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A masculinidade naufraga no espaço, de Marte a Tau Ceti

Não basta estarem perdidos; eles precisam estar perdidos a bilhões de quilômetros de distância de qualquer ajuda; e, pra piorar, sozinhos. Dadas as chances de salvação praticamente inexistentes, não há muita razão pra continuar a viver. Pode até haver uma missão a cumprir, uma esperança de resgate, ou, simplesmente, a tentativa de viver. E, mesmo assim, se forem resgatados, nada há para o que voltar.

Quando partiram já não tinham nada, a não ser uma enorme especialidade técnica da qual se vangloriam, com falsa modéstia, se denominando os melhores de lugar algum, comparados com mais ninguém. Podem ser egocêntricos de baixa auto estima, mas não mentem. Mesmo na Terra, cercados de bilhões de pessoas, eles ainda estão, estavam, estarão sozinhos, e, portanto, em suas tribos de um só, em suas alcateias de lobos solitários, eles serão sempre os melhores mesmo que não haja ninguém para servir de padrão ou referência.

E, assim, contra todas as forças, eles permanecem, lutam, e, surpreendentemente, sobrevivem. Já as fantasias de que deixarão de ser sozinhos, mesmo após os extraordinários e complexos resgates, lamento, nunca se realizarão. Cá entre nós o que mais podia acontecer? Há sequer uma chance de que os homens deixem de ser sós?

Eles podem estar sozinhos, sim, mas não lhes faltam objetos de transição: batatas nascidas onde nada deveria brotar; as memórias de companheiros mortos dos quais eles não se lembram; transportes robôs ressuscitados; ou mesmo um alienígena que fala por meio de um computador como se fosse uma inteligência artificial. Esses objetos intermediários, entre o seio materno e a autonomia, permitem que esses homens, como bebês abandonados, possam treinar a se relacionar com outros que não sejam eles mesmos. Talvez por isso falem tanto sozinhos com câmeras, jogando suas garrafas espaciais em busca de um resgate que, mesmo chegando, nunca irá acabar com a sua solidão.

E quando a história termina tudo deu certo, e errado. Eles continuam sozinhos, mas era o que queriam, não? Mesmo aqueles que os resgataram não merecem o seu amor, que eles guardam pra si mesmos e para os objetos de transição dos quais nunca parecem conseguir se livrar.

O homem está sozinho mas feliz. Excluído da necessidade de viver em sociedade e se ressignificar, ou de se tornar agressivo ou resistente a um mundo que não o acolhe, ele encontrou uma terceira via, mesmo que seja em total isolamento. É possível viver assim? Sim, é, pelo menos enquanto tiver os seus brinquedos e a ilusão de ser o melhor ser humano de lugar nenhum. Será o suficiente a longo prazo? Não sei, mas, talvez, por hoje, sim.  E amanhã? Amanhã, veremos; amanhã veremos.

Em tempo

Não li os livros de Andy Weir e estou curioso que a sensação que os filmes me passam sobre essa terceira via de manifestação da masculinidade se reproduza nos textos.

Autista ou Alemão? Eis a questão

Minha preocupação e ocupação com regras é ao mesmo tempo demasiada e exemplar. Talvez por isso tenha calhado de trabalhar com Gestão do Conhecimento. O processo de organizar a criação, explicitação, consolidação e internalização do conhecimento é a melhor maneira, até o momento, de envolver as pessoas na determinação das regras que elas mesmas devem executar. Afinal, não envolver as pessoas nesse processo, todos  sabem, faz  com que as chances de as regras serem seguidas a contento caiam drasticamente.

Porém, confesso, tenho fortes sentimentos físicos e mentais devidamente contidos e ocultos, quando as coisas não ocorrem como o planejado ou como o combinado. Claro que isso me gera muita angústia, mas em vez de me desesperar, o que não seria prático ou mesmo coberto pelos acordos sociais sob os quais vivemos, simplesmente aceitei esse risco. Desde que esteja devidamente medido e registrado, trato de atacá-lo com planos de mitigação e extinção, acionados por gatilhos derivados de métricas objetivas.

Óbvio que já considerei que esse caráter comportamental podia ser um sinal de autismo, apesar de achar, como Uta Frith, pesquisadora alemã que ajudou a consolidar a ideia de autismo como espectro, que algumas regras podem estar sendo flexibilizadas demais para promover tantos diagnósticos tardios desse transtorno de neurodesenvolvimento. Porém credito boa parte desse meu comportamento à minha criação. Tive um pai que morria de medo de atrasar em qualquer coisa, ao ponto de sair com quatro horas de antecedência para o aeroporto;  minha mãe é uma perfeccionista contumaz, dando o mesmo nível de atenção e esmero a uma tese de doutorado ou a montagem de uma árvore de Natal; e estudei num colégio brutalmente estrito do qual poucos saíram com uma saúde mental aceitável (não, não fui um desses abençoados).

Pra piorar, meus bisavós paternos podiam ser considerados “alemães”, apesar de terem vindo para o Brasil ainda na época do Império Austro-Húngaro, antes da unificação alemã, o que sugere certas inclinações culturais, óbvio, estereotipadas, porém bem comuns.

Por isso, mesmo sem confiar sequer em testes psicológicos, fiquei tentado a passar pelo teste “Am I German or Autistic?” com o qual esbarrei em uma rede social. Óbvio, não é um teste apurado, mas cumpre seus propósitos de discutir os paralelos entre o transtorno e a cultura germânica. Porém, não posso deixar de mencionar, o resultado me deixou preocupado.

Se os scores de autismo e alemosidade (isso é uma palavra?) são independentes a pesquisa não deveria ser “Am I German and/or Autistic?”. Não sei, só estou dizendo…

Caso queira fazer a sua medição, aqui está o link, mas, reforço, não garanto a fidedignidade dos resultados nem a sua aderência a um verdadeiro teste de afinidade cultural ou avaliação psicoclínica.

Kristen Stewart, estudante de cinema

Tudo é água, inclusive nós e nossas memórias

É engraçado como falar que algo foi feito por um(a) “estudante” sempre tem uma conotação negativa. Quando dizem que o trabalho de alguém parece o trabalho de um estudante, sempre dá a impressão de se tratar de uma obra meio capenga, ao mesmo tempo pedante e ingênua, cheia de ideias (de terceiros) mal arrumadas, transformando homenagem em paródia não intencional, e representando a inevitável exaltação do próprio umbigo daqueles que se consideram mais do que são.

É engraçado também que essa mesma descrição se aplica às obras dos ditos gênios: obras deliberadamente disruptivas, ao mesmo tempo cheias de ambições e inocência, transformando o legado daquilo que homenageiam, e tão originais que só podem ser tratadas como algo vindo de “un auteur”.

O primeiro filme de Kristen Stewart tem tudo isso. É ao mesmo tempo a obra de uma estudante sedenta por aprendizado e manifestação, como uma obra genial que realmente traça uma marca original no cinema atual. A gana dela pelo cinema é tão grande que até os créditos finais ela aproveita para continuar nos deixando hipnotizados com as imagens que conjurou para recontar visualmente o livro de mesmo nome de Lidia Yuknavitch.

Cheia de vida, de som e de fúria, a história da vida da escritora, como a água da qual se faz a cronologia, pinga por todos os lados, em sangue, lágrimas, álcool, água (clorada e salgada), e por líquidos seminais e vaginais. Transacionando sempre entre o respirar e a apneia, ficamos o tempo todo sufocados ou ofegantes, sem saber separar onde nós, nadadores desde o útero, começamos e onde a água, que nos cerca e ao mesmo tempo nos nutre e afoga, termina.

Uma obra que dá o seu sangue (e das autoras)

Talvez o que precisemos mais no cinema não seja de grandes “mestres” ou pessoas que “saibam acertar”, mas de pessoas como Kristen que, nessa bela combinação de desejo e propósito, sabem se arriscar pelo amor que tem à arte. E isso, é inegável, encharca toda essa obra.

Velhos bandidos, velhos públicos

A indústria cinematográfica acha que é malandra. Ciente que a maior parte do seu público era formada por jovens brancos, heterossexuais e reacionários, durante anos se fiou em encher as telas com filmes de ação capengas, hiper sexualizados, pra tentar agradar quem poderia lhe dar uma aposta mais certeira de retorno financeiro.

Porém, o mundo mudou. Com a popularização do streaming e com a polarização política, esse público de retorno certo meio que sumiu dos cinemas, se tornou cada vez mais misógino e se transformou no principal crítico do que é feito com as suas franquias preferidas. Não é surpresa, então, que toda a tétrica fase de filmes de super heróis que se abateu sob o cinema desde 2008 parece, enfim, ter se extinguido.

Por isso, foi bem interessante assistir , graças à minha filha, que tem o péssimo gosto de curtir as atuais comédias brasileiras, e o ótimo gosto de assistir qualquer coisa em que Fernanda Montenegro apareça, a Velhos Bandidos.

Não é um filme soberbo. Pelo contrário é até meio sloppy. Se apoia demais na popularidade, reconhecimento e habilidade do elenco para nos manter fisgados. Acaba que a expectativa recompensa mais do que a entrega, mas o filme diverte e parece ter provocado uma transformação no público. Explico, o filme é uma história meio torta sobre etarismo e família, mas atingiu certinho no objetivo (era realmente esperado?) de atrair a terceira idade. Quando as luzes se acenderam é que percebi como a maioria do público estava dos 60+ em diante.

Eu, que sou já um 50+, fico feliz que estejam olhando para o público que em breve me tornarei com esse tipo de carinho. Sempre bom saber que ainda há um pouco de respeito por quem abriu tantos caminhos e trouxe tanta coisa legal, mesmo numa comédia bem mambembe sobre um assalto pouco elaborado.

Imagine Sísifo feliz, quer dizer, triste, quer dizer, feliz…

Um mês sem nada a reportar que possa ser reportado nem publicado publicamente sem atrair a atenção de repórteres que irão distorcer as minhas palavras tanto quanto minha alma foi distorcida nesse período. Enfim, mais um tempo de Sísifo, nesse caso, infeliz. E não o são todos?

Porém continuo sempre com a esperança vã, tal qual um Ivan qualquer de um sombrio romance russo, de que tudo vai mudar; mas, óbvio, não muda. Se nem em Tchekhov, o mais otimista dos russos, as coisas mudam, imagina só se, nesse drama cósmico, trágico e absurdo escrito numa mesa de roteiristas composta por Dostoievsky,  Gogol e Tóstoi, alguma coisa vai mudar. Não vai e não muda.

Mas o que pode mudar é a nossa disposição. Hoje, assombrado pelas minhas catástrofes ainda não acontecidas e pelos stresses sempre realizados, parei numa loja pra comprar um refri e não resisti a tentação de testar a minha sorte com um biscoito da mesma. Esperando as tétricas mensagens que normalmente recebo, fui presenteado com uma bela reflexão:

É, parece haver vida além dos medos. É só estimularmos a imaginação para o que desejamos e não para o que queremos evitar. Vamos ver se consigo implementar essa mudança em mim. Aí não importará a pedra que eu estarei empurrando, tudo mudará e Sísifo, confere Camus?, ficará feliz. Vamos torcer, mas, enquanto isso, deixa eu ir ali empurrar uma pedra que sexta ainda não acabou.

Bom fim de semana a todos nós, Sísifos e Sísifas na cruel lida do século XXI.

Carpe Diem: End of the World edition

Carpe Diem… Carpe Diem...

Em determinados momentos, a gente precisa largar a postura mezzo Kafka, mezzo avestruz, de ver a guerra começar e ir pra natação; e, mesmo de frente pra tragédia, conseguir tirar forças de qualquer lugar, mesmo dos errados.


Gostando ou não gostando, reta ou torta, a mensagem certa acaba chegando ao destinatário. Nem tanto pela mensagem, nem tanto pelo emissor, nem pelo mensageiro, mas pela pura necessidade do receptor ouvir exatamente aquilo, daquela exata maneira, naquele exato momento.

Carpe Diem… Carpe Diem...

Por mais brega que seja, o que nos resta fazer? Então mãos à obra que esses diem não vão se carpar sozinhos. Mesmo que seja indo pra natação. Vai ver, Kafka não era tão negativo quanto imaginamos (mentira, era).

Carpe Diem… Carpe Diem...

(obrigado ao Tarrask por me lembrar do diário do Kafka, agora vou ter que reler)

Carpe Diem… Carpe Diem...