Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

2026.09.06 – “The innocent can never last. Wake me up when September ends”

  • Parece que foi ontem, parece que foi séculos atrás: o 11 de setembro completa 25 anos. O impacto na política ainda é visível, e na vida das pessoas também. A New York relembrou os textos de seus colaboradores na semana seguinte. Sempre bom saber que não estamos sozinhos em nossas angústias. Talvez essa seja uma das maiores razões da literatura existir.
  • A cada número de anos cabalístico (5,9,10,11, 15, 20, 21) fica no ar uma expectativa de um repeteco histórico, mas não como farsa. Frente ao fascismo reinante nos EUA, a sensação é de que o medo está se transformando num desejo. Já ouvi mais de uma vez nos últimos tempos frases como “tomara que dessa vez matem o Trump; eles erraram o prédio, deveriam ter acertado a Trump Tower; quando os EUA vão enfim pagar pelo mal que cometem com o Oriente Médio?”.
  • Dizem que o 9/11 é o maior sinal que a história não acabou. Discordo. Pra mim, o 9/11 é o primeiro sinal do apodrecimento post mortem dela. O que de fato aconteceu na história que não um avançado estado de rigor mortis do capitalismo tardio (ou zumbi).
  • Enquanto isso, como os cristãos primitivos de Valis trancados na invisível Prisão de Ferro Negro, continuamos à espera de que esse setembro acabe. Será que esse ano ele acaba? Não tenho muitas esperanças, mas me acordem se ele acabar.

2026.09.05 – “Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje?”

  • Dá uma certa saudade de quando a Internet era criativa. Ela ainda é, só que, hoje, essa não é essa a característica dela que fica mais em destaque. Afinal, ser criativo requer pensamento, autocrítica, dá trabalho e não gera (muito) dinheiro. Para ser criativo é necessária uma mistura de obstinação e desleixo, enquanto para ser um babaca é também necessária uma combinação (oposta) desses mesmos desleixo e obstinação, mas com muito menos esforço. Sacou? É tipo a meritocracia. O problema não é meritocracia, são os méritos. O mesmo vale para as paixões e para os desapegos. É importante é saber no que se agarrar e o que abandonar. Então por que não abandonar a ideia de que a internet está morta e lembrar que, pelo menos em alguns lugares, ela está viva?
  • O problema foi o utilitarismo que abraçou a Web. Antes ela era um playground, depois virou um trabalho, e agora é uma prisão. Talvez a saída não seja fugir da prisão, afinal parece que a prisão cresceu e tomou o mundo. A saída provavelmente é tomar a prisão. E como fazemos isso? Sendo bobos e ruins, de propósito. Exemplo? Que tal dar prêmios para as piores primeiras frases de romances inexistentes?
  • Enfim, o problema nunca foi a Internet, mas juntar a avidez zumbi do modelo industrial fordista com uma máquina de contínua autorreplicação. Num mundo modelado pelo conceito de que o sucesso é o que dá mais visualização, somos tomados por um câncer informacional que só repete o mundano e abafa qualquer voz discordante. Porém, não se engane, elas existem. É só abrir os ouvidos para os tons dissonantes e ignorar o ruído branco das máquinas registradoras movimentando o pagamento digital das nossas almas em holocausto a Mammon.
  • O engraçado é que todo meio de comunicação (sim, é só isso que a internet é), nasce (ou é descoberto) como uma ferramenta democrática de muitos pra muitos. Pode, óbvio, ter seus custos de entrada e veiculação, mas eles são sempre decrescentes. Estranhamente, o quanto mais um meio de comunicação se capilariza e reduz seus custos, mais ele enterra os independentes no ruído da massificação da mídia. A Torre de Babel não caiu, apenas a instalação de um sistema de som ambiente tornou viver dentro dela insuportável.
  • Porém, o que é chato mesmo é que o online virou o padrão de tudo. Se não está online, não existe. Será que quando você para de ler minhas palavras eu paro de existir pra você e você para de existir para mim? Brrr…
  • Há 110 anos, o Donga falava pelo telefone. Há 30 anos, o Gil entrava na internet. Há 5 minutos você começou a ler esse texto. Nada existe a não ser as relações que estabelecemos na vida.

 

26.08.30 – “Now your eyes are red from crying, almost blue”

  • É difícil a gente entender os tempos que vivemos enquanto os vivemos, mas algo que tem se destacado pra mim como marca da nossa época é como os diagnósticos tomaram lugar dos sentimentos. Antes a gente ficava triste, feliz, nervoso, na fossa, em crises existenciais, com neuras, raivoso ou apaixonado, mas essas emoções todas, com seus sofrimentos e glórias, eram sempre provenientes das relações que estabelecíamos com as pessoas e com o mundo. Hoje o movimento parece ser simplesmente interno, uma precondição a ser ativada para gerar uma resposta emocional padronizada e repetitiva, uma proverbial bala na agulha à espera de um gatilho genérico pra estourar. O mundo, nessa visão, não existe como interlocutor, só como catalisador de um destino psíquico inevitável. Deixamos de ser humanos, agentes de nosso destino, para nos tornarmos algoritmos de carne a espera dos comandos que darão início à nossa programação. Triste isso, não? Ou seria melhor dizer digitalmente deprimente?
  • Óbvio que no Brasil, essa tendência vai assumir os contornos locais de desespero escondido em bazófia. Exatamente como o Nelson Rodrigues tratou a psicanálise. Acusava o analista de comadre bem paga, mas por baixo da zoação com os complexos edipianos e outras manifestações inconscientes, que a pornochanchada escrachou de vez, Nelson foi o maior divulgador da importância da mitologia familiar na constituição da nossa psiquê. Hoje, o linguajar vazio da pseudo psiquiatria de Instagram não dá corda pra grandes obras. No máximo sai um esquete de A Praça é Nossa com meia dúzia de bordões pouco imaginativos repetidos à exaustão. Deprimiu ou Burnout, meu companheiro de diagnóstico?
  •  Caramba, acabei de ter um déjà vu que estava escrevendo que estava tendo um déjà vu . Perdão, mas já não escrevi isso antes? Ou foi um outro déjà vu? Nah, deve ter sido algum problema psiquiátrico (ainda) não diagnosticado.
  • Mas, no fim das contas, psicanálise ou psiquiatria, Nelson Rodrigues ou Instagram, o que importa é a gente manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

  • Negativity is the enemy of creativity. If you are filled with bitter, selfish anger, this occupies the mind and leaves little room for creative ideas.David Lynch

 

 

26.08.29 – “Oh, be a simple kind of man. Oh, be something you love and understand”

  • 29 de agosto. Amélie Poulain day. Enfim ou ainda?
  • Tenho sentimentos conflitantes sobre Amélie Poulain. Quando saiu, achei bobo. Ponho a culpa no 11 de setembro (apesar de estrear em abril de 2001 na França, aqui só pintou em fevereiro do ano seguinte). Na minha opinião, a época pedia discussões mais urgentes e sérias. Não ajudou também o filme ter virado o manifesto de toda uma geração biruleibe que dominou as artes até a metade da década seguinte. Até hoje me lembro que Amélie foi o nome escolhido por uma Mallu Magalhães ainda teen se fingir de barista num reality show sem graça desses de tv a cabo.
  • Hoje, 25 anos depois do seu lançamento, já estarmos fartos e enjoados das discussões sérias, urgentes e vazias que, descobrimos, só servem para gerar mais conflito, capitalizar extremistas e arrumar pretexto pra acabar com o planeta.
  • O que eu não entendi na época foi que o filme na verdade propunha uma forma alternativa e deliciosa de conviver com o fim da história: nos tornarmos terroristas existenciais. Atacando os pequenos problemas com criatividade, fazendo justiça cotidiana absurdista e promovendo a iluminação mezzo espiritual, mezzo material dos (extra)ordinários seres humanos.
  • A escolha da sociedade pra lidar com o fim da história foi diferente: apoiar crises artificiais promovidas pelos egos das almas mais sebosas e gananciosas do planeta com base em motivos falsos e vis. E, assim, a humanidade se dividiu para batalhar entre si por coisas mesquinhas, perigosas e sem sentido, enquanto poderia, se tivesse aprendido com Amélie, estar resolvendo ludicamente as crises existenciais próprias  e alheias.
  • Hoje, não resisti e reassisti Amélie. Durante todo o filme, lamentei estar tão errado na época. Agora já é tarde demais. Quando há tanto ameaçando a nossa existência, é quase impossível ser existencialista, quiçá um terrorista existencial.
  • Mas ainda há esperança. Talvez possamos aproveitar o cansaço de todas as polarizações e seduzir as pessoas, como Amélie fez, com a beleza do cotidiano, com a importância das coisas que gostamos e não gostamos e com o prazer de fazer o bem e iluminar quem nos rodeia.
  • O primeiro passo? Mudar de ideia. E não precisa ir muito longe. Comece pequeno, por exemplo, curtindo de coração aberto um filme que achava bobo e até mesmo, valha-me Deus, as músicas da Mallu Magalhães.

 

2026.08.16 – “Apague a luz pra eu te ver melhor”

  • A diferença entre uma seita e seus amigos é que a seita será sincera contigo pelos motivos errados, enquanto seus amigos vão mentir pra você pelos motivos certos. Apesar dos apesares, há horas em que seitas podem fazer mais por você do que seus amigos (que, se forem realmente amigos, na hora certa, vão te resgatar da seita).
  • Me surpreendo como o Chorão virou a voz de uma geração. Assim como o Renato Russo que ajudou uma geração que “fala demais por não ter nada a dizer” a sumarizar suas angústias, o doutor Alexandre Magno Abrão ajudou de millenials em diante a expressar os incômodos que eles não conseguem vocalizar ou entender. Curioso que ambos foram vítimas dos algozes das suas respectivas gerações: a AIDS e os distúrbios psicossociais. Como todos os que falam o que sabemos ser verdade, foram considerados loucos, mas suas palavras e sabedoria permanecem. Já isso não é surpresa alguma. Afinal, “Só os Loucos Sabem“…
  • Não há sensação mais estranha do que acordar de madrugada numa casa onde a luz acabou. Ao contrário da sensação de quebra de ordem que o susto da queda de luz gera, quando acordamos durante um blackout, é como se fóssemos nós os deviantes numa ordem diferente mas natural. Assim, despidos da intenção e motivação para tentar resolver o irresolvível, apenas seguimos a vida como se a luz fosse uma ilusão e ela nunca fosse voltar. Vamos ao banheiro no escuro; buscamos comer o que pode estragar no congelador; acendemos o fogão que, graças a Deus, ainda gera luz e calor; usamos as nesgas de luz e energia para ler ou tentar contato com o mundo exterior; enfim, tentamos seguir a vida dentro de uma fingida (a)normalidade. E, do nada a luz, volta. É uma sensação estranha de viver algo que parece que não aconteceu de verdade. Tipo quando a luz acaba no cinema.
  • Tudo volta, mas volta diferente. Não sei se tem relação com a queda de luz, mas tudo pediu pra eu me relogar. Na base das infraestruturas (físicas e lógicas) está a energia.
  • Adendo: fui ao cinema assistir a Camp Miasma (o que merece um texto à parte) e o cinema estava sem luz. Resolvi esperar até o horário da minha sessão e a luz voltou. Porém, como esperado, no meio do filme, a luz do cinema acabou de novo, o que é também uma sensação esquisita, pois. no cinema, JÁ estamos no escuro. Exatamente como na queda de luz quando dormimos. Porém logo a luz voltou, como de madrugada. Me pergunto o que esses eventos repetidos significam. A luz acaba quando ninguém vê e tudo volta ao normal sem ninguém perceber. Talvez eu esteja precisando apagar a luz para ver algo melhor.
  • Mas isso o João Penca já sabia:

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  • Sempre fico encantado com a beleza e a maestria da narrativa simples, mas nunca simplória, de Charles Schulz. 4 movimentos com blocos visuais muito claros sobre desejo, luta, resolução e decepção. Pra ir do cotidiano ao existencial só precisamos de quatro quadros (e de um Beagle preto e branco).
  • Um fim de semana razoavelmente produtivo: fiz a decupagem do curso de quadrinhos e a primeira edição do AH!QUATRO para o curso de fanzine. Que outros dias sejam tão calmos e criativo assim.
  • Em vez de vida longa e prosperidade ou paz e amor, deveríamos desejar calma e criatividade aos outros. Então, paz e imaginação pra vocês.

Star Trek

2026.08.09 – “This is the day, your life will surely change. This is the day, when things fall into place”

    • Sumido por motivos de exaustão mental, incerteza (positiva) sobre o futuro e overdose de remédios emocionais, tais como RPG, Magic The Gathering, Quadrinhos e A Gata Comeu. The Works.
    • Curioso como sempre me agarro nessa novela em momentos de transição. O que me atrai? A liberação das fantasias ou a confirmação de que o mundo é um (mau) teatro? Por outro lado, sempre me parece um ritual de fim de fase, mesmo sem saber qual nova fase virá. Nas outras vezes, eu assisti pois estava sendo exibida. Agora, com o streaming tomei a iniciativa de eu mesmo assistir. O que isso diz sobre a minha tentativa de controlar o futuro? Que fase eu quero que acabe logo e qual sonho quero que comece?
    • Por falar em rituais, hoje, como em todos os dias dos pais, segui o mesmo protocolo: acordar antes de todo mundo (como sempre), lavar louça e arrumar a casa, esperando o que sabe-se lá o que virá. É acts of service que chama, não?
    • Nas redes e nas conversas de botequim, só se fala do novo mundo pós IA. Que tudo, do trabalho à política, passando pelas amizades e relacionamentos, irá mudar por conta das respostas rápidas e (in)certas dos Chats da vida. O que ninguém parece perceber é que informação sem experiência ou experimento é uma tentativa vazia de mostrar sabedoria, pois conhecimento sem engajamento emocional e existencial é apenas uma ferramenta para fraude (estando a informação correta ou não). Afinal, o que se faz simplesmente pelo ganho pessoal e não pela verdade nasce de egoísmo mimético e má intenção (nem sempre no sentido moral, mas com certeza no ético). E a IA é a coroação desse casamento fatal da ignorância com a ganância que assassinará o saber.
    • Por essas e outras, dá até vontade de escrever uma continuação protópica de A Máquina do Tempo em que o viajante encontra uma outra tribo que, longe da briga entre Morlocks e Elois, aprendeu a viver com sabedoria, ou seja, sem ilusões utópicas ou fantasias distópicas, assim, sabe?, como dá. Provavelmente na minha versão, essa tribo viveria em Paquetá.
    • Em paralelo, parece que há algo no ar sobre o fim das redes sociais e da sociedade do espetáculo. Tá, exagero, mas o pessoal já parece estar cansado de trabalhar de graça para os barões da internet. Enfim, a história humana se movimenta de abolição em abolição de múltiplas escravaturas. A Heineken já se movimenta há tempos sob essa lógica, com motivos espúrios, lógico.

  • Quando a gente vê o aparato que as plataformas de internet nos entregam, é surpreendente como o uso é vazio. Quando não tínhamos nada, dispendíamos muito esforço e artesanato para construir fisicamente as imagens que nos passavam pela cabeça. Hoje, que tudo é dado, a impressão é que nada temos a dizer. É como se publicar, divulgar, produzir tenham se imposto na frente do que deveria ser sua origem: imaginar, sentir, querer. Como gatos, os artistas do avant-garde de hoje, em vez de inovar tecnicamente, passaram a brincar com as caixas de papelão onde os presentes caros e inúteis que receberam das Big Techs foram embalados. Talvez isso explique o retorno dos fanzines e outras mídias low-fi. What would Maya Deren do?
  • O que o mercado do entretenimento não parece perceber é que, como belamente demonstrado na cena do Azul Cerúleo de O Diabo Veste Prada, o público de massa precisa do avant-garde (no caso da alta costura) para poder construir o seu junk food estético. Porém, com olho no lucro fácil e na infinita reprodutibilidade que a IA promete, o que se deseja é apenas reproduzir o fácil, genérico, de (aparente) grande alcance e que retorne rápido seu investimento. Nossas almas não podem viver com essa pseudo-arte caloria zero. É a alma dos artistas que nos alimenta. Infelizmente até as almas deles estão sendo fabricadas em série, vide o circuito de autores celebridades que atende às culpas e desejos dos mais diversos públicos de todos os espectros e fetiches.
  • Mas pra que eu devo me preocupar ou me exaltar com esse futuro? Melhor viver o presente. Se for um pouquinho melhor que ontem já tá bom. Não tá?
  • “You could have done anything, if you wanted/ And all your friends and family think that you’re lucky/ But the side of you they’ll never seeIs when you’re left alone with your memories/ That hold your life together, like glue” – The The