
Tudo é água, inclusive nós e nossas memórias
É engraçado como falar que algo foi feito por um(a) “estudante” sempre tem uma conotação negativa. Quando dizem que o trabalho de alguém parece o trabalho de um estudante, sempre dá a impressão de se tratar de uma obra meio capenga, ao mesmo tempo pedante e ingênua, cheia de ideias (de terceiros) mal arrumadas, transformando homenagem em paródia não intencional, e representando a inevitável exaltação do próprio umbigo daqueles que se consideram mais do que são.
É engraçado também que essa mesma descrição se aplica às obras dos ditos gênios: obras deliberadamente disruptivas, ao mesmo tempo cheias de ambições e inocência, transformando o legado daquilo que homenageiam, e tão originais que só podem ser tratadas como algo vindo de “un auteur”.
O primeiro filme de Kristen Stewart tem tudo isso. É ao mesmo tempo a obra de uma estudante sedenta por aprendizado e manifestação, como uma obra genial que realmente traça uma marca original no cinema atual. A gana dela pelo cinema é tão grande que até os créditos finais ela aproveita para continuar nos deixando hipnotizados com as imagens que conjurou para recontar visualmente o livro de mesmo nome de Lidia Yuknavitch.
Cheia de vida, de som e de fúria, a história da vida da escritora, como a água da qual se faz a cronologia, pinga por todos os lados, em sangue, lágrimas, álcool, água (clorada e salgada), e por líquidos seminais e vaginais. Transacionando sempre entre o respirar e a apneia, ficamos o tempo todo sufocados ou ofegantes, sem saber separar onde nós, nadadores desde o útero, começamos e onde a água, que nos cerca e ao mesmo tempo nos nutre e afoga, termina.

Uma obra que dá o seu sangue (e das autoras)
Talvez o que precisemos mais no cinema não seja de grandes “mestres” ou pessoas que “saibam acertar”, mas de pessoas como Kristen que, nessa bela combinação de desejo e propósito, sabem se arriscar pelo amor que tem à arte. E isso, é inegável, encharca toda essa obra.