Arquivo da categoria: Notas

2026.08.16 – “Apague a luz pra eu te ver melhor”

  • A diferença entre uma seita e seus amigos é que a seita será sincera contigo pelos motivos errados, enquanto seus amigos vão mentir pra você pelos motivos certos. Apesar dos apesares, há horas em que seitas podem fazer mais por você do que seus amigos (que, se forem realmente amigos, na hora certa, vão te resgatar da seita).
  • Me surpreendo como o Chorão virou a voz de uma geração. Assim como o Renato Russo que ajudou uma geração que “fala demais por não ter nada a dizer” a sumarizar suas angústias, o doutor Alexandre Magno Abrão ajudou de millenials em diante a expressar os incômodos que eles não conseguem vocalizar ou entender. Curioso que ambos foram vítimas dos algozes das suas respectivas gerações: a AIDS e os distúrbios psicossociais. Como todos os que falam o que sabemos ser verdade, foram considerados loucos, mas suas palavras e sabedoria permanecem. Já isso não é surpresa alguma. Afinal, “Só os Loucos Sabem“…
  • Não há sensação mais estranha do que acordar de madrugada numa casa onde a luz acabou. Ao contrário da sensação de quebra de ordem que o susto da queda de luz gera, quando acordamos durante um blackout, é como se fóssemos nós os deviantes numa ordem diferente mas natural. Assim, despidos da intenção e motivação para tentar resolver o irresolvível, apenas seguimos a vida como se a luz fosse uma ilusão e ela nunca fosse voltar. Vamos ao banheiro no escuro; buscamos comer o que pode estragar no congelador; acendemos o fogão que, graças a Deus, ainda gera luz e calor; usamos as nesgas de luz e energia para ler ou tentar contato com o mundo exterior; enfim, tentamos seguir a vida dentro de uma fingida (a)normalidade. E, do nada a luz, volta. É uma sensação estranha de viver algo que parece que não aconteceu de verdade. Tipo quando a luz acaba no cinema.
  • Tudo volta, mas volta diferente. Não sei se tem relação com a queda de luz, mas tudo pediu pra eu me relogar. Na base das infraestruturas (físicas e lógicas) está a energia.
  • Adendo: fui ao cinema assistir a Camp Miasma (o que merece um texto à parte) e o cinema estava sem luz. Resolvi esperar até o horário da minha sessão e a luz voltou. Porém, como esperado, no meio do filme, a luz do cinema acabou de novo, o que é também uma sensação esquisita, pois. no cinema, JÁ estamos no escuro. Exatamente como na queda de luz quando dormimos. Porém logo a luz voltou, como de madrugada. Me pergunto o que esses eventos repetidos significam. A luz acaba quando ninguém vê e tudo volta ao normal sem ninguém perceber. Talvez eu esteja precisando apagar a luz para ver algo melhor.
  • Mas isso o João Penca já sabia:

undefined for August 15, 2026

  • Sempre fico encantado com a beleza e a maestria da narrativa simples, mas nunca simplória, de Charles Schulz. 4 movimentos com blocos visuais muito claros sobre desejo, luta, resolução e decepção. Pra ir do cotidiano ao existencial só precisamos de quatro quadros (e de um Beagle preto e branco).
  • Um fim de semana razoavelmente produtivo: fiz a decupagem do curso de quadrinhos e a primeira edição do AH!QUATRO para o curso de fanzine. Que outros dias sejam tão calmos e criativo assim.
  • Em vez de vida longa e prosperidade ou paz e amor, deveríamos desejar calma e criatividade aos outros. Então, paz e imaginação pra vocês.

Star Trek

2026.08.09 – “This is the day, your life will surely change. This is the day, when things fall into place”

    • Sumido por motivos de exaustão mental, incerteza (positiva) sobre o futuro e overdose de remédios emocionais, tais como RPG, Magic The Gathering, Quadrinhos e A Gata Comeu. The Works.
    • Curioso como sempre me agarro nessa novela em momentos de transição. O que me atrai? A liberação das fantasias ou a confirmação de que o mundo é um (mau) teatro? Por outro lado, sempre me parece um ritual de fim de fase, mesmo sem saber qual nova fase virá. Nas outras vezes, eu assisti pois estava sendo exibida. Agora, com o streaming tomei a iniciativa de eu mesmo assistir. O que isso diz sobre a minha tentativa de controlar o futuro? Que fase eu quero que acabe logo e qual sonho quero que comece?
    • Por falar em rituais, hoje, como em todos os dias dos pais, segui o mesmo protocolo: acordar antes de todo mundo (como sempre), lavar louça e arrumar a casa, esperando o que sabe-se lá o que virá. É acts of service que chama, não?
    • Nas redes e nas conversas de botequim, só se fala do novo mundo pós IA. Que tudo, do trabalho à política, passando pelas amizades e relacionamentos, irá mudar por conta das respostas rápidas e (in)certas dos Chats da vida. O que ninguém parece perceber é que informação sem experiência ou experimento é uma tentativa vazia de mostrar sabedoria, pois conhecimento sem engajamento emocional e existencial é apenas uma ferramenta para fraude (estando a informação correta ou não). Afinal, o que se faz simplesmente pelo ganho pessoal e não pela verdade nasce de egoísmo mimético e má intenção (nem sempre no sentido moral, mas com certeza no ético). E a IA é a coroação desse casamento fatal da ignorância com a ganância que assassinará o saber.
    • Por essas e outras, dá até vontade de escrever uma continuação protópica de A Máquina do Tempo em que o viajante encontra uma outra tribo que, longe da briga entre Morlocks e Elois, aprendeu a viver com sabedoria, ou seja, sem ilusões utópicas ou fantasias distópicas, assim, sabe?, como dá. Provavelmente na minha versão, essa tribo viveria em Paquetá.
    • Em paralelo, parece que há algo no ar sobre o fim das redes sociais e da sociedade do espetáculo. Tá, exagero, mas o pessoal já parece estar cansado de trabalhar de graça para os barões da internet. Enfim, a história humana se movimenta de abolição em abolição de múltiplas escravaturas. A Heineken já se movimenta há tempos sob essa lógica, com motivos espúrios, lógico.

  • Quando a gente vê o aparato que as plataformas de internet nos entregam, é surpreendente como o uso é vazio. Quando não tínhamos nada, dispendíamos muito esforço e artesanato para construir fisicamente as imagens que nos passavam pela cabeça. Hoje, que tudo é dado, a impressão é que nada temos a dizer. É como se publicar, divulgar, produzir tenham se imposto na frente do que deveria ser sua origem: imaginar, sentir, querer. Como gatos, os artistas do avant-garde de hoje, em vez de inovar tecnicamente, passaram a brincar com as caixas de papelão onde os presentes caros e inúteis que receberam das Big Techs foram embalados. Talvez isso explique o retorno dos fanzines e outras mídias low-fi. What would Maya Deren do?
  • O que o mercado do entretenimento não parece perceber é que, como belamente demonstrado na cena do Azul Cerúleo de O Diabo Veste Prada, o público de massa precisa do avant-garde (no caso da alta costura) para poder construir o seu junk food estético. Porém, com olho no lucro fácil e na infinita reprodutibilidade que a IA promete, o que se deseja é apenas reproduzir o fácil, genérico, de (aparente) grande alcance e que retorne rápido seu investimento. Nossas almas não podem viver com essa pseudo-arte caloria zero. É a alma dos artistas que nos alimenta. Infelizmente até as almas deles estão sendo fabricadas em série, vide o circuito de autores celebridades que atende às culpas e desejos dos mais diversos públicos de todos os espectros e fetiches.
  • Mas pra que eu devo me preocupar ou me exaltar com esse futuro? Melhor viver o presente. Se for um pouquinho melhor que ontem já tá bom. Não tá?
  • “You could have done anything, if you wanted/ And all your friends and family think that you’re lucky/ But the side of you they’ll never seeIs when you’re left alone with your memories/ That hold your life together, like glue” – The The

2026.07.25 – “Hot topic is the way that we rhyme”

  • Sempre é salutar (re)visitar as suas referências. Hoje tive o prazer de reencontrar uma das minhas maiores inspirações no cinema: Sullivan’s Travels, uma deliciosa história non sense, com forte veia metalinguística, fazendo uma crítica social da indústria de entretenimento na grande depressão com um delicado viés humanista/existencial. Ah, e tem uma doce e exuberante Veronica Lake, afinal “There’s always a girl in the picture. Haven’t you ever been to the movies?”.
  • Na sala de cinema, além de mim, só 3 pessoas. Não sei como a obra lhes afetou. Eu, me sentindo sozinho e livre, ri frouxo e me permiti ficar emocionado com o final que alguns, hoje, podem até considerar brega. Mas e daí? Quem disse que é ruim ser brega? Eu, pelo jeito, sem a menor vergonha, sou.
  • Confesso: é difícil assistir a uma obra com 85 anos, especialmente cinematográfica, sem sentir a diferença técnica e narrativa. Mas essa diferença não deve ser tratada como critério como uma forma de hierarquizar obras de arte das mais às menos evoluídas. Isso também não significa que precisamos tentar o impossível: entender ou nos posicionar no contexto da sua criação. Tudo o que é preciso é abraçar o que mundo lhe entrega sem julgamentos. Tá não é fácil, mas é possível. Taí uma regra que também serve pra outras vivências e leituras.
  • Hoje, também, depois de uma longa e inexplicável resistência, assisti a Parasita. Pode parecer que não tem nada a ver com Sullivan’s mas é mais obra sobre o contraste entre pobres e ricos. Não à toa, Sullivan’s Travels em português ganhou o título Contrastes Humanos. Esse poderia ser o título de todas as obras, não? É dos nossos contrastes que surgem os conflitos que movem as narrativas.
  • É importante saber de onde vêm as nossas referências. Afinal, é impossível criar do nada. A tal da genialidade, se é que existe, como bem dizem, tem muito a ver com reciclar seu próprio bom (ou mau) gosto. Então, não se sinta oprimido pelas sua inspirações. Quem te inspira não te limita. Só pegar Roberto Carlos, Leo Jaime e Raul Seixas para ver aonde usar Elvis como inspiração pode te levar.
  • Então, fica a dica vinda de Academia de Gênios:

  • Pronto! Foi só ressuscitar mais uma referência pra eu ficar com vontade de ver.
  • Já fez uma lista das suas inspirações? Le TIgre fez.

 

2026.07.23 – “And the girls all dance, while I’m feeling like a refugee”

  • Férias são o momento ideal para adquirir ou retomar velhos hábitos. Hoje pela manhã voltei ao Yoga. Fazia muito tempo que não praticava e a sensação foi a mesma de outras épocas: um cansaço e um descanso profundos; e um esforço ao mesmo tempo mínimo e desumano. Enquanto os demais alunos faziam com desenvoltura suas posturas, eu suava em bicas, colocando para fora, na forma de lágrimas corporais, anos de abusos físico, moral e intelectual que cometi comigo mesmo. Pelo menos, pra mim, todo Yoga é Hot Yoga.
  • Até o suor do Yoga é diferente dos demais. Parece ao mesmo tempo pesado e leve; plasmático e gasoso, como se eu estivesse colocando novamente em funcionamento uma tubulação de gás aposentada, enferrujada e inundada de resíduos tóxicos anciãos. Foi duro, mas sobrevivi.
  • Na saída, passando na frente de um fruteiro me encantei, como há muito não fazia, com um enorme pedaço de melancia, que, por impulso, comprei e, parcialmente, devorei em casa. Reação da reativação de um corpo em repouso por tempo demais?
  • Mexer o corpo é aquecer os desejos. Como nos sentimos fisicamente diz muito sobre o que nos incomoda e o que amamos. O melhor caminho para saber o que mexe no emocional e cerebral passa pelo físico. O desejo não precisa de palavras, mas é dependente de sangue.
  • Mais uma sessão de tarot complementar nas férias sob o pretexto de testar uma nova plataforma. Muitas reflexões sobre a vida e oportunidades de uso da plataforma. O desejo só surge como enigma.

  • Começando a reassistir a A Gata Comeu. Queria entender essa minha fascinação por ilhas. Talvez meu sonho não seja ir para uma, mas sair da que estou. Por isso, ir para outra me parece simplesmente natural. Afinal, continentes não passam de ilhas grandes e o universo, um arquipélago.
  • É surpreendente como os hábitos mudaram por conta da tecnologia. A necessidade de ligar pra se comunicar forçava relações mais diretas e havia uma tolerância maior em não se ouvir falar dos outros. Era totalmente factível alguém próximo sumir por dias (ou semanas) e ninguém se preocupar de fato. Éramos menos suscetíveis à ausência alheia e mais propensos a aproveitar suas presenças. A ubiquidade proporcionada pela tecnologia matou muitas estratégias narrativas.
  • Mas, cá entre nós, até mesmo para época, a tranquilidade do pessoal frente a um barco sumido há quatro dias é displicência demais. Ou não é?
  • Parece que o veranico acabou e o tempo está virando. Deu pra aproveitar um pouco: fui ao cinema, comi bem, testei novas coisas e deixei de me preocupar com as antigas. Agora é se/me preparar para a volta. O que essas férias mudaram em mim? Vamos ver o que permanece na semana que vem.

  • “And maybe tonight
    I can make you mine
    And if it’s alright
    We could dance in the white light”
  • Agora, com licença que eu vou ali jogar um RPG.

2026.06.16 – “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”

  • As melhores boas notícias são as inesperadas. O mais interessante é que assim que as recebemos, temos completa impressão de já as termos previsto, o que em nada diminui a surpresa e a satisfação de recebê-las.
  • Infelizmente, o pessimista em mim não deixa de lembrar que não é seguro levar “flores para a cova do inimigo”. Mas posso curtir um pouquinho, não?
  • Fui almoçar na Leiteria Mineira pra comemorar, meu garçom preferido voltou e quando fui pagar, pulou da minha carteira uma mensagem de um biscoito da sorte. Um prazer viver sob esses auspícios. Pelo menos um pouquinho.
  • Por outro lado, é um pouquinho triste que precisemos gastar nossos grandes sonhos com respeito e paz de espírito. Isso deveria ser o default, mas, infelizmente, não é.
  • O que ocorre mesmo depois da morte de César? Preciso reler a peça.
  • Há 32 anos Celine e Jesse se encontraram em um trem. Espero que estejam bem.. Eu estou. Hoje.

2026.06.17 – “Human: Born to make mistakes”

  • A consciência (aparentemente) é individual e a maior parte das ações voltadas para coesão (ou repressão) social são voltadas à sua obliteração. Num mundo onde ter consciência (no sentido senciente e não moral) se tornou um luxo (e um crime), como lidar com a ansiedade disfarçada de medo dessa construção coletiva mezzo mística mezzo científica de uma consciência artificial? Ninguém tem resposta, nem o Kevin Kelly, mas, como sempre, ele tem excelentes perguntas.
  • Parece que boa parte das nossas lutas modernas e pós modernas são voltadas à angústia da dúvida se ainda há algo que separe o humano de tudo mais que há ao nosso redor. Não seria melhor, invés de tentar ser, simplesmente brincar que somos?  Eu apoio.
  • Talvez o maior empecilho pra que nossas vidas sejam mais (ou diferentes) do que esperamos é o medo de errar. Tanto no sentido de não atingir o esperado como no de vagar. Se não nos perdemos, nunca nos acharemos.
  • O que é brincar senão errar de propósito e celebrar esse erro com alegria?
  • Que tal, ao invés de condenar a tecnologia, pervertê-la para torná-la mais humana ou, pelo menos, human friendly? Taí uma coisa bem humana que fazemos desde a nossa origem. Não foi por uma dessas que fomos expulsos do Éden? Tenho certeza que a zoeira valeu  a pena.
  • Interested in combining the best of all worlds, The League would like to positively affect the future by close attention to the present, allying technology with humanity and humour.” – The Future (future Human League) Manifesto