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As Fulanas es-cri-to-ras

Fulana já estava há alguns momentos na cabine do banheiro tentando, sem sucesso (maldita prisão de ventre!), colocar pra fora o que insistia em ficar dentro do seu corpo, quando ouviu alguém chamá-la da cabine ao lado:

— Oi, Fulana, tudo bem?
— Oi, quem tá aí?
— Sou eu, xará, lembra de mim?, a Fulana.
— Oi, Fulana, claro que lembro! Pela voz imaginei que fosse tu. Quem diria? Duas Fulanas…
— …duas Fulanas, es-cri-to-ras….
— Isso. Duas Fulanas escritoras lado a lado em cabines de banheiro num festival literário. Tá, ok, exagero. Isso não é assim tão inacreditável.
— Pois, é. Não é, mas em todo caso é bem cu-ri-o-so.
— Sim, curiosíssimo. Tá precisando de algo? Posso te ajudar com alguma coisa?
— Não, não, quer dizer, sim.
— Diga, amiga, o que posso fazer por ti?
— Sabe, quando te vi entrando na cabine achei que essa ia ser uma oportunidade de ouro pra te falar algo.
— Sério? Então, diga, estou curiosa.
— Sabe, a gente tá sempre se esbarrando aí nesses eventos, a gente é meio que colega, mas acho que nunca tivemos um espaço realmente particular pra nos falar.
— Sim, sim. Concordo. Então…
— Então, é o seguinte: como temos o mesmo nome, acaba que apesar de sermos escritoras bem di-fe-ren-tes, o povo acaba meio que sempre comparando a gente.
— Sim, sim, já senti isso também.
— Então, eu sou sempre tratada como a alternativa, fora da casinha, mas de pouco público e tal, enquanto você é a voz sensível e emocional que quebrou a bolha e conseguiu atingir um público maior. Ou seja, a que deu certo.
— Ai, amiga, não fala assim. Isso não tem nada a ver. Tu sabes que eu passo as mesmas dificuldades que ti.
— Eu sei, você passa qua-se as mesmas dificuldades que eu, mas, preciso te dizer, eu me sinto meio mal com essa comparação. Às vezes, rola até uma invejinha.
— Ai, não fica assim, não, amiga. Sabe que eu te admiro pacas. Só dei sorte. Você também vai chegar lá.
— Não sei, não, mas tudo bem. Só quis abrir isso pra você pra que esse sentimento não fique, assim, entre a gente.
— Relaxa, amiga. Não vai ficar. Pra falar a verdade, eu também até sinto uma certa inveja de ti.
— Sério? Não fode!
— Sério! Tu sempre tens essa cancha de moderna, multimidiática, fala o que quer, enquanto eu…
— Você também fala o que quer.
— Falo, mas todo mundo acha que é fake. Acham que é um personagem. Tu sabes!
— Isso rola com todo mundo. Desde que o Barthes matou o autor…
— E as autoras…
— E as autoras, tudo que nos restou foi discutir nossas tra-gé-di-as comerciais e existenciais no banheiro.
— Sei exatamente como te sentes. E eu, quando comecei com tudo isso, só queria que me lessem…
— Eu também, mas fazer o que? Acho que estamos presas. Vai ser bem difícil podermos escrever coisas diferentes, sermos coisas diferentes, pois não somos mais donas das nossas vidas. Esses seguidores da internet que nos garantem a publicação nos têm como reféns. E, agora, fazem o que querem e o que não querem da gente.
— Uma puta síndrome de Estocolmo. Não sei o que é pior: quererem ou não quererem…
— Sei exatamente como se sente, amiga. Pode crer, sinto o mesmo. Sinto, mesmo!

Elas ficaram em silêncio por um momento tentando processar a opressão dessa conclusão, até que uma delas (não importa qual), esticou sua mão em direção a outra por baixo da cabine. A outra sorriu e segurou a sua mão com força.

— Amiga…
— Diz, xará.
— Desculpa, perguntar, mas tu já te limpaste?
— Você quer mes-mo saber, xará?
— Melhor, não. Melhor, não.

(Des)Crença

Eu (não) acredito que querer o que se quer seja um exercício de imitação e não a mais poderosa expressão de quem somos

Eu (não) acredito que as pessoas, tão cheias de regras para os outros, não consigam elas mesmas cumprir regras simples

Eu (não) acredito que tantos crentes no que não conseguem ver não consigam crer naquilo que está na sua frente

Eu (não) acredito que gastem tanto tempo pensando nos outros e tão pouco pensando em si mesmos

Eu (não) acredito que o dinheiro e o poder sejam a maior motivação da maior parte da humanidade

Eu (não) acredito que tantos queiram ser artistas e tão poucos realmente desejem fazer arte

Eu (não) acredito que países que se dizem civilizados lutem guerras e promovam genocídios

Eu (não) acredito que odeiem tanto os pobres mas adorem se aproveitar da pobreza

Eu (não) acredito que ainda haja razões para se ter esperança

Eu (não) acredito que ainda haja mais razões para lutar

Eu (não) acredito que (não) seja possível acreditar

Eu (não) acredito

 

Uma derrota atrás da outra

Meio-dia, segunda-feira, dia seguinte à sexta eliminação seguida e vergonhosa do Brasil numa Copa do Mundo. Agora completaremos pelo menos 28 anos sem levar o caneco. Mais tempo do que o hiato entre a Copa de 1970 e a de 1994, e exatamente o mesmo tempo que levamos para ganhar a primeira em 1958 desde o início do torneio em 1930. Significa que, se não levarmos a próxima, viveremos a maior seca de campeonatos mundiais que já experimentamos.

Meio-dia, segunda-feira depois da tragédia anunciada(?), temos direito a um almoço não exatamente especial, mas pelo menos autoindulgente. Uma comida honesta para nos ajudar a digerir o fracasso alheio que parece nosso. As opções são muitas, mas a náusea existencial e futebolística nos desanima de várias. Dentre as poucas restantes, apenas uma pergunta: que tal um galeto?

Decisão tomada, partimos para o tradicional e lotado bunda de fora. Enfim lá, num silêncio sepulcral, comemos nos equilibrando em banquetas bambas e apoiados melancolicamente sobre o velho balcão. Tentamos engolir, entre nacos de frango e garfadas de farofa de ovos, feijão, arroz e batata frita, os jogadores influencers que não jogam bola e a CBF (alegadamente) corrupta que não gere o futebol. Apesar do desolável quadro do futebol nacional, no momento, essa não é a nossa maior preocupação. O que realmente nos captura a atenção é o novo quadro ilustrado que “embeleza” o salão do restaurante.

Um grande quadro horizontal, tomando toda a parte superior da parede dos fundos da galeteria, impresso com uma arte genérica representando várias pessoas famosas, mas pouco reconhecíveis, do futebol, da política e das artes que ou são clientes ou (deveriam ser) figuras ilustres. Ah, mais um detalhe importante: o maior jeitão de imagem feita por IA.

Combinado ao enjoo da derrota de um país que deixa lenta e definitivamente a sua preponderância no futebol, ver aquela imagem horrível ornar as paredes de um restaurante com mais de 80 anos de história nos causa um embrulho no estômago, misturando anacronismo e desrespeito num coquetel insalubre.

Com muito esforço, terminamos o almoço, mas não deixamos o nosso incômodo passar em branco. Nos aproximamos do septuagenário dono do restaurante que nos recebe sempre sorridente na porta de saloon, e cavucamos a ferida:

— Oi, quadro novo, né?
— É, legal, né?
— É…- mentimos. — Sabe o nome do artista?
— Como assim?
— Sabe quem pintou o quadro?
— Ah, foi meu filho que fez! — revela orgulhoso.
— Uau! Ele é pintor?
— Não, ele fez lá de um jeito dele.
— De um jeito dele? Ele fez usando um computador?
— Acho que sim.
— Ele é designer?
— Não, não, imagine só…
— Você sabe se ele usou IA?
— É, é isso. Ele fez com IA!

Baixamos a cabeça, sorrimos com amargor para a história viva que aquele homem representa e olhamos com desprezo e de soslaio para o quadro que arrasta essa história pela lama.

— Ficou bom, não? — ele pergunta provavelmente sentindo o nosso descontentamento.

Partimos sem responder. Nessa segunda, depois da derrota de domingo, vivemos mais um 7×1 disfarçado de 2×1 com gol de pênalti do menininho Neymar fazendo birrinha com o goleiro da Noruega. Onde a tradição do futebol brasileiro, da nossa cidade, dos nossos almoços e da nossa história vai parar? Melhor deixar pra pensar nisso no próximo restaurante que a IA, um dia, também vai estragar.

Como (não) assistir a filmes de super heróis

Acho que eu desaprendi a assistir filmes de super herói. Ao contrário da grita que estou vendo aí pela internet, eu até achei Supergirl legal. Sério! Não acredito em avaliações absolutas e objetivas em relação à arte, e, assim, posso considerar que estamos eu e os detratores ao mesmo tempo certos e errados.

Olha só as minhas rugas de preocupação com as críticas

Tudo é uma questão de perspectiva e de expectativa. Ou seja, de onde vejo (ou vemos) algo, e do que espero (esperamos) ver acontecer na obra. A partir dessas circunstâncias, as demais pessoas podem ter toda razão para não gostar (odiar?) o filme, enquanto eu posso gostar ou mesmo amar. Dito isso, me deixa explicar de onde vejo (e não vejo) e o que espero (e não espero) de um filme de Super Herói.

Sou da época do formatinho, antes da popularização do conceito de Graphic Novel, edições de luxo e o diabo. Por isso, aprendi muito a curtir quadrinhos (e super heróis por tabela) dentro da simplicidade do que estava disponível. Isso me fez aprender a ler o que não havia nas entrelinhas, complementar histórias capengas com a minha imaginação, e alimentar as canaletas com o que imaginava que poderia acontecer (mas não aconteceu). O quadrinho, enquanto arte e diversão, para mim sempre foi mais incitador de uma criação compartilhada (entre mim, o desenhista, o roteirista, etc) do que um objeto de análise. Isso me tira, graças a Deus, do papel de fiscal da narrativa, da fidedignidade, e da reverência ao que, na boa, foi feito pra ser irreverente.

Por isso curti Supergirl. É, como o próprio Superman do Gunn, apenas uma história em quadrinhos. Daquelas que a gente comprava na banca pra matar o tempo, sem expectativas ou tensões. Daquelas que a gente abria e começava a ler pensando: “Vamos ver em que bagunça (insira o nome da(s) heroína(s) ou do(s) herói(s)) se meteu/meteram hoje”. E, como tal, tem de tudo. Tem fan service com a aparição bem sem propósito do Lobo (e quem disse que história de super herói tem propósito?), tem furos e inconsistências que fazem caridosamente pensar “que plano eles tem pra isso depois?”, e tem, claro, exageros e momentos fabulosos que justificam o papel dos quadrinhos de super heróis como nossa nova mitologia (confirma aí, Grant Morrison?).

Quem nunca comprou um quadrinho por uma participação sem sentido de um personagem que a gente curte, mas sabe que é meia boca?

Então, em vez de questionar quem não gostou, pois não atende a isso ou aquilo, ou por que não corrobora com os planos de negócios e expectativas financeiras da Warner Bros, vou respeitar suas opiniões, mas não posso deixar de dar uma dica: vá rever o filme. Seja no cinema ou streaming, dê uma segunda chance, mas o faça de coração aberto. Imagine que tem 11 anos, está deitado no sofá, num dia tedioso de férias, numa época pré internet, não tem nada de bom na TV, e a única coisa que tem à sua mão é uma história em quadrinhos de uma super heroína legal e que você nunca leu.

Despedidos de expectativas e de uma perspectiva bem mais humilde e acolhedora, tenho certeza que você irá curtir mais. Agora, concordo: pra ser uma história em quadrinhos que custou mais de 150 milhões de dólares pra produzir, tá meio puxado, mas e daí? Pra mim foi boa diversão e só custou uma meia entrada no cinema. Desse ponto de vista a vida e o filme da Supergirl são bem mais legais.

Um Spielberg fora da validade no divã

Quando os sucessivos encontros com o mágico o tornam banal?

O programa Inside the Actors Studio tinha seus momentos, quer dizer, tinha muitos momentos. James Lipton, mesmo com todo o seu pedantismo de ator americano que fez tanto Shakespeare que se acha inglês, conseguia estabelecer conexões tão pessoais com o público e com os entrevistados que muitas vezes eles descobriam algo surpreendente sobre si mesmos; como quando o Spielberg se ligou que os ETs de Contatos Imediatos estavam construindo uma ponte entre seus pais divorciados (uma musicista e um programador de computadores) através da comunicação por luzes, matemática e sons.

Tá, o Spielberg pode ter se surpreendido, mas, na boa, disso até eu já sabia.

Ontem fui assistir a D(isclosure) Day que estão alardeando como o fim da quadri/trilogia informal “Não estamos sós” do Spielberg, na qual se incluem, além do lançamento, Contatos Imediatos, E.T. e Guerra dos Mundos.

É curioso como cada um desses encontros atende a um momento histórico e pessoal diferente. Em Contatos há todo um backdrop de alienação humanista bem anos 70 com personagens que se encontram afastados uns dos outros e se unem pelo chamado alienígena. Em E.T. a alienação é familiar; o menino, filho de mãe solteira e desprezado pelos colegas e irmãos, se une à família graças à figura alienígena. Em Guerra dos Mundos, o pai, isolado da família com a qual “falhou”, tem, bem aos moldes dos filmes catástrofe, num ambiente pós 11 de setembro, a oportunidade de mostrar que ainda serve para alguma coisa.

Nessa última iteração com o tema, Spielberg, mais uma vez, coloca o contato extraterrestre como uma oportunidade de recuperar a empatia entre os humanos. Num mundo prestes a entrar em Guerra, um fato importante, mas que fica um pouco banalizado, em meio ao conflito maniqueísta entre os que querem esconder e revelar a verdade sobre a presença alienígena, a notícia de que não estamos sozinhos surge como a última esperança de acabar com as nossas desavenças infantis.

Tá, não é muito original, Alan Moore explorou isso de forma bem mais criativa e cínica em Watchmen, mas Spielberg dá bom uso ao tropo, mesmo que de forma um pouco fria. Como um criador, no ápice da sua maestria, ele faz escolhas estéticas que parecem (e são) difíceis para os outros, mas, para ele, não são nada arriscadas.

Spielberg segue um roteiro extremamente verborrágico e explicadinho, talvez para atender a quem está assistindo com cinco telas abertas, com alguns momentos de muita beleza plástica e outros de excitação um tanto artificial, como se o discurso tivesse se esvaziado pessoalmente, mesmo que ainda seja importante de ser dito, mais uma vez.

O engraçado é que é um pouco reducionista olhar para os filmes alienígenas de Spielberg apenas como aquelas ficções científicas em que aparecem seres de outros planetas. Boa parte de sua obra se debruça em contatos com outros mundos que são completamente alienígenas, às vezes para o público, às vezes para os protagonistas. De Soldado Ryan a Lista de Schindler, passando por A Cor Púrpura, O Império do Sol e Prenda-me se for Capaz, sempre temos como foco principal o contato com um outro desconhecido, às vezes fascinante, às vezes perigoso. Seja ele o alemão, o judeu, o oriental, a mulher, o negro, o adolescente, a criança, o criminoso, é esse outro, ao mesmo tempo tão longe e tão perto, que precisamos resgatar dentro de nós mesmos para dar sentido ao mundo em que vivemos.

Nesse quesito de proporcionar essa sensação de estranheza externa que nos revela que o estranho está dentro de nós, D Day é um dos seus filmes menos alienígenas. As personagens têm pouco a dizer sobre si e nada a resolver de particularmente pessoal; os riscos, mesmo que visualmente interessantes, não geram medo de perder algo, pois não há perigo real, apenas uma tese a se provar; e a ligação do público com os “estranhos” na tela parece tão impossível quanto a ligação entre a humanidade polarizada do século XXI, especialmente com as duas senhoras que, sabe-se lá por que, num cinema nem tão cheio escolheram se sentar coladas na minha poltrona. Viu? Não precisamos ir ao espaço para nos sentirmos extraterrestres.

Parecemos profundos e complexos, mas somos só rasos e artificialmente complicados

Spielberg parece aquele paciente que precisa pedir alta da análise, mas ficou viciado em se deitar no divã para encher o saco do terapeuta com as suas reclamações irresolvíveis da infância. Talvez, se ele voltar a ser sincero com o que atualmente o incomoda na humanidade, ainda tenha muitas excelentes histórias alienígenas para contar. Que tal uma sobre esse pessoal que, mesmo podendo escolher lugar no cinema, decide se sentar ao lado de desconhecidos? Esse é um tema realmente alienígena que eu adoraria ver alguém explorar.

É impossível passar pela mesma Runway, quer dizer, passarela duas vezes

Dominado, como boa parte do público, por um sentimento de ansiosa urgência nostálgica e previsível desesperança exausta, me movi, em passos arrastados, até o cinema para assistir ao Diabo Veste Prada 2. Como podia evitar? Já assisti ao primeiro tantas vezes que sei não só suas falas, como também seus beats de cor: a introdução ao mundo alienígena; a resistência em se adequar; a lição de que o mundo é mais do que lhe aparenta; a tentativa de fazer parte; os erros não propositais e os erros bem intencionados; os testes impossíveis mas bem sucedidos; a participação equivocada numa conspiração nos altos escalões do poder; até a assimilação (quase) completa, seguida da descoberta da sua individualidade em meio ao monstro que parecia lhe engolir. Óbvio que esperava encontrar algo similar nessa continuação, porém torcia com uma fé difusa por algo diferente. Posso dizer que fui tanto atendido como surpreendido.

Ainda mais no celular, agora com redes sociais

Os beats, didaticamente acompanhados pela conhecida trilha sonora, são os mesmos. Porém, apesar de já ter passado por aquela passarela, aquela Runway, Andy a reencontra igual, mas em outro contexto. Tanto ela como o ambiente que abandonou há vinte anos mudaram. Agora temos Redes Sociais, as revistas físicas (basicamente) morreram, e a IA toma o emprego dos jornalistas e escritores que não passam, hoje, de criadores de conteúdo (seja lá o que for isso).

Sim, o glamour ainda existe, mas o antigo Império e sua Imperadora Miranda não têm o mesmo poder. Dessa vez, como da outra, cabe a Andy salvá-los. Inclusive, a narrativa da sua prepotência caindo por terra termina novamente com a constatação que não são os seus esforços que conseguem “salvar” sua antiga mentora e algoz. Com essa introdução funcional,  o plote se segue a mesma ordem e cadência de duas décadas atrás, com, óbvio, alguns personagens diferentes ensaiando entre as caras conhecidas nada mais do que uma velha novidade aborrecida.

A sensação de repeteco é tanta que até as interpretações dão a impressão de as próprias atrizes estarem se parodiando, tornando as falas, poses e trejeitos icônicos em pastiches de si mesmas. A tragédia, e a comédia, sabemos, só se repetem como farsa. Assim como seus figurinos, referências, marcas, cenários e maquiagens do mundo fashion.

Tudo muda, mas nada muda. Nada muda, mas tudo muda.

Mas mesmo em meio a tanta reinterpretação e paródia não(?) intencional, senti um certo frescor. Os conflitos se reciclam ou se exacerbam, as pessoas sobre as passarelas são as mesmas, mas suas intencionalidades são diferentes. Talvez por conta de um cansaço existencial, laboral e social, a repetição neurótica dos inescapáveis conflitos das personalidades e dos personagens consegue, com um pingo de maturidade, promover finais diferentes. Em meio às operacionalizações dos seus conhecidos trejeitos e tiques comportamentais, surge um fio luminoso de esperança de que algo será diferente no final. É um sinal da esperança de que, antes do derradeiro fim dos impérios e das nossas vidas, possamos aprender a sermos ao mesmo tempo outros e os mesmos. Não foi pra isso que fomos criados? Para mudar e sermos cada vez mais quem somos?

Revisitar o Diabo Veste Prada foi uma experiência familiar e alienígena, como voltar ao seio de uma família após um longo distanciamento. Tudo parece igual, mas tudo parece diferente. Assim subimos novamente com as sempre solitárias figuras de Miranda, Emily, Nigel e Andy nessa plataforma, cercada de novos personagens que não passam de reflexos de suas próprias personalidades, para tentar fazer algo de melhor com nossas vidas. Ao contrário do que eu, dominado pelo pessimismo que o mundo me alimenta todos os dias, esperava, dessa vez, conseguimos superar nossos hábitos tóxicos com tanto sucesso que deu até pra celebrar essa  inesperada mudança com uma bela e carinhosa lágrima de alívio pela aceitação da morte. Morte das nossas revistas, dos nossos impérios, das nossas imagens e das personagens nas quais depositamos os nossos desejos pessoais de mudança.