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O que a IA pode ser e o que eu não quero ser

O problema, ou benefício, da idade é ter passado por várias ondas e perceber o quanto as ondas são ondas, mas o mar permanece o mesmo. O ser humano tende a olhar tudo como espelho, mas ao invés de se refletir nas coisas, tende a reproduzir as qualidades que espera dos objetos nele próprio. É um pouco a questão de olhar pro abismo, ele olhar de volta e você se tornar o abismo.

Quando criamos a alavanca, tudo era passível (ou desejável) de ser movido por alavancas. E, assim, nos tornamos alavancas. Lembro quando o Cibercultura,do Pierre Lévy, foi o arauto da Utopia “internética” mas passou ao largo da Distopia onde nos afundamos hoje. Acho que estamos vivendo um pouco disso com a IA. Há uma pressa em reproduzir o comportamento da ferramenta (sumarizar, responder, coletar, adaptar, imitar) assim como fizemos no início da internet (expondo, conectando, absorvendo e compartilhando). Talvez o que a gente precise é justamente o contrário: ter paciência. Deixar a IA fazer os trabalhos chatos que nos sobrecarregam e repensar qual é o nosso papel no mundo.

Na verdade, a única coisa que a IA deveria fazer, para cumprir a profecia do Keynes, é assumir os bullshit jobs que ninguém deveria fazer desde o início e nos deixar descansar. Mas o engraçado é que todo mundo parece querer entregar o filé mignon pra ela. Ou, pior, queremos competir com a máquina para fazer os trabalhos que ninguém queria fazer e trabalhar 24 horas por dia vivendo a constante síndrome de people pleasing.

Na boa, isso não é pra mim. Não quero o trabalho da IA, não quero imitar, reproduzir, organizar, ou sumarizar as coisas; o que eu quero é divagar bem devagar. Enfim, sou um fiel seguidor do conselho da Tina Fey em Only Murders in The Building:

Me perdoem o ostensivo elogio à preguiça, devem ser as férias falando. 😉

O que acontece entre o primeiro e o último suspiros?

Le dernier souffle - Dimanche 17 - 11h - Festival du Film de Muret

O ser humano é atormentado pela finitude. A expectativa de voltar a um estágio em que ele volte, com bastante ênfase no “volte”, a um suposto estado de não existência é o que move boa parte de nossas ações. A ansiedade de construir algo duradouro antes que esse fim chegue; o impulso instintivo aparentemente amoroso de deixar um legado genético sobre a terra antes que retornemos para baixo dela; a ânsia de pôr fim à existência dos que não nos deixam existir como queremos; e até as discordâncias literárias sobre o que escolhemos acreditar a respeito do que há depois, ou mesmo antes, da vida movem nossos comportamentos mais extremados e a nossa história enquanto (in)civilizações. Num mundo onde nos consideramos tão avançados, é surpreendente que, enquanto trocamos magicamente informações com toda a humanidade e transpomos enorme distâncias pelo ar, ainda não paramos para nos debruçar sobre o sentimento que nos deixa acordados desde o tempo das cavernas: o medo da morte.

Em “O último suspiro”, Costa Gravas, aos 91 anos, cinematograficamente, parece preparar-se para dar o seu. Acompanhando a conversa entre um filósofo e um médico, ele nos apresenta histórias e questionamentos sobre o que é “A boa vida”, o título bem escolhido para o português, e a boa morte.

Porém, ao sair do cinema, emocionado com o desapego de tantos personagens cativantes que aprenderam a transcender esse medo e aceitar essa natural passagem de estado que tanto tememos, foi impossível não pensar: como é possível viver uma boa vida sem torná-la um eterno exercício de cuidados paliativos? Mais importante do que saber o que é uma boa vida, ou uma boa morte, é saber “o que é bem viver?”. A vida, mais do que um objeto de estudo ou um bem ao qual nos agarramos, é uma ação que, por mais que seja exercitada todos os dias, ainda é um completo mistério para nós. Por incrível que pareça, a vida em toda a sua óbvia e inescapável exuberância guarda ainda mais dúvidas e descobertas do que a esquiva e silenciosa morte.

O herói das outras (e nossas) (a)gentes

Reflet dans un diamant mort

Impossível não lembrar de James Bond. Impossível não lembrar que é uma franquia que se transforma com as décadas e cenários geopolíticos. Impossível não lembrar o quanto ele marcou seus criadores e intérpretes. Impossível não lembrar que agora ele está nas mãos da Amazon, quase como um refém. Impossível não lembrar dos seus spin-offs, cópias e musos inspiradores. Impossível não lembrar que tudo não passava de uma grande alucinação de um velho espião aposentado, buscando relembrar seus fantasiosos tempos de juventude. Impossível não lembrar que ele, o autor, e ele, o personagem, se confundiam e se confundem. Impossível não lembrar o impacto que ambos tiveram nos costumes, na moda, na política, na revolução sexual, e até na contracultura. Impossível não lembrar. Mas não é impossível esquecer.

Por isso, Reflet dans un diamant mort, novo filme de Hélène Cattet & Bruno Forzani,  nos lembra de tudo isso, numa meditação psicodélica, onde refletimos sobre a velhice, a cultura, a espionagem, a ganância, o cinema, e até os quadrinhos. E lembramos de tudo isso como num sonho, que é meu e seu. Um sonho coletivo de um personagem que se confunde conosco, com seus criadores e recriadores.

Por isso, não esqueça de ir ao cinema para lembrar. Mas, cuidado. Não olhe por tempo demais tentando entender ou descobrir o que há por dentro ou por trás, ou a força laser do seu olhar irá destruir o que anseia admirar.

Reflet dans un diamant mort - Film (2025) - SensCritique

Fin. 😉