O Comunismo Punk Rocker Decolonial de Superman

Essa semana, num grupo do Whatsapp, compartilhei algumas imagens da 2a. edição de Absolute Superman e surgiu a inevitável pergunta: “O Superman virou comunista?”.

Taí algo difícil de responder, especialmente considerando a trajetória de quase 90 anos do herói.

Superman foi criado por dois jovens judeus, filhos de imigrantes, e vítimas de antissemitismo  nos estertores da Grande Depressão. Originalmente não era o escoteiro azulão que a maioria de nós identifica. Ele era um vigilante, mal visto pela polícia, que lutava contra os gangsters e políticos corruptos que infestavam Metropolis e os Estados Unidos. Na Segunda Guerra foi usado na luta contra o fascismo e o nazismo, sempre se posicionando ao lado dos, como brincávamos quando crianças, fra(s)cos e (c)o(m)primidos.

O mais interessante é notar que a sua criação bebe em fontes sempre relacionadas a conceder poder ou liberdade aqueles que são alvo das forças tirânicas, desde o jocoso fisiculturista Charles Atlas, que prometia aos meninos fracos poderem revidar contra seus bullies, até Moisés, que, vindo de uma família de judeus escravizados, foi criado pela realeza egípcia até se tornar o libertador do seu povo. Com base nessas referências, a história do Superman sempre foi ligada a proteger aqueles com menos recursos, poder, e possibilidades.

Charles Atlas contra a opressão dos ratos de praia

É claro que a figura foi usada ideologicamente. À beça. Dos anos 1950 aos 70, quando os Estados Unidos se proclamavam os grandes libertadores do mundo, lá estava ele defendendo A Verdade, A Justiça e o American Way of Life. Mas nos 1970s a porca torceu o rabo, e, como todo mito, Superman teve que se adaptar ao seu ambiente.

Depois do escândalo de Watergate, a confiança dos americanos em suas próprias fantasias ficou abalada, o governo passou de aliado à vilão, e Superman foi instado a tentar resgatar o sentimento patriótico. Foi nesse momento quando surgiu a versão seminal de Christopher Reeve, cercada de bandeiras estreladas, defendendo o “presidente” no salão oval e, inclusive, devolvendo a cúpula à Casa Branca, destruída por Zod no segundo filme da franquia. Porém, mesmo com tanta propaganda, era claro que algo havia mudado.

Lex Luthor, interpretado cômica e genialmente por Gene Hackman, não era mais aquele protótipo de cientista hipertecnológico com jeitão de Soviete Supremo. Ele era um esperto cientista, sim, mas que ambicionava se tornar um grande empresário do ramo imobiliário (como um certo presidente fascista e laranja que conhecemos). Seu plano maléfico era enriquecer com as terras baratas que comprou no deserto da Costa Oeste americana, que hipervalorizariam após ele jogar um míssil nuclear na falha de San Andreas. Essa crítica ao “sonho americano” teve seu apogeu cinematográfico no fraco “Superman: Em Busca da Paz”, em que ele, indo além da luta contra o crime, se empenha na missão de acabar com o arsenal nuclear do mundo.

Nos quadrinhos essa mudança foi ainda mais contundente. Lex Luthor se tornou um empresário respeitado vivendo no limite da legalidade, que eventualmente se torna presidente nos anos 1990s (como são incríveis esses paralelos). Essa supremacia Luthor, somando-se a outras questões, acaba levando Superman, na defesa da sua condição de imigrante, ainda em prol do povo mas contra o status quo, à abdicar da “cidadania” americana que, cá entre nós, ele nunca teve.

No século XXI, as mudanças continuaram e em maior velocidade. Refletindo a confusão dos Estados Unidos, e do mundo, sobre como se organizam as novas estruturas de poder, Lex Luthor virou um pastiche de Mark Zuckerberg, na interpretação de Jesse Eisenberg, que inclusive interpretou o vilão, quer dizer, fundador do Facebook em a Rede Social. E nos últimos anos, vimos até o Superman ser tratado como inimigo do governo americano, na péssima versão do Zack Snyder, e, recentemente, se proclamar um punk rocker sob a competente e reverente direção de James Gunn.

O mal absoluto sempre é relativo ao mal do momento

O que enfim nos leva à nova versão (comunista?) do Superman Absolute.

Nessa nova releitura, ao contrário da mitologia tradicional, Superman não é filho da nobreza de Krypton, mas de sua classe trabalhadora, e vem para a Terra com a missão de libertar os humanos da opressão que ele mesmo sofreu em seu planeta natal. Lois Lane faz parte das forças paramilitares de uma corporação que domina e precariza imensas quantidades de pessoas para extrair riquezas do nosso planeta, mas começa a se afeiçoar a esse revolucionário que seus chefes perseguem. Com esse set up, talvez chamar ele de comunista seja anacrônico. Para usar um termo mais na moda, talvez ele seja decolonial.

O engraçado é que, quando comecei a organizar esse pensamento, me lembrei muito do jogo de RPG da DC nos anos 1980s. Nele os personagens, além de seus atributos físicos e poderes, tinham motivações. Alguns buscavam justiça, como o Batman, outros estavam ali pela diversão ou por terem que arcar com poderes indesejados, mas o Super tinha uma motivação bem peculiar: fazer o bem.

Mas o que diabos é fazer o bem? Simplificando pacas, fazer o bem é ser ético. E agir eticamente irá variar dependendo do mal que nos cerca. Em uma época, é lutar contra esquemas de corrupção policial e governamental; em outras, é derrubar ditaduras; mais pra frente é desarmar ou alimentar o mundo; ou, como agora, é simplesmente ter o coração aberto e confiar nas pessoas e ser decolonial, lutando pelos povos oprimidos pela ganância e exploração da natureza e do trabalho precarizado.

Alimentar o povo do Rio de Janeiro é a epítome de fazer o bem

Por isso, respondendo à pergunta do colega, não acho que essa nova versão seja um Superman comunista. Só estamos vivendo num mundo em que relacionamos parecer ser “comunista” ou punk rocker com ser “bom”, e, assim, o Super, como símbolo dessa bondade, se adequa às nossas fantasias de salvação.

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