Arquivo da categoria: Notas

2026.06.07 – “Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow…”

  • Sonhos longos e estranhos em que eu morava em Paquetá e os caseiros queriam me expulsar da casa no domingo pra poderem usar a piscina. Bom sinal? Mal sinal? Vai saber… mas é sempre bom lembrar que tenho um lugar para onde quero fugir, mesmo que eu precise urgente mudar de caseiros. Logo depois, óbvio, de comprar uma casa.
  • O pessoal já tá reclamando do frio com razão, mas confesso que viveria mais tempo nesse clima. Vai entender…
  • Importante e interessante discussão no Blue Sky sobre o fim do movimento manicomial e como a cultura e a população abraçaram os diagnósticos psiquiátricos como ferramentas de identificação, aceitação e busca por benefícios em detrimento da liberdade.
  • O “plot” de Below Deck que assisto, enquanto passo roupa, corrobora com a ideia de que boa parte dos Reality Shows não passam de cópias (na estrutura) de Sonhos de uma Noite de Verão. Personagens jovens (ou nem tanto) presos numa fina fatia de tempo, espaço e contexto esbarrando atabalhoadamente e sexualmente entre si enquanto situações fantásticas e confusões mundanas acontecem ao seu redor. Engraçado. Essa também é uma excelente definição pra boa parte do Teatro, que, como a vida, quase sempre não passa de uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria. Sentido? Fica ao gosto do freguês.
  • É um pouco cruel ter sido obrigado a trocar o falecido Sílvio Santos pelas maratonas de SVU como anestesia pré-segunda-feira. Por mais que eu adore as aventuras de Benson e companhia, é muito mundo cão pra dar início na semana. Ou não. Talvez Sílvio Santos fosse pior. Vai saber…
  • Por falar em fim de domingo, uma nova temporada de Curb your Enthusiasm seria uma boa alternativa também. Enquanto isso não rola, deixa eu ir lá assistir tudo de novo. De novo. De novo.
  • ” Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow, creeps in this petty pace from day to day, to the last syllable of recorded time; and all our yesterdays have lighted fools the way to dusty death.” – Larry David, quer dizer, Macbeth

2026.07.04 – “Here we go again. These little earthquakes. Doesn’t take much to rip us into pieces”

  • É estranho respirar. A falta de sensação desastre eminente, essa aparente tranquilidade repentina, apesar de balsâmicas, carregam em si a possibilidade de uma benção ou de uma maldição. Estamos finalmente salvos? Ou estamos baixando a nossa guarda cedo demais? Como reagir a essa dualidade? Na real, não sei, mas, por enquanto, por pelo menos esse fim de semana, eu vou me dar o direito de aproveitar. Eu mereço, não?
  • Ao mesmo tempo, ou por causa disso, uma espécie de vácuo se formou: mudanças positivas no trabalho, fim das aulas na pós, sem compromissos a cumprir. Fiquei com um sábado livre como há muito eu não tinha. O que eu fiz? Li RPGs e quadrinhos, assisti filmes catástrofe, joguei Magic Arena. Simplesmente me deixei curtir. É estranho ter tanto tempo e não saber o que fazer com ele, mas é bom, surpreendentemente bom.
  • Agora estou com uma impressão que dá pra fazer quase tudo. É só querer. E não esperar demais disso.
  • É estranho. Já disse isso, não?
  • Bateu uma saudade do início da Internet em que parecia que tínhamos o mundo a nossa disposição e não sabíamos o que perguntar. Hoje temos tantas dúvidas e tudo o que a IA nos oferece é uma resposta única, e, pior, falsa. Talvez o que nos falte é aprender a conviver com a dúvida. Antigamente pra essas minhas perguntas inconsciente, a resposta normalmente era Tori Amos. Será que ainda é?

  • Parece que sim.

2026.06.08 – “I wish I was the King of Wands (But really, I’m Cassandra)”

  • Tem momentos na vida em que as coisas vão se repetindo e surgindo na sua frente como sinais. Pode ser uma puta conjunção cósmica, simples sincronicidade ou, pior, um surto psicótico. Tudo depende do ponto de vista, tudo depende da camisa que você vai estar vestindo ao final do processo: a social, a havaiana, a listrada (do preso ou daquele saiu por aí) ou a de força?
  • Muito interessantes os insights que essa revisita a Curb your Enthusiasm tem me trazido. A distância de 26 anos transforma a experiência numa comédia histórica. As duas torres (de NYC e não do Tolkien) ainda estavam de pé, as pessoas se ligavam (de voz), a internet (ou as redes sociais?) não era(m) ubíqua(s), e o politicamente correto poderia ser ainda criticado pois não havia o risco(?) iminente de uma tomada de poder pelos fascistas. Hoje em dia, tudo virou crítico e o chato do Larry David seria considerado Woke, como até rola na última temporada.
  • O mais interessante é que as críticas exageradas dele se tornaram super justificáveis, pois o excesso de convívio com as incivilidades da humanidade agora é a norma. Assim ele deixa de ser um velho resmungão e, como Cassandra, simplesmente se adiantou a inferno social(?) que vivemos hoje. Ele não é mais um misantropo, mas, como um verdadeiro Rei de Paus, é apenas uma pessoa que exerce a sua vontade totalmente baseado na sua percepção ou na sua certeza da verdade. Afinal, ele, por incrível que pareça, tem amigos e uma vida social bem saudável. Pros padrões de hoje, pelo menos.
  • “King of Wands -He indicates a strong-minded person, able to dominate others by strength of will. His power derives from a firm belief in his own rightness. He knows the truth; he knows his method is best. He considers it only natural for others to follow him. He is naturally honest, seeing no reason or value in lies. He is positive and optimistic for much the same reason; the Wands energy burns so strongly in him he does not understand why anyone would express negative attitudes. Such a strong personality can tend towards intolerance, unable to understand weakness or despair because he has not experienced these things himself. This impatient side of the King might bear the motto, ‘If I can do it you can’.” —Rachel Pollack
  • Boa parte dessa percepção também vem da leitura do intrigante Prophecy de Carissa Véliz, livro do mês do Clube do Livro da Catharina Dória sobre IA. A Profecia, enfim, mais do que uma percepção (sobre)natural do futuro, é uma forma de exercer seu poder para tornar a sua profecia verdade. Fica a questão: o quanto Larry David, desde Seinfeld, agiu para construir a (percepção da) vida comunal(?) insuportável que temos hoje?

2026.07.05 – “Memory, all alone in the moonlight. I can dream of the old days. Life was beautiful then”

  • Hoje no Bluesky o povo tá surtando com os “jovens” que dizem estar na Internet há 10 (isso mesmo, dez) anos como defesa de suas ideias. Não acho que eles, os tais jovens, estejam certos em usar esse tipo de argumentação, mas também não podemos desconsiderar os comentários de alguém pela quantidade de tempo que usam a rede ou fazem qualquer coisa. Antiguidade pode ser posto, mas não significa sabedoria, tanto quanto juventude não significa inovação, como as discussões sobre o etarismo com a Madonna depois da parceria com a Sabrina Carpenter mostram bem. Essa progressiva extensão da vida humana vai fazer com que o etarismo (para ambos os lados) se torne uma das agendas mais importantes de DE&I nos próximos anos.
  • Por falar em Internet, lembro como, depois de uns 6 meses de CentroIn, finalmente consegui acesso à Internet. Fiz as configurações numa ligação por telefone (fixo!) e me pediram um nome de usuário com pelo menos cinco letras. Eu entendi que tinha que ter exatamente cinco letras. Sem saber o que escolher olhei pra estante e bati com o livro do Edgar Allan Poe. Na hora disse: Corvo! Por um tempo, até abrir minha conta no UOL, meu e-mail era corvo@centroin.com.br . Estranhamente vez ou outra recebia um e-mail de alguém perguntando se meu e-mail era por conta do filme O Corvo com o Brandon Lee. Não era, mas eu não respondia, nem explicava.
  • Ah, por curiosidade, isso tem 33/34 anos. Uma vida inteira no início do século XX. Uma meia vida (mal vivida) no século XXI.
  • A impressão é que sempre estamos no ápice. Ainda falta muito. Nos anos 80 e 90, as expectativas psicodélicas de fusão com a rede eram comuns, hoje são raras e tem o viés religioso que essa epifania provavelmente vai gerar. Enfim, sempre pode piorar (ou melhorar). Vai saber.
  • Enquanto todo mundo foi assistir ao Brasil, eu preferi ficar um pouco com mim mesmo. E com uns livros. Sempre vale a pena. (Estou lendo demais em inglês. O que me falta que as editoras brasileiras não entregam?)

  • Uma pequena atualização: é espantoso como o Brasil tá zicado. É só se animar com qualquer troço que tudo dá errado. Graças a Deus, estava assistindo a Bossa Nova durante a pelada. O filme, saca? Não? Olha aqui embaixo. Há 26 anos a vida parecia melhor.

  • Melhor deixar vocês quietos. Lembro como é ruim quando o Brasil perde. Já torci pra futebol, mas, obrigado, senhor, já passou. Há tempos, já passou. Enfim, melhoras e melhor sorte pra todos nós daqui a 4 anos e, bom não esquecer, daqui a 3 meses. Mais importante, não?

2026.06.09 – “Hot Topic is the way that we rhyme”

  • Quem curtia reclamar das produções usando Stock Photo e Video está mordendo a língua depois de ver tanto AI Slop por aí. O que incomoda não é a qualidade das imagens, que, sim, está melhorando, mas como essas ferramentas denotam não só uma falta de criatividade, mas especialmente uma completa falta de paixão pelas coisas. É como receber um cartão genérico no dia dos namorados, meias no dia dos pais ou flores da banquinha da esquina no dia das mães. Pouco esforço pra um resultado pífio que não interessa a ninguém. Proforma às vezes pode ser pior que o esquecimento inconsciente ou a inação deliberada.  No erro existe ainda um resquício de humanidade. Agir de forma protocolar é simples automação sentimental.
  • Talvez a pior parte da IA é que ela não só se tornou o único tópico como tudo o que vemos desconfiamos (pelo menos, eu desconfio) ser produção de IA. São Tomé, nos proteja.
  • Outro problema é que não somos só nós que estamos treinando a IA, mas ela que também está nos treinando. Ô Cride, fala pra mãe que a IA, quer dizer, a televisão me deixou burro, muito burro demais.
  • We are the robots?  We wish.

2027.07.22 – “And I’m giving you a longing look, everyday I write the book”

  • Uma Duas compridas semanas cumpridas. Não importa o resultado se chegamos no final. Isso já é resultado o suficiente. A ansiedade do início das férias está me fazendo me fez adiar todos os meus planejamentos e acelerar todas as tarefas de trabalho. O meu fica pra depois, o dos outros é pra ontem. Como sempre. Vamos ver se consigo chegar numa iluminação que faça essa balança se equilibrar melhor.
  • Como as edições mostram, não consegui. Não consegui nem terminar e postar esse texto iniciado 10 dias atrás. Pelo menos retomei. Pelo menos?
  • Sim, pelo menos, Pelo menos as férias começaram, como o tradicional especial do Cervantes Parada de Copa indica.

  • Mesmo assim nada se move. Tento abandonar, com muito esforço e pouco sucesso, pequenos comportamentos que hoje não fazem mais sentido. Ao mesmo tempo me surpreende e não me espanta que seja tão difícil. Me tornei um poço de excessos. Quando as coisas fizerem sentido não perderei o meu?
  • Por falar em comportamentos que deveria abandonar, comecei estou fazendo o curso da Marie DeClercq e tenho rateado nos desafios. Alguns não me interessam, outros são pessoais demais e não me parecem escrita; estão mais pra confissão. Tem gente que acha que confissão é uma espécie de escrita. Tá, até pode ser, mas a parte do verdadeiro artesanato é criar o distanciamento que gera identificação. Não é só desabafo. Ou será que é? Você me diz.
  • Uma discussão interessante sobre a importância do ecossistema do livro na construção do conhecimento. Um dos poucos pontos positivos da IA é nos fazer perceber (ou lembrar) que ler não se justifica apenas pela informação que se adquire na leitura mas pelo processo de reflexão durante a leitura. O mais importante não é o que nos dizem, mas o que descobrimos sobre nós mesmos (e o mundo) no contato com o texto. O mesmo se aplica ao processo de escrever. Não escrevemos para mostrar o que sabemos, mas para descobrir o que sabemos (e quem somos). O texto final, incensado produto da indústria editorial, é apenas um apanhado de restos mortais da experiência de escrever que será ressuscitado pelo leitor. 
  • Fui obrigado por compromissos paternais a assistir no cinema a uma comédia brasileira atual. Uma parte muito significativa dessa safra pós retomada dá saudades da época em que diziam que filme brasileiro só tinha palavrão e putaria. Hoje, além da falta de estrutura, proposital ou não, derivada da inescapável cultura de sketches bobos que vem do rádio, passa pela TV e chega até à internet, ainda precisamos aguentar a didimocozice do sentimentalismo barato de um Renato Aragão tentando imitar Chaplin num filme sobre doentes terminais. Pode pensar em qualquer comédia: a sensação é sempre a mesma. Depois de um bando de cenas quase engraçadas, os personagens desfiam rosários de lugares comuns para reforçar a importância de deus, pátria, família e todos os outros conceitos reacionários que cabem em uma hora e meia de cinema(?). Sabe o que realmente seria radical: trazer a nudez e os palavrões de volta pras telas. Ah, esqueci! A geração atual acha cenas de sexo desnecessárias… Valha-me, Deus. A humanidade realmente tá merecendo o que recebe.
  • Ou talvez nos falte saber quem somos. Isso nem as comédias, nem a IA vão conseguir responder por nós.