Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Erupcja e as erupções (as)sexuais suecas, quer dizer, polonesas

Quando eu era adolescente, por incrível que pareça, a estética erótica, pornô, ou, como é estranhamente chamada hoje, adulta era bem mais presente no nosso cotidiano. Apesar de a Internet ter dado mais capilaridade à indústria do sexo, desde à gigantesca veiculação de obras audiovisuais até ao trabalho sexual remoto, ela ainda o faz de maneira voyeurística, envergonhada ou academicamente moralizante, como algo que, sim , está presente na vida de todo mundo num viés sociológico, mas que não pode ser discutido abertamente no caso particular. Já no final dos anos 70 e nos anos 80, o tal do “erotismo” era, mesmo que, ou por causa exatamente disso, machista e sob pesada censura pós ditadura, assunto de sala de visita.

Nossas casas, por exemplo, tinham nas mesas de café revistas Playboy e Ele & Ela, onde grandes nomes escreviam, como Carlos Heitor Cony e Ruy Castro; enquanto na TV as entradas das novelas e as propagandas exageravam nas imagens veladas ou ostensivas de mulheres nuas. Pra você ver, até o cinema erótico era parte constitutiva e sem pudor das cidades, tanto nos cinemas especializados em ruas de grande circulação e nas bancas de jornal, como nas salinhas separadas por cortinas vermelhas das videolocadoras.

O que estava no auge na minha adolescência eram as produções do John Stagliano, o Buttman, que “criou” uma estética pseudo realista de uma câmera na mão (em POV) e um bando de ideias maliciosas na cabeça, que domina muito do que chamamos de reality TV até hoje em dia. Porém, na contramão desses modismos, um grande amigo, quase esteta, só curtia produções alemães e nórdicas do final dos anos 70. Na sua coleção particular de VHS, o que figurava eram basicamente os filmes suecos, na época, uma espécie de sinônimo de pornô, mas ele fazia concessões para algumas produções americanas com estética similar como Garganta Profunda, o Diabo em Miss Jones e Atrás da Porta Verde.

Absolute (erotic) Cinema

Todos esses filmes, se forem vistos hoje, não poderiam ser chamados de pornô. Não são produções infantilizadas com sexo, nem flertam com os Snuff Movies, mas sim obras meio deprê, bem existencialistas, com discussões psicanalíticas que desembocam em cenas de sexo mezzo explícitas, mezzo veladas.

Ontem, fui assistir a Erupcja e me senti assistindo a exatamente um filme pornô, erótico, adulto, que seja, sueco dos anos 70. Só que sem sexo.

Na obra curtinha de Pete Ohs, Charli XCX, num papel perfeito pra sua figura de popstar pseudo (as)sexualizada, é Bethany, uma jovem inglesa, que viaja para Varsóvia com o namorado que pretende pedi-la em casamento na cidade que seria mais romântica que Paris(?). Mal sabe ele que, cheia de dúvidas, sua quase noiva quer mesmo é reencontrar uma amiga de adolescência com a qual mantém uma relação tão explosiva que toda vez que se encontram vulcões irrompem pelo mundo.

Amizade ou algo mais? Nem elas sabem. E precisamos saber?

Como disse, a obra tem muito esse clima de filme sueco dos anos 70. Imagens granuladas, filtros coloridos, fotogramas de cores pastéis, e metáforas freudianas banais para contar uma história curta de uma mulher que resiste a um casamento morno por uma amizade colorida(?) e estranha que nunca diz a que veio, mas que a anima mais do que qualquer compromisso com um rapaz bonzinho, mas bem chato, verdade, que lhe trata bem.

O mais curioso do filme é que, apesar de todo esse clima de traição, nada acontece. As amigas não parecem ter uma relação de fato, nem sexual nem afetiva, e só se utilizam para abandonar ciclicamente responsabilidades com namorados e namoradas, empregos e família. A relação que poderia ser erótica e carregada de paixão é só funcional e fria, mas muito performativa.

A estética é, como nos filmes suecos da minha adolescência, perfeita para o tema existencialista raso, só que sem o sexo. A falta do sexo é tanta que a sua expectativa não concretizada ficou tanto tempo no ar que quando as luzes se acenderam no cinema, a meia dúzia de fãs da Charli XCX na minha sessão ficou sentada imobilizada, aguardando burocraticamente que uma cena pós créditos, como num filme de super heróis, fosse fazer explodir toda a sexualidade reprimida que ele promete mas não entrega. Ou talvez tudo seja só uma impressão derivada de um vício da minha criação numa era hiper sexualizada que não faz mais sentido.

Em vez de colocar essa falta de sexo na conta dos realizadores, dos espectadores, ou de uma deliberada escolha de evitar o male gaze, saí do cinema lembrando dos curtas metragens de James Gunn, pré Guardiões da Galáxia e DCU, onde reinterpretava os tropos dos vídeos pornô gonzo, combinando atores mainstream e adultos, mas retirando o sexo das narrativas. Como ele mesmo anunciava: “For People who love everything about Porn… except the Sex!”

Erupcja, como os curtas de Gunn, mais do que uma obra audiovisual, é um sintoma de uma era onde o sexo se tornou tão ubíquo que não significa mais nada. A emoção despertada, a paixão, o tesão estão encobertos por filtros de cor pastel, sempre como uma promessa nunca cumprida. E, assim, no desespero existencial da falta de amor e emoção, nem o sexo pode nos salvar. Erupcja nos prova que, atrás das portas verdes de hoje, encontraremos apenas quartos vazios onde ecoam discursos e análises moralizantes e sem paixão sobre uma ideia de sexo que não só não existe mais como parece totalmente impossível de já ter existido. Os vulcões dos VHS da minha adolescência, infelizmente(?), parecem ter se extinguido.

[oei#46] As diversas (e contraditórias) atribuições que o Marketing Editorial (não) tem

Não. Marketing não é publicidade, mas é (da família). Marketing não é vendas, mas é (como se fosse). Marketing não é design de produto, mas é (sua essência). Marketing não é planejamento financeiro, mas é (o fim da sua análise). E quando falamos do Marketing no Mercado Editorial, talvez mais do que em outras áreas, ele é, ao mesmo tempo, tudo e/ou nada.

Qualquer discussão sobre Marketing, quando falamos sobre o livro, sempre irá resvalar na resistência do Campo Editorial em tratar o seu principal produto exatamente como o que ele é: produto. Então, nesse “nega e afirma” da importância de algo que lhe é intrínseco, o Marketing Editorial se apresenta, de forma ao mesmo tempo tímida e ostentosa, mais como uma filosofia do que como uma metodologia. Fica então a pergunta: podemos dizer que o livro pode ser “marqueteado”, ou levado de forma consciente ao mercado, ou será que esse processo é simplesmente uma linha sucessória de boas (ou más) intenções, coincidências e golpes de sorte?

(In)depende. Ok, o livro não é commodity e cada obra requer estratégias diferenciadas para chamar a atenção do público e chegar aos pontos de venda onde será encontrado. Ao mesmo tempo, pesquisas de mercado sobre produtos que ainda não fazem parte do imaginário dos seus possíveis públicos sempre poderão ser enganosas. Afinal, como podemos saber se gostamos de algo que (ainda) não existe?

Como poderíamos saber se o público iria gostar de um bruxinho adolescente inglês vivendo aventuras no colégio, ou se iria se apaixonar pela história de uma comunidade quilombola contada por duas irmãs que cortaram suas línguas? Como conseguir tornar o teste de mercado algo que não seja lançar seu produto? Como inserir planejamento no trajeto de um produto tão dependente da criação de afeto? O risco, óbvio, é uma parte importante da construção do mercado, de suas tendências e de sua história.

Claro que o mercado editorial, assim como todos os outros, tem suas peculiaridades e que os métodos usuais de criação, produção, distribuição e divulgação precisam ser considerados, mesmo que muitas vezes não sejam os ideais para produtos específicos. Porém, na busca de um nível de certeza maior para o retorno dos nossos investimentos, podemos nos fiar em séries, gêneros, franquias, modismos, efemeridades e na celebridade dos autores, enquanto buscamos pelo Santo Graal do best seller inesperado, do sleeper hit ou do surpreendente retorno de antigas obras de catálogo para as listas de mais vendidos.

Nesse misto de gestão e arte, na incerteza constante se é ou não um produto, o Marketing Editorial se (a)firma como um processo livre e deliberado de (re)pensar o livro na construção de relacionamento afetivo (e efetivo) com as comunidades de leitores. Com uma mão no coração e outra no bolso, o Marketing do Livro se equilibra numa corda bamba, sem tender nem ao Feijão nem ao Sonho, buscando constantemente responder às primordiais perguntas: de onde eu (não) vim, quem eu (não) sou e para onde eu (não) vou?

“Pai Mãe Irmã Irmão” e outros rituais familiares Jarmuschianos

Jim Jarmusch, olha a ousadia!, entrou numas de afrontar Tolstoy. Não, ele não discordou abertamente que todas as famílias felizes se pareçam e que todas as infelizes o sejam das suas próprias maneiras. Ele apenas nos lembrou em Pai, Mãe, Irmã, Irmão que todas as famílias são igualmente felizes e infelizes, e, portanto, todas se parecem, enquanto são, ao mesmo tempo, diferentes. Enfim, sem qualificativos, morais ou estéticos, sua tese, há tese?, é que, boas ou ruins, todas as famílias apenas o são, famílias.

Como em suas outras antologias de repetição (Coffee and Cigarretes, Night on Earth, Mistery Train, Paterson, etc), ele abusa delicada e explicitamente dos elementos que tornam famílias em famílias: o Rolex ou presente misterioso; os livros (não) lidos ou (não) escritos; a dependência financeira e a trapaça; os papéis conflituosamente harmônicos; os segredos não contados mas que todos sabem; a enumeração das drogas e vergonhas; os brindes tortos e inadequados (enfim, é possível brindar com água, chá ou café?); as teorias conspiratórias sobre a água; as cores de roupas que se (des)combinam; e a inevitável pressa de encerrar o encontro que não era pra acontecer. Nesses pequenos detalhes se escondem o incômodo das relações distantes (no tempo e no espaço), e é, também, ali que as suas similaridades brilham.

Já as diferenças inescapáveis não se sobressaem no grandioso, mas disputam o mesmo espaço de tristeza, ou alegria, nas pequenezas do cotidiano: no café, no chá e na água; nas histórias de formação complicadas porém geradoras de orgulho; no movimentar dos personagens pelas cadeiras e outros assentos; nas cidades e trajetos diferentes; nas variadas formas de lidar com o luto de relações, com os parentes vivos e/ou mortos, que não existem mais ou sobrevivem apenas ligadas a aparelhos ritualísticos.

Porém, por mais incômodo que essas situações, ao mesmo tempo estranhas e familiares, gerem, nada muda, e os conflitos emergentes sempre acabam sendo abafados. Enquanto o mal-estar permanece, o desejo de liberdade da juventude, experimentado nostalgicamente pelos filhos já adultos- uma condição que realmente muda a dinâmica familiar de pais, mães, filhos, irmãs e irmãos-, os persegue na forma de skatistas anarquistas em câmera lenta, se movendo livremente por entre carros, compromissos, por entre o tempo e o espaço, imunes às responsabilidades que oprimem os ex-jovens.

Ao fim de cada episódio familiar, sem conclusões ou sentimentalismos, as portas simplesmente se fecham. As portas dos carros, das casas e dos armazéns são trancadas, provisoriamente, guardando histórias relembradas em rituais mágicos que nada mudam na vida real.

Como nas conversas sem fim de cafés e cigarros, nas viagens de taxi para lugar nenhum em uma noite sobre a Terra, e  no constante apitar do trem misterioso que une histórias num hotel em Memphis, em Pai Mãe Irmã Irmão passamos, sem julgamento ou conclusão, por apenas mais um encontro com, surpresa!, pais, mães, e irmãos. Nada mais, nada menos. Exatamente o que deveria ser, exatamente o que é.

Deveríamos esperar algo diferente? Talvez de Tolstoy, mas não de Jarmusch, não de Jarmusch.

[oei#45] A elusiva dualidade entre arte e comércio no agenciamento de autores e aquisição de obras

A prensa inaugurou não só a era do livro moderno, como também foi o estopim da criação da economia industrial. Foi a sua invenção e popularização, como uma das primeiras formas de produção em massa baseada em tecnologia, que abriu espaço para a mecanização do trabalho em diversas outras frentes. Apesar desse pioneirismo, ao contrário de outros setores, o processo editorial continuou por séculos concentrando muitas atividades num grupo reduzido de pessoas.

Editoras e gráficas se confundiam, assim como livrarias, livreiros e distribuidoras, chegando ao ponto em que os próprios autores assumissem diversas dessas tarefas no processo de criação do livro, a fim de que suas obras chegassem aos leitores. Além disso, a profissão de autor não era considerada algo exclusivo, e os escritores precisavam compor sua sustentabilidade financeira com diversas outras formas de rendimento, quando não eram simplesmente “herdeiros”, o que tornava a “profissão” algo quase proibido para a população em geral.

No século XX, seguindo o modelo da linha de montagem taylorista, o processo editorial também acabou decomposto na busca de maior produtividade e especialização. Nessa redefinição de tarefas e responsabilidades, os papéis de agentes e dos setores de aquisição das editoras começaram a se delinear de uma forma mais clara, buscando garantir um melhor relacionamento comercial e negociações que trouxessem benefícios equilibrados tanto para os criadores das obras quanto para aqueles que queriam o direito de reproduzi-las.

Às agências literárias cabia liberar os autores das preocupações do trabalho comercial, permitindo que se entregassem com mais liberdade e foco ao que fazem de melhor: criar. Já os setores de aquisição buscavam manter relacionamentos com os representantes dos autores para compor seus portfólios de investimentos com obras de maior possibilidade de retorno financeiro e simbólico, alinhadas aos posicionamentos estratégicos e de marketing de suas editoras.

Arte e comércio: uma falsa dicotomia? – de 6 Degrees of Separation

Essa divisão de responsabilidades facilitou as relações e deu mais clareza aos acordos comerciais, mas, em vez de se apresentar como um serviço prestado aos autores, o seu agenciamento seguiu um salutar caminho de compartilhar com o autor os riscos. Ao ser pago por comissão, o agente, assim como a editora, se tornou um investidor no trabalho do escritor. A implicação de todos os envolvidos cria cadeias de confiança que tornam o trabalho não só mais organizado como também psicologicamente seguro para todas as partes, algo aparentemente contraditório no modelo taylorista.

A chegada da internet e da digitalização, assim como a da prensa em seu tempo, transformou o trabalho e as relações comerciais. Ao mesmo tempo em que as novas tecnologias facilitaram a aproximação entre autores, editoras e leitores, também aumentaram a produção de originais dificultando o processo de curadoria de agentes e setores de aquisição. Nessa nova configuração, os autores tiveram que se tornar responsáveis pela sua própria divulgação. Isso os inseriu no mercado de celebridades, fazendo com que o produto começasse a se tornar cada vez mais quem cria e cada vez menos o que é criado.

É nesse novo cenário de maior incerteza e excesso de informação, marcado pela exaltação de gênios de ocasião e por cancelamentos de obras e autores, que os setores de aquisição e agentes estão precisando reposicionar seus relacionamentos em resposta não só às novas tecnologias, mas também às novas relações com o texto, o livro e a leitura.

Mesmo com tantas mudanças tecnológicas e sociais, ainda continuamos guiados pelo clichê ou, quem sabe?, dogma de que “escrever está no campo da arte, enquanto publicar está no campo dos negócios”. Será que hoje essa dicotomia ainda faz sentido? Cabe às agências literárias e aos setores de aquisição fazer com que essa tal “transcendente magia literária” consiga conversar de igual pra igual com a objetividade dos relacionamentos comerciais que mantêm o nosso mercado financeiramente saudável. Um trabalho certamente difícil, mas que não depende de nenhuma mágica para acontecer .

Um diálogo possível desde que entendidas as responsabilidades de cada um – de My Salinger’s Year

A masculinidade naufraga no espaço, de Marte a Tau Ceti

Não basta estarem perdidos; eles precisam estar perdidos a bilhões de quilômetros de distância de qualquer ajuda; e, pra piorar, sozinhos. Dadas as chances de salvação praticamente inexistentes, não há muita razão pra continuar a viver. Pode até haver uma missão a cumprir, uma esperança de resgate, ou, simplesmente, a tentativa de viver. E, mesmo assim, se forem resgatados, nada há para o que voltar.

Quando partiram já não tinham nada, a não ser uma enorme especialidade técnica da qual se vangloriam, com falsa modéstia, se denominando os melhores de lugar algum, comparados com mais ninguém. Podem ser egocêntricos de baixa auto estima, mas não mentem. Mesmo na Terra, cercados de bilhões de pessoas, eles ainda estão, estavam, estarão sozinhos, e, portanto, em suas tribos de um só, em suas alcateias de lobos solitários, eles serão sempre os melhores mesmo que não haja ninguém para servir de padrão ou referência.

E, assim, contra todas as forças, eles permanecem, lutam, e, surpreendentemente, sobrevivem. Já as fantasias de que deixarão de ser sozinhos, mesmo após os extraordinários e complexos resgates, lamento, nunca se realizarão. Cá entre nós o que mais podia acontecer? Há sequer uma chance de que os homens deixem de ser sós?

Eles podem estar sozinhos, sim, mas não lhes faltam objetos de transição: batatas nascidas onde nada deveria brotar; as memórias de companheiros mortos dos quais eles não se lembram; transportes robôs ressuscitados; ou mesmo um alienígena que fala por meio de um computador como se fosse uma inteligência artificial. Esses objetos intermediários, entre o seio materno e a autonomia, permitem que esses homens, como bebês abandonados, possam treinar a se relacionar com outros que não sejam eles mesmos. Talvez por isso falem tanto sozinhos com câmeras, jogando suas garrafas espaciais em busca de um resgate que, mesmo chegando, nunca irá acabar com a sua solidão.

E quando a história termina tudo deu certo, e errado. Eles continuam sozinhos, mas era o que queriam, não? Mesmo aqueles que os resgataram não merecem o seu amor, que eles guardam pra si mesmos e para os objetos de transição dos quais nunca parecem conseguir se livrar.

O homem está sozinho mas feliz. Excluído da necessidade de viver em sociedade e se ressignificar, ou de se tornar agressivo ou resistente a um mundo que não o acolhe, ele encontrou uma terceira via, mesmo que seja em total isolamento. É possível viver assim? Sim, é, pelo menos enquanto tiver os seus brinquedos e a ilusão de ser o melhor ser humano de lugar nenhum. Será o suficiente a longo prazo? Não sei, mas, talvez, por hoje, sim.  E amanhã? Amanhã, veremos; amanhã veremos.

Em tempo

Não li os livros de Andy Weir e estou curioso que a sensação que os filmes me passam sobre essa terceira via de manifestação da masculinidade se reproduza nos textos.

Autista ou Alemão? Eis a questão

Minha preocupação e ocupação com regras é ao mesmo tempo demasiada e exemplar. Talvez por isso tenha calhado de trabalhar com Gestão do Conhecimento. O processo de organizar a criação, explicitação, consolidação e internalização do conhecimento é a melhor maneira, até o momento, de envolver as pessoas na determinação das regras que elas mesmas devem executar. Afinal, não envolver as pessoas nesse processo, todos  sabem, faz  com que as chances de as regras serem seguidas a contento caiam drasticamente.

Porém, confesso, tenho fortes sentimentos físicos e mentais devidamente contidos e ocultos, quando as coisas não ocorrem como o planejado ou como o combinado. Claro que isso me gera muita angústia, mas em vez de me desesperar, o que não seria prático ou mesmo coberto pelos acordos sociais sob os quais vivemos, simplesmente aceitei esse risco. Desde que esteja devidamente medido e registrado, trato de atacá-lo com planos de mitigação e extinção, acionados por gatilhos derivados de métricas objetivas.

Óbvio que já considerei que esse caráter comportamental podia ser um sinal de autismo, apesar de achar, como Uta Frith, pesquisadora alemã que ajudou a consolidar a ideia de autismo como espectro, que algumas regras podem estar sendo flexibilizadas demais para promover tantos diagnósticos tardios desse transtorno de neurodesenvolvimento. Porém credito boa parte desse meu comportamento à minha criação. Tive um pai que morria de medo de atrasar em qualquer coisa, ao ponto de sair com quatro horas de antecedência para o aeroporto;  minha mãe é uma perfeccionista contumaz, dando o mesmo nível de atenção e esmero a uma tese de doutorado ou a montagem de uma árvore de Natal; e estudei num colégio brutalmente estrito do qual poucos saíram com uma saúde mental aceitável (não, não fui um desses abençoados).

Pra piorar, meus bisavós paternos podiam ser considerados “alemães”, apesar de terem vindo para o Brasil ainda na época do Império Austro-Húngaro, antes da unificação alemã, o que sugere certas inclinações culturais, óbvio, estereotipadas, porém bem comuns.

Por isso, mesmo sem confiar sequer em testes psicológicos, fiquei tentado a passar pelo teste “Am I German or Autistic?” com o qual esbarrei em uma rede social. Óbvio, não é um teste apurado, mas cumpre seus propósitos de discutir os paralelos entre o transtorno e a cultura germânica. Porém, não posso deixar de mencionar, o resultado me deixou preocupado.

Se os scores de autismo e alemosidade (isso é uma palavra?) são independentes a pesquisa não deveria ser “Am I German and/or Autistic?”. Não sei, só estou dizendo…

Caso queira fazer a sua medição, aqui está o link, mas, reforço, não garanto a fidedignidade dos resultados nem a sua aderência a um verdadeiro teste de afinidade cultural ou avaliação psicoclínica.