No seu livro Imortalidades, Eduardo Gianetti asperge uma discussão em robustas gotas sobre como lidamos com a morte. Se espelhando um pouco no modelo de O Mal Estar na Civilização de Freud, ele sugere como estratégias mais comuns para encarar o nosso inevitável destino: crer que há algo depois da ou na própria vida que lhe conceda um propósito externo; deixar um legado para que futuras gerações evoluam a partir dele e, por que não?, também celebrem o que você construiu; viver o momento, numa busca desenfreada pelo prazer mundano ou se entregando à plenitude mística do presente; e, enfim, algo não previsto por Freud, literalmente tentar viver pra sempre, seja congelando seu cérebro, através de clonagem, ou fazendo o upload da sua consciência para o mundo digital.
Apesar das estratégias terem contextos e ferramentas diferentes, todas almejam um mesmo objetivo: a manutenção perene da consciência. E é aí que a questão emperra um pouco pra mim. O que diabos é essa tal consciência? Consciência é ter a percepção de um EU separado do mundo? Consciência é uma espécie de alma que nos torna únicos? Consciência é apenas a oportunidade de interagir de forma proposital com a realidade, tendo “ciência em conjunto” com os elementos que circulam ao nosso redor? Ou, num movimento inverso, consciência é poder desfrutar da experiência do seu mundo interior?
Fica claro que a consciência, em todas as suas possíveis manifestações, tem um ponto central: o ego. A diferenciação, a separação entre um mundo interno e externo, a agência proposital, a possibilidade de exercer a sua posição sobre o mundo e como uma criança frente a um cimento fresco poder escrever sobre ele o seu nome.

Sempre tentando permanecer “forrever” (sic)
Se a nossa consciência depende dessa separação do nosso ambiente, no qual se incluem outras consciências, o que nos diferencia é justamente o que nos permite ter um mundo mental à parte, que promove diferentes ações e reações na nossa relação com a realidade. E esse mundo exclusivo é uma direta consequência das experiências únicas que vivemos: nossos traumas, conquistas e imaginações; tudo o que sentimos, passamos, sofremos; e, especialmente, aquilo que significamos sobre o que sentimos, passamos e sofremos. Afinal, se fôssemos uma grande massa única compartilhando as mais diferentes experiências, como ocorre com a humanidade na série Pluribus, poderíamos considerar sermos uma consciência de fato?
A consciência é, assim, um ato egoísta. Para ser diferente do resto do mundo, o que você vive precisa ser só seu, e o cofre que protege essa riqueza única é a memória. Se o valor de toda a nossa consciência reside na memória, perdê-la pelo tempo, por morte, por doença, ou pelo apagamento social/político, é uma verdadeira ameaça à vida. Esquecer ou ser esquecido são como morrer.
Enquanto assistia a Train Dreams, percebi que boa parte dos filmes indicados ao Oscar esse ano tratam dessa relação entre memória, luto, e (i)mortalidade.
Em Hamnet, a memória do filho morto é preservada pela sublimação do luto na forma de um legado inquestionável; em O Agente Secreto, uma cadeia de múltiplos lutos precisa ser trabalhada a partir de uma perspectiva histórica para a preservação de uma consciência de indivíduo, família e nação; em Valor Sentimental, as diversas relações das ascendências com a morte lutam por serem discutidas para curar os relacionamentos ainda existentes; e em Train Dreams, que suscitou essa reflexão, a memória se infunde com a natureza, deixando as nossas marcas sobre o ambiente que degradamos e que, em reação, se defende e vinga(?) de nós.

Somos mais do que o registro das nossas passagens?
Cada um desses filmes se esmera em trazer reflexões sobre como a nossa busca pela permanência e pela resolução dos lutos passados (ou futuros) se torna constitutiva não só de uma memória e consciência individuais, mas coletivas, se estendendo por gerações familiares, por florestas, pelo teatro e pela história de nações.
Não é surpresa que o ato de lembrar esteja tão em voga. Num mundo em que o excesso de informação faz um dumping do valor de todas as experiências, em que confundimos a vivência dos outros com as nossas, em que a história é distorcida por propósitos vis, e em que o mundo externo retira nosso tempo de viver em nossos mundos internos, o que está em risco não é apenas a nossa atenção, mas a memória que justifica a nossa consciência e representa a nossa vida. Por isso, é tão importante valorizar como lidamos com o que lembramos do que é e do que foi; do que é meu, seu e nosso; e do que nos define como seres humanos.
Talvez, para complementar o belo livro de Gianetti, além da preservação da consciência, precisemos nos debruçar sobre como fazer de nossas memórias objeto de perpetuação. Quem sabe, em vez de lutar pela impossível vida eterna (física, mental ou social), tenhamos mais sucesso e mais tranquilidade nas nossas existências ao mirar na preservação da memória. “Ser ou Não Ser”, sim, é a questão, mas lembrar e ser lembrado talvez seja o mais próximo que possamos chegar dessa desejada permanência.