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- Sumido por motivos de exaustão mental, incerteza (positiva) sobre o futuro e overdose de remédios emocionais, tais como RPG, Magic The Gathering, Quadrinhos e A Gata Comeu. The Works.
- Curioso como sempre me agarro nessa novela em momentos de transição. O que me atrai? A liberação das fantasias ou a confirmação de que o mundo é um (mau) teatro? Por outro lado, sempre me parece um ritual de fim de fase, mesmo sem saber qual nova fase virá. Nas outras vezes, eu assisti pois estava sendo exibida. Agora, com o streaming tomei a iniciativa de eu mesmo assistir. O que isso diz sobre a minha tentativa de controlar o futuro? Que fase eu quero que acabe logo e qual sonho quero que comece?
- Por falar em rituais, hoje, como em todos os dias dos pais, segui o mesmo protocolo: acordar antes de todo mundo (como sempre), lavar louça e arrumar a casa, esperando o que sabe-se lá o que virá. É acts of service que chama, não?
- Nas redes e nas conversas de botequim, só se fala do novo mundo pós IA. Que tudo, do trabalho à política, passando pelas amizades e relacionamentos, irá mudar por conta das respostas rápidas e (in)certas dos Chats da vida. O que ninguém parece perceber é que informação sem experiência ou experimento é uma tentativa vazia de mostrar sabedoria, pois conhecimento sem engajamento emocional e existencial é apenas uma ferramenta para fraude (estando a informação correta ou não). Afinal, o que se faz simplesmente pelo ganho pessoal e não pela verdade nasce de egoísmo mimético e má intenção (nem sempre no sentido moral, mas com certeza no ético). E a IA é a coroação desse casamento fatal da ignorância com a ganância que assassinará o saber.
- Por essas e outras, dá até vontade de escrever uma continuação protópica de A Máquina do Tempo em que o viajante encontra uma outra tribo que, longe da briga entre Morlocks e Elois, aprendeu a viver com sabedoria, ou seja, sem ilusões utópicas ou fantasias distópicas, assim, sabe?, como dá. Provavelmente na minha versão, essa tribo viveria em Paquetá.
- Em paralelo, parece que há algo no ar sobre o fim das redes sociais e da sociedade do espetáculo. Tá, exagero, mas o pessoal já parece estar cansado de trabalhar de graça para os barões da internet. Enfim, a história humana se movimenta de abolição em abolição de múltiplas escravaturas. A Heineken já se movimenta há tempos sob essa lógica, com motivos espúrios, lógico.
- Quando a gente vê o aparato que as plataformas de internet nos entregam, é surpreendente como o uso é vazio. Quando não tínhamos nada, dispendíamos muito esforço e artesanato para construir fisicamente as imagens que nos passavam pela cabeça. Hoje, que tudo é dado, a impressão é que nada temos a dizer. É como se publicar, divulgar, produzir tenham se imposto na frente do que deveria ser sua origem: imaginar, sentir, querer. Como gatos, os artistas do avant-garde de hoje, em vez de inovar tecnicamente, passaram a brincar com as caixas de papelão onde os presentes caros e inúteis que receberam das Big Techs foram embalados. Talvez isso explique o retorno dos fanzines e outras mídias low-fi. What would Maya Deren do?
- O que o mercado do entretenimento não parece perceber é que, como belamente demonstrado na cena do Azul Cerúleo de O Diabo Veste Prada, o público de massa precisa do avant-garde (no caso da alta costura) para poder construir o seu junk food estético. Porém, com olho no lucro fácil e na infinita reprodutibilidade que a IA promete, o que se deseja é apenas reproduzir o fácil, genérico, de (aparente) grande alcance e que retorne rápido seu investimento. Nossas almas não podem viver com essa pseudo-arte caloria zero. É a alma dos artistas que nos alimenta. Infelizmente até as almas deles estão sendo fabricadas em série, vide o circuito de autores celebridades que atende às culpas e desejos dos mais diversos públicos de todos os espectros e fetiches.
- Mas pra que eu devo me preocupar ou me exaltar com esse futuro? Melhor viver o presente. Se for um pouquinho melhor que ontem já tá bom. Não tá?
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