Não sei pra vocês, mas, pra mim, parece que os últimos seis meses estão sendo uma tragédia atrás da outra. Primeiro Brumadinho; depois os atiradores que mataram as crianças na escola em Suzano; some a eles o aumento das mortes de cidadãos por policiais, a estagnação da economia, a decadência do sistema de saúde, a deterioração da infraestrutura do país, o aumento do desemprego, e, presto, todas as distopias, que pagamos pra ver nas plataformas de streaming, estão começando a ter uma versão Live Action no Brasil.

Você pode dizer que é falta de fé ou, bate na madeira, azar, mas não é. Falta de fé só nos deixa sem esperança e sem forças e o, bate na madeira, azar é um evento negativo aleatório pelo qual não temos culpa e sobre o qual não temos controle.

O que vivemos tá mais pra maldição. É, maldição. Um conceito judaico cristão relacionado ao ato de desejar ou receber um infortúnio por algum motivo específico. Ao contrário dos revezes do, bate na madeira, azar, a maldição tem uma relação de culpa e similaridade ao que a motivou.

E o que tem motivado essa maldição? Todos os atos e intenções do governo. Não sacou a ligação? O “governo” diz que as leis ambientais são um estorvo pra nação, Brumadinho; o “governo” afirma que é preciso aumentar a quantidade de armas em circulação, Suzano; o “governo” afirma que é preciso facilitar a vida dos empresários e diminuir direitos dos trabalhadores para aquecer a economia, ela estagna; o “governo” afirma que é preciso endurecer a ação policial, o exército fuzila com 80 tiros um cidadão. Em suma, cada intenção dos poderes estabelecidos é paga com um simples lembrete da ignorância que guia o seu discurso.

Isso só me lembra a história do Rei Pescador.  

Percival, durante a busca do Santo Graal, entra num reino governado por um monarca ferido. Esse rei recebeu uma lançada nas suas entranhas e nada consegue fazer além de ficar sentado num barco, pescando, à espera de alguém que lhe faça a pergunta que irá lhe curar. É nesse barco que Percival vê o rei pela primeira vez.

O rei lhe indica o caminho do seu castelo e lá, Percival assiste a uma estranha procissão. A corte traz ao rei muitos presentes, tentando satisfazer todos os seus desejos, mesmo que, segundo interpretações psicanalíticas, ele seja impotente. Já a sua corte recebe as benesses que são negadas ao rei, o que aumenta a sua dor. Essa tentativa fracassada de agradar ao rei doente torna o próprio reino um reflexo das suas doenças. A terra é amaldiçoada pela impotência de seu rei. 

Percival pensa em fazer uma pergunta ao rei para curar o reino, mas foi educado a não fazer perguntas impertinentes, e desiste, partindo em direção a Camelot. 20 anos se passam. O reino, como o rei, definhou e se tornou esquecido de todos. Um dia, durante as suas peregrinações, Percival vê novamente o rei em seu barco. Finalmente, ele descobre qual é a pergunta que deve ser feita para curar o rei e seu reino.

A pergunta, como a própria lenda, tem muitas versões. Alguns dizem que a pergunta é sobre o Graal e quem o serve, outros sobre como o rei se feriu ou sobre o seu sofrimento. Em todos os casos há sempre um questionamento a respeito da origem da dor e qual é o seu remédio.

Nós temos um Presidente Pescador.


Um homem ferido, sem poder, lutando para satisfazer desejos vis que tornam a sua terra um lugar amaldiçoado. Um homem que odeia os que são diferentes dele, estimula a violência e não consegue se levantar para olhar além das suas professadas ignorâncias. Um homem que precisa responder a uma pergunta:

Qual é a dor que o fez assim?

E essa pergunta não deve ser feita só ao “rei” mas ao seu reino. Qual é a dor que está tornando tantas pessoas intolerantes e mesquinhas? O que está fazendo as pessoas odiarem o conhecimento e a ciência para justificar o extermínio de pessoas e ideias? O que está matando esse reino e o seu povo?

Qual é a dor que nos fez assim?

Enquanto não conseguirmos realizar esse exame de consciência e responder a essa pergunta, nossa terra continuará pagando pela nossa soberba e não poderemos tomar o gole do Santo Graal que irá nos regenerar enquanto povo e seres humanos. Afinal, não há remédio para a nossa dor que não a consciência da nossa responsabilidade frente a comunidade da qual fazemos parte.

Já passou da hora de buscarmos a nossa cura. Precisamos decidir: abandonamos esse barco ou deixamos o presidente voltar a pescar sozinho?

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