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2026.06.24 – “Pra frente, Brasil, salve a Seleção”

  • Ruas, lojas e  escritórios repletos de pessoas vestidas de verde e amarelo (e algumas de azul) aguardando o momento mágico de serem liberadas do trabalho para poderem viver por um momento a fantasia de uma só nação, mesmo que unida apenas pra torcer pra seleção.
  • O problema é que a seleção, em que depositamos essa fé, não representa a nação, mas uma parte seleta dela. Isso não significa que seja boa ou ruim, apenas que alguns foram selecionados para nos representar por critérios com os quais nem sempre concordamos. Assim como o congresso, esses eleitos, por motivos e interesses que transcendem o que realmente deseja a população, fingem encapsular em 22 pés toda uma pluralidade impossível de resumir. A pátria de chuteiras pode até ter sido uma realidade, mas hoje não é mais. Que o diga o técnico alemão, quer dizer, italiano, mas conceitualmente alemão, dessa seleção.
  • Até mesmo a permissão(?) de ser feliz por essa ilusão, sancionada pelas corporações, redes sociais e influencers, se torna uma performance vazia.
  • E quem, como eu, não se sente parte de nada disso? A nós só resta aguardar o jogo passar, mas com uma torcida sincera pra que sejamos primeiro do grupo pra poder faltar ao trabalho integralmente na segunda feira. Ou pra, pelo menos, ficar de home office. Essa, sim, já seria uma grande vitória.

2027.07.22 – “And I’m giving you a longing look, everyday I write the book”

  • Uma Duas compridas semanas cumpridas. Não importa o resultado se chegamos no final. Isso já é resultado o suficiente. A ansiedade do início das férias está me fazendo me fez adiar todos os meus planejamentos e acelerar todas as tarefas de trabalho. O meu fica pra depois, o dos outros é pra ontem. Como sempre. Vamos ver se consigo chegar numa iluminação que faça essa balança se equilibrar melhor.
  • Como as edições mostram, não consegui. Não consegui nem terminar e postar esse texto iniciado 10 dias atrás. Pelo menos retomei. Pelo menos?
  • Sim, pelo menos, Pelo menos as férias começaram, como o tradicional especial do Cervantes Parada de Copa indica.

  • Mesmo assim nada se move. Tento abandonar, com muito esforço e pouco sucesso, pequenos comportamentos que hoje não fazem mais sentido. Ao mesmo tempo me surpreende e não me espanta que seja tão difícil. Me tornei um poço de excessos. Quando as coisas fizerem sentido não perderei o meu?
  • Por falar em comportamentos que deveria abandonar, comecei estou fazendo o curso da Marie DeClercq e tenho rateado nos desafios. Alguns não me interessam, outros são pessoais demais e não me parecem escrita; estão mais pra confissão. Tem gente que acha que confissão é uma espécie de escrita. Tá, até pode ser, mas a parte do verdadeiro artesanato é criar o distanciamento que gera identificação. Não é só desabafo. Ou será que é? Você me diz.
  • Uma discussão interessante sobre a importância do ecossistema do livro na construção do conhecimento. Um dos poucos pontos positivos da IA é nos fazer perceber (ou lembrar) que ler não se justifica apenas pela informação que se adquire na leitura mas pelo processo de reflexão durante a leitura. O mais importante não é o que nos dizem, mas o que descobrimos sobre nós mesmos (e o mundo) no contato com o texto. O mesmo se aplica ao processo de escrever. Não escrevemos para mostrar o que sabemos, mas para descobrir o que sabemos (e quem somos). O texto final, incensado produto da indústria editorial, é apenas um apanhado de restos mortais da experiência de escrever que será ressuscitado pelo leitor. 
  • Fui obrigado por compromissos paternais a assistir no cinema a uma comédia brasileira atual. Uma parte muito significativa dessa safra pós retomada dá saudades da época em que diziam que filme brasileiro só tinha palavrão e putaria. Hoje, além da falta de estrutura, proposital ou não, derivada da inescapável cultura de sketches bobos que vem do rádio, passa pela TV e chega até à internet, ainda precisamos aguentar a didimocozice do sentimentalismo barato de um Renato Aragão tentando imitar Chaplin num filme sobre doentes terminais. Pode pensar em qualquer comédia: a sensação é sempre a mesma. Depois de um bando de cenas quase engraçadas, os personagens desfiam rosários de lugares comuns para reforçar a importância de deus, pátria, família e todos os outros conceitos reacionários que cabem em uma hora e meia de cinema(?). Sabe o que realmente seria radical: trazer a nudez e os palavrões de volta pras telas. Ah, esqueci! A geração atual acha cenas de sexo desnecessárias… Valha-me, Deus. A humanidade realmente tá merecendo o que recebe.
  • Ou talvez nos falte saber quem somos. Isso nem as comédias, nem a IA vão conseguir responder por nós.