Tenho sentimentos conflitantes sobre Amélie Poulain. Quando saiu, achei bobo. Ponho a culpa no 11 de setembro (apesar de estrear em abril de 2001 na França, aqui só pintou em fevereiro do ano seguinte). Na minha opinião, a época pedia discussões mais urgentes e sérias. Não ajudou também o filme ter virado o manifesto de toda uma geração biruleibe que dominou as artes até a metade da década seguinte. Até hoje me lembro que Amélie foi o nome escolhido por uma Mallu Magalhães ainda teen se fingir de barista num reality show sem graça desses de tv a cabo.
Hoje, 25 anos depois do seu lançamento, já estarmos fartos e enjoados das discussões sérias, urgentes e vazias que, descobrimos, só servem para gerar mais conflito, capitalizar extremistas e arrumar pretexto pra acabar com o planeta.
O que eu não entendi na época foi que o filme na verdade propunha uma forma alternativa e deliciosa de conviver com o fim da história: nos tornarmos terroristas existenciais. Atacando os pequenos problemas com criatividade, fazendo justiça cotidiana absurdista e promovendo a iluminação mezzo espiritual, mezzo material dos (extra)ordinários seres humanos.
A escolha da sociedade pra lidar com o fim da história foi diferente: apoiar crises artificiais promovidas pelos egos das almas mais sebosas e gananciosas do planeta com base em motivos falsos e vis. E, assim, a humanidade se dividiu para batalhar entre si por coisas mesquinhas, perigosas e sem sentido, enquanto poderia, se tivesse aprendido com Amélie, estar resolvendo ludicamente as crises existenciais próprias e alheias.
Hoje, não resisti e reassisti Amélie. Durante todo o filme, lamentei estar tão errado na época. Agora já é tarde demais. Quando há tanto ameaçando a nossa existência, é quase impossível ser existencialista, quiçá um terrorista existencial.
Mas ainda há esperança. Talvez possamos aproveitar o cansaço de todas as polarizações e seduzir as pessoas, como Amélie fez, com a beleza do cotidiano, com a importância das coisas que gostamos e não gostamos e com o prazer de fazer o bem e iluminar quem nos rodeia.
O primeiro passo? Mudar de ideia. E não precisa ir muito longe. Comece pequeno, por exemplo, curtindo de coração aberto um filme que achava bobo e até mesmo, valha-me Deus, as músicas da Mallu Magalhães.