No meu último dia, segurei o choro e resolvi me despedir de todos. Não tinha como saber quem era o culpado pela minha demissão, mas não ia esmorecer. Por mais que a justiça dos homens tivesse falhado, a de Deus eventualmente prevaleceria. E não seria eu a perder a oportunidade de mostrar que a minha retidão de caráter, ao contrário do que os outros pensavam, era inquebrantável.
Vislumbrei pela última vez a vista ampla da minha janela, saí da minha sala e apaguei a luz do escritório, sem olhar para trás. Minha secretária se levantou da sua baia num susto e abriu seus braços me desejando sorte. Era sincera? Eu não tinha como saber. Porém lhe dei o benefício da dúvida, a abracei e lhe belisquei, como de costume, numa das muitas dobras da sua barriga, profetizando que na próxima vez que nos víssemos ela finalmente teria emagrecido. Mesmo não sendo mais sua chefe, não me custava nada lhe dar um último empurrão de motivação antes de ir. Não havia motivo para que ela, com o exemplo que eu lhe dava, insistisse em cultivar maus hábitos que tanto prejudicavam sua aparência e sua saúde.
Abandonei os poucos pertences que havia na minha sala, e resolvi confrontar todos os gerentes com o meu adeus. Eu precisava deixar claro para eles que mesmo sabendo que alguns, ou muitos, deles tinham, com suas acusações infundadas, me tornado alvo de tantas denúncias de assédio, eu não tinha ódio no meu coração. Eu entendia as suas limitações. Era preciso ser muito competente para aceitar sem medo os desafios que lhes propus. Se eles encaravam esse convite à excelência como uma violência, a eles só podia oferecer a minha pena. Assim, fui lhes desejar não só o melhor, mas que também se tornassem melhores.
Enquanto recebia seus abraços pouco entusiasmados, pedi a Deus em silêncio que o gerente de recursos humanos fosse mais honesto; a de finanças, mais atenta; o de operações, menos preguiçoso; a de comunicações, mais caprichosa; e que, enfim, todos superassem suas claras e óbvias limitações.
Terminada a fila de gerentes, para mostrar a importância do respeito à hierarquia, que os analistas e estagiários com certeza precisavam desenvolver, passei em direção à saída sem sequer oferecer meu olhar. Na falta da minha presença, eles encontrariam a consciência dos muitos defeitos que precisavam corrigir.
Entrei no elevador e, enquanto as portas se fechavam, sorri. O melhor para mim estava por vir. Quanto a eles, não posso ver o futuro, mas com certeza o deles nunca chegaria aos pés do meu.



