Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

2026.07.25 – “Hot topic is the way that we rhyme”

  • Sempre é salutar (re)visitar as suas referências. Hoje tive o prazer de reencontrar uma das minhas maiores inspirações no cinema: Sullivan’s Travels, uma deliciosa história non sense, com forte veia metalinguística, fazendo uma crítica social da indústria de entretenimento na grande depressão com um delicado viés humanista/existencial. Ah, e tem uma doce e exuberante Veronica Lake, afinal “There’s always a girl in the picture. Haven’t you ever been to the movies?”.
  • Na sala de cinema, além de mim, só 3 pessoas. Não sei como a obra lhes afetou. Eu, me sentindo sozinho e livre, ri frouxo e me permiti ficar emocionado com o final que alguns, hoje, podem até considerar brega. Mas e daí? Quem disse que é ruim ser brega? Eu, pelo jeito, sem a menor vergonha, sou.
  • Confesso: é difícil assistir a uma obra com 85 anos, especialmente cinematográfica, sem sentir a diferença técnica e narrativa. Mas essa diferença não deve ser tratada como critério como uma forma de hierarquizar obras de arte das mais às menos evoluídas. Isso também não significa que precisamos tentar o impossível: entender ou nos posicionar no contexto da sua criação. Tudo o que é preciso é abraçar o que mundo lhe entrega sem julgamentos. Tá não é fácil, mas é possível. Taí uma regra que também serve pra outras vivências e leituras.
  • Hoje, também, depois de uma longa e inexplicável resistência, assisti a Parasita. Pode parecer que não tem nada a ver com Sullivan’s mas é mais obra sobre o contraste entre pobres e ricos. Não à toa, Sullivan’s Travels em português ganhou o título Contrastes Humanos. Esse poderia ser o título de todas as obras, não? É dos nossos contrastes que surgem os conflitos que movem as narrativas.
  • É importante saber de onde vêm as nossas referências. Afinal, é impossível criar do nada. A tal da genialidade, se é que existe, como bem dizem, tem muito a ver com reciclar seu próprio bom (ou mau) gosto. Então, não se sinta oprimido pelas sua inspirações. Quem te inspira não te limita. Só pegar Roberto Carlos, Leo Jaime e Raul Seixas para ver aonde usar Elvis como inspiração pode te levar.
  • Então, fica a dica vinda de Academia de Gênios:

  • Pronto! Foi só ressuscitar mais uma referência pra eu ficar com vontade de ver.
  • Já fez uma lista das suas inspirações? Le TIgre fez.

 

2026.07.23 – “And the girls all dance, while I’m feeling like a refugee”

  • Férias são o momento ideal para adquirir ou retomar velhos hábitos. Hoje pela manhã voltei ao Yoga. Fazia muito tempo que não praticava e a sensação foi a mesma de outras épocas: um cansaço e um descanso profundos; e um esforço ao mesmo tempo mínimo e desumano. Enquanto os demais alunos faziam com desenvoltura suas posturas, eu suava em bicas, colocando para fora, na forma de lágrimas corporais, anos de abusos físico, moral e intelectual que cometi comigo mesmo. Pelo menos, pra mim, todo Yoga é Hot Yoga.
  • Até o suor do Yoga é diferente dos demais. Parece ao mesmo tempo pesado e leve; plasmático e gasoso, como se eu estivesse colocando novamente em funcionamento uma tubulação de gás aposentada, enferrujada e inundada de resíduos tóxicos anciãos. Foi duro, mas sobrevivi.
  • Na saída, passando na frente de um fruteiro me encantei, como há muito não fazia, com um enorme pedaço de melancia, que, por impulso, comprei e, parcialmente, devorei em casa. Reação da reativação de um corpo em repouso por tempo demais?
  • Mexer o corpo é aquecer os desejos. Como nos sentimos fisicamente diz muito sobre o que nos incomoda e o que amamos. O melhor caminho para saber o que mexe no emocional e cerebral passa pelo físico. O desejo não precisa de palavras, mas é dependente de sangue.
  • Mais uma sessão de tarot complementar nas férias sob o pretexto de testar uma nova plataforma. Muitas reflexões sobre a vida e oportunidades de uso da plataforma. O desejo só surge como enigma.

  • Começando a reassistir a A Gata Comeu. Queria entender essa minha fascinação por ilhas. Talvez meu sonho não seja ir para uma, mas sair da que estou. Por isso, ir para outra me parece simplesmente natural. Afinal, continentes não passam de ilhas grandes e o universo, um arquipélago.
  • É surpreendente como os hábitos mudaram por conta da tecnologia. A necessidade de ligar pra se comunicar forçava relações mais diretas e havia uma tolerância maior em não se ouvir falar dos outros. Era totalmente factível alguém próximo sumir por dias (ou semanas) e ninguém se preocupar de fato. Éramos menos suscetíveis à ausência alheia e mais propensos a aproveitar suas presenças. A ubiquidade proporcionada pela tecnologia matou muitas estratégias narrativas.
  • Mas, cá entre nós, até mesmo para época, a tranquilidade do pessoal frente a um barco sumido há quatro dias é displicência demais. Ou não é?
  • Parece que o veranico acabou e o tempo está virando. Deu pra aproveitar um pouco: fui ao cinema, comi bem, testei novas coisas e deixei de me preocupar com as antigas. Agora é se/me preparar para a volta. O que essas férias mudaram em mim? Vamos ver o que permanece na semana que vem.

  • “And maybe tonight
    I can make you mine
    And if it’s alright
    We could dance in the white light”
  • Agora, com licença que eu vou ali jogar um RPG.

2026.07.05 – “Memory, all alone in the moonlight. I can dream of the old days. Life was beautiful then”

  • Hoje no Bluesky o povo tá surtando com os “jovens” que dizem estar na Internet há 10 (isso mesmo, dez) anos como defesa de suas ideias. Não acho que eles, os tais jovens, estejam certos em usar esse tipo de argumentação, mas também não podemos desconsiderar os comentários de alguém pela quantidade de tempo que usam a rede ou fazem qualquer coisa. Antiguidade pode ser posto, mas não significa sabedoria, tanto quanto juventude não significa inovação, como as discussões sobre o etarismo com a Madonna depois da parceria com a Sabrina Carpenter mostram bem. Essa progressiva extensão da vida humana vai fazer com que o etarismo (para ambos os lados) se torne uma das agendas mais importantes de DE&I nos próximos anos.
  • Por falar em Internet, lembro como, depois de uns 6 meses de CentroIn, finalmente consegui acesso à Internet. Fiz as configurações numa ligação por telefone (fixo!) e me pediram um nome de usuário com pelo menos cinco letras. Eu entendi que tinha que ter exatamente cinco letras. Sem saber o que escolher olhei pra estante e bati com o livro do Edgar Allan Poe. Na hora disse: Corvo! Por um tempo, até abrir minha conta no UOL, meu e-mail era corvo@centroin.com.br . Estranhamente vez ou outra recebia um e-mail de alguém perguntando se meu e-mail era por conta do filme O Corvo com o Brandon Lee. Não era, mas eu não respondia, nem explicava.
  • Ah, por curiosidade, isso tem 33/34 anos. Uma vida inteira no início do século XX. Uma meia vida (mal vivida) no século XXI.
  • A impressão é que sempre estamos no ápice. Ainda falta muito. Nos anos 80 e 90, as expectativas psicodélicas de fusão com a rede eram comuns, hoje são raras e tem o viés religioso que essa epifania provavelmente vai gerar. Enfim, sempre pode piorar (ou melhorar). Vai saber.
  • Enquanto todo mundo foi assistir ao Brasil, eu preferi ficar um pouco com mim mesmo. E com uns livros. Sempre vale a pena. (Estou lendo demais em inglês. O que me falta que as editoras brasileiras não entregam?)

  • Uma pequena atualização: é espantoso como o Brasil tá zicado. É só se animar com qualquer troço que tudo dá errado. Graças a Deus, estava assistindo a Bossa Nova durante a pelada. O filme, saca? Não? Olha aqui embaixo. Há 26 anos a vida parecia melhor.

  • Melhor deixar vocês quietos. Lembro como é ruim quando o Brasil perde. Já torci pra futebol, mas, obrigado, senhor, já passou. Há tempos, já passou. Enfim, melhoras e melhor sorte pra todos nós daqui a 4 anos e, bom não esquecer, daqui a 3 meses. Mais importante, não?

2026.07.04 – “Here we go again. These little earthquakes. Doesn’t take much to rip us into pieces”

  • É estranho respirar. A falta de sensação desastre eminente, essa aparente tranquilidade repentina, apesar de balsâmicas, carregam em si a possibilidade de uma benção ou de uma maldição. Estamos finalmente salvos? Ou estamos baixando a nossa guarda cedo demais? Como reagir a essa dualidade? Na real, não sei, mas, por enquanto, por pelo menos esse fim de semana, eu vou me dar o direito de aproveitar. Eu mereço, não?
  • Ao mesmo tempo, ou por causa disso, uma espécie de vácuo se formou: mudanças positivas no trabalho, fim das aulas na pós, sem compromissos a cumprir. Fiquei com um sábado livre como há muito eu não tinha. O que eu fiz? Li RPGs e quadrinhos, assisti filmes catástrofe, joguei Magic Arena. Simplesmente me deixei curtir. É estranho ter tanto tempo e não saber o que fazer com ele, mas é bom, surpreendentemente bom.
  • Agora estou com uma impressão que dá pra fazer quase tudo. É só querer. E não esperar demais disso.
  • É estranho. Já disse isso, não?
  • Bateu uma saudade do início da Internet em que parecia que tínhamos o mundo a nossa disposição e não sabíamos o que perguntar. Hoje temos tantas dúvidas e tudo o que a IA nos oferece é uma resposta única, e, pior, falsa. Talvez o que nos falte é aprender a conviver com a dúvida. Antigamente pra essas minhas perguntas inconsciente, a resposta normalmente era Tori Amos. Será que ainda é?

  • Parece que sim.

2026.06.29 – “No one dared, no one cared to tell me where the pretty girls are”

  • Estava zapeando (assim fazemos isso?) e calhei  de esbarrar com uma reprise da primeira temporada de GIRLS. É surpreendente como tudo se beneficia de distanciamento histórico. Obras em seu lançamento são carregadas de ansiedade. Pra pior e/ou pra melhor. GIRLS foi um desses casos que sofreu de ambos. Enquanto metade do mundo batia palmas às inegáveis inteligência e pertinência da série de Lena Dunham, metade reclamava da falta de propósito da nudez, das cenas gráficas de sexo e da superficialidade das personagens. Vista hoje é claramente um trabalho feito com muito esmero que tenta com muita sinceridade ser a voz da sua geração, ou, como a própria Hannah fala, “Uma voz de uma geração”. E não são assim todas as vozes?
  • Comparadas com a juventude de hoje assexuada, careta, medicada e destruída pelo brainrot, as meninas de GIRLS se mostram extremamente reais e profundas. E qual a novidade? A juventude atual sempre parece a pior, e a nossa, ó, saudades, é incomparável. Com seu envelhecimento, as juventudes alheias se tornam até simpáticas ou, no mínimo, dignas de pena. Sei que é algo horrível de se dizer/escrever, mas fazer o quê? O sentimento é esse mesmo. Temos muita dificuldade em conseguir medir a experiência humana pela vivência alheia, especialmente entre gerações.
  • Por falar nisso, fica a dica aí pra essa geração Z que se treme toda quando vê sexo no cinema: GIRLS é um belo exemplo onde as cenas de sexo são extremamente importantes pra narrativa.
  • No segundo episódio, o aborto (não necessário e não realizado) de Jessa me fez pensar como esse momento se tornou uma espécie de rito de passagem para as mulheres em diversos filmes e séries. De Picardias Estudantis a Euphoria, passando por Sex Education e Anos Dourados, a escolha consciente pelo término da gravidez é tratada, mesmo que de formas diferentes, como um momento em que a mulher se responsabiliza pelo seu futuro e afirma seu direito de escolher como levar sua própria vida. É basicamente impossível discutir a liberdade feminina sem considerar a liberdade de exercer seus direitos reprodutivos. Enquanto isso mulheres se elegem ao congresso brasileiro para pedir a diminuição dos direitos da mulher. Vai entender este país (ou outros)…
  • Mas o Brasil ganhou do Japão e isso que importa, não? Sério que preciso responder isso?
  • These precious thingsLet them bleed nowLet them wash away” – Precious Things – Tori Amos

2026.06.26 – “Na casa de noca, quando o couro come, é sinal que a dona quer respeito”

  • Com um pouquinho de atraso(?),  fiquei sabendo do novo bafafá na casa da Besta Fera. Parece que a cônge do demônio queria algo, o enteado, que está na pior, não quis dar e rebateu de forma atravessada;  ela, ofendida de ser colocada no papel de submissa que defende que todas as mulheres (menos ela) assumam, foi na internet fazer um mi-mi-mi de 20 minutos pra dizer que entende do que não entende, mesmo que tenha influência em quem não entende do que ela não entende, mas finge que entende. O que me espanta é que a gente fique mobilizado por isso. É óbvio que é golpe, como a Clara Averbuck apontou até duas vezes, mas a questão é: qual é o propósito? Os dois tão mancomunados pra ele, em queda livre, passar o lugar pra ela, dando a impressão que ela tem uma moral que não tem?  Ou é mesmo um caso de assassinar esse Julio Cesar da Kopenhagen, mesmo que ele mesmo já tenha se apunhalado múltiplas vezes, para a Evita das Cidades Satélites se apresentar como uma opção eleitoral viável? Não dá pra saber, mas é meio bizarro assistir esse Alexandre, o Minúsculo, assistir o seu “reino” ser dividido em vida quando olha pra paisagem da Muzema do Vivendas da Barra chorando por ter percebido que nunca conquistou terra alguma (que não lhe tenha sido ofertada pelos milicianos).
  • Toda vez que vejo essas notícias me dá um sentimento ruim, pois lembro da sensação na pandemia de estar preso com a Besta Fera. Todo dia uma notícia alarmante, uma bravata, uma burrice. Já não passamos tempo demais dentro da casa de sitcom ruim de “0$ B0l$0n4r0$”.? Já deu, né, galera? Podíamos simplesmente nos oferecer nossa completa e mais sincera falta de atenção.
  • Por outro lado, nesse mundo em que tudo parece falso, esse tipo de factoide gera uma impressão de realidade justamente pelas inúmeras (e irreais) camadas conspiratórias que esse drama familiar fuleiro com enormes (e graves) consequências ao país carrega. Há uma sensação de risco real, apesar de tudo não passar de um teatro. Porém, não é (a princípio) um remix beirando o plágio de algo sobre IA feito por IA. Ai,se.. AI, se… Baby!

  • Engraçado que boa parte das minhas referências mais comuns são de 1999: Beleza Americana, Matrix, Clube da Luta, Office Space… Parece que estou num romance de FC do Philip K. Dick em que o bug do milênio nos jogou numa realidade construída pela Internet e nunca chegamos no século XXI. Bom, ruim, grande, pequeno, como vou saber?