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Como (não) assistir a filmes de super heróis

Acho que eu desaprendi a assistir filmes de super herói. Ao contrário da grita que estou vendo aí pela internet, eu até achei Supergirl legal. Sério! Não acredito em avaliações absolutas e objetivas em relação à arte, e, assim, posso considerar que estamos eu e os detratores ao mesmo tempo certos e errados.

Olha só as minhas rugas de preocupação com as críticas

Tudo é uma questão de perspectiva e de expectativa. Ou seja, de onde vejo (ou vemos) algo, e do que espero (esperamos) ver acontecer na obra. A partir dessas circunstâncias, as demais pessoas podem ter toda razão para não gostar (odiar?) o filme, enquanto eu posso gostar ou mesmo amar. Dito isso, me deixa explicar de onde vejo (e não vejo) e o que espero (e não espero) de um filme de Super Herói.

Sou da época do formatinho, antes da popularização do conceito de Graphic Novel, edições de luxo e o diabo. Por isso, aprendi muito a curtir quadrinhos (e super heróis por tabela) dentro da simplicidade do que estava disponível. Isso me fez aprender a ler o que não havia nas entrelinhas, complementar histórias capengas com a minha imaginação, e alimentar as canaletas com o que imaginava que poderia acontecer (mas não aconteceu). O quadrinho, enquanto arte e diversão, para mim sempre foi mais incitador de uma criação compartilhada (entre mim, o desenhista, o roteirista, etc) do que um objeto de análise. Isso me tira, graças a Deus, do papel de fiscal da narrativa, da fidedignidade, e da reverência ao que, na boa, foi feito pra ser irreverente.

Por isso curti Supergirl. É, como o próprio Superman do Gunn, apenas uma história em quadrinhos. Daquelas que a gente comprava na banca pra matar o tempo, sem expectativas ou tensões. Daquelas que a gente abria e começava a ler pensando: “Vamos ver em que bagunça (insira o nome da(s) heroína(s) ou do(s) herói(s)) se meteu/meteram hoje”. E, como tal, tem de tudo. Tem fan service com a aparição bem sem propósito do Lobo (e quem disse que história de super herói tem propósito?), tem furos e inconsistências que fazem caridosamente pensar “que plano eles tem pra isso depois?”, e tem, claro, exageros e momentos fabulosos que justificam o papel dos quadrinhos de super heróis como nossa nova mitologia (confirma aí, Grant Morrison?).

Quem nunca comprou um quadrinho por uma participação sem sentido de um personagem que a gente curte, mas sabe que é meia boca?

Então, em vez de questionar quem não gostou, pois não atende a isso ou aquilo, ou por que não corrobora com os planos de negócios e expectativas financeiras da Warner Bros, vou respeitar suas opiniões, mas não posso deixar de dar uma dica: vá rever o filme. Seja no cinema ou streaming, dê uma segunda chance, mas o faça de coração aberto. Imagine que tem 11 anos, está deitado no sofá, num dia tedioso de férias, numa época pré internet, não tem nada de bom na TV, e a única coisa que tem à sua mão é uma história em quadrinhos de uma super heroína legal e que você nunca leu.

Despedidos de expectativas e de uma perspectiva bem mais humilde e acolhedora, tenho certeza que você irá curtir mais. Agora, concordo: pra ser uma história em quadrinhos que custou mais de 150 milhões de dólares pra produzir, tá meio puxado, mas e daí? Pra mim foi boa diversão e só custou uma meia entrada no cinema. Desse ponto de vista a vida e o filme da Supergirl são bem mais legais.

Um Spielberg fora da validade no divã

Quando os sucessivos encontros com o mágico o tornam banal?

O programa Inside the Actors Studio tinha seus momentos, quer dizer, tinha muitos momentos. James Lipton, mesmo com todo o seu pedantismo de ator americano que fez tanto Shakespeare que se acha inglês, conseguia estabelecer conexões tão pessoais com o público e com os entrevistados que muitas vezes eles descobriam algo surpreendente sobre si mesmos; como quando o Spielberg se ligou que os ETs de Contatos Imediatos estavam construindo uma ponte entre seus pais divorciados (uma musicista e um programador de computadores) através da comunicação por luzes, matemática e sons.

Tá, o Spielberg pode ter se surpreendido, mas, na boa, disso até eu já sabia.

Ontem fui assistir a D(isclosure) Day que estão alardeando como o fim da quadri/trilogia informal “Não estamos sós” do Spielberg, na qual se incluem, além do lançamento, Contatos Imediatos, E.T. e Guerra dos Mundos.

É curioso como cada um desses encontros atende a um momento histórico e pessoal diferente. Em Contatos há todo um backdrop de alienação humanista bem anos 70 com personagens que se encontram afastados uns dos outros e se unem pelo chamado alienígena. Em E.T. a alienação é familiar; o menino, filho de mãe solteira e desprezado pelos colegas e irmãos, se une à família graças à figura alienígena. Em Guerra dos Mundos, o pai, isolado da família com a qual “falhou”, tem, bem aos moldes dos filmes catástrofe, num ambiente pós 11 de setembro, a oportunidade de mostrar que ainda serve para alguma coisa.

Nessa última iteração com o tema, Spielberg, mais uma vez, coloca o contato extraterrestre como uma oportunidade de recuperar a empatia entre os humanos. Num mundo prestes a entrar em Guerra, um fato importante, mas que fica um pouco banalizado, em meio ao conflito maniqueísta entre os que querem esconder e revelar a verdade sobre a presença alienígena, a notícia de que não estamos sozinhos surge como a última esperança de acabar com as nossas desavenças infantis.

Tá, não é muito original, Alan Moore explorou isso de forma bem mais criativa e cínica em Watchmen, mas Spielberg dá bom uso ao tropo, mesmo que de forma um pouco fria. Como um criador, no ápice da sua maestria, ele faz escolhas estéticas que parecem (e são) difíceis para os outros, mas, para ele, não são nada arriscadas.

Spielberg segue um roteiro extremamente verborrágico e explicadinho, talvez para atender a quem está assistindo com cinco telas abertas, com alguns momentos de muita beleza plástica e outros de excitação um tanto artificial, como se o discurso tivesse se esvaziado pessoalmente, mesmo que ainda seja importante de ser dito, mais uma vez.

O engraçado é que é um pouco reducionista olhar para os filmes alienígenas de Spielberg apenas como aquelas ficções científicas em que aparecem seres de outros planetas. Boa parte de sua obra se debruça em contatos com outros mundos que são completamente alienígenas, às vezes para o público, às vezes para os protagonistas. De Soldado Ryan a Lista de Schindler, passando por A Cor Púrpura, O Império do Sol e Prenda-me se for Capaz, sempre temos como foco principal o contato com um outro desconhecido, às vezes fascinante, às vezes perigoso. Seja ele o alemão, o judeu, o oriental, a mulher, o negro, o adolescente, a criança, o criminoso, é esse outro, ao mesmo tempo tão longe e tão perto, que precisamos resgatar dentro de nós mesmos para dar sentido ao mundo em que vivemos.

Nesse quesito de proporcionar essa sensação de estranheza externa que nos revela que o estranho está dentro de nós, D Day é um dos seus filmes menos alienígenas. As personagens têm pouco a dizer sobre si e nada a resolver de particularmente pessoal; os riscos, mesmo que visualmente interessantes, não geram medo de perder algo, pois não há perigo real, apenas uma tese a se provar; e a ligação do público com os “estranhos” na tela parece tão impossível quanto a ligação entre a humanidade polarizada do século XXI, especialmente com as duas senhoras que, sabe-se lá por que, num cinema nem tão cheio escolheram se sentar coladas na minha poltrona. Viu? Não precisamos ir ao espaço para nos sentirmos extraterrestres.

Parecemos profundos e complexos, mas somos só rasos e artificialmente complicados

Spielberg parece aquele paciente que precisa pedir alta da análise, mas ficou viciado em se deitar no divã para encher o saco do terapeuta com as suas reclamações irresolvíveis da infância. Talvez, se ele voltar a ser sincero com o que atualmente o incomoda na humanidade, ainda tenha muitas excelentes histórias alienígenas para contar. Que tal uma sobre esse pessoal que, mesmo podendo escolher lugar no cinema, decide se sentar ao lado de desconhecidos? Esse é um tema realmente alienígena que eu adoraria ver alguém explorar.

É impossível passar pela mesma Runway, quer dizer, passarela duas vezes

Dominado, como boa parte do público, por um sentimento de ansiosa urgência nostálgica e previsível desesperança exausta, me movi, em passos arrastados, até o cinema para assistir ao Diabo Veste Prada 2. Como podia evitar? Já assisti ao primeiro tantas vezes que sei não só suas falas, como também seus beats de cor: a introdução ao mundo alienígena; a resistência em se adequar; a lição de que o mundo é mais do que lhe aparenta; a tentativa de fazer parte; os erros não propositais e os erros bem intencionados; os testes impossíveis mas bem sucedidos; a participação equivocada numa conspiração nos altos escalões do poder; até a assimilação (quase) completa, seguida da descoberta da sua individualidade em meio ao monstro que parecia lhe engolir. Óbvio que esperava encontrar algo similar nessa continuação, porém torcia com uma fé difusa por algo diferente. Posso dizer que fui tanto atendido como surpreendido.

Ainda mais no celular, agora com redes sociais

Os beats, didaticamente acompanhados pela conhecida trilha sonora, são os mesmos. Porém, apesar de já ter passado por aquela passarela, aquela Runway, Andy a reencontra igual, mas em outro contexto. Tanto ela como o ambiente que abandonou há vinte anos mudaram. Agora temos Redes Sociais, as revistas físicas (basicamente) morreram, e a IA toma o emprego dos jornalistas e escritores que não passam, hoje, de criadores de conteúdo (seja lá o que for isso).

Sim, o glamour ainda existe, mas o antigo Império e sua Imperadora Miranda não têm o mesmo poder. Dessa vez, como da outra, cabe a Andy salvá-los. Inclusive, a narrativa da sua prepotência caindo por terra termina novamente com a constatação que não são os seus esforços que conseguem “salvar” sua antiga mentora e algoz. Com essa introdução funcional,  o plote se segue a mesma ordem e cadência de duas décadas atrás, com, óbvio, alguns personagens diferentes ensaiando entre as caras conhecidas nada mais do que uma velha novidade aborrecida.

A sensação de repeteco é tanta que até as interpretações dão a impressão de as próprias atrizes estarem se parodiando, tornando as falas, poses e trejeitos icônicos em pastiches de si mesmas. A tragédia, e a comédia, sabemos, só se repetem como farsa. Assim como seus figurinos, referências, marcas, cenários e maquiagens do mundo fashion.

Tudo muda, mas nada muda. Nada muda, mas tudo muda.

Mas mesmo em meio a tanta reinterpretação e paródia não(?) intencional, senti um certo frescor. Os conflitos se reciclam ou se exacerbam, as pessoas sobre as passarelas são as mesmas, mas suas intencionalidades são diferentes. Talvez por conta de um cansaço existencial, laboral e social, a repetição neurótica dos inescapáveis conflitos das personalidades e dos personagens consegue, com um pingo de maturidade, promover finais diferentes. Em meio às operacionalizações dos seus conhecidos trejeitos e tiques comportamentais, surge um fio luminoso de esperança de que algo será diferente no final. É um sinal da esperança de que, antes do derradeiro fim dos impérios e das nossas vidas, possamos aprender a sermos ao mesmo tempo outros e os mesmos. Não foi pra isso que fomos criados? Para mudar e sermos cada vez mais quem somos?

Revisitar o Diabo Veste Prada foi uma experiência familiar e alienígena, como voltar ao seio de uma família após um longo distanciamento. Tudo parece igual, mas tudo parece diferente. Assim subimos novamente com as sempre solitárias figuras de Miranda, Emily, Nigel e Andy nessa plataforma, cercada de novos personagens que não passam de reflexos de suas próprias personalidades, para tentar fazer algo de melhor com nossas vidas. Ao contrário do que eu, dominado pelo pessimismo que o mundo me alimenta todos os dias, esperava, dessa vez, conseguimos superar nossos hábitos tóxicos com tanto sucesso que deu até pra celebrar essa  inesperada mudança com uma bela e carinhosa lágrima de alívio pela aceitação da morte. Morte das nossas revistas, dos nossos impérios, das nossas imagens e das personagens nas quais depositamos os nossos desejos pessoais de mudança.

Erupcja e as erupções (as)sexuais suecas, quer dizer, polonesas

Quando eu era adolescente, por incrível que pareça, a estética erótica, pornô, ou, como é estranhamente chamada hoje, adulta era bem mais presente no nosso cotidiano. Apesar de a Internet ter dado mais capilaridade à indústria do sexo, desde à gigantesca veiculação de obras audiovisuais até ao trabalho sexual remoto, ela ainda o faz de maneira voyeurística, envergonhada ou academicamente moralizante, como algo que, sim , está presente na vida de todo mundo num viés sociológico, mas que não pode ser discutido abertamente no caso particular. Já no final dos anos 70 e nos anos 80, o tal do “erotismo” era, mesmo que, ou por causa exatamente disso, machista e sob pesada censura pós ditadura, assunto de sala de visita.

Nossas casas, por exemplo, tinham nas mesas de café revistas Playboy e Ele & Ela, onde grandes nomes escreviam, como Carlos Heitor Cony e Ruy Castro; enquanto na TV as entradas das novelas e as propagandas exageravam nas imagens veladas ou ostensivas de mulheres nuas. Pra você ver, até o cinema erótico era parte constitutiva e sem pudor das cidades, tanto nos cinemas especializados em ruas de grande circulação e nas bancas de jornal, como nas salinhas separadas por cortinas vermelhas das videolocadoras.

O que estava no auge na minha adolescência eram as produções do John Stagliano, o Buttman, que “criou” uma estética pseudo realista de uma câmera na mão (em POV) e um bando de ideias maliciosas na cabeça, que domina muito do que chamamos de reality TV até hoje em dia. Porém, na contramão desses modismos, um grande amigo, quase esteta, só curtia produções alemães e nórdicas do final dos anos 70. Na sua coleção particular de VHS, o que figurava eram basicamente os filmes suecos, na época, uma espécie de sinônimo de pornô, mas ele fazia concessões para algumas produções americanas com estética similar como Garganta Profunda, o Diabo em Miss Jones e Atrás da Porta Verde.

Absolute (erotic) Cinema

Todos esses filmes, se forem vistos hoje, não poderiam ser chamados de pornô. Não são produções infantilizadas com sexo, nem flertam com os Snuff Movies, mas sim obras meio deprê, bem existencialistas, com discussões psicanalíticas que desembocam em cenas de sexo mezzo explícitas, mezzo veladas.

Ontem, fui assistir a Erupcja e me senti assistindo a exatamente um filme pornô, erótico, adulto, que seja, sueco dos anos 70. Só que sem sexo.

Na obra curtinha de Pete Ohs, Charli XCX, num papel perfeito pra sua figura de popstar pseudo (as)sexualizada, é Bethany, uma jovem inglesa, que viaja para Varsóvia com o namorado que pretende pedi-la em casamento na cidade que seria mais romântica que Paris(?). Mal sabe ele que, cheia de dúvidas, sua quase noiva quer mesmo é reencontrar uma amiga de adolescência com a qual mantém uma relação tão explosiva que toda vez que se encontram vulcões irrompem pelo mundo.

Amizade ou algo mais? Nem elas sabem. E precisamos saber?

Como disse, a obra tem muito esse clima de filme sueco dos anos 70. Imagens granuladas, filtros coloridos, fotogramas de cores pastéis, e metáforas freudianas banais para contar uma história curta de uma mulher que resiste a um casamento morno por uma amizade colorida(?) e estranha que nunca diz a que veio, mas que a anima mais do que qualquer compromisso com um rapaz bonzinho, mas bem chato, verdade, que lhe trata bem.

O mais curioso do filme é que, apesar de todo esse clima de traição, nada acontece. As amigas não parecem ter uma relação de fato, nem sexual nem afetiva, e só se utilizam para abandonar ciclicamente responsabilidades com namorados e namoradas, empregos e família. A relação que poderia ser erótica e carregada de paixão é só funcional e fria, mas muito performativa.

A estética é, como nos filmes suecos da minha adolescência, perfeita para o tema existencialista raso, só que sem o sexo. A falta do sexo é tanta que a sua expectativa não concretizada ficou tanto tempo no ar que quando as luzes se acenderam no cinema, a meia dúzia de fãs da Charli XCX na minha sessão ficou sentada imobilizada, aguardando burocraticamente que uma cena pós créditos, como num filme de super heróis, fosse fazer explodir toda a sexualidade reprimida que ele promete mas não entrega. Ou talvez tudo seja só uma impressão derivada de um vício da minha criação numa era hiper sexualizada que não faz mais sentido.

Em vez de colocar essa falta de sexo na conta dos realizadores, dos espectadores, ou de uma deliberada escolha de evitar o male gaze, saí do cinema lembrando dos curtas metragens de James Gunn, pré Guardiões da Galáxia e DCU, onde reinterpretava os tropos dos vídeos pornô gonzo, combinando atores mainstream e adultos, mas retirando o sexo das narrativas. Como ele mesmo anunciava: “For People who love everything about Porn… except the Sex!”

Erupcja, como os curtas de Gunn, mais do que uma obra audiovisual, é um sintoma de uma era onde o sexo se tornou tão ubíquo que não significa mais nada. A emoção despertada, a paixão, o tesão estão encobertos por filtros de cor pastel, sempre como uma promessa nunca cumprida. E, assim, no desespero existencial da falta de amor e emoção, nem o sexo pode nos salvar. Erupcja nos prova que, atrás das portas verdes de hoje, encontraremos apenas quartos vazios onde ecoam discursos e análises moralizantes e sem paixão sobre uma ideia de sexo que não só não existe mais como parece totalmente impossível de já ter existido. Os vulcões dos VHS da minha adolescência, infelizmente(?), parecem ter se extinguido.

Mulher Solteira, quer dizer, Casada procura Empregada

(sim, contém spoilers, mas como ninguém lê isso aqui, nem sei por que estou avisando)

Tem certas coisas que dão saudades. Uma delas é a finada sessão de pré-estreia nos sábados à meia noite no Star Ipanema. Não importava o filme, lá estava eu e uns amigos abnegados, na fila, tentando comprar ingresso para assistir antes do restante da população a histórias que nem sempre valiam a pena serem assistidas depois, mesmo na TV.

Os tempos mudaram. Há muito não existem mais pré-estreias de verdade. Os filmes têm soft openings, começando a ser exibidos antes do lançamento em diversos horários e salas de cinema diferentes. E o Star Ipanema? Nem fala nisso, que me dá gatilho, foi substituído, como muitos cinemas de rua, por uma Casa & Vídeo que nem sei se ainda permanece lá.

Um dos filmes que me lembro vivamente de ter assistido numa dessas pré-estreias foi o Mulher Solteira Procura. Na época eu tinha uma paixonite adolescente pela Jennifer Jason Leigh, e juntar ela com a Bridget Fonda, numa obra do Barbet Schroeder, diretor de O Reverso da Fortuna e Barfly, tornou a pré-estreia uma questão de honra para mim.

Sim, eu já sabia que não seria um bom filme, mas ele atenderia a uma série de necessidades inconscientes que eu tinha na época e, como antigamente, gosto era uma questão privada, não tenho vergonha de confessar, até que curti a experiência ao ponto de ler o romance em que se baseou e reassistir algumas vezes no VHS.

Em 1992, uma queria virar a outra

Hoje, fui a um dos poucos cinemas de rua que ainda temos no Rio: o São Luiz, que, como o Star, fica dentro de uma galeria que finge ser shopping. Mesmo sem querer, para tornar a experiência mais analógica, em vez de comprar o ingresso na Internet, dessa vez comprei no próprio cinema como fazia na época da pedra lascada. O filme? Tá, não era uma pré-estreia, mas um filme que já está há muito tempo em cartaz e quase todo mundo já viu: A Empregada, thriller dirigido por Paul Feig, que serve de veículo para Sydney Sweeney e Amanda Seyfried.

Engraçado que, por outras razões, durante a exibição eu não parava de pensar em Mulher Solteira Procura. As similaridades entre as histórias não são tantas, mas alguns pontos de contato geram reflexões interessantes sobre as mudanças no papel feminino na sociedade, nas suas representações na mídia, nas relações de companheirismo e poder entre as mulheres e com os homens dos anos 1990s para cá.

Em ambos os filmes mulheres parecidas fisicamente, ou tratadas como tal, vão morar juntas, e há diferenças de poder entre elas, que geram relações tóxicas, motivadas por inveja e segredos. Óbvio que há nas histórias movimentos de troca de papel que não saem como o previsto, porém a resolução e a origem dos conflitos nas histórias diferem, o que mostra o que mudou, e, também, o que não mudou.

Em 2025, é o olhar masculino que tenta torná-las iguais

Sim, a competição entre mulheres ainda existe e suas relações são carregadas de comparações negativas especialmente nos papéis tradicionais familiares e sociais, porém a causa desses conflitos e a sua resolução mudou nesses 30 anos. Como se estivéssemos utilizando a técnica dos 5 porquês, para identificar as causas raiz dos problemas, estamos nos aprofundando nas razões que geram essas animosidades desnecessárias que destroem a sororidade e trazendo resoluções diferentes para resolvê-las. Em 1992, relação entre as mulheres se tornava perigosa por traumas familiares, com uma explicação psicanalítica rasteira; em 2025, é a masculinidade tóxica e o sexismo estrutural, se aproveitando de múltiplas fragilidades, que jogam as mulheres umas contra as outras, na busca justificada, mas egoísta, pela sobrevivência individual.

Óbvio que os cenários e estilos são diferentes. Mulher Solteira se pretende como um thriller mais sério e se passa numa terceira onda, quase pós, feminista; enquanto A Empregada parece até mais retrógrado com um bando de trad wives oprimindo uma trabalhadora precarizada, mas tem mais humor, nada surpreendente se tratando de um filme do diretor de Missão Madrinha de Casamento.

Agora se tem uma coisa que realmente uniu os dois filmes foi o prazer de vê-los no cinema e com um público vivo reagindo a sustos e viradas de roteiro. Como toda a história de vingança e libertação, é sempre melhor vivenciá-la em grupo. Rimos juntos das partes despropositadamente cômicas, nos assustamos juntos com os perigos vividos pelas protagonistas, e vibramos em uníssono com as suas vitórias. Assim, como fiz em 1992, saí do cinema, ciente que não foi um filme bom, mas, mesmo assim, curti demais.

Aproveitei a livraria aberta no caminho de casa e comprei o livro para vivenciar novamente a sua história. Afinal, quando as mulheres conseguem se libertar das relações e dos algozes que as oprimem, mesmo na ficção, de uma certa maneira, nos libertamos todos.

Agora, estou curioso para ver, espero, novamente num cinema de rua e com uma plateia animada, como esse mesmo conflito será representado daqui a uns anos. Qual será o novo porquê que precisaremos enfrentar em prol da sororidade?

O Comunismo Punk Rocker Decolonial de Superman

Essa semana, num grupo do Whatsapp, compartilhei algumas imagens da 2a. edição de Absolute Superman e surgiu a inevitável pergunta: “O Superman virou comunista?”.

Taí algo difícil de responder, especialmente considerando a trajetória de quase 90 anos do herói.

Superman foi criado por dois jovens judeus, filhos de imigrantes, e vítimas de antissemitismo  nos estertores da Grande Depressão. Originalmente não era o escoteiro azulão que a maioria de nós identifica. Ele era um vigilante, mal visto pela polícia, que lutava contra os gangsters e políticos corruptos que infestavam Metropolis e os Estados Unidos. Na Segunda Guerra foi usado na luta contra o fascismo e o nazismo, sempre se posicionando ao lado dos, como brincávamos quando crianças, fra(s)cos e (c)o(m)primidos.

O mais interessante é notar que a sua criação bebe em fontes sempre relacionadas a conceder poder ou liberdade aqueles que são alvo das forças tirânicas, desde o jocoso fisiculturista Charles Atlas, que prometia aos meninos fracos poderem revidar contra seus bullies, até Moisés, que, vindo de uma família de judeus escravizados, foi criado pela realeza egípcia até se tornar o libertador do seu povo. Com base nessas referências, a história do Superman sempre foi ligada a proteger aqueles com menos recursos, poder, e possibilidades.

Charles Atlas contra a opressão dos ratos de praia

É claro que a figura foi usada ideologicamente. À beça. Dos anos 1950 aos 70, quando os Estados Unidos se proclamavam os grandes libertadores do mundo, lá estava ele defendendo A Verdade, A Justiça e o American Way of Life. Mas nos 1970s a porca torceu o rabo, e, como todo mito, Superman teve que se adaptar ao seu ambiente.

Depois do escândalo de Watergate, a confiança dos americanos em suas próprias fantasias ficou abalada, o governo passou de aliado à vilão, e Superman foi instado a tentar resgatar o sentimento patriótico. Foi nesse momento quando surgiu a versão seminal de Christopher Reeve, cercada de bandeiras estreladas, defendendo o “presidente” no salão oval e, inclusive, devolvendo a cúpula à Casa Branca, destruída por Zod no segundo filme da franquia. Porém, mesmo com tanta propaganda, era claro que algo havia mudado.

Lex Luthor, interpretado cômica e genialmente por Gene Hackman, não era mais aquele protótipo de cientista hipertecnológico com jeitão de Soviete Supremo. Ele era um esperto cientista, sim, mas que ambicionava se tornar um grande empresário do ramo imobiliário (como um certo presidente fascista e laranja que conhecemos). Seu plano maléfico era enriquecer com as terras baratas que comprou no deserto da Costa Oeste americana, que hipervalorizariam após ele jogar um míssil nuclear na falha de San Andreas. Essa crítica ao “sonho americano” teve seu apogeu cinematográfico no fraco “Superman: Em Busca da Paz”, em que ele, indo além da luta contra o crime, se empenha na missão de acabar com o arsenal nuclear do mundo.

Nos quadrinhos essa mudança foi ainda mais contundente. Lex Luthor se tornou um empresário respeitado vivendo no limite da legalidade, que eventualmente se torna presidente nos anos 1990s (como são incríveis esses paralelos). Essa supremacia Luthor, somando-se a outras questões, acaba levando Superman, na defesa da sua condição de imigrante, ainda em prol do povo mas contra o status quo, à abdicar da “cidadania” americana que, cá entre nós, ele nunca teve.

No século XXI, as mudanças continuaram e em maior velocidade. Refletindo a confusão dos Estados Unidos, e do mundo, sobre como se organizam as novas estruturas de poder, Lex Luthor virou um pastiche de Mark Zuckerberg, na interpretação de Jesse Eisenberg, que inclusive interpretou o vilão, quer dizer, fundador do Facebook em a Rede Social. E nos últimos anos, vimos até o Superman ser tratado como inimigo do governo americano, na péssima versão do Zack Snyder, e, recentemente, se proclamar um punk rocker sob a competente e reverente direção de James Gunn.

O mal absoluto sempre é relativo ao mal do momento

O que enfim nos leva à nova versão (comunista?) do Superman Absolute.

Nessa nova releitura, ao contrário da mitologia tradicional, Superman não é filho da nobreza de Krypton, mas de sua classe trabalhadora, e vem para a Terra com a missão de libertar os humanos da opressão que ele mesmo sofreu em seu planeta natal. Lois Lane faz parte das forças paramilitares de uma corporação que domina e precariza imensas quantidades de pessoas para extrair riquezas do nosso planeta, mas começa a se afeiçoar a esse revolucionário que seus chefes perseguem. Com esse set up, talvez chamar ele de comunista seja anacrônico. Para usar um termo mais na moda, talvez ele seja decolonial.

O engraçado é que, quando comecei a organizar esse pensamento, me lembrei muito do jogo de RPG da DC nos anos 1980s. Nele os personagens, além de seus atributos físicos e poderes, tinham motivações. Alguns buscavam justiça, como o Batman, outros estavam ali pela diversão ou por terem que arcar com poderes indesejados, mas o Super tinha uma motivação bem peculiar: fazer o bem.

Mas o que diabos é fazer o bem? Simplificando pacas, fazer o bem é ser ético. E agir eticamente irá variar dependendo do mal que nos cerca. Em uma época, é lutar contra esquemas de corrupção policial e governamental; em outras, é derrubar ditaduras; mais pra frente é desarmar ou alimentar o mundo; ou, como agora, é simplesmente ter o coração aberto e confiar nas pessoas e ser decolonial, lutando pelos povos oprimidos pela ganância e exploração da natureza e do trabalho precarizado.

Alimentar o povo do Rio de Janeiro é a epítome de fazer o bem

Por isso, respondendo à pergunta do colega, não acho que essa nova versão seja um Superman comunista. Só estamos vivendo num mundo em que relacionamos parecer ser “comunista” ou punk rocker com ser “bom”, e, assim, o Super, como símbolo dessa bondade, se adequa às nossas fantasias de salvação.