Pra começo de conversa, aviso: tentei ler O Morro dos Ventos Uivantes na adolescência, mas não avancei. Como quase todos os romances góticos, ele me causou uma estranheza peculiar. Explico, sempre me incomodo ao acompanhar histórias em que as personagens são afligidas por emoções potentes demais. Sejam elas amor, ódio, amizade, fascinação, luxúria ou mesmo apatia. Engraçado que não me incomodo com isso na poesia, onde o momento é mais fugidio e sempre dá a impressão de ter acabado de passar; mas na prosa… sei lá, sempre me parece que o fio de pensamento corrente da prosa pede uma reflexão que inviabilizaria essa comoção emocional toda. Pelo menos em histórias longas.

Heath e Cat, acho que vocês tão levando esse namorico a sério demais…
Esclarecido o meu lugar de fala, vou te dizer, não achei essa nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes tão ruim quanto estão pintando por aí. Sim, tem uns momentos de comédia não intencional, a história não se decide entre um romance rasgado e uma discussão sobre o amor como uma forma de dominação BDSM, e cada uma das atuações parece estar numa sintonia diferente como se um comitê de diretores (ou produtores) estivesse cuidando do filme, o que, vai ver, pode ter sido verdade.
Enfim, é só uma versão, espertamente titulada com aspas, e, como tal, tem seus belos momentos idiossincráticos. O reflexo do quarto de Cathy como o seu corpo, com pintas e sanguessugas subindo pelas paredes; a cenografia exagerada e corporal, com a lareira ladeada por mãos, as cores sólidas e fortes nos momentos mais marcantes da história; e a divertida introdução dos personagens enquanto crianças, que consegue manter com muita competência o ritmo e a tensão perversa da hipocrisia desejante da sociedade inglesa.

Cathy querendo rasgar a própria carne é um bom toque quase Cronenberg da cenografia
Como versão, acho que atingiu com louvor o objetivo de toda versão: expressar o que a autora queria mostrar da própria leitura da obra. Talvez, pra variar, o problema seja novamente o público que, dividido entre o purismo impossível da fidelidade a uma obra que já é infiel de nascimento, e os bate bocas de internet sobre “a vida, o universo e tudo mais”, vive obcecado em encontrar respostas a perguntas que ninguém formulou. Minha dica? Relaxem, se agraciem com as dúvidas da vida e das artes, e, com um amplo sorriso no rosto, toda vez que virem alguém recontando uma história que fala ao seu coração, digam um sonoro “show, ok, sei lá”.
Ah, e se você não concorda comigo, beleza, a gente sempre pode curtir a versão da Kate Bush juntos. 3 minutos e 45 minutos de amor louco eu aguento sem problemas e até curto.