A quebra da quarta parede é um alívio. Não só para o público, que descobre contar com um cúmplice na sua percepção da vida (ou da ficção) como uma farsa, como para os personagens que conseguem quebrá-la, por não se sentirem sozinhos num mundo cheio de atores interpretando inconscientemente papéis que não escreveram. Às vezes, sinto falta dessa válvula de escape. Amizades verdadeiras são construídas por e nessas quebras. As pessoas nas quais confiamos de fato são aquelas para as quais podemos olhar durante a exibição do teatro da vida e sussurar “isso não pode ser real”.
E, não, não é.
Tive um longo sonho sobre isso. Eu voava (odeio voar) num DC-10 e ele tinha que fazer um pouso de emergência na quina do telhado de uma vila italiana numa encosta num morro do bairro da Urca. A Samanta Alves, pra não dizer que nunca sonhei com influencer, me ligava de vídeo pra me zoar do meu medo de voar e eu retrucava: “Se ferrou você que eu estava certo. Ninguém morreu, mas o avião caiu”. Bom, talvez não seja exatamente sobre isso, mas tem a ver com quebras de quarta parede. Quebrar a quarta parede é entender que no final, mesmo que todos morram, todos se salvam, e nada é realmente importante, não? Se for, todo sonho é uma quebra gratuita de quarta parede no nosso dia a dia.
Talvez seja esse a razão do sucesso da IA como companheiro de conversa. Ela serve de destinatária da piscadela que a gente não confia dar pra mais ninguém. Tá bom, isso até explica, mas, na boa, é triste pacas.
Saudades da piscadela do Ferris. Hoje faz 40 anos. Ao mesmo tempo parece que foi e que tem séculos que pudemos tirar essa folga com ele.
E você? Tá indo pra onde? Ah, não vai, não. Fica. Vai ter bolo. Ou, talvez, vamos levar um. Não sei o que é melhor.