Whats app de Posição, Whats app de Interesse

Ano passado completei 25 anos de formado no segundo grau. Um amigo com o qual ainda mantenho contato conseguiu mobilizar quase a turma toda para um churrasco de comemoração. Por mais que sentisse que não tivesse nada a comemorar, achei que era uma boa oportunidade para rever alguns amigos queridos que o tempo fez questão de afastar.

Para organizar a comunicação, a resposta do século XXI foi, óbvio, montar um maldito grupo no WhatsApp. Já antes do evento dava pra ver que as velhas rusgas e atitudes continuavam as mesmas, mas agora encobertas por um véu de “brincadeira” e ironia. Sabe como é: eu te ofendo, mas se você não consegue lidar com isso não entendeu a piada.

O mesmo valia para as discussões políticas; em geral terríveis, cheias de lugares comuns e ódio. Chegamos a pegar o período do julgamento em segunda instância do Lula, onde revivendo mais um trauma de colégio, depois de uma tentativa de elevar o nível da discussão, fui mais um vez chamado de comunista sem sê-lo. As coisas não iam lá muito bem.

Como o foco principal era o churrasco, deu pra suportar. A data do encontro chegou, comemos carne, o pessoal bebeu (eu estava fazendo um promessa que ainda não deu em nada) e, no frigir do ovos, foi extremamente legal mesmo passando o evento inteiro sóbrio. Quem não ia com a minha cara ficou ao largo ou foi presencialmente educado, e consegui rever os amigos dos quais sentia saudades. Assim sendo, perfeito. Tudo terminou com aquelas promessas objetivamente falsas, mas emocionalmente sinceras, de vamos nos ver mais e alguém sugeriu, óbvio, manter o canal de comunicação aberto no WhatsApp.

Foi aí que o troço degringolou. Pra mim.

Já não estava aguentando o papo pré churrasco e tenho um grave defeito de realmente fazer parte das coisas. Não ia conseguir simplesmente deixar o grupo no mudo rolando sem participar. Foi por esse tipo de postura que, ao invés de simplesmente deixar o Facebook pra lá, precisei cancelar a minha conta. Sim, sou desses.

Vez ou outra acabava esbarrando numa daquelas discussões de moralidade exagerada, ódio social ou sexismo “brincalhão” que simplesmente queria dizer “somos melhores que o resto do mundo”. Eu tentava me segurar, mas pirricamente acabava entrando na discussão para tentar expor um outro lado e sugerir um exercício de empatia, mas era inútil. O que acabava dando pano pra manga era justamente o uso da linguagem. Coisas como o “pirricamente” se tornavam o foco da discussão e o anti intelectualismo funcional acabava com qualquer chance de diálogo. No fim das contas, eu era taxado de complicado e metido e a discussão morria comigo na berlinda.

Chegou a um ponto em que preventivamente as pessoas evocavam meu nome como uma forma de conseguir anuência em torno de suas posições. “Melhor a gente chegar logo a um acordo senão o Lisandro vai vir aqui cagar tudo”. Em pouco tempo, eu tinha me tornado o troll embaixo da ponte do grupo de WhatsApp.

Ontem, depois de vivenciar mais um desses momentos de monólogo coletivo, deixei o grupo. Alguns amigos tentaram me fazer voltar atrás, mas não tiveram sucesso. Simplesmente não queria mais fazer parte daquilo. Tinha retomado o contato com os amigos que queria e não desejava que a experiência de estar naquele ambiente maculasse essa retomada. Enfim, não queria gastar o tempo de vida que me resta num revival do meu segundo grau com um elenco ainda mais agressivo e barulhento.

Sábias Palavras de Red

Depois de operacionalizar a minha saída, fiquei pensando por que fiquei tão incomodado com esse imbróglio. Confesso que me mantive no grupo, inicialmente, por uma curiosidade quase antropológica e para não me manter numa bolha informacional. Seria bom ouvir o que outros com posições diferentes pensam. E foi interessante, mas não acredito que seja possível ficar passivo nesses momentos. Sempre tive o ímpeto de tentar botar outras ideias na mesa e promover uma discussão, mas a resistência era absurda. Parte, não posso negar, é culpa minha. Não consigo me colocar diretamente sem explicar as minhas razões. Além disso, em diverso momentos exponho a minha ignorância e falta de posição sobre algo extensivamente; explicando em detalhes o que pensei até o momento mesmo sem ter uma conclusão em vista. Infelizmente, descobri, não sou uma pessoa de posições, sou uma pessoa de interesses. E isso pelo jeito me inviabiliza para o convívio social no século XXI.

Talvez aí resida o problema dos nossos diálogos atualmente: não conseguimos expor nossos interesses, apenas posições. Escondidos atrás de rótulos de esquerda , direita, conservador, liberal, etc, as pessoas não mais sabem o que realmente desejam, mas tem certeza absoluta que querem ganhar as discussões nas quais entram. Isso torna toda possibilidade de negociação uma fantasia cruel.

William Ury, especialista em negociação, dizia que elas podem ser divididas em dois tipos: as de posição e de interesses. As de interesses colocam na mesa com clareza os objetivos de cada parte e tentam compor um mix de interesses que seja satisfatório para os envolvidos. As de posição, que simulamos em nossos contatos virtuais, buscam a primazia da vontade de um lado sobre a do outro. Passam longe de ser uma busca de acordo e estão muito mais próximas da afirmação infantil da fantasia das nossas identidades. Um belo resumo da função das plataformas de mídia social.

Acredito piamente que precisamos reaprender a encarar as discussões como negociações. Ao invés de ignorar o que outros falam e ser surpreendido com um cenário desagradável, ou de ser simplesmente contra ou favor de, por exemplo, ideologia de gênero, lei do desarmamento, ou qualquer um desses assuntos polêmicos que ninguém entende direito mas todos tem posição a respeito, precisamos começar a pensar sobre os nossos interesses nos temas. Para isso precisamos nos livrar da nossa posição egóica e construir uma imagem de futuro que nos agrade; precisamos retomar nossos desejos. Ao invés de defender abstrações políticas e ideológicas, precisamos entrar em contato com o que e, especialmente, por que queremos as coisas. Com isso poderemos construir identidades genuínas e não arremedos de personalidade justificada pela oposição a algo que não existe.

Num cenário desses importará muito menos quem você diz ser e muito mais o mundo em que você deseja viver com os outros. E isso, enfim, nos possibilitará a negociar esse mundo melhor e mais civilizado, nos tirando desse interminável impasse do WhatsApp de Posição.

Bom, acho que ficou claro qual é o MEU interesse. Se isso LHE interessa também, adoraria discutir com você o que precisamos fazer para viabilizar essa mudança e como podemos chegar lá. Onde vamos discutir isso? Ah, você sabe onde me encontrar.

Uma dica: no WhatsApp não vai rolar.

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