Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Kristen Stewart, estudante de cinema

Tudo é água, inclusive nós e nossas memórias

É engraçado como falar que algo foi feito por um(a) “estudante” sempre tem uma conotação negativa. Quando dizem que o trabalho de alguém parece o trabalho de um estudante, sempre dá a impressão de se tratar de uma obra meio capenga, ao mesmo tempo pedante e ingênua, cheia de ideias (de terceiros) mal arrumadas, transformando homenagem em paródia não intencional, e representando a inevitável exaltação do próprio umbigo daqueles que se consideram mais do que são.

É engraçado também que essa mesma descrição se aplica às obras dos ditos gênios: obras deliberadamente disruptivas, ao mesmo tempo cheias de ambições e inocência, transformando o legado daquilo que homenageiam, e tão originais que só podem ser tratadas como algo vindo de “un auteur”.

O primeiro filme de Kristen Stewart tem tudo isso. É ao mesmo tempo a obra de uma estudante sedenta por aprendizado e manifestação, como uma obra genial que realmente traça uma marca original no cinema atual. A gana dela pelo cinema é tão grande que até os créditos finais ela aproveita para continuar nos deixando hipnotizados com as imagens que conjurou para recontar visualmente o livro de mesmo nome de Lidia Yuknavitch.

Cheia de vida, de som e de fúria, a história da vida da escritora, como a água da qual se faz a cronologia, pinga por todos os lados, em sangue, lágrimas, álcool, água (clorada e salgada), e por líquidos seminais e vaginais. Transacionando sempre entre o respirar e a apneia, ficamos o tempo todo sufocados ou ofegantes, sem saber separar onde nós, nadadores desde o útero, começamos e onde a água, que nos cerca e ao mesmo tempo nos nutre e afoga, termina.

Uma obra que dá o seu sangue (e das autoras)

Talvez o que precisemos mais no cinema não seja de grandes “mestres” ou pessoas que “saibam acertar”, mas de pessoas como Kristen que, nessa bela combinação de desejo e propósito, sabem se arriscar pelo amor que tem à arte. E isso, é inegável, encharca toda essa obra.

Velhos bandidos, velhos públicos

A indústria cinematográfica acha que é malandra. Ciente que a maior parte do seu público era formada por jovens brancos, heterossexuais e reacionários, durante anos se fiou em encher as telas com filmes de ação capengas, hiper sexualizados, pra tentar agradar quem poderia lhe dar uma aposta mais certeira de retorno financeiro.

Porém, o mundo mudou. Com a popularização do streaming e com a polarização política, esse público de retorno certo meio que sumiu dos cinemas, se tornou cada vez mais misógino e se transformou no principal crítico do que é feito com as suas franquias preferidas. Não é surpresa, então, que toda a tétrica fase de filmes de super heróis que se abateu sob o cinema desde 2008 parece, enfim, ter se extinguido.

Por isso, foi bem interessante assistir , graças à minha filha, que tem o péssimo gosto de curtir as atuais comédias brasileiras, e o ótimo gosto de assistir qualquer coisa em que Fernanda Montenegro apareça, a Velhos Bandidos.

Não é um filme soberbo. Pelo contrário é até meio sloppy. Se apoia demais na popularidade, reconhecimento e habilidade do elenco para nos manter fisgados. Acaba que a expectativa recompensa mais do que a entrega, mas o filme diverte e parece ter provocado uma transformação no público. Explico, o filme é uma história meio torta sobre etarismo e família, mas atingiu certinho no objetivo (era realmente esperado?) de atrair a terceira idade. Quando as luzes se acenderam é que percebi como a maioria do público estava dos 60+ em diante.

Eu, que sou já um 50+, fico feliz que estejam olhando para o público que em breve me tornarei com esse tipo de carinho. Sempre bom saber que ainda há um pouco de respeito por quem abriu tantos caminhos e trouxe tanta coisa legal, mesmo numa comédia bem mambembe sobre um assalto pouco elaborado.

Imagine Sísifo feliz, quer dizer, triste, quer dizer, feliz…

Um mês sem nada a reportar que possa ser reportado nem publicado publicamente sem atrair a atenção de repórteres que irão distorcer as minhas palavras tanto quanto minha alma foi distorcida nesse período. Enfim, mais um tempo de Sísifo, nesse caso, infeliz. E não o são todos?

Porém continuo sempre com a esperança vã, tal qual um Ivan qualquer de um sombrio romance russo, de que tudo vai mudar; mas, óbvio, não muda. Se nem em Tchekhov, o mais otimista dos russos, as coisas mudam, imagina só se, nesse drama cósmico, trágico e absurdo escrito numa mesa de roteiristas composta por Dostoievsky,  Gogol e Tóstoi, alguma coisa vai mudar. Não vai e não muda.

Mas o que pode mudar é a nossa disposição. Hoje, assombrado pelas minhas catástrofes ainda não acontecidas e pelos stresses sempre realizados, parei numa loja pra comprar um refri e não resisti a tentação de testar a minha sorte com um biscoito da mesma. Esperando as tétricas mensagens que normalmente recebo, fui presenteado com uma bela reflexão:

É, parece haver vida além dos medos. É só estimularmos a imaginação para o que desejamos e não para o que queremos evitar. Vamos ver se consigo implementar essa mudança em mim. Aí não importará a pedra que eu estarei empurrando, tudo mudará e Sísifo, confere Camus?, ficará feliz. Vamos torcer, mas, enquanto isso, deixa eu ir ali empurrar uma pedra que sexta ainda não acabou.

Bom fim de semana a todos nós, Sísifos e Sísifas na cruel lida do século XXI.

[oei#44] A recursividade cirúrgica da comunicação do livro enquanto mensagem de si mesmo

Quando o livro está pronto para chegar ao seu leitor, não basta que o deixemos disponível em livrarias físicas ou virtuais, ou que ele seja entregue digitalmente a aparatos de leitura ou na porta da casa de quem irá lê-los. Antes mesmo de iniciar o processo de distribuição do produto, e dos seus esforços de venda e de marketing, há a necessidade de que a sua ideia enquanto produto e bem cultural comece a circular na mente dos potenciais leitores.

Mesmo sem esperar que ele seja adquirido, o tema do livro e suas ambições devem se tornar um assunto ou ao menos o suscitador de um assunto. Afinal, o livro nunca se basta em si mesmo. Ele, como um meio de entrega de uma narrativa de uma reflexão ou de um conceito, precisa atuar também como o início de uma discussão entre o grupo que busca sanar a dúvida que ele se propõe a responder ou aprofundar, ou àqueles que desejam vivenciar a experiência que ele incita.

Assim, para que essa ideia comece a circular criando o momentum que permitirá que os esforços de marketing e venda deem o resultado esperado, é essencial que se planeje a comunicação do que o livro representa àqueles que serão sensíveis aos seus conceitos ou àqueles com quem ele pretende dialogar. É nesse momento que delineamos quem é o público-alvo com quem ele conversa, os meios e canais onde a sua mensagem deve transitar para que ele se torne reconhecido por esses interlocutores desejados, e como melhor encapsular suas provocações e expectativas para que, enfim, se torne parte importante do assunto sobre o qual se debruça.

Óbvio que a tentação de atingir o maior número de leitores o possível é grande, e corremos o risco de buscar uma comunicação de massa, na expectativa de que, com grande impacto e grande alcance, a conversa se vire para ele. Porém, no caso do livro é muito mais efetivo ser cirúrgico nessa sua comunicação, pois até a tentativa de falar com aqueles que nada tem a ver com sua discussão pode depor contra a obra gerando uma possível resistência no público ao qual ele verdadeiramente se destina.

Assim, para que essa conversa gerada pelo livro seja do tamanho certo, conte com as pessoas certas e ocorra nos fóruns físicos, impressos e virtuais adequados, precisamos mapear com muito cuidado toda essa rede de relacionamentos que ele buscará estreitar. E esse exercício transcende a própria obra pois ela ao mesmo tempo concede e se alimenta dos capitais simbólicos da editora que a publica, da autora que a escreve, dos veículos de comunicação nos quais é comentada, e, futuramente, até das leitoras que irão investir tanto o valor visível do custo no livro como o valor invisível na sua própria leitura.

Mais do que um simples esforço de lançamento, a estratégia de comunicação do livro, como uma série de matrioskas, se abre e se aprofunda continuamente, se tornando um reflexo do assunto do qual trata, até que o próprio assunto se torne uma reflexão da obra. Quando essa ligação é feita na mente das leitoras, do público que não leu a obra, mas a conhece, e, enfim, da sociedade e de seu arcabouço cultural, sabemos que a comunicação do livro funcionou. Ou melhor, está funcionando, pois esse esforço de tornar ele conhecido e comum a todos nunca termina.

[oei#43] Os múltiplos caminhos da distribuição e comercialização do livro enquanto produto até o público enquanto leitor

Olhando para as pesquisas e discussões sobre as evoluções (ou involuções) do mercado do livro, no Brasil e no Mundo, não é difícil tratar todos os dados apresentados como meras abstrações. Nessas análises quanti ou qualitativas, sempre faltam canais, produtos, públicos e momentos de encontro com o texto e o livro que nos dariam visões diferentes e mais completas sobre como realmente funcionam nossas cadeias de valor. Mas a realidade é que seria impossível fazer uma pesquisa realmente abrangente sobre algo tão subjetivo como a leitura, pois não falamos de uma atividade única, mas de uma quantidade enorme de comportamentos e relacionamentos que implicam no contato entre diferentes tipos de leitor com diferentes tipos de livros a partir de diferentes meios de distribuição e comercialização. Porém, quando nos debruçamos sobre o livro enquanto produto, a situação muda de figura e talvez possamos ter um olhar mais cirúrgico sobre esses seus caminhos.

A expectativa é que, com base no trajeto dos livros desde as editoras até o consumidor final, que ainda não trataremos como leitor, possamos, com o apoio dos dados disponíveis em distribuidoras e pontos de venda, entender como se dá a geração de valor nesse translado. Porém, não podemos esquecer, cada livro, cada editora, e cada leitor sugerem ou pedem trajetos, cadeias, interlocutores, formas de divulgação e formatos (físicos ou digitais) diferentes. Não há, portanto, apesar de todas as generalizações, uma cadeia de valor única para o livro, pois diferentes parceiros e diferentes relações concedem (ou não) valores específicos que somam (ou não) à percepção do cliente sobre o produto, influenciando a sua compra e a sua leitura.

Alguns livros, por exemplo, pedem divulgação em veículos literários tradicionais, e distribuidoras com grandes e longas cadeias de relacionamento, pois requisitam capilaridade para chegar a leitores em lugares distantes que ainda se fiam na relação com os livreiros para escolher suas leituras; outros pedem entrega instantânea via marketplaces digitais, por conta da divulgação youtube e tiktokiana, dispensando a logística e distribuição físicas, pela pressa que os leitores podem ter para acessar e utilizar seus conteúdos; e, finalmente, há aqueles que, por terem custos elevados e baixas tiragens, transitam diretamente do publisher ao leitor, com vendas mediadas por financiamento coletivo, enquanto os temas, os autores e as editoras envolvidas constroem relacionamentos que, futuramente, irão requisitar as distribuidoras que no momento não conseguem, ou não faz sentido, pagar.

Por isso, quando falamos da cadeia de geração de valor do livro, unida pela sua distribuição, tanto física quanto digital, tanto mediada quanto direta, estamos falando do estabelecimento de relacionamentos mais do que comerciais; estamos falando do estabelecimento de geração de valor a partir da conjunção das identidades e comportamentos dos elos dessa cadeia que a distribuição une.

Mais do que delivery ou logística, a distribuição se torna uma forma de pensar estrategicamente a construção da identidade do livro, e, consequentemente, da editora, pelas parcerias que se formam até o encontro do leitor com o produto. Ele transitar pelos locais certos, ser divulgado pelas pessoas que falam com o seu público, e chegar aos pontos de venda adequados, mais do que mera exposição, concede ao produto a aura que aumenta a possibilidade de encontrar seu público alvo, estimular a venda, e, inclusive, motivar o comprador a efetivar a leitura, investindo o custo invisível de tempo e atenção que a obra demanda.

Se o editor é, como diz Luiz Schwarcz em suas memórias, o primeiro leitor, até a chegada ao leitor “final”, com muitas aspas, é essencial que toda a cadeia e os agentes da distribuição sejam também parceiros “leitores” alinhados com a realização das expectativas criadas ao redor desse mesmo livro. Só assim, o livro, enquanto produto e projeto, atingirá o sucesso exato que busca e merece.

Carpe Diem: End of the World edition

Carpe Diem… Carpe Diem...

Em determinados momentos, a gente precisa largar a postura mezzo Kafka, mezzo avestruz, de ver a guerra começar e ir pra natação; e, mesmo de frente pra tragédia, conseguir tirar forças de qualquer lugar, mesmo dos errados.


Gostando ou não gostando, reta ou torta, a mensagem certa acaba chegando ao destinatário. Nem tanto pela mensagem, nem tanto pelo emissor, nem pelo mensageiro, mas pela pura necessidade do receptor ouvir exatamente aquilo, daquela exata maneira, naquele exato momento.

Carpe Diem… Carpe Diem...

Por mais brega que seja, o que nos resta fazer? Então mãos à obra que esses diem não vão se carpar sozinhos. Mesmo que seja indo pra natação. Vai ver, Kafka não era tão negativo quanto imaginamos (mentira, era).

Carpe Diem… Carpe Diem...

(obrigado ao Tarrask por me lembrar do diário do Kafka, agora vou ter que reler)

Carpe Diem… Carpe Diem...