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007, Licença para matar, Licença para morrer

Uma das coisas que sempre me incomodou na franquia do James Bond foi a licença para matar. Na minha cabeça não entrava que uma licença dessas pudesse funcionar fora territórios da Rainha, quiçá dentro do próprio Império Britânico. Era suspensão de descrença demais pra mim.

Vez ou outra eu até me pegava imaginando a cena da prisão do James Bond num país desses do leste europeu:

– Chefe, esse é o agente secreto que se infiltrou no nosso país, matou dezenas dos nossos soldados e criou prejuízos de milhões de dólares.
– Muito bem, seu desgraçado. Agora vai sentir a fria letra da lei socialista. Qual o nome desse bandido, camarada?
– James Bond, senhor.
– Pô, camarada, onde já se viu?!
– O que houve, senhor?
– O James Bond tem licença para matar. Não sabia? Todo mundo sabe disso. Libere ele agora. E vê se não comete esse engano novamente. Quer me colocar numa crise internacional? E o senhor, senhor Bond? O senhor está bem? Posso lhe oferecer algo? Um martini? Nossos planos secretos? Minha esposa?

Com o passar do tempo comecei a perceber que a tal licença tinha um viés psicanalítico. Ele não tinha licença legal para matar, ele apenas se sentia livre para matar, ou melhor, a Inglaterra se sentia livre para matar quem quisesse. Contudo, para o Bond, essa licença tinha um caráter mais perverso: era uma licença para matar mulheres.

Sério. Preste atenção. Tirando Sylvia Trench, que estava nos dois primeiros filmes, nenhuma delas volta para contar história nos filmes seguintes. Pra piorar, aquelas pelas quais ele realmente se apaixona, Tracy Bond e Vesper Lynd, morrem no mesmo filme em que aparecem. Mesmo que não seja por suas mãos, a culpa, sim, é claramente dele. Portanto não é possível que essas mulheres sumam por mágica. A licença para matar, mesmo que metaforicamente, tem muito a ver com a relação de Bond com o sexo feminino.

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Alguém viu uma dessas bond girls por aí?

Talvez por isso goste tanto de três dos quatro filmes do Daniel Craig. Se tirarmos o Quantum of Solace da jogada, temos uma bela trilogia sobre a sua relação com as mulheres. Em Cassino ele se apaixona, é traído e vê sua paixão morrer. Em Skyfall ele “morre” na mãos de uma mulher, volta do morte acompanhado de um vilão sexualmente ambivalente até chegar ao seu local de nascimento para ver sua “mãe”, M, morrer em seus braços. Em Spectre ele é confrontado a respeito da sua incapacidade de se relacionar por uma psicóloga com a qual finalmente parte abandonando a sua missão.

Óbvio que a relação do homem com a sua Pátria, ou melhor Mátria, está aqui presente. Como precisa se devotar à “Rainha”, um fantasma abstrato e perfeito, ele não consegue se envolver com mulheres de verdade. Por isso suas relações são hipersexualizadas e breves. Não é possível manter o teatro do super macho por tempo demais sem fraquejar. Nesses três filmes, a sua heterossexualidade é diversas vezes ameaçada, física e psicologicamente, o que lhe permite fazer um trabalho psicanalítico, não para se relacionar melhor com as mulheres, mas, sim, para se libertar do serviço para a sua Majestade. Quem diria que o objetivo verdadeiro de James Bond era abandonar sua aventura e se tornar um indivíduo autônomo?

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“Sorry, Queen Bessy, gotta see about a girl”

Por isso quando vejo essas discussões sobre o novo Bond, nada me parece bom. Claro que Idris Elba e Gillian Anderson são super atores e dariam conta muito bem desse recado. Sei também que colocar um negro ou uma mulher nesse papel, a epítome do macho heterossexual branco, tem seu valor social, político e também narrativo. Mas sou contra. Não porque acho que exista uma tradição a ser respeitada, mas porque acho que Bond deveria ter uma licença para morrer.

Convenhamos, um dos pontos principais do personagem é quem o emprega. 007 é um agente de um governo monárquico lutando pela sobrevida de um império anacrônico. Quando havia a guerra fria, a Inglaterra aparecia como um poder moderador entre os jovens impérios capitalista e socialista evitando o fim do mundo. Depois da queda do muro isso parou de fazer sentido. Mesmo antes, nos anos 80, os vilões mudaram. Tivemos traficantes com Timothy Dalton, e nos 90, boa parte dos vilões eram corporações e seus donos. O Império agora se apresentava como o regulador das relações comerciais que ameaçavam o homem comum. Com Daniel Craig, já sabíamos que o Império e as corporações eram parceiras no crime e fomos obrigados a engolir terroristas psicopatas e super conspirações. A situação ficou tão triste que para que houvesse um mínimo de simpatia pelo herói e o que ele defendia, em todos os últimos filmes, Bond está meio ou totalmente à margem do governo. Porém, para não desvinculá-lo totalmente da Rainha, sempre houve M como um bastião de moralidade num governo corrupto ou ineficiente.  Uma estratégia fraca que não teria funcionado não fosse o talento de Judy Dench e Ralph Fiennes.

Por isso acredito que colocar quem seja nesse papel será apenas uma maneira de perpetuar um herói que luta por um governo nada democrático em quem ninguém mais confia. Qualquer ator ou atriz, se não fosse numa obra retrô ou intertextual, tornaria 007 um pastiche de um ícone que não faz mais sentido.

O que proponho? Vamos deixar Bond descansar. Vamos lhe dar licença para morrer e deixá-lo como uma obra representativa de um período histórico específico. Isso não o tornará melhor nem pior, mas apenas o que é: um herói de uma época conservadora em que o que importava era manter o Status Quo política, social e culturalmente. Tentar revivê-lo, seja por ganância ou amor ao personagem, não passa de uma nostalgia doente por algo que não voltará.

Mas você pode dizer que ficaremos órfãos de um protetor, que fará falta um herói, um espião que salve o mundo de ameaças secretas. Temos muitos assim, mas eles precisam falar ao mundo que vivemos e não a uma monarquia democrática utópica que sabemos não existir. Eles podem ser de diversas etnias, gêneros, religiões, ideologias ou nacionalidades, mas precisam falar com a realidade política que vivemos.

Para os nossos tempos, o único substituto real que vejo para James Bond e que fala ao nosso mundo é o Mister Robot. Não conhece? Vá ver. Aproveite que ainda só teve uma temporada e deixe a segurança do nosso mundo nas mãos um hacker viciado e esquizoide que luta contra tudo o que aí está. Como o agente secreto de Joseph Conrad, Mr. Robot, ao contrário de James Bond, é um herói do nosso tempo, é o herói de uma revolução iminente.

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F*ck Society diz nosso novo herói
Publicado emArtigos

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