2026.09.05 – “Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje?”

  • Dá uma certa saudade de quando a Internet era criativa. Ela ainda é, só que, hoje, essa não é essa a característica dela que fica mais em destaque. Afinal, ser criativo requer pensamento, autocrítica, dá trabalho e não gera (muito) dinheiro. Para ser criativo é necessária uma mistura de obstinação e desleixo, enquanto para ser um babaca é também necessária uma combinação (oposta) desses mesmos desleixo e obstinação, mas com muito menos esforço. Sacou? É tipo a meritocracia. O problema não é meritocracia, são os méritos. O mesmo vale para as paixões e para os desapegos. É importante é saber no que se agarrar e o que abandonar. Então por que não abandonar a ideia de que a internet está morta e lembrar que, pelo menos em alguns lugares, ela está viva?
  • O problema foi o utilitarismo que abraçou a Web. Antes ela era um playground, depois virou um trabalho, e agora é uma prisão. Talvez a saída não seja fugir da prisão, afinal parece que a prisão cresceu e tomou o mundo. A saída provavelmente é tomar a prisão. E como fazemos isso? Sendo bobos e ruins, de propósito. Exemplo? Que tal dar prêmios para as piores primeiras frases de romances inexistentes?
  • Enfim, o problema nunca foi a Internet, mas juntar a avidez zumbi do modelo industrial fordista com uma máquina de contínua autorreplicação. Num mundo modelado pelo conceito de que o sucesso é o que dá mais visualização, somos tomados por um câncer informacional que só repete o mundano e abafa qualquer voz discordante. Porém, não se engane, elas existem. É só abrir os ouvidos para os tons dissonantes e ignorar o ruído branco das máquinas registradoras movimentando o pagamento digital das nossas almas em holocausto a Mammon.
  • O engraçado é que todo meio de comunicação (sim, é só isso que a internet é), nasce (ou é descoberto) como uma ferramenta democrática de muitos pra muitos. Pode, óbvio, ter seus custos de entrada e veiculação, mas eles são sempre decrescentes. Estranhamente, o quanto mais um meio de comunicação se capilariza e reduz seus custos, mais ele enterra os independentes no ruído da massificação da mídia. A Torre de Babel não caiu, apenas a instalação de um sistema de som ambiente tornou viver dentro dela insuportável.
  • Porém, o que é chato mesmo é que o online virou o padrão de tudo. Se não está online, não existe. Será que quando você para de ler minhas palavras eu paro de existir pra você e você para de existir para mim? Brrr…
  • Há 110 anos, o Donga falava pelo telefone. Há 30 anos, o Gil entrava na internet. Há 5 minutos você começou a ler esse texto. Nada existe a não ser as relações que estabelecemos na vida.

 

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