Analogias Analógicas

Algo está quebrando, ou, quem sabe?, se consertando, se concertando. Não só em mim, mas em todo o mundo.

No trabalho, no intervalo do almoço, as pessoas fazem palavras cruzadas nas suas mesas com uma concentração inesperada. Hoje, num restaurante uma família, na mesa ao lado, fazia as suas, enquanto esperava com surpreendente calma a sua comida. As salas de cinema estão, não  exatamente cheias, mas mais cheias. As revistas voltam a ser vendidas e lidas em seus formatos físicos, pois falam de atividades analógicas e seria um contrassenso fazê-lo no digital.

Essa semana li Veja e Super Interessante o que provavelmente não fazia desde o século XX

O tempo, que parecia faltar, agora sobra e  eu consigo cochilar sem culpa nas tardes tediosas dos domingos e nas manhãs vazias dos sábados. A caminho de casa, eu escolho os trajetos mais longos, onde posso encontrar as coisas que eu não esperava encontrar. Ouço as tolices bem intencionadas das pessoas e o barulho (quase) harmônico do trânsito; sinto o cheiro fermentado das ruas e o odor  adstringente das lojas; saboreio a doçura da chuva e o defumado dos canos de descarga; sofro na pele o calor inclemente das tardes cariocas, suo, mas, apesar do incômodo, não assim acho tão ruim.  Sentir o que nos cerca é estar vivo e, por pior que seja a dor, ela é preferível ao embotamento ao qual nos submetemos por tanto tempo.

Enfim despertos, como viciados, recém saídos do fundo do poço, caminhamos pelas ruas vazias das cidades natais que não mais reconhecemos, para mastigar um pão estranho, lembrando que esquecemos como era o seu gosto. O gosto é bom? Ruim? Não sabemos dizer, mas, ao contrário de toda a virtualidade no qual nos escondemos por tão tempo, ele, pelo menos, é; ele, pelo menos, é.

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