Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

[oei#43] Os múltiplos caminhos da distribuição e comercialização do livro enquanto produto até o público enquanto leitor

Olhando para as pesquisas e discussões sobre as evoluções (ou involuções) do mercado do livro, no Brasil e no Mundo, não é difícil tratar todos os dados apresentados como meras abstrações. Nessas análises quanti ou qualitativas, sempre faltam canais, produtos, públicos e momentos de encontro com o texto e o livro que nos dariam visões diferentes e mais completas sobre como realmente funcionam nossas cadeias de valor. Mas a realidade é que seria impossível fazer uma pesquisa realmente abrangente sobre algo tão subjetivo como a leitura, pois não falamos de uma atividade única, mas de uma quantidade enorme de comportamentos e relacionamentos que implicam no contato entre diferentes tipos de leitor com diferentes tipos de livros a partir de diferentes meios de distribuição e comercialização. Porém, quando nos debruçamos sobre o livro enquanto produto, a situação muda de figura e talvez possamos ter um olhar mais cirúrgico sobre esses seus caminhos.

A expectativa é que, com base no trajeto dos livros desde as editoras até o consumidor final, que ainda não trataremos como leitor, possamos, com o apoio dos dados disponíveis em distribuidoras e pontos de venda, entender como se dá a geração de valor nesse translado. Porém, não podemos esquecer, cada livro, cada editora, e cada leitor sugerem ou pedem trajetos, cadeias, interlocutores, formas de divulgação e formatos (físicos ou digitais) diferentes. Não há, portanto, apesar de todas as generalizações, uma cadeia de valor única para o livro, pois diferentes parceiros e diferentes relações concedem (ou não) valores específicos que somam (ou não) à percepção do cliente sobre o produto, influenciando a sua compra e a sua leitura.

Alguns livros, por exemplo, pedem divulgação em veículos literários tradicionais, e distribuidoras com grandes e longas cadeias de relacionamento, pois requisitam capilaridade para chegar a leitores em lugares distantes que ainda se fiam na relação com os livreiros para escolher suas leituras; outros pedem entrega instantânea via marketplaces digitais, por conta da divulgação youtube e tiktokiana, dispensando a logística e distribuição físicas, pela pressa que os leitores podem ter para acessar e utilizar seus conteúdos; e, finalmente, há aqueles que, por terem custos elevados e baixas tiragens, transitam diretamente do publisher ao leitor, com vendas mediadas por financiamento coletivo, enquanto os temas, os autores e as editoras envolvidas constroem relacionamentos que, futuramente, irão requisitar as distribuidoras que no momento não conseguem, ou não faz sentido, pagar.

Por isso, quando falamos da cadeia de geração de valor do livro, unida pela sua distribuição, tanto física quanto digital, tanto mediada quanto direta, estamos falando do estabelecimento de relacionamentos mais do que comerciais; estamos falando do estabelecimento de geração de valor a partir da conjunção das identidades e comportamentos dos elos dessa cadeia que a distribuição une.

Mais do que delivery ou logística, a distribuição se torna uma forma de pensar estrategicamente a construção da identidade do livro, e, consequentemente, da editora, pelas parcerias que se formam até o encontro do leitor com o produto. Ele transitar pelos locais certos, ser divulgado pelas pessoas que falam com o seu público, e chegar aos pontos de venda adequados, mais do que mera exposição, concede ao produto a aura que aumenta a possibilidade de encontrar seu público alvo, estimular a venda, e, inclusive, motivar o comprador a efetivar a leitura, investindo o custo invisível de tempo e atenção que a obra demanda.

Se o editor é, como diz Luiz Schwarcz em suas memórias, o primeiro leitor, até a chegada ao leitor “final”, com muitas aspas, é essencial que toda a cadeia e os agentes da distribuição sejam também parceiros “leitores” alinhados com a realização das expectativas criadas ao redor desse mesmo livro. Só assim, o livro, enquanto produto e projeto, atingirá o sucesso exato que busca e merece.

Carpe Diem: End of the World edition

Carpe Diem… Carpe Diem...

Em determinados momentos, a gente precisa largar a postura mezzo Kafka, mezzo avestruz, de ver a guerra começar e ir pra natação; e, mesmo de frente pra tragédia, conseguir tirar forças de qualquer lugar, mesmo dos errados.


Gostando ou não gostando, reta ou torta, a mensagem certa acaba chegando ao destinatário. Nem tanto pela mensagem, nem tanto pelo emissor, nem pelo mensageiro, mas pela pura necessidade do receptor ouvir exatamente aquilo, daquela exata maneira, naquele exato momento.

Carpe Diem… Carpe Diem...

Por mais brega que seja, o que nos resta fazer? Então mãos à obra que esses diem não vão se carpar sozinhos. Mesmo que seja indo pra natação. Vai ver, Kafka não era tão negativo quanto imaginamos (mentira, era).

Carpe Diem… Carpe Diem...

(obrigado ao Tarrask por me lembrar do diário do Kafka, agora vou ter que reler)

Carpe Diem… Carpe Diem...

Analogias Analógicas

Algo está quebrando, ou, quem sabe?, se consertando, se concertando. Não só em mim, mas em todo o mundo.

No trabalho, no intervalo do almoço, as pessoas fazem palavras cruzadas nas suas mesas com uma concentração inesperada. Hoje, num restaurante uma família, na mesa ao lado, fazia as suas, enquanto esperava com surpreendente calma a sua comida. As salas de cinema estão, não  exatamente cheias, mas mais cheias. As revistas voltam a ser vendidas e lidas em seus formatos físicos, pois falam de atividades analógicas e seria um contrassenso fazê-lo no digital.

Essa semana li Veja e Super Interessante o que provavelmente não fazia desde o século XX

O tempo, que parecia faltar, agora sobra e  eu consigo cochilar sem culpa nas tardes tediosas dos domingos e nas manhãs vazias dos sábados. A caminho de casa, eu escolho os trajetos mais longos, onde posso encontrar as coisas que eu não esperava encontrar. Ouço as tolices bem intencionadas das pessoas e o barulho (quase) harmônico do trânsito; sinto o cheiro fermentado das ruas e o odor  adstringente das lojas; saboreio a doçura da chuva e o defumado dos canos de descarga; sofro na pele o calor inclemente das tardes cariocas, suo, mas, apesar do incômodo, não assim acho tão ruim.  Sentir o que nos cerca é estar vivo e, por pior que seja a dor, ela é preferível ao embotamento ao qual nos submetemos por tanto tempo.

Enfim despertos, como viciados, recém saídos do fundo do poço, caminhamos pelas ruas vazias das cidades natais que não mais reconhecemos, para mastigar um pão estranho, lembrando que esquecemos como era o seu gosto. O gosto é bom? Ruim? Não sabemos dizer, mas, ao contrário de toda a virtualidade no qual nos escondemos por tão tempo, ele, pelo menos, é; ele, pelo menos, é.

[oei#42] Do embaraço injustificado da autopublicação à consciente e orgulhosa copublicação


É realmente estranho que a autopublicação tenha uma fama tão ruim, afinal, qual obra não tem um pouco dela? Excetuando-se as obras contratadas diretamente pelas editoras, qualquer texto submetido para publicação é um esforço inicial e individual de uma autora. Obcecada por uma visão que não lhe sai da mente, ou pelo “dever” de expor ao mundo uma realidade, mesmo que escondida numa ficção, essa autora dá início a esse processo de tornar públicas suas ideias e suas histórias a partir de um esforço e risco próprios.

Óbvio que no seu caminho para chegar ao público leitor, principal objetivo do processo de publicação, vários outros participantes entrarão nessa aventura, compartilhando riscos e agregando valor às etapas de desenvolvimento e ao produto final. Porém, a ideia corrente sobre esse processo é bem diferente.

Pela mitologia editorial do século XX, que ainda conta com uma legião de fiéis, uma pessoa iluminada surge do nada, levando uma obra à editora que, servindo como uma espécie de Gatekeeper, ao mesmo tempo avalia e concede qualidade a ela e à sua autora. Essa benção mezzo mística, mezzo capitalista, espera-se, irá garantir ou, pelo menos, aumentar as chances do seu sucesso financeiro e comercial. Essa fantasia pode até parecer inocente, mas acabou gerando exageros nas expectativas tanto do público quanto dos criadores.

O primeiro exagero é considerar que a obra só se justifica apenas quando “avalizada” por uma terceira instância, o que tornaria a autopublicação um atalho, ou, pior, uma anomalia. Claro que a editora pode conceder à obra e ao autor o capital simbólico que os tornará mais valiosos comercial e/ou criticamente. Porém isso não dá valor intrínseco à obra nem define uma superioridade do autor.

O segundo, derivado do primeiro, é que essa pretensa quantificação desse esforço e da qualidade do texto pelo volume de vendas ou pelo valor investido por uma editora é só o que basta pra conceder qualidade à obra. A obra não tem, ou, pelo menos, não deveria ter, apenas objetivos comerciais. A obra precisa, sim, como um investimento, retornar, com lucro, se possível, os valores despendidos para a sua realização, sejam eles monetários, emocionais e mentais, mas é necessário estabelecer outros objetivos que identifiquem seus reais critérios de sucesso.

Até o Snoopy é vítima dessa fantasia sobre o funcionamento do mercado editorial

Nesse ponto é impossível dissociar qualquer processo de levar uma obra ao público do processo de autopublicação. Por mais que uma editora possa ter em suas planilhas as expectativas de lucro a serem alcançadas, cabe ao autor nesse trabalho com a editora, ou com aqueles que arregimentou para essa empreitada, definir o que espera do encontro do público com suas palavras: esse, sim, o verdadeiro momento em que mediremos se a obra cumpriu o propósito para o qual ela nasceu. A definição, mesmo compartilhada, dos seus objetivos torna toda publicação uma autopublicação. A participação de editoras, de autopublicação ou não, distribuidoras, pontos de venda, designers, revisores, e todos os demais envolvidos nesse processo de desenvolvimento é essencial para que, para além do texto, a obra consiga se tornar o produto que irá atingir o seu propósito.

A determinação do percentual do trabalho realizado pelo autor talvez possa dar uma medida de quanto ela é uma autopublicação pura. Porém, ela nunca deixará de ser ao menos um pouco auto e, pelo envolvimento de tantas instâncias, e ,principalmente, de seu principal interlocutor, o leitor, a obra nunca deixará de ser também uma copublicação.

Em vez de ser tratada como uma longa linha fabril onde os riscos, sim, se diluem, mas junto com eles se vão os propósitos e engajamentos, toda publicação precisa ser encarada também como uma colaboração onde cada participante acrescenta novos valores e sentidos para o que nunca poderia existir sem os desejos individuais da autopublicação e a força do sentimento de coletividade da copublicação. Assim como criar uma criança, publicar um livro requer um vilarejo, ou quiçá, uma cidade, um país, ou, mesmo, um mundo inteiro, tanto de profissionais do livro como dos leitores para quem ele foi criado.

Under Pressure

Como eu estava dizendo, é impossível escapar, mas também é impossível não resistir. Sim, a pressão é contínua e vem por todos os lados, mas fingir que não a vê ou não tomar partido em nada ajuda. É preciso reconhecer que ela existe, e, melhor, até entender do que ela é feita. Mas não tenhamos ilusões, conhecer o que nos antagoniza, apesar de nos permitir resistir, por um tempo pelo menos, nunca resolverá os problemas que a pressão gera e que são, por ela, gerados. Sim, é impossível escapar, mas também é impossível não lutar. E, antes de nos congratular, lembremos: reconhecer, entender, e resistir a pressão, sem expectativas de vitória, não é heroísmo, mas, simplesmente viver. Enfim, o que há mais no viver do que resistir àquilo que não conseguimos evitar? Mas eu já falei isso, não? Como eu estava dizendo…