Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

2026.06.06 – “Everything We Know Is Stardust. So Don’t Forget, You Are Stardust.”

  • Meu cansaço tá no nível de pedir duas semanas de atestado pra entrar em completo isolamento social ouvindo Cigarettes After Sex no repeat. Mas posso trocar também por uma folga até o Apocalipse chegar. Não sei o que vai levar mais tempo.
  • Mais um artigo redigido pro jornal República. Dessa vez sobre Copa do Mundo, como se eu soubesse o que falar a respeito. Mas ficou divertido. Acho.
  • Saindo daqui a pouco pra feirinha literária de Santa Rita. Por conta do frio, prevejo que vai estar vazia. Mas posso estar errado. Em geral estou.
  • Como eu previa, estava errado. O tempo esquentou, o sol apareceu e a feira deu bastante movimento. Palestras no meio do Largo de Santa Rita, algumas barracas de editoras, livrarias e artistas independentes, e o curso incrível do mestre Bráulio Tavares sobre A Narrativa de Mistério e o Mistério da Narrativa. Tive insights o suficiente pra encher um caderno. Vamos ver se o meu romance de investigação corporativa sai do papel, ou, melhor, entra no papel.

  • E ainda almocei na nova versão do Esquimó. Bela Tradição.

  • Assistindo, pela terceira ou quarta vez no ano, a Antes do Amanhecer. Sempre presto atenção a algo diferente. Dessa vez me liguei nos oráculos que eles encontram: os caras da peça da vaca, a quiromante e o poeta. Quantos sinais recebemos na vida e ignoramos? O que aconteceria se a gente tentasse entender o que a vida quer nos dizer toda vez que algo estranho acontece em vez de bloquear essas mensagens do destino? Enfim, tenho crise de meia idade porque assisto tanto a esse filme, ou assisto tanto a esse filme porque tenho crise de meia idade?
  • Agora foi golpe baixo. Depois de Antes do Amanhecer emendaram com Clube dos Cinco. Está formada a tempestade perfeita da crise de meia idade. Nos vemos(?) do outro lado.
  • Country Roads take me home to the Place I belong.
  • Por falar em Poeira de Estrelas, o belo quadrinho de Anderson B que comprei na feirinha de Santa Rita.
  • Fazendo coro com alguns amigos, hoje peguei meu primeiro Uber em que o motorista reclamou espontaneamente da família Bolsonaro e ainda defendeu a Petrobras. É, pelo jeito, the times, they are a-changing.
  • Ah, me tira uma dúvida. A gente já superou essa onda de que interagir com post de rede social é forma de afeto, certo? Cer-to?! Então, por que continuamos a fazê-lo e a cobrar dos outros que o façam? Ah, por falar nisso, não esqueça de dar seu like, assinar e ativar o sininho ou…

2026.06.05 – “Putos no faltan, lo que faltan son financistas”

  • Assistindo à aula aberta da Marie DeClercq sobre como criar uma prática de escrever, me bateu o quanto a escrita se tornou para a população em geral, sabe-se lá como, uma atividade com perspectiva de ganhos financeiros e de fama. Apesar de fantasiosa, essa expectativa faz até sentido. Dentre aquelas atividades que não “parecem” trabalho mas são, escrever ainda é a que tem menos restrições de entrada, especialmente para os tímidos. Afinal artes plásticas, música, dança, e atuação ou dependem do desenvolvimento de habilidades por um longo período para sair do zero ao um ou são setores com muitas barreiras para novatos. Escrever, sem julgamento de qualidade, todo mundo escreve, ou quase. Custa muito pouco ser um escritor (mal ou bem sucedido). O problema é achar que dá retorno. Aí já é ficção. Científica ou Fantasia?
  • A discussão sobre IA no mercado editorial passa um pouco por aí também.  Ninguém questiona que ler e escrever são ferramentas de conexão que só deveriam rolar entre humanos. A escrita de IA pode até ser competente, mas é fria e sem propósito, uma espécie de bife de soja sabor bacon. Porém o medo é que se os demandantes de textos, entre esses os próprios leitores, se satisfazerem, por economia, com o que é escrito pela máquina, ninguém mais pagará a um humano para escrever. Ou seja, é mais um discussão sobre a captura dos já minguados recursos vindos do mercado editorial do que uma questão de escrita e leitura. Só me pergunto se desde o Syd Field e das corruptelas da pesquisa do Campbell, escrever já não virou um atividade mecânica, porém ainda feita por humanos. O problema, então, não é a fábrica, isso o povo aceita; o problema é, sim, a automação. Só me lembra Nove Rainhas. O que fazer quando num mercado já lotado de profissionais, em atividade ou buscando vagas, robôs também se apresentam pra roubar seus empregos e “financiadores”?
  • Não é à toa que os filmes estão tão meh!
  • Acabei de assistir a Backrooms e taí um filme que perdeu uma boa oportunidade de não ser meh. O conceito é intrigante, os atores, bons, os personagens e a introdução prometem, mas ele peca exatamente quando tenta explicar o que ele mesmo não quer explicar. Por que essa necessidade de dar ao público algum tipo de closura? Jesus, não podemos deixar as pessoas viverem com um pouco de ambiguidade, especialmente vinda de um filme onde se diz que nada tem explicação? Se não tem explicação, simples, não explica nem tenta explicar.
  • Desde semana passada estou recebendo um bando de newsletter de figuras corporativas nas quais não me inscrevi. É só comigo? Isso é um sinal do fim das newsletters como uma ferramenta de divulgação para artistas? A conferir.
  • Enquanto a IA continua escrevendo coisas vazias pra gente sem sensibilidade, sempre tem um poema pra nos surpreender, mesmo que seja inspirado por uma laranja. Até a capa é linda. Daqui

2026.06.04 – “…like tears in the rain”

  • Depressão sazonal é uma realidade, mesmo no Rio de Janeiro. O dia está escuro como alta madrugada antes das 6 da tarde; nas ruas, quase vazias, uns andam vestidos prontos para um frio londrino, ao lado de outros que, como eu, encaram as temperaturas nada desafiadoras de shorts, camiseta e chinelos; enquanto isso, na minha cabeça, repito continuamente os versos de Antônio Cícero e Adriana Calcanhotto: “O inverno no Leblon é quase glacial”. Não, não caminho ao longo do canal, mas peregrino pela deprimente rua do Catete em busca de um cópia pocket de Moby Dick em inglês, que não encontro. O calor do Rio é infernal, mas o frio é pior. Sem a emergência de morte do sol abrasador, fica claro que não há motivo para viver que não seja sobre-viver. Não há clima acolhedor no Rio, só uma escolha impossível entre o deserto físico ou metafísico. Alguma preferência?
  • Tenho uma impressão que todos os textos que se declaram como humor na New Yorker nos últimos anos sempre parecem paródia de Copywriting. Não é ruim, mas cansa.
  • Feriado sem estar colado em fim de semana não serve (mais) pra (quase) nada. Só deu pra lavar roupa, louça, cozinhar e ir à academia. The works.
  • Fim de dia assistindo Blade Runner. É um filme que é melhor (pra sua saúde mental) quando você não o entende. Depois de entendê-lo, ele fica, sim, muito melhor como experiência estética, mas consideravelmente pior pra sua saúde mental. Engraçado que estou tendo o mesmo sentimento com a releitura de The Big Sleep. Chandler e Blade Runner são primo-irmãos.

[oei#48] Erros e acertos no relacionamento com as indefiníveis comunidades de leitores e do livro

O conceito de comunidade, tão antigo quanto a própria humanidade, depois de ter sido largamente estudado por psicólogos, como Kurt Lewin, filósofos, como Jean Paul Sartre, e sociólogos, como Étienne Wenger, caiu nas graças do mercado corporativo e passou a ser utilizado como uma ferramenta de engajamento e, em alguns casos, manipulação de grupos de consumidores. Óbvio que o mercado editorial não iria passar ao largo dessa tendência.

Apesar de algumas premissas seguidas no relacionamento com esses grupos de leitores e consumidores de livros serem corretas, alguns erros gritantes, especialmente na identificação do propósito, formação e diálogo com as comunidades, são continuamente cometidos colocando em risco não só as ações comerciais das editoras como também as suas imagens e seu relacionamento institucional.

O primeiro é achar que uma comunidade é simplesmente um espaço virtual com um grupo de pessoas aleatórias atrelados a ele, uma newsletter ou um banco de dados de contatos ou seguidores. Comunidade é uma ação. A ação de tornar comum. E para isso é necessário gerar relações de confiança, pois só compartilhamos nossas preocupações, desejos, sonhos, conhecimentos, fantasias e crenças com aqueles em quem confiamos. Afinal, não vamos expor nossa intimidade com qualquer um. Só desejamos beneficiar com nossas experiências e identidades aqueles que realmente nos importam e se importam de fato com nossos objetos de afeto.

Ou seja, comunidades são sobre relações em que há interesse na troca e uso de conhecimentos e informações de acordo com o valor que os participantes concedem uns aos outros. Comunidades não são sobre redes sociais, ferramentas de comunicação ou colaboração de massa. São sobre as pessoas e as relações que elas estabelecem a partir das crenças em comum que compartilham.

A sensação de confiança, de buscar ajuda, ou nos expor em aberto ou ajudar a quem quer que seja, necessária para a coesão de qualquer grupo de pessoas, só se estabelece depois de um processo de identificação. O grande erro da maioria das iniciativas de marketing editorial com comunidades é acreditar que o consumo e o interesse num tema são suficientes para gerar essa identificação. Infelizmente, ou felizmente, não são.

As pessoas que participam de comunidades públicas ou em redes sociais nem sempre o fazem com o esprit de corps necessário a manutenção de uma comunidade. Muito mais comum é que as trocas entre os membros desses grupos difíceis de identificar aconteçam no “escuro” ou mesmo com pessoas fora dos canais que as editoras disponibilizam para seus consumidores. As verdadeiras comunidades que as pessoas estabelecem, é sempre importante lembrar, não estão circunscritas aos limites dos espaços que as editoras disponibilizam para os leitores.

Quando falamos de comunidades, nos prendemos muito às suas “práticas” usuais de manifestação, às reações registradas em redes sociais ou a quantidade de likes ou seguidores nos perfis das editoras. Na verdade, muitas vezes cometemos o erro de transformar isso até em metas. Mas quanto valor damos ao que realmente interessa? Quanto valor damos às relações que as formam e fortalecem?

Outro erro é considerar que o surgimento de comunidades se deve a uma ação do marketing. Elas nascem verdadeiramente quando pelo menos dois indivíduos estabelecem uma relação tendo como foco um afeto comum. Portanto as editoras nunca irão criá-las, assim como uma pessoa nunca fará uma planta nascer. O máximo que podemos fazer é gerar condições adequadas para que essas relações aconteçam da melhor maneira possível. Para isso, como se preparássemos o solo, precisamos saber como as relações se estabelecem num momento zero de forma a, com iniciativas pontuais, fortalecer relações e criar novos contatos que permitam que o afeto flua entre as pessoas de forma a alterar a realidade que esse grupo compartilha.

Para isso ferramentas como análise sociométricas e de redes sociais são, sim, excelentes para tirar esse retrato e facilitar a criação da estratégia que irá fazer esses grupos prosperarem e alterarem positivamente seu ambiente. Porém não são objetivos em si mesmas. Mesmo a venda de livros, que é um dos objetivos comerciais da editora, não pode se confundir com os objetivos da comunidade com a qual a editora se relaciona.

Essas comunidades só terão motivo para realizar suas trocas em aberto e dialogar com as editoras, se essa atividade alterar seu ambiente. Ao contrário do que as editoras podem esperar, o propósito das comunidades não é atender a seus objetivos comerciais. Comunidades sempre são grupos políticos, o que não quer dizer que sejam partidários, com agendas próprias e, por isso, podem tanto colaborar com as editoras, se imbuídos do poder necessário para gerar mudanças positivas nas pautas de seu interesse, como podem ser prejudiciais, quando a sua atuação for tolhida por ações autoritárias ou claramente manipuladoras.

O mais importante é que as editoras tratem as comunidades como interlocutoras sobre o futuro do seu negócio e não simplesmente como grupos consumidores facilmente controláveis, sem vontade própria.

Por mais que sejam grupos com objetivos particulares, nem sempre há concordância sobre eles e as comunidades podem e devem se tornar espaço de conflito. Conflitos de ideias, de opiniões, de rumos para os interesses que unem o grupo. Abafar os conflitos que possam surgir nesses grupos é matar a sua força de inovação. Ao invés de forçar a unanimidade burra, ou a pasteurização de comunicação, é essencial ajudar aos grupos a se tornarem forças autogeridas em busca de um consenso produtivo. Como todo o grupo humano, eles também amadurecem e aprendem a viver em sociedade. E as editoras fazem parte desse processo de crescimento e maturação.

Para que tenhamos comunidades de leitores verdadeiras, é preciso que as próprias editoras se vejam como comunidades, com grupos externos, internos, e outros stakeholders em constante relacionamento. E como tal suas relações internas e externas devem mudar. Mudar para serem mais calcadas em confiança, e menos em manipulação; mais em colaboração, e menos em ganância corporativa; mais em transparência, menos em desinformação; mais em liberdade, e menos em controle; mais em pessoas, e menos em ritos, modismos e clichês de redes sociais.

Só assim as comunidades deixarão de ser embustes editoriais em redes sociais para se tornarem grupos vivos de leitores apaixonados e curiosos que reverterão resultados para a própria coletividade que as abriga. Pois é isso que as editoras fazem. Elas abrigam as comunidades. Elas não são donas delas. E enquanto isso não mudar na atitude do mercado editorial, ele nunca terá o prazer de poder se relacionar com comunidades de fato trabalhando pelo bem comum da grande comunidade leitora que cada editora poderia ser.

É impossível passar pela mesma Runway, quer dizer, passarela duas vezes

Dominado, como boa parte do público, por um sentimento de ansiosa urgência nostálgica e previsível desesperança exausta, me movi, em passos arrastados, até o cinema para assistir ao Diabo Veste Prada 2. Como podia evitar? Já assisti ao primeiro tantas vezes que sei não só suas falas, como também seus beats de cor: a introdução ao mundo alienígena; a resistência em se adequar; a lição de que o mundo é mais do que lhe aparenta; a tentativa de fazer parte; os erros não propositais e os erros bem intencionados; os testes impossíveis mas bem sucedidos; a participação equivocada numa conspiração nos altos escalões do poder; até a assimilação (quase) completa, seguida da descoberta da sua individualidade em meio ao monstro que parecia lhe engolir. Óbvio que esperava encontrar algo similar nessa continuação, porém torcia com uma fé difusa por algo diferente. Posso dizer que fui tanto atendido como surpreendido.

Ainda mais no celular, agora com redes sociais

Os beats, didaticamente acompanhados pela conhecida trilha sonora, são os mesmos. Porém, apesar de já ter passado por aquela passarela, aquela Runway, Andy a reencontra igual, mas em outro contexto. Tanto ela como o ambiente que abandonou há vinte anos mudaram. Agora temos Redes Sociais, as revistas físicas (basicamente) morreram, e a IA toma o emprego dos jornalistas e escritores que não passam, hoje, de criadores de conteúdo (seja lá o que for isso).

Sim, o glamour ainda existe, mas o antigo Império e sua Imperadora Miranda não têm o mesmo poder. Dessa vez, como da outra, cabe a Andy salvá-los. Inclusive, a narrativa da sua prepotência caindo por terra termina novamente com a constatação que não são os seus esforços que conseguem “salvar” sua antiga mentora e algoz. Com essa introdução funcional,  o plote se segue a mesma ordem e cadência de duas décadas atrás, com, óbvio, alguns personagens diferentes ensaiando entre as caras conhecidas nada mais do que uma velha novidade aborrecida.

A sensação de repeteco é tanta que até as interpretações dão a impressão de as próprias atrizes estarem se parodiando, tornando as falas, poses e trejeitos icônicos em pastiches de si mesmas. A tragédia, e a comédia, sabemos, só se repetem como farsa. Assim como seus figurinos, referências, marcas, cenários e maquiagens do mundo fashion.

Tudo muda, mas nada muda. Nada muda, mas tudo muda.

Mas mesmo em meio a tanta reinterpretação e paródia não(?) intencional, senti um certo frescor. Os conflitos se reciclam ou se exacerbam, as pessoas sobre as passarelas são as mesmas, mas suas intencionalidades são diferentes. Talvez por conta de um cansaço existencial, laboral e social, a repetição neurótica dos inescapáveis conflitos das personalidades e dos personagens consegue, com um pingo de maturidade, promover finais diferentes. Em meio às operacionalizações dos seus conhecidos trejeitos e tiques comportamentais, surge um fio luminoso de esperança de que algo será diferente no final. É um sinal da esperança de que, antes do derradeiro fim dos impérios e das nossas vidas, possamos aprender a sermos ao mesmo tempo outros e os mesmos. Não foi pra isso que fomos criados? Para mudar e sermos cada vez mais quem somos?

Revisitar o Diabo Veste Prada foi uma experiência familiar e alienígena, como voltar ao seio de uma família após um longo distanciamento. Tudo parece igual, mas tudo parece diferente. Assim subimos novamente com as sempre solitárias figuras de Miranda, Emily, Nigel e Andy nessa plataforma, cercada de novos personagens que não passam de reflexos de suas próprias personalidades, para tentar fazer algo de melhor com nossas vidas. Ao contrário do que eu, dominado pelo pessimismo que o mundo me alimenta todos os dias, esperava, dessa vez, conseguimos superar nossos hábitos tóxicos com tanto sucesso que deu até pra celebrar essa  inesperada mudança com uma bela e carinhosa lágrima de alívio pela aceitação da morte. Morte das nossas revistas, dos nossos impérios, das nossas imagens e das personagens nas quais depositamos os nossos desejos pessoais de mudança.

[oei#047] A marketeira produtificação das editoras e a desejada comoditização dos livros

Olhar para a evolução das editoras é acompanhar um retrato em movimento dos desafios e (tentativas de) soluções para as imanentes características do livro enquanto produto. Inicialmente as editoras e as gráficas se confundiam, pois o diferencial na época era a simples capacidade de imprimir em larga escala. Com esse “problema” resolvido, a pressão passou a ser o contato com o cliente final do livro, e as livrarias, com o dedo no pulso do mercado leitor, assumiram a função de curadoria e intermediadora de leitura. O mercado cresceu, assim como as opções de obras a publicar, e encontrar e desenvolver os melhores autores se tornou o ponto crítico de negócios, fazendo com que os editores, quase como popstars, assumissem o papel principal na relação comercial e empresarial do ciclo de vida do livro. Com o aumento da capilarização da cadeia e canais de distribuição, as editoras precisaram se tornar intermediárias de produção e logística, organizando o meio de campo entre os recém surgidos agentes e os pontos de venda final. Esse crescimento contínuo pediu uma clusterização das editoras e se formaram grandes conglomerados para melhor definir quais obras mereciam financiamento, quase como um mercado de ações, repleto de especulações e leilões. Porém nenhum desses movimentos conseguiu, até agora, resolver um dos maiores geradores de incerteza nos empreendimentos editoriais: a impossibilidade de comoditização do livro devida à unicidade das obras.

O mercado editorial sempre precisa lidar com uma grande incerteza na expectativa de acolhimento de seus produtos. Por mais que tenham características físicas comuns e mesmo que os conteúdos possam ter relações de semelhança, é praticamente impossível definir com um grau confiável o sucesso de uma empreitada editorial. Óbvio que determinadas efemérides, a obrigatoriedade de algumas leituras e a fama de certos autores aumentam a precisão da análise do risco dos investimentos, mas não são suficientes para dar segurança a um mercado repleto de sucessos surpreendentes e fracassos idem. Sem poder se fiar em tendências ou nos acertos passados como previsão de comportamentos futuros, o mercado do livro vive sempre a um passo tanto da glória como do fracasso.

Com a revolução da internet, pudemos mapear com mais clareza os movimentos de leitores em direção à compra das obras e até da sua relação com os conteúdos. Com acesso a esses dados, se abriu toda uma possibilidade de estudos que prometiam aumentar a nossa compreensão do que iria vender mais ou menos, e de como melhor moldar o comportamento do público leitor. Porém, mesmo com tanta informação, só reforçamos a nossa percepção de como o leitor é indomável e muda de comportamentos e interesses ao sabor do vento das páginas viradas.

Nos últimos tempos, um movimento crescente começou a dar sinais de poder resolver (ou, ao menos, endereçar) esse problema. Enquanto as maiores editoras se tornaram grandes empresas de financiamento voltadas ao público de massa, focadas na distribuição de seus orçamentos entre diversos títulos e selos, e tratando os livros como apostas num ambiente pulverizado e em constante contração, um bom número de pequenas e médias editoras, livres dessas obrigações financeiras, decidiram se comprometer de corpo e alma com seus mercados de nicho e se tornaram elas mesmas produtos.

Em vez de focar na construção de pipelines e funis de vendas otimizados, essas editoras escolheram fortalecer suas marcas e se tornar os centros de gravidade de comunidades cada vez mais específicas. Isso as tornou não só as curadoras, produtoras ou viabilizadoras de projetos editoriais, mas também emblemas, cujo consumo entrega aos leitores algo que vai muito além de simples conteúdos: um pedaço de suas identidades.

Estabelecendo características brutalmente representativas e exclusivas em seus produtos, desde o design até a temática, passando pelos pontos de relacionamento com autores, parceiros e leitores, essas editoras tornaram suas próprias marcas ativos que eclipsam (ou magnificam) as características de suas obras individuais. Isso faz com que seus consumidores nem precisem lê-las para extrair valor da sua compra, pois o simples comprar e interagir com e sobre o conteúdo já se tornaram geradores de valor em si.

Será que paradoxalmente essa particularização do mercado, tratando a identidade da editora como o verdadeiro diferencial, é a solução final para a ansiada comoditização do livro enquanto investimento? Será que esse direcionamento à identificação entre editora e leitor, no ambiente mais profundo da sua personalidade, permitirá atingir um maior nível de confiabilidade comercial em nossos projetos? Talvez isso não seja a resposta, mas, por enquanto, é uma das que nos parece mais sólidas, até que o próximo desafio editorial dê as caras, dite as cartas e vire, como esperado, o nosso mercado de ponta cabeça.