
O que acontece entre o primeiro e o último suspiros?

O ser humano é atormentado pela finitude. A expectativa de voltar a um estágio em que ele volte, com bastante ênfase no “volte”, a um suposto estado de não existência é o que move boa parte de nossas ações. A ansiedade de construir algo duradouro antes que esse fim chegue; o impulso instintivo aparentemente amoroso de deixar um legado genético sobre a terra antes que retornemos para baixo dela; a ânsia de pôr fim à existência dos que não nos deixam existir como queremos; e até as discordâncias literárias sobre o que escolhemos acreditar a respeito do que há depois, ou mesmo antes, da vida movem nossos comportamentos mais extremados e a nossa história enquanto (in)civilizações. Num mundo onde nos consideramos tão avançados, é surpreendente que, enquanto trocamos magicamente informações com toda a humanidade e transpomos enorme distâncias pelo ar, ainda não paramos para nos debruçar sobre o sentimento que nos deixa acordados desde o tempo das cavernas: o medo da morte.
Em “O último suspiro”, Costa Gravas, aos 91 anos, cinematograficamente, parece preparar-se para dar o seu. Acompanhando a conversa entre um filósofo e um médico, ele nos apresenta histórias e questionamentos sobre o que é “A boa vida”, o título bem escolhido para o português, e a boa morte.
Porém, ao sair do cinema, emocionado com o desapego de tantos personagens cativantes que aprenderam a transcender esse medo e aceitar essa natural passagem de estado que tanto tememos, foi impossível não pensar: como é possível viver uma boa vida sem torná-la um eterno exercício de cuidados paliativos? Mais importante do que saber o que é uma boa vida, ou uma boa morte, é saber “o que é bem viver?”. A vida, mais do que um objeto de estudo ou um bem ao qual nos agarramos, é uma ação que, por mais que seja exercitada todos os dias, ainda é um completo mistério para nós. Por incrível que pareça, a vida em toda a sua óbvia e inescapável exuberância guarda ainda mais dúvidas e descobertas do que a esquiva e silenciosa morte.
O herói das outras (e nossas) (a)gentes

Impossível não lembrar de James Bond. Impossível não lembrar que é uma franquia que se transforma com as décadas e cenários geopolíticos. Impossível não lembrar o quanto ele marcou seus criadores e intérpretes. Impossível não lembrar que agora ele está nas mãos da Amazon, quase como um refém. Impossível não lembrar dos seus spin-offs, cópias e musos inspiradores. Impossível não lembrar que tudo não passava de uma grande alucinação de um velho espião aposentado, buscando relembrar seus fantasiosos tempos de juventude. Impossível não lembrar que ele, o autor, e ele, o personagem, se confundiam e se confundem. Impossível não lembrar o impacto que ambos tiveram nos costumes, na moda, na política, na revolução sexual, e até na contracultura. Impossível não lembrar. Mas não é impossível esquecer.
Por isso, Reflet dans un diamant mort, novo filme de Hélène Cattet & Bruno Forzani, nos lembra de tudo isso, numa meditação psicodélica, onde refletimos sobre a velhice, a cultura, a espionagem, a ganância, o cinema, e até os quadrinhos. E lembramos de tudo isso como num sonho, que é meu e seu. Um sonho coletivo de um personagem que se confunde conosco, com seus criadores e recriadores.
Por isso, não esqueça de ir ao cinema para lembrar. Mas, cuidado. Não olhe por tempo demais tentando entender ou descobrir o que há por dentro ou por trás, ou a força laser do seu olhar irá destruir o que anseia admirar.

Fin. 😉