De todos os atores do campo editorial, aqueles que talvez tenham sido mais impactados pelas mudanças tecnológicas e de mercado tenham sido as distribuidoras. Tradicionalmente consideradas como agentes logísticos, responsáveis pelo armazenamento, transporte e comunicação com os pontos de venda, as distribuidoras viram seu processo ser virado de dentro pra fora pelos avanços nas tecnologias de informação e comunicação, pela entrada de novos competidores e pela popularização de novas formas de comercialização, como o crowdfunding e o POD.
Esse abalo num cenário há muito estabilizado levou as editoras e pontos de venda, início e fim da cadeia do livro, a questionarem o valor gerado pela distribuição, que corria o risco de ser considerada uma simples atravessadora no processo de chegada do produto ao consumidor final. Isso gerou um grande risco, às vezes concretizado, das distribuidoras serem substituídas por estruturas internas ou ter suas funções distribuídas a outros entrantes no setor. Porém, como dizem, toda crise gera oportunidades, e a maior de todas é a de, frente a um cenário em que a sua identidade e missão são questionadas, rever seu propósito e descobrir qual é o seu verdadeiro diferencial competitivo.
As distribuidoras, confrontadas por esse novo arranjo de forças e responsabilidades, que criou uma confusão de papéis entre suas ações comerciais e as de seus clientes, tiveram que olhar para seus processos, propostas de valor e estruturas de custos e receitas. Nesse exercício, a verdade que salta aos olhos e que, talvez por ser tão ululante, escapa a percepção de muitos, é o seu papel de HUB do mercado editorial.
Além de servir como interligação entre diversos atores (editoras, gráficas, pontos de venda), as distribuidoras também gerem as informações que são necessárias ao correto transporte e circulação dos produtos editoriais durante seu ciclo de vida. Do lançamento à reposição, da entrega à devolução dos consignados, só as distribuidoras tem acesso às informações relacionadas a tempo, volume, custo, velocidade, e peculiaridades dessa maturação dos produtos.
Essa informação não é só valiosa, mas essencial para a melhoria do processo decisório, tanto das editoras como dos que vendem os livros aos leitores, no que tange a iniciar a reimpressão de obras, curadoria de acervos de maior retorno, que regiões precisam de ações de marketing e em quais produtos devemos concentrar nossos esforços e recursos. Essa concentração de dados, quando bem analisados, permitirá a percepção com maior clareza dos tempos, movimentos e do perfil dos consumidores finais, nos fazendo entender se a identidade que forjamos para nossas empresas está em consonância com o público que atendemos.
Toda essa inteligência de negócios, organizada em ferramentas de BI, ainda poderá, caso as editoras e livrarias saibam dividir as informações de forma segura e responsável, ajudar a estabelecer diálogos entre competidores e parceiros para o desenvolvimento de ações que ataquem problemas comuns, como a redução do público leitor e a dificuldade de atendimento a regiões que não fazem parte da capilarização de nossos pontos de presença.
As distribuidoras deixam, assim, o século XX, onde eram vistas erroneamente como custo, para se tornar claramente geradoras de valor. Mais que simples concentradoras de frete e rotas logísticas, elas passarão a ser vistas como empresas de inteligência comercial com a missão não só de mudar o mindset restritivo e tradicional do setor, mas também de captar, coletar, organizar e consolidar os dados do ciclo de vidas de nossos produtos para transformar esses dados e informações no conhecimento que irá promover um crescimento tanto de seus clientes individuais como de todo o mercado.