Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Você realmente quer (ou pode) jogar RPG?

Quando éramos jovens, a nossa discussão principal era o que jogar. Tínhamos os defensores ferrenhos desse ou daquele jogo, que nunca faziam exceções; aqueles que transitavam sem pudor por uma pletora de sistemas; e os jogadores ocasionais que abraçavam sem paixão ou preconceito a onda atual dos amigos.

Abençoados pelas poucas responsabilidades e por uma agenda livre e ansiosa por ser preenchida, podíamos nos dar ao luxo de escolher (ou deixar de escolher) qual seria a natureza da nossa brincadeira narrativa.

O tempo passou, diminuiu, ou, em muitos casos, até sumiu, e as nossas possibilidades de jogar RPG foram minguando, beirando a extinção. Oprimidos pelo cansaço laboral do capitalismo tardio, pelas demandas familiares e sociais, e pela complexa existência no século XXI, parece que o simples ato de interpretar um herói numa sessão de RPG se tornou um ato de heroísmo em si.

Novamente chega dezembro, e, na minha lista de resoluções para o ano vindouro, como, acredito, na de muitos de vocês, uma coisa nunca deixa de marcar seu lugar: jogar mais, ou, simplesmente, jogar RPG.

Esse ano, enquanto fazia novamente essa reflexão, comecei a me questionar  se não estamos dando murro em ponta de faca ao tentar reproduzir um comportamento que depende de condições que só tínhamos na nossa juventude. Por exemplo:

  • Os sistemas e cenários de jogo que escolhemos geram expectativas factíveis de serem cumpridas por pessoas como nós ou estamos arriscando a nos frustrar por nos envolver com longos avanços de nível, processos complexos de criação de personagens, ou arcos exaustivamente longos?
  • Os horários, as durações das sessões, e os locais escolhidos para jogar RPG são adequados na composição das nossas agendas com outras atividades?
  • Compromissos com amigos queridos, cheios de vontade, mas sem disponibilidade de agenda, não estão nos dificultando a jogar com regularidade?

Então, diferente do que fiz em outros anos, vou deixar de lado as minhas estratégias da juventude e, em vez de perguntar a vocês sobre sistemas e cenários preferidos, gostaria de, se me perdoarem a intromissão, buscar um pouco mais de detalhes sobre  as suas disponibilidades (de tempo e deslocamento) de participação (presencial ou virtual), com foco nos seus impeditivos de agenda e reais condições de energia (física e mental), para rolar dados esquisitos (ou regulares) em atividades de contar histórias heroicas (sejam elas com masmorras, dragões ou outras coisas fantásticas ou quase realistas).

Assim, se você, como eu, em 2026, quer jogar mais RPG, me responda nessa, eu prometo, curta e rápida pesquisa, quais são as suas condições de contorno para compartilharmos uma mesma mesa como mestres ou jogadores.

Segue o link: https://forms.gle/9BDcDMhVzzfPcQ66A

Fique à vontade para compartilhar essa mensagem com outros amigos rpgistas que estejam passando por esse mesmo dilema.

Espero que compartilhemos muitas aventuras fantásticas em 2026 e lhes desejo um ano novo incrível!

A bolsa contra a opressão do Plot

Li hoje pela amanhã “A Teoria da Bolsa de Ficção” da Ursula Le Guin. A sugestão do ensaio principal do livro, acrescido de dois ensaios complementares de outras autoras sobre o texto inicial, é que o modelo narrativo do “Herói” carrega em si uma ideologia baseada na morte, no conflito, algo quase (ou totalmente) belicista. Em contraposição a esse modelo patriarcal, ela sugere o modelo da bolsa que, ao contrário da seta apontando ameaçadoramente em direção ao futuro, recolhe as histórias e personagens num espaço de acolhimento focado no presente.

É um belo e provocador pensamento, mas os milênios de costume com a opressão do plot que encaminha a história sempre para a resolução de uma contenda, normalmente em busca do retorno a um estado normal, que de normal não tem quase nada, tornam esse exercício de re ou desconstrução muito desafiador.

Fiquei me perguntando onde poderíamos encontrar sinais desse modelo e logo me veio à mente Jacques Tati com seu Monsieur Hulot, cujas férias eu estava curtindo ontem.

Aos moldes do que Le Guin sugere, nas obras  de Tati as histórias apenas se acumulam, sem conflito, propósito ou contenda a se resolver. São justamente apanhados temáticos de experiências, filmadas a uma média distância, que lhe permitem escolher para onde olhar e no que fixar a sua atenção. Pode não haver um propósito norteador, mas essa experiência estética, como a vida, está carregada de sentidos a se abraçar, como itens espalhados randomicamente dentro de uma bolsa mágica. Extrapolando, ainda dentro do cinema, parece que o mesmo pode se aplicar ao neorrealismo italiano, à Nouvelle Vague, e a outros movimentos de cinema independentes. A escolha pela contemplação e reflexão parece ser bastante natural quando não ficam cerceando nosso campo de visão com cores berrantes, explosões ou super close-ups.

No caso da literatura, um outro exemplo, lido esse ano, do qual me lembrei, foi Esboço da Rachel Cusk. Nesse livro rola a mesma sensação de observar a vida e caminhar por entre histórias nas quais podemos nos aprofundar mais ou menos, ao nosso bel prazer, sem a ansiedade de um fato ou trajeto narrativo conclusivo que estabeleça um lado “vencedor”. Se formos buscar formatos mais alternativos, seja entre Burroughs, Borges, Burgess, Calvino, ou mesmo entre os Beatniks, ou o povo da Oulipo, encontraremos ainda mais belas bolsas a vasculhar.

A verdade é que, escondidas em toda essa balbúrdia sem sentido de som e fúria, talvez estejamos cercados de mais bolsas que imaginávamos. Só precisamos (re)aprender a reconhecê-las e intencionalmente sair à sua busca ou mesmo a criá-las.

 

[oei#40] O contrato como ferramenta de gestão de risco nas (in)certas relações editoriais

Mais do que um instrumento legal, o contrato é um desenho de futuro. Nas suas cláusulas, itens e até nas suas assinaturas encontramos uma intricada cadeia de relações, cheias de expectativas de atividades e entregas, que se desdobram em prazos, promovendo sociedades na criação editorial, ou a troca de valores financeiros por serviços e produtos. O contrato, em sua construção, tenta antecipar tanto os possíveis conflitos e riscos negativos da produção editorial como as conquistas e recompensas devidas às partes envolvidas nessa construção coletiva. O contrato é o roadmap da história que esse livro nascente se propõe a trilhar.

Apesar das práticas das editoras comerciais já estabelecerem alguns padrões, muitos, inclusive, por força do costume, já previstos em lei, os instrumentos contratuais não podem ser iguais entre si. Eles sempre devem refletir não só a realidade de cada projeto, mas os diferentes modelos de negócios que intermediam as relações entre autores, prestadores de serviços e editoras. Esses modelos refletem como o valor é acrescido em cada etapa do processo editorial até que o produto final chegue ao leitor.

Porém, esse caminho, por mais que já tenha sido trilhado diversas vezes, é sempre coberto de incertezas. E, para isso, contamos com os contratos como proteção. Seja para antecipar a solução de possíveis problemas com as partes que os assinam, usando multas, compensações ou sanções, como para estabelecer protocolos de decisão e mediação, quando ocorrem os inevitáveis imprevistos, sempre com o interesse de proteger tanto os direitos morais e patrimoniais dos autores quanto o investimento das editoras.

Por isso, tão importante quanto a sua redação, a gestão do contrato é uma das atividades mais críticas para o sucesso dos projetos editoriais. Desde o momento em que se faz e como se faz a sua leitura, garantindo o entendimento de deveres e responsabilidades de todos; passando pela negociação de termos e pela revisão de cláusulas para contemplar mudanças de cenários e resultados; até o momento em que as entregas, nele previstas, são recebidas e verificadas, a gestão do contrato é a linha de vida do relacionamento colaborativo e produtivo entre as partes responsáveis pelo nascimento de uma nova obra.

Assim, não podemos esquecer que o contrato deve ser tratado como uma entidade viva. Ele serve como garantia legal e referência, sim, dos objetos das relações comerciais, mas ele também carrega, a partir das expectativas passadas, o estabelecimento e garantia do cumprimento dos acordos presentes e os critérios de aceitação dos produtos futuros.

Como a realidade nunca reflete ipsis literis aquilo que esperamos dela, os gaps entre o que era esperado acontecer conforme o contrato e o que realmente ocorreu devem servir como alimento não só para a revisão dos atuais acordos, mas também para a melhoria dos próximos instrumentos legais. O contrato se estabelece, portanto, também como uma ferramenta de aprendizado. E, frente ao cenário mutante pelo qual o mercado passa atualmente, se há um lugar onde as lições aprendidas que definirão nossa futura atuação tem mais chance de serem implementadas é justamente nesse conjunto de cláusulas e itens que assinamos para firmar o nosso compromisso com o nascimento de mais um livro e com a saudável e juridicamente segura longevidade do nosso ofício.