “arte” (putz, não escapei 🙁 ) mas sempre terminam a argumentação com algum caso onde a vontade e o desejo dos criadores humanores, contrariados pela lei do mercado, foram melhor na “arte” (agora é irônico) de atender ao mercado.
Gente, vamos nos decidir. Ou defendemos a arte (sim, sem aspas) como uma atribuição humana, na falta de qualquer outra razão melhor, porque SIM, ou fazer o coro de que o bom é o que vende e faz público. Não vamos esquecer da melhor definição de arte, a que o Scott McCloud faz no entendendo quadrinhos: arte é tudo o que não atende a reprodução ou sobrevivência.

Arte não tem bom ou ruim. Épocas diferentes vão ter diferentes visões de qualificação pra essa expressão humana, mas nada deixa de ser arte.
A identidade da Praça

O povo salvadorenho exercendo a sagrada ironia de amar as cópias do que dizem odiar, mas, secretamente, amam. Pode ser um pouquinho hipócrita, mas é tãããããão divertido.
Como diziam Walt Whitman e Bob Dylan: I (we?) contain multitudes…
A bolsa contra a opressão do Plot
Li hoje pela amanhã “A Teoria da Bolsa de Ficção” da Ursula Le Guin. A sugestão do ensaio principal do livro, acrescido de dois ensaios complementares de outras autoras sobre o texto inicial, é que o modelo narrativo do “Herói” carrega em si uma ideologia baseada na morte, no conflito, algo quase (ou totalmente) belicista. Em contraposição a esse modelo patriarcal, ela sugere o modelo da bolsa que, ao contrário da seta apontando ameaçadoramente em direção ao futuro, recolhe as histórias e personagens num espaço de acolhimento focado no presente.

É um belo e provocador pensamento, mas os milênios de costume com a opressão do plot que encaminha a história sempre para a resolução de uma contenda, normalmente em busca do retorno a um estado normal, que de normal não tem quase nada, tornam esse exercício de re ou desconstrução muito desafiador.
Fiquei me perguntando onde poderíamos encontrar sinais desse modelo e logo me veio à mente Jacques Tati com seu Monsieur Hulot, cujas férias eu estava curtindo ontem.

Aos moldes do que Le Guin sugere, nas obras de Tati as histórias apenas se acumulam, sem conflito, propósito ou contenda a se resolver. São justamente apanhados temáticos de experiências, filmadas a uma média distância, que lhe permitem escolher para onde olhar e no que fixar a sua atenção. Pode não haver um propósito norteador, mas essa experiência estética, como a vida, está carregada de sentidos a se abraçar, como itens espalhados randomicamente dentro de uma bolsa mágica. Extrapolando, ainda dentro do cinema, parece que o mesmo pode se aplicar ao neorrealismo italiano, à Nouvelle Vague, e a outros movimentos de cinema independentes. A escolha pela contemplação e reflexão parece ser bastante natural quando não ficam cerceando nosso campo de visão com cores berrantes, explosões ou super close-ups.
No caso da literatura, um outro exemplo, lido esse ano, do qual me lembrei, foi Esboço da Rachel Cusk. Nesse livro rola a mesma sensação de observar a vida e caminhar por entre histórias nas quais podemos nos aprofundar mais ou menos, ao nosso bel prazer, sem a ansiedade de um fato ou trajeto narrativo conclusivo que estabeleça um lado “vencedor”. Se formos buscar formatos mais alternativos, seja entre Burroughs, Borges, Burgess, Calvino, ou mesmo entre os Beatniks, ou o povo da Oulipo, encontraremos ainda mais belas bolsas a vasculhar.
A verdade é que, escondidas em toda essa balbúrdia sem sentido de som e fúria, talvez estejamos cercados de mais bolsas que imaginávamos. Só precisamos (re)aprender a reconhecê-las e intencionalmente sair à sua busca ou mesmo a criá-las.
O cerceamento da esperança

Tá, eu sei, é sobre futebol, mas essa propaganda não é um horrível manifesto do direito que as outras pessoas, físicas ou jurídicas, acham que tem de estipular quando, como e no que podemos ter esperança? Pra termos chegado nesse nível, pelo jeito, não nos sobrou nenhuma. Excetuando-se, talvez, a megasena da virada.
O meu cantinho (de leitura) das férias
Olha só essa. Fui na Biblioteca do Sesc de Botafogo, a antiga Machado de Assis, para devolver um livro, atrasado (sempre!), e fui informado que o acervo ficaria fechado, para avaliação e cadastro, do dia 8 de dezembro a 12 de janeiro. Por conta disso, vejam a minha sorte, poderia emprestar até 5 livros com prazo até o ano que vem. Óbvio, aproveitei.
A pilha de para ler das férias, assim, só cresce. Só não sei se isso é bom ou ruim.

Sacanagem, sei, sim. É bom. 😉
As reformas e contrarreformas da Mitologia da DC Comics

Quando as mitologias (e as religiões), como a DC, se tornam Propriedades Intelectuais as coisas se complicam.
Porém, no início, tudo é festa. Os mitos e lendas se avolumam, sem controle, ou regra. Num dia as concubinas dos deuses estão grávidas, no outro, era tudo um sonho. Na manhã seguinte os filhos que não nasceram surgem do futuro, e, juntos com os pais, presumidos, salvam o mundo, até descobrir que seus pais eram de outra dimensão. Já viu onde isso vai dar…
Os fiéis antigos, confusos com essas múltiplas versões, param de participar dos rituais; novas religiões concorrentes seduzem as congregações abandonadas; as novas gerações não conseguem se inteirar da complexa cronologia ou entender as referências teológicas das crenças originárias; e, então, alguém descobre que mobilizar as pessoas em torno de narrativas é poder, político, financeiro, e cultural. E, óbvio, ninguém quer abrir mão desse poder. É nesse momento de caos que a crença orgânica, quase animista, começa a ser encarada como propriedade de um grupo.
Aí vêm as reformas. As externas, daqueles que se apropriam dos conceitos iniciais por se acharem os verdadeiros crentes na palavra divina; e as internas, dos que comandam os grupos e instituições construídas ao redor dessas histórias, buscando manter os atuais fiéis e arregimentar novos. Os reformistas, dizem que é tudo em nome da fé, mas, se não tivesse dinheiro envolvido, provavelmente nada aconteceria. Ou, pelo menos, não aconteceria dessa forma.
A DC vive isso há anos. Desde a Era de Prata, nos anos 50/60, quando recriou seus heróis originais; na Crise nas Infinitas Terras; na morte do Super Homem, e na quebra da coluna do Batman; nas reativações da Crise; no 52; e, enfim, agora, no universo Absolute. Li as primeiras edições de Batman, Super Homem e Mulher Maravilha. Não são ruins, tá, são até legais, mas a cada quadro, a cada página eu ficava me perguntando: “Pra quê, senhor? Pra quê?”.
Há de fato uma necessidade quase religiosa de rever os velhos mitos à luz dos novos tempos para novos públicos? A intenção puramente comercial justifica essas constantes recriações? Ou essa é uma tentativa sobrenatural dos mitos não morrerem manifestada pela vontade de sacerdotes/autores e fiéis/leitores? Ou, pelo contrário, uma insistência em manter vivo algo que já deveria ter morrido ou sido esquecido? Não sei, não sei, mas, nessas horas, acaba que a escolha preguiçosa e desleixada da Marvel de manter sua cronologia um caos completo parece até ser ética. (Cá entre nós, não é)
Ah, Super Homem, por que não ficaste morto nos anos 90? Senhor, eles realmente não sabem o que fazem…

Mas dessa vez, pelo menos, fizeram uma Mulher Maravilha com cara de grega.


