Arquivo da categoria: O Editor Invisível

[oei#06] Na casa de espelhos das capas distorcidas

Even the greatest stars
Discover themselves in the looking glass

Hall of Mirrors – Kraftwerk

Você vai à Livraria sem saber o que procura. Você vai à Livraria como quem precisa se encontrar.

Na vitrine, um funcionário, bem intencionado, mas esperto demais para o seu próprio bem, montou uma seleção de livros amarelos. Sim, apenas livros com capas amarelas, totalmente amarelas. Naquele deserto de nada, você tenta identificar quais são os títulos que queriam destacar, mas, frente à afrontosa monocromia, desiste. Talvez tenha mais sorte dentro da loja. Você entra.

Tudo ao mesmo tempo agora

A disposição do acervo, lamenta, não é das mais convidativas. Na entrada você tem 3 pares de mesas: uma para as novidades, outra para as promoções; uma para os Young Adults, outra para as biografias; enfim, uma para os religiosos; outra para os autoajuda. Do imediatismo às súplicas de salvação, passando pelo narcisismo, tudo parece a mesma coisa, tudo parece igual.

Nesse mar de informação que parece nada ter a dizer, você luta para se encontrar; você luta para encontrar o autor, ou a obra, que lhe represente, que se identifique com você. Como numa casa de espelhos, você procura nas distorções das capas, aquela que mais lembre a pessoa que você quer ser. Mais do que encontrar uma leitura, o que você realmente quer é se apaixonar.

Você quer, através da capa, a isca, a armadilha, que irá lhe atrair e lhe aprisionar, descobrir a pista que buscava sobre o texto que irá lhe transformar. Mas não parece fácil. Textos blocados sobre cores fortes parecem funcionar, mas quando todas as capas à sua volta usam a mesma estratégia, é difícil se destacar. Uma ilustração pesca a sua atenção para logo você vê-la repetida em outra obra com um tema totalmente diferente. O que, afinal de contas, elas querem lhe dizer sobre o que irá encontrar dentro do que as capas escondem?

No fundo da loja, boxes comemorativos se amontoam em segredo, e estantes atulham os títulos de menos destaque, mas não menos importantes, deixando apenas as finas silhuetas das lombadas para lhe seduzir. Pode parecer pouco, mas às vezes é suficiente. E, assim, numa resga de capa, você encontra a paixão de ocasião à qual irá se entregar.

Com o livro em mãos, você admira as cores fortes da capa, e a ilustração com pegada psicodélica. Enquanto decide se irá levá-lo ou não, lembra de já ter uma edição do mesmo livro mas com outro design. Um pocket book com uma imagem pouco atraente e cores confusas que pouco lhe atraía a leitura, a qual eventualmente abandonou, mais pelo difícil texto em português lusitano do que pela capa sem graça.

Só de segurar essa nova edição de um livro que já tem, você sabe que de que dessa vez a leitura será muito melhor. Afinal os livros não tem capa. As capas são uma parte do livro, assim como o texto e, mais do que simples atração de compra, elas também são um estímulo à leitura e ao diálogo com as ideias do autor.

Sim, não há mais dúvidas, esse é o livro que irá levar. A capa lhe convenceu.

Na fila do caixa, enquanto observa jovens carregando boxes de trilogias de capa dura com óbvias atrações pseudo góticas que nunca lerão, lembra que, apesar de poder ser discutido, sim, gosto é uma questão de geração, idade, época e formação. Então, tudo o que achou feio e desagradável, tanto nas capas como na disposição dos livros, para alguém, pode ter sido bom, ou, pelo menos, não tão ruim.

Compra feita, você encontra sua família na frente da livraria e, enquanto passam pela vitrine, você dá a sua opinião:

– Que vitrine horrível, não?

A sua família se surpreende e tem algo a dizer:

– Que Nada! Todo esse amarelo? Nós A-DO-RA-MOS…

Você respira fundo, lembra que gosto até se discute, mas tem coisas que não valem o mal estar que vão gerar. E, para exercitar mais uma vez o seu insuperável bom gosto, assim como todos consideram os seus, olha com carinho para a bela capa que na próxima semana irá lhe acompanhar.

Assim, você, já não tão jovem quanto antes, deixa a Casa de Espelhos para, em breve, retornar. É sempre um prazer se (re)apaixonar.

 

The young man stepped into the hall of mirrors
Where he discovered a reflection of himself (…)

Sometimes he saw his real face
And sometimes a stranger at his place (…)

He fell in love with the image of himself
And suddenly the picture was distorted (…)

He made up the person he wanted to be
And changed into a new personality

Even the greatest stars
Change themselves in the looking glass
Even the greatest stars
Change themselves in the looking glass

Hall of MirrorsKraftwerk

[oei#05] A efemeridade da perfeição do formato do(s) livro(s)

Dê um passo para trás. Vá à sua estante. Pegue um livro ao acaso. Abra as suas páginas. Leia uma, duas, em ordem. Leia uma outra, ao acaso. Folheie. Passe pelas páginas, apenas correndo seus olhos. Abstraia do conteúdo. Perceba apenas as posições: do texto, das notas, das margens, das imagens. Entenda que, mesmo que não haja harmonia, você consegue perceber na estrutura do livro uma expectativa, ou, para alguns, uma presunção, de perfeição. O livro, em sua estrutura, na sua sequência, no seu formato, mesmo que o seu conteúdo e sua organização não correspondam a esse destino, foi criado para ser a moldura perfeita para o nosso conhecimento. A pergunta é: o livro é perfeito pois atende à nossa cognição, ou é perfeito pois fomos ensinados a ver a perfeição nele?

Mesmo nos livros que consideramos perfeitos, dependendo da cultura de origem, dependendo dos leitores que visamos atingir, algumas estruturas básicas mudam. De um hemisfério para outro, uns leem da esquerda para a direita, outros, da direita pra esquerda. Para alguns públicos, o excesso de espaço negativo é um atrativo, para outros, um desperdício. As relações entre as cores, os tamanhos, as formas, a disposição das imagens e do texto, por mais que atendam a estruturas matemáticas e biológicas que governam a nossa percepção, geram maior sensação de sentido e harmonia para algumas gerações, para algumas culturas, para alguns tipos de leitores do que para outros. Enfim, lemos como lemos, pois assim é o natural, ou pois assim fomos ensinados?

Na busca pela perfeição, pela estrutura perfeita que irá nos possibilitar a imersão completa nesse mundo das ideias (ficcionais ou não), testamos novos grids que cheguem a essa utopia, ou olhamos para o passado, considerando já perfeito o que surgiu “naturalmente”, para dali extrair os cálculos que nos digam como os livros podem ser áureos, pelo menos no seu layout.

Porém, essa discussão é espúria. Buscar ou esmiuçar a perfeição são tarefas sísificas. Afinal, nossos textos e criações talvez se encaixem tão bem nessas estruturas pois elas, de alguma maneira, estruturam o formato do nosso pensamento e, por conseguinte, da concepção das nossas obras. Por isso, cada novo conteúdo tem a possibilidade de sugerir novos formatos e novos caminhos a seguir no Design Editorial.

O próprio livro, como o conhecemos, é coisa nova. Sua popularização não chega a 500 anos. Antes tivemos outros formatos para a entrega desses conteúdos. Partindo da voz, passando por tábuas, pergaminhos, e chegando hoje ao livro digital. Podemos dizer que algum desses formatos é mais perfeito que o outro? Ou acusar algum deles de ser imperfeito? Se todos podem ser perfeitos, por que não perduraram?

Agora, dê um passo para frente. Imagine um mundo, ou um universo, em que somos uma entre várias espécies, não só sencientes, mas que leem. Como serão livros criados para atender a uma cultura, não simplesmente global e humana, mas universal? Como será a perfeição numa outra época, para outras culturas, e para outras espécies que percebam a luz, o espaço, e o tempo de formas diferentes?

“Leve-me ao nosso livro”

É impossível buscar a perfeição no livro, pois a sua perfeição deriva justamente de ele ser efêmero e mutante. A maior perfeição do livro não está no que ele é, mas em todas as possibilidades que ele, enquanto conceito, encerra. Que venham suas novas versões.

[oei#04] A esquizofrenia narrativa das identidades editoriais

Mal cheguei na biblioteca, a primeira coisa que me disseram foi:

— RIP Companhia das Letras. Nunca mais compro nada dessa editora.

Como estou exercendo o salutar hábito de ler menos notícias, não sabia do que estavam falando. Me explicaram:

— O Delfim Netto morreu hoje e, além de anunciarem que vão publicar a biografia dele, ainda fizeram “homenagem”, lamentando a sua morte. Valha-me, Deus, gente! Nos dias de hoje, passar pano pra cupincha da ditadura é o fim da picada.

Óbvio que fui verificar.

De fato, isso tinha acontecido, mas me parece que, depois do backlash imediato, na postagem trocaram o “lamentamos” original por “nos solidarizamos com seus amigos e familiares” ou algo assim.

Entendo a raiva dos leitores, mas o que mais me pegou foi que essa reação quebra a fantasia que não é a editora que vende o livro, mas, sim , o autor.

A editora, mais do que uma prestação de serviço para a publicação de obras, carrega consigo uma identidade que é mais do que um simples posicionamento de mercado. Há uma expectativa de que os livros daquela editora tenham uma espécie de relação entre si que evidencie os posicionamentos políticos, filosóficos e estéticos dos que ali trabalham e dos que leem suas publicações. Se lemos livros de uma editora, de certa forma, comungamos com ideias similares e temos, por que não?, uma identificação também pessoal com aquela marca. Somos, enfim, uma comunidade.

Portanto, alterações em decisões e linhas editoriais, mais do que simplesmente influenciarem resultados financeiros, estarão mexendo em relacionamentos. Lembro de ter vivido uma sensação de traição similar a essa, que estão me relatando, com a L&PM.

Na segunda metade dos anos 1980, graças à sua coleção Alma Beat da L&PM, o Angry Young Man dentro de mim encontrou um escape estético para as suas frustrações. Kerouac, Corso, Ginsberg, Ferlinghetti, toda a trupe beat, onde ainda incluíram de convidado o Bukowski, apesar de editada em outros lugares, se encontrava ali em peso, unida e tratada com o merecido respeito, com a tradução, por exemplo, do hoje best seller, Eduardo Bueno. Somando isso às memórias que tinha dos livros de humor e peças de teatro de Woody Allen, Jô Soares, e Luís Fernando Veríssimo, lançados no início da década, a L&PM se tornou uma espécie de porto seguro pra mim.

Era um autor novo que me parecia interessante? Se saiu pela L&PM, vamos dar uma chance. Era um autor consagrado do qual tinha ranço? A L&PM publicou um livro dele, vamos dar uma segunda chance.

A editora, mais do que a responsável pela publicação, se tornou um selo de qualidade na curadoria e também um lar. Confesso que quando não encontrava as edições da L&PM, na época não tão fáceis de achar no Rio, me rendia à Brasiliense, ou até ao Círculo do Livro, mas sempre com um aperto no coração e com a esperança de que, em breve, encontraria a edição devida para a minha biblioteca.

Teve uma vez, por exemplo, em que estava voltando do colégio, num sábado de tarde, e esbarrei com o volume I do Crônicas de um Amor Louco, jogado numa lona de plástico que se fingia de banca de camelô. Só com o dinheiro da passagem, depois de ouvir do dublê de livreiro que o livro era raro- sim, era-, e que estava até barato- sim, estava-, implorei a ele para esperar que eu fosse correndo pra casa buscar o dinheiro para comprar o livro. Assim prometi, e assim fiz. Ponham na conta da minha adolescência, mas não sei se faria o mesmo pelo livro de outra editora. Apesar de toda a fidelidade, essa história de amor teve seu fim.

O objeto de desejo da minha adolescência

Em meados dos anos 1990, por conta de crises financeiras, a L&PM, como contam no seu próprio site,  criou a L&PM Pocket. Assim tudo o que era raro e exclusivo, na minha opinião, começou a se tornar de consumo de massa. Senti, sem a menor justíficativa, óbvio, que tinha sido traído e que a L&PM, de alguma maneira, tinha desrespeitado um acordo que me permitia ser um leitor dela, sem precisar compartilhar esse prazer com mais ninguém. Afinal, ela era minha, pois parte da minha história estava ligada à ela.

Isso gerou em mim o que eu costumo chamar de dissonância narrativa. É um fenômeno que ocorre quando recebemos sinais trocados de narrativa vindos do mesmo lugar. Antes eu me identificava como leitor da coleção Alma Beat, fazendo, na minha cabeça, parte de um grupo seleto, depois esses mesmos livros, que participaram da minha formação, já eram pensados e impressos como literatura corriqueira e popularizados ao seu limite.

Esse tipo de alteração na narrativa mexia não só na minha opinião sobre a L&PM, mas também na minha visão sobre a minha própria identidade enquanto leitor. Sob o risco de começar a me identificar com algo que gerava contradições, as minha opções seriam apenas ignorar o ocorrido, e me abraçar à instituição, quase como a um culto, ou rejeitar essa relação e lidar com esse corte na minha própria identidade. Escolhi a segunda opção, e, guardadas as devidas proporções, é o que eu sinto estar ocorrendo no caso da Companhia das Letras e o Delfim.

Primeiro, não me espanta a publicação das memórias do Delfim pela Companhia. Eles sempre, como apontaram em alguns comentários na própria postagem, tiveram um leque ideológico amplo em seu portfólio. Porém, isso sempre foi feito com o devido cuidado, respeitando o que a marca representava, e a orientação dos seus próprios fundadores e leitores.

Porém, não podemos esquecer, a Companhia não é mais uma editora independente. Além das diversas aquisições que fez no seu processo de crescimento, hoje, parte dela pertence um grande conglomerado internacional, a Penguin Random House. Nesses processos de expansão, é comum que as identidades se diluam e se tornem mais orientações de marca voltadas aos seus, sempre em crescimento, nichos de mercado. Isso faz com que o cuidado com os relacionamentos dos antigos apoiadores e clientes se torne ainda mais delicado e crítico. Ações que pisam fora da linha editorial, seja na escolha ou na divulgação de novos títulos, por mais que não tenham impacto na enorme massa que visam atender, podem gerar essa esquizofrenia narrativa que afastará aqueles que, anteriormente, depositavam parte de suas identidades na relação com a editora. E não custa muito: um simples “lamentamos” no lugar de um “nos solidarizamos com amigos e familiares” pode ser o início do fim de uma longa relação.

A morte do Delfim Neto de forma alguma matou junto com ele a Companhia das Letras, mas, com certeza, gerou um abalo significativo na ideia que ela representava para um grande grupo de leitores. Vamos ver como isso se desenrola mais para frente. Se minha história com a L&PM servir de referência, posso dizer que ainda tenho meus encontros ocasionais com ela, esporádicos, em leituras na praia, em aeroportos, ou em viagens, por pura conveniência; mas o amor, esse, na boa, acabou.

[oei#03] O caro trabalho emocional de editar

Sexta à noite, um amigo me manda uma mensagem: conseguiu 30 dias de Amazon Prime, e pede indicações de filmes para ver na plataforma. Vasculhando a minha lista no JustWatch, esbarro com Vire Cada Página: As Aventuras de Robert Caro e Robert Gottlieb, ao qual ainda não tinha assistido, mas, sem o menor temor, podia recomendar.

No sábado de manhã, seguindo minha própria indicação, quem assiste a ele sou eu. Enquanto acompanho, maravilhado e emocionado, o relato dos 50 anos de magnífico trabalho e, talvez não amizade, mas, respeito entre essas duas figuras lendárias, só martelava na minha cabeça que até então não tinha me caído a ficha do que era verdadeiramente uma relação entre autor e editor, mesmo tendo feito parte de uma. Explico.

No início de 2022, a partir do meu curso de Storytelling na Descomplica, a Dra. Andrea Boanova, uma fiscal de alimentos aposentada da vigilância sanitária e futura autora, entrou em contato comigo. Queria saber se eu poderia ajudá-la a escrever um livro de crônicas autobiográficas sobre a sua atividade profissional. Não sabia por que ela tinha me procurado, nem exatamente o que fazer, mas, sentindo uma espécie de chamado do dever, perguntei se ela já tinha algo escrito e pedi que me enviasse.

Li o material e senti que havia uma história ali, mas estava escondida num enorme fluxo de consciência típico do processo de relembrar. Peguei um dos textos, tentei dividir em todas as narrativas que o compunham, e retornei para ela com minhas observações e o pedido que as reescrevesse em crônicas separadas. Pouco tempo depois ela me enviou uma nova versão e outros detalhes e correções, antes ocultos pela falta de direcionamento inicial, começaram a surgir. Na minha cabeça, a minha atividade com ela era apenas educativa ou consultiva, mas, na verdade, mesmo que, na época, eu não tenha percebido, eu era seu editor.

Começamos a nos encontrar regularmente e virtualmente, em parte pela distância, ela estava em São Paulo e eu, no Rio, e muito por conta da pandemia, que ainda estava à nossa volta apesar da vacina. Nesses encontros discutíamos os textos já existentes; planejávamos quais seriam os próximos escritos; revisávamos e definíamos uma estrutura geral para cada história e para todo livro. Enquanto isso, íamos trocando pequenos pedaços de nossas vidas, e amadurecendo tanto o livro como a nós mesmos, como autora e editor.

Um dia o texto ficou pronto. Ou, pelo menos, decidimos que não valia mais continuar a burilar. Nesse ponto o livro começou a se materializar. Passamos a discutir as opções de publicação física e digital, e formas de divulgação; buscar indicações de ilustradores, e diagramadores; e, depois de 2 anos de trabalho em conjunto após aquele contato inicial, o livro nasceu.

Ontem, eu finalmente percebi o quanto foi, e é, mágica essa relação.

Mais do que um simples revisor ou “conselheiro” de negócios, indicando como melhor desenvolver o texto tanto estilisticamente como de forma a atingir o público alvo determinado, o editor é quase um psicanalista, buscando junto com a pessoa autora, nos sintomas que emergem de suas palavras, pela verdade que ela quer trazer à tona.

Quando o filme acabou com uma linda cena sem som em que Caro e Gottlieb se debruçavam sobre o texto inacabado do 5° volume da biografia de Lyndon Johnson, me lembrei como fiquei espantado pela vontade que a autora tinha que eu participasse do lançamento do seu livro.

Impossibilitado por questões de agenda, não pude ir à São Paulo, mas enviei um vídeo a congratulando pelo livro. Na semana anterior ao lançamento, participei de uma live onde, confesso, me senti bastante emocionado e orgulhoso  com o trabalho realizado.

Claro que o mérito era todo dela, mas eu ficava muito feliz de ter cumprido o meu papel no processo de materializar uma obra que da sua forma específica e bem particular tornou o mundo um lugar mais interessante.

Talvez, se tivesse, quando começamos a trabalhar, a noção do verdadeiro papel do editor, eu teria me envolvido ainda mais com o caro, tanto em esforço, como em carinho, trabalho emocional da edição. Afinal, tão ou mais importante que a capacidade de leitor especializado do editor, para avaliar texto, narrativa e público, é a sua crença e o investimento emocional que faz na obra. Como bem disse Gottlieb no filme, ele não lamenta os livros que “recusou” e se tornaram sucessos; se os tivesse aceito, sem acreditar neles, talvez não cumprissem o papel ao qual se destinavam. A fé e a fidelidade ao que acredita, ele me fez perceber, são duas das mais importantes qualidades que um editor pode ter.

Sábias Palavras

Caro e Gottlieb deixaram que claro que a relação entre o editor e o autor, mais que uma prestação de serviço, é uma parceria que permite à pessoa autora descobrir e acreditar na verdade que ela precisa trazer ao mundo. Obrigado doutora Boanova por ter confiado em mim para fazer parte da construção da sua obra e por ter me dado a chance de crer no seu livro e em você. O prazer e o ganho, tenha certeza, foram todos meus.

 

[eoi#02] A sedutora ilusão rítmica do design gráfico

Somos bichos visuais. Por mais que, por culpa da má distribuição de qualidade aos animais por Epimeteu, sejamos desafortunados em nossas características físicas; dentre os nossos sentidos, todos meia boca, a visão, se não boa, pelo menos, é a mais aceitável. Porém, por questões evolutivas, a velocidade de reação acabou se tornando mais importante que a precisão, e a nossa capacidade perceptiva ficou cheia de penduricalhos úteis em situações de luta e fuga, mas nem sempre positivos para a percepção detalhada de aspectos mais sutis da realidade.

Mesmo assim, a visão bem confiável. Nossos olhos estão no meio do rosto, mas não totalmente na frente, o que nos dá uma visão periférica razoável e nos habilita como predadores e presas com razoáveis chances de sobrevivência. Não é de espantar o quanto da nossa cultura seja visual. Ver faz parte da nossa continuação como espécie.

Os livros, representantes máximos das nossas ambições civilizatórias, então, são pura imagem. O texto, por mais que se apresente, no ocidente, como uma representação da linguagem oral, é visual; as imagens que ornam o texto ou compõe a proteção do miolo do livro são visuais; a composição do texto com os demais elementos para textuais é visual; tudo no livro é um deleite para os olhos que provoca sensações mil, como num show de ilusionismo em que nós, leitores, somos sujeitos e objetos dessas magias.

Por isso, o cuidado do Design Gráfico, ou seja a escolha e execução dos elementos que ficarão gravados sobre a plataforma de transmissão do conhecimento, desde a tábua, a pedra, e o papel até a tela (digital ou analógica), é só uma: realçar de uma forma não intrusiva as expectativas às quais o texto se propõe a cumprir. Como um baterista que serve à música e não a si mesmo, o bom designer é aquele que consegue ser simples e ao mesmo tempo profundo, incrementando o sentido original e criando novas interpretações. Quase como Ringo Starr.

Se bem que um belo projeto gráfico, como um solo de Neil Peart, também pode iniciar o conceito do livro em volta do qual o texto irá se construir.

Minimalista ou virtuoso, para fazer essa mágica, o design gráfico irá precisar se apropriar dos bugs do nosso processo perceptivo, muito bem mapeados pela Gestalt, a fim de provocar sensações ilusórias, mais indissociáveis do que chamamos realidade. Exatamente como as batidas da bateria mudam a frequência do nosso coração e mexem com nossas emoções, tornando o tempo da música o tempo da vida.

Seguindo o exemplo da ficção, que depende a suspensão da descrença para funcionar, o Design Gráfico irá se utilizar das formas usuais, e, muitas vezes, imperfeitas, da nossa percepção para corroborar com a fraude da ficção e, por que não, da não ficção também. Mas na real, nesse mundo de faz de conta, quem pode dizer que o que chamamos de real é realmente real? Com certeza, não o Design Gráfico, mas não há dúvidas que ele pode tornar essa ilusão que vivemos, e que nos contam, mais crível, mais bela e, quando bem afinada, em perfeita sincronia com o texto que a originou ou que dela surgiu.

[oei#01] A fugidia identidade óbvia do livro

Pra começarmos esse processo de aprendizado sobre Edição e Gestão Editorial, seria importante, ou pelo menos de bom tom, tentar entender o que significa editar algo. É corrigir? É publicar? É imprimir? É financiar? É compilar? É guiar? Sim, é bem difícil definir, ou, melhor escolher o que seria a atividade do editor. Afinal, editar é tudo isso e muito mais.

Como bem colocado no livro Edição s.f. Um verbete expandido, distribuído gratuitamente pela editora Entretantas, a prática da edição (literária ou não) permite diversas visões e observações. Porém, como a edição cinematográfica ou musical, podemos dizer ela tem como principal função preparar, desenvolver e entregar uma obra para o encontro entre a intenção da pessoa autora e a percepção de seu público. É a edição, através de suas diversas etapas e funções, que viabiliza e permite que esse encontro ocorra. Um encontro que, no caso editorial, se dá no que costumamos chamar de livro. Assim, a pergunta que precisamos nos fazer, antes de definir o que é editar, é: o que é o tal do livro?

Livro, como amor, morte, conhecimento, e tantos outros conceitos claros e ao mesmo tempo fugidios, parece ser algo muito fácil de reconhecer porém quase impossível de definir. Na falta de uma clareza que vá além dos reducionismos dos dicionários, precisamos escolher estratégias de investigação.

Dá pra aceitar essa definição?

Podemos, de início, tentar uma visão histórica e, a partir dos primeiros registros humanos de arte rupestre nas cavernas, buscar o momento em que algo graficamente produzido começou a ser chamado de livro. Passaríamos com transições bastante fluídas do momento do papiro (vegetal) e do pergaminho (de origem animal) em forma de rolos, até os códices (iniciados em pergaminhos e depois finalmente em papel), passando pelos dípticos, com diversas visões discordantes sobre o momento mágico em que o livro nasceu.

Poderíamos também discutir a sacralidade do livro e a sua relação com a compreensão do universo como um livro escrito por Deus, como tratado por Alberto Manguel em O leitor como metáfora, ou tentar traçar a concepção do livro a partir da história do papel, discutida, por exemplo, no evento da Fundação Eva Klabin condensado no livro A Cultura do Papel, e como da devoção ao divino e ao inexplicável, pré prensa, o livro se tornou, pós Gutenberg, uma ferramenta de devoção à ciência e ao conhecimento.

Outra maneira de buscar uma definição seria trilhar os caminhos das boas práticas de mercado, das instruções normativas, por exemplo na NBR 6029:2006, ou legais, na Política Nacional do Livro. Porém, as mesmas não são concordantes entre si, nem suficientes abrangentes, pois atendem a diferentes propósitos que não a conceituação ontológica do livro que buscamos.

Outros caminhos sem saída igualmente reducionistas seriam buscar esse “ser” do livro a partir dos seus temas via a Classificação Decimal de Dewey, ou nos debruçar sobre a economia da sua cadeia produtiva, ou sobre o seu processo de produção industrial ou artesanal, cada vez mais mutante e fluído, ou mesmo sobre a análise e categorização das suas partes constitutivas descritas na NBR 6029, igualmente traiçoeiras e mutáveis.

Frente a tantas dificuldades, talvez, o caminho seja, em vez de buscar uma definição sobre o livro, como num Koan, tentar atingir a sua compreensão sem palavras. Assim, dizer que o livro é um objeto (físico ou não), móvel, mas nem sempre portátil, que se presta a ação da leitura, pelo indivíduo que o porta, ou por outro, no caso dos áudios livros, seria tão (in)adequado quanto dizer que livro é simplesmente um troço feito pra gente ler.

Uma definição tão boa quanto qualquer outra

Especialmente, pois, se precisamos dar toda essa volta e descobrir o que é o livro para definir o que é editar, precisaríamos também entender o que é ler para entender o que é o livro. Ou poderíamos simplesmente deixar tudo de lado e fazer como os chineses que usam a mesma palavra tanto para livro como para ler: SHU.

Melhor relaxar e não nos preocupar, então, com o que livro é ou não é, mas, sim, nos dedicar ao que livro pode ser. Aí, sim, a sua indefinição deixa de ser angustiante para se tornar realmente sedutora. E, talvez, o próprio exercício de editar seja só isso: o constante quebrar e reconstruir as definições do que o livro pode ser.